{"id":2659,"date":"2025-04-11T06:27:02","date_gmt":"2025-04-11T09:27:02","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=2659"},"modified":"2025-04-11T06:27:02","modified_gmt":"2025-04-11T09:27:02","slug":"a-extracao-do-objeto-a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/a-extracao-do-objeto-a\/","title":{"rendered":"A EXTRA\u00c7\u00c3O DO OBJETO <em>a<\/em>*"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00c9ric Laurent<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2662\" aria-describedby=\"caption-attachment-2662\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent001.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2662\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent001.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent001.jpg 794w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent001-300x201.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent001-768x515.jpg 768w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent001-500x335.jpg 500w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent001-700x469.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2662\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Atrav\u00e9s (Cildo Meireles, Inhotim, 1983-1989) &#8211; Galeria Cildo Meireles.<\/strong><br \/><strong>Materiais diversos, 600x1500x1500 cm.<\/strong><br \/><strong>Foto:\u00a0Pedro Motta<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9, para n\u00f3s, a extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em>? \u00c9 uma pergunta que me fa\u00e7o depois de ler os textos preparat\u00f3rios do pr\u00f3ximo Congresso da AMP, em Buenos Aires, em abril de 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns desses textos come\u00e7am sua investiga\u00e7\u00e3o a partir do Semin\u00e1rio 2, quando Lacan fala do luto e diz que \u201cestamos em luto por algu\u00e9m quando podemos dizer: \u201ceu era sua falta\u201d \u2013 \u201c<em>J\u2019\u00e9tais son manque\u201d<\/em>. Dessa maneira, neste momento de seu ensino \u2013 um momento pr\u00e9-topol\u00f3gico \u2013 Lacan nos faz ler o avesso do que habitualmente estava dentro. No Semin\u00e1rio 5, Lacan nos prop\u00f5e outra leitura do que era banal, dessa sombra do objeto que cai sobre o Eu, dessa realiza\u00e7\u00e3o de algo no Eu. Faz valer a dimens\u00e3o de extra\u00e7\u00e3o, de automutila\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a via pela qual o sujeito extrai esse objeto que recai sobre o Eu. No Semin\u00e1rio 10, a banda de Moebius destaca o enodamento entre interior e exterior de uma maneira nova: o objeto aparece de maneira radical n\u00e3o somente como extra\u00e7\u00e3o do interior do corpo, mas tamb\u00e9m como produ\u00e7\u00e3o desse corpo e essa produ\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o ser natural, como uma obra, como um ato que se separa do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, paradoxos do interior e do exterior se concentram porque, na castra\u00e7\u00e3o, a partir do ponto de vista de <em>a<\/em>, do objeto da priva\u00e7\u00e3o, a caducidade do \u00f3rg\u00e3o, sua desapari\u00e7\u00e3o, \u00e9 ao mesmo tempo seu gozo. Em seu estatuto f\u00e1lico, o objeto n\u00e3o \u00e9 nem interior nem exterior, mas sim o pr\u00f3prio corte, o ponto preciso no qual a banda de Moebius se cruza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan vai explorar o objeto como forma e, em outras ocasi\u00f5es, o objeto como subst\u00e2ncia. Entretanto, qualquer que seja esse objeto <em>a<\/em>, fica claro que \u00e9 ele que causa a ang\u00fastia, o afeto como tal, correlativo ao produto do ser falante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> marca todos os seus aspectos pela heterogeneidade de uma apresenta\u00e7\u00e3o substancial do corpo: o que est\u00e1 dentro de mim est\u00e1, ao mesmo tempo, fora e assegura, assim, o la\u00e7o com o Outro pela extimidade do gozo. Essa extra\u00e7\u00e3o, essa forma, esse saber sobre o gozo que se extrai de mim, como qualific\u00e1-lo? As categorias do verdadeiro, do falso, da vida e da morte, as b\u00fassolas polares, j\u00e1 n\u00e3o funcionam. Temos que abordar os produtos do corpo, da obra ou do ato com outras categorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma visita guiada a uma exposi\u00e7\u00e3o de coisas que se repetem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Tive a oportunidade de visitar um lugar estranho, uma das figura\u00e7\u00f5es do jardim do \u00c9den. \u00c9 um dos para\u00edsos perdidos, uma entre outras das realiza\u00e7\u00f5es de um fantasma do mestre. Claro que nesse jardim h\u00e1 natureza, uma natureza que inclui obras de arte. Como todos os jardins do \u00c9den, tem serpentes e obras que t\u00eam a forma de serpente, confeccionadas por um artista integrante de um movimento chamado \u201ca vanguarda viperina\u201d. Nesse jardim, a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontra entre a natureza e a cultura. A natureza se torna arte e a cultura \u00e9 selvagem, mortal, e n\u00e3o cessa de falar da articula\u00e7\u00e3o da morte, da vida, da mutila\u00e7\u00e3o, da automutila\u00e7\u00e3o, da extra\u00e7\u00e3o do corpo em todas as suas formas, as mais refinadas e brutais ao mesmo tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 natureza-cultura, \u00e9 antes para\u00edso-inferno. O para\u00edso \u00e9 exterior, mas tamb\u00e9m interior a essas caixas que se chamam galerias. Esses <em>boxes<\/em> que acolhem as obras de arte s\u00e3o c\u00edrculos do inferno e muitas delas mostradas como tal. Certamente, o <em>ready- made<\/em> reina. Estamos em uma \u00e9poca da arte p\u00f3s-Duchamp. Mas \u00e9 um <em>ready-made<\/em> j\u00e1 transformado, um <em>ready-made<\/em> autodestrutivo, um <em>ready-made<\/em> que n\u00e3o somente implica o \u201cisto \u00e9 uma obra de arte\u201d, sen\u00e3o que \u00e9 uma obra de arte que se pode autodestruir. Inclui essa vida estranha que comporta a morte. A natureza torna-se tamb\u00e9m <em>ready made<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz-se que nesse lugar existe o mais variado n\u00famero de esp\u00e9cies de palmeiras que se pode encontrar em um jardim do \u00c9den. Mas a pr\u00f3pria palmeira se torna objeto. H\u00e1 palmeiras garrafas que t\u00eam imediatamente a forma de um objeto artificial. Existe uma planta que tem a forma exata de um corpo. Existem muitas assim. Uma delas, o corpo, seu nome bot\u00e2nico \u00e9 <em>Nolina<\/em>. Diz-se de maneira familiar em portugu\u00eas \u201cPata de Elefante\u201d; em ingl\u00eas se chama, tamb\u00e9m de maneira familiar, <em>pony tail<\/em>. Diferentes aspectos do corpo aparecem, assim, na natureza. Dentro e \u00e0 margem do jardim, h\u00e1 uma zona de preserva\u00e7\u00e3o ambiental, quer dizer, existe a vida da selva que est\u00e1 preparada para devorar, preparada para invadir e at\u00e9 para morrer em sua preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Pelo artif\u00edcio envolvido nessa vida e nesse espa\u00e7o t\u00e3o estranho, o que se exp\u00f5e \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o, uma cole\u00e7\u00e3o particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 um Museu com uma multiplicidade de curadores que tende a construir um todo. N\u00e3o. \u00c9 uma cole\u00e7\u00e3o com um <em>leitmotif<\/em> de coisas que se repetem, obras que fazem eco uma com a outra em sua particularidade e, tamb\u00e9m, com o fato de que uma cole\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre algo ao qual falta uma obra. Um colecionador \u00e9 sempre dependente dessa experi\u00eancia crucial, falta-lhe a pr\u00f3xima pe\u00e7a de sua cole\u00e7\u00e3o e isso \u00e9 a \u00fanica coisa que o preocupa. G\u00e9rard Wajcman dizia que a cole\u00e7\u00e3o poderia ser a arte da \u00e9poca, a cultura do objeto que falta na civiliza\u00e7\u00e3o do mercado universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse lugar, h\u00e1 o que se poderia chamar uma escola de arte, a escola de \u201cInhotim\u201d, que \u00e9 o nome do lugar e que adquire sua consist\u00eancia por essas repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa instala\u00e7\u00e3o, v\u00ea-se o ch\u00e3o coberto de sal, um instrumento de disseca\u00e7\u00e3o, o mais eficaz que se pode encontrar. Ao mesmo tempo, instrumento de conserva\u00e7\u00e3o e instrumento de destrui\u00e7\u00e3o. Vida e morte se reenviam uma \u00e0 outra para al\u00e9m de se estabilizarem numa oposi\u00e7\u00e3o tranquila. Esse lugar est\u00e1 nas montanhas, longe do mar, o ch\u00e3o \u00e9 sal do mar. A essa massa de sal, responde o que o artista chamou \u201cum dep\u00f3sito ca\u00f3tico\u201d, no qual, em um pequeno c\u00f4modo, v\u00ea-se a \u00fanica janela desse grande bunker onde est\u00e1vamos fechados. A pr\u00f3pria janela fazia-se de exterior, como uma esp\u00e9cie de televisor, um televisor estranho com imagens que passavam, mas cobertas por um tipo de tela, de tela suja que nos lembra o v\u00e9u de Maya.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pl\u00e1stico um pouco sujo faz a fun\u00e7\u00e3o exata desse v\u00e9u. Perguntamos a respeito das imagens. O artista havia deixado nesse c\u00f4modo, em seu &#8220;dep\u00f3sito ca\u00f3tico&#8221;, um texto te\u00f3rico, uma carta que enviou ao encarregado da exposi\u00e7\u00e3o, na qual precisava: \u201c<em>I don\u2019t see a TV, but the piece of cloth covering something that reflects light and&#8230; soundless distorced, bnw images<\/em>\u201d (&#8220;n\u00e3o vejo uma televis\u00e3o, mas sim um v\u00e9u que cobre qualquer coisa, que reflete a luz e&#8230; projeta <em>imagens bnw<\/em> distorcidas sem som\u201d). Em nosso retorno, Graciela Brodsky e eu nos perguntamos o que significava a sigla \u201cbnw\u201d. Por que dizer isso? Chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que era <em>black and white<\/em>, imagens em branco e preto. Dentro da instala\u00e7\u00e3o e a partir dessa distor\u00e7\u00e3o, tivemos a impress\u00e3o de encontrarmo-nos como prisioneiros da caverna de Plat\u00e3o, vendo unicamente essas imagens distorcidas em branco e preto, as \u00fanicas formas de vida que existiam dentro desse espa\u00e7o infernal mais al\u00e9m de toda vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro artista brincava com as mesas. Com o tamanho desses instrumentos \u00fateis para a vida, com mesas que iam desde as menores a outras imensas. Por\u00e9m, a natureza ao redor tamb\u00e9m brincava. Num canto, estava o menor bambu que se pode encontrar no mundo, uma coisinha pequenina assim, japonesa, e tamb\u00e9m estava o maior bambu que se pode encontrar e que domina tudo com seu tamanho. Impressionante! A natureza tamb\u00e9m joga com escalas de representa\u00e7\u00e3o. Tem, nela mesma, seus \u201cnovos costumes\u201d, tal como um artista construiu em sua instala\u00e7\u00e3o. Em portugu\u00eas, a express\u00e3o \u201cnovos costumes\u201d brinca, ao mesmo tempo, com vestidos e modos de se vestir, precisamente, maneiras de habitar esses \u201ccostumes\u201d. Imediatamente, uma colega vestida com esse \u201cnovo costume\u201d poderia dizer: \u201ceu, a verdade, falo\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2660\" aria-describedby=\"caption-attachment-2660\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent002.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2660\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent002.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent002.jpg 776w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent002-300x225.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent002-768x576.jpg 768w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent002-500x375.jpg 500w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/laurent002-700x525.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2660\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Inmensa (Cildo Meireles, Inhotim, 1982-2002) &#8211; Obra externa.<\/strong><br \/><strong>A\u00e7o corten, 400x810x445 cm.<\/strong><br \/><strong>Foto:\u00a0Tib\u00e9rio Fran\u00e7a<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, o percurso termina numa sala estranha chamada \u201c<em>true rouge<\/em>\u201d (escrito <em>t-r-u-e<\/em> <em>rouge<\/em>) que exibe recipientes de vidro em estranho equil\u00edbrio, suspensos em estabilidade, como corpos com dificuldade para se manter juntos, e tamb\u00e9m com coisas vermelhas e instrumentos para limpar esses recipientes. Essa constru\u00e7\u00e3o sutil foi feita a partir de um poema que apresenta, com rara brutalidade, o sexo feminino como furo de onde cai o sangue, contendo tamp\u00f5es e esponjas. Cada uma dessas cole\u00e7\u00f5es e instrumentos tem a forma do recipiente e de seu tamp\u00e3o, dando a impress\u00e3o de copula\u00e7\u00e3o a esses instrumentos, tamb\u00e9m pela met\u00e1fora. Com essa mescla, o refinamento e a brutalidade sem media\u00e7\u00e3o d\u00e3o a essa sala e a essa obra um encanto especial. E, finalmente, a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica permite dar a ilus\u00e3o de uma certa harmonia porque os p\u00e1ssaros que passam por esse jardim s\u00e3o p\u00e1ssaros que acompanham a vida f\u00e1lica do lugar, prometendo certa harmonia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma experi\u00eancia imposs\u00edvel do corpo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que domina nessas instala\u00e7\u00f5es \u00e9 antes o solo, um solo de mat\u00e9rias quebradas. Um artista dialoga com o ch\u00e3o de sal, construindo uma instala\u00e7\u00e3o com vidro quebrado, numa obra intitulada \u201c<em>Atrav\u00e9s<\/em>\u201d que re\u00fane todos os objetos <em>ready-made<\/em> que constituem barreiras, mas que n\u00e3o impedem a passagem. No centro, h\u00e1 uma grande bola de pl\u00e1stico que poderia ser transparente como o pl\u00e1stico, mas que, mesmo sendo uma acumula\u00e7\u00e3o, tem a mais completa opacidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, finalmente, com isso que nos transporta e nos deixa esse jardim do \u00c9den. A imposs\u00edvel transpar\u00eancia da representa\u00e7\u00e3o de um corpo para si mesmo. E estamos precisamente animados a interrogarmo-nos sobre o lugar do ideal de toda transpar\u00eancia poss\u00edvel, sobre a efetiva opacidade do corpo para si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro dos conselhos que nos dava a pessoa que nos guiava no parque encantado: n\u00e3o se tratava de entender, mas de uma experi\u00eancia de corpo. T\u00ednhamos de habitar os espa\u00e7os que nos propunha. E ela estava muito atenta \u00e0 maneira que t\u00ednhamos de entrar em uma sala, quer fosse com pressa, quer fosse para determo-nos ou esperar um pouco, como se a experi\u00eancia do corpo pudesse dar uma significa\u00e7\u00e3o imediata ao que se via.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo o funcionamento desse jardim do \u00c9den era para nos remeter \u00e0 opacidade absoluta da experi\u00eancia do corpo, a esse pecado original que n\u00e3o tem nada de condena\u00e7\u00e3o, mas sim de impossibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim, o que nos restava era precisamente n\u00e3o nos apoiarmos nessas experi\u00eancias do corpo, sen\u00e3o sermos reduzidos a essas extra\u00e7\u00f5es de nosso corpo a partir das experi\u00eancias que pod\u00edamos atravessar ali. Vacilava, pois, o falso e o verdadeiro. Na arte, mas tamb\u00e9m no saber que se obt\u00e9m da ci\u00eancia, encontra-se um mais al\u00e9m do interior, do exterior, do verdadeiro, do falso, da vida e da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo que, se tomamos um objeto cient\u00edfico como o medicamento, vemos que n\u00e3o \u00e9 nada mais que a extra\u00e7\u00e3o de uma parte do pr\u00f3prio corpo. O medicamento \u00e9 a reincorpora\u00e7\u00e3o de um interior passado ao exterior. O medicamento pode simular o funcionamento do vivo e, como tal, o corpo o recupera como a fic\u00e7\u00e3o extra\u00edda de si mesmo. Isto se observa no medicamento, mas ainda mais no anest\u00e9sico, a subst\u00e2ncia que permite burlar a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida j\u00e1 n\u00e3o se reconhece mais, pode-se produzir uma morte em vida gra\u00e7as ao funcionamento do anest\u00e9sico. E esse simular a natureza que a ci\u00eancia promove, o vemos ainda mais, ou de outra maneira, na F\u00edsica. \u00c9 \u00fatil ler as experi\u00eancias de f\u00edsica como dispositivos para simular a natureza e zombar dela. \u00c9 preciso distinguir o modelo e a simula\u00e7\u00e3o. A simula\u00e7\u00e3o da natureza atrav\u00e9s de uma experi\u00eancia f\u00edsica \u00e9 uma maneira de imaginar o real, no sentido que Lacan dava a estes termos. Explorar a natureza \u00e9 zombar dela, n\u00e3o \u00e9 desvel\u00e1-la, e n\u00e3o \u00e9 mais que um falso desdobramento. \u00c9 como em <em>Second life<\/em> ou em <em>Alpha world<\/em> onde podemos ter outra vida no virtual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um epistem\u00f3logo comentava, recentemente, os resultados obtidos por um ganhador do Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica, o Sr. Chu. Ele concebeu a ideia de obter a coisa mais pr\u00f3xima do puro vazio, mais pr\u00f3xima da temperatura do puro zero e no vazio mais amplo poss\u00edvel. Na realiza\u00e7\u00e3o dessas experi\u00eancias, produz-se um efeito estranho na mat\u00e9ria que se chama \u201ccondensa\u00e7\u00e3o de <em>Bose<\/em>\u201d na qual simula-se um estado que, inclusive para a natureza, \u00e9 dif\u00edcil de alcan\u00e7ar, ainda que seja calcul\u00e1vel. Na zona do zero, a da extra\u00e7\u00e3o absoluta de toda mat\u00e9ria, no sentido imagin\u00e1rio do termo, existe uma vida qu\u00e2ntica extraordin\u00e1ria, plena de atividade a ser explicada e que causa o desejo dos f\u00edsicos. Uma vez que n\u00e3o existe mais mat\u00e9ria, o que existe? Existem muitas coisas&#8230; Ent\u00e3o, esse vazio, essa extra\u00e7\u00e3o faz falar, como a visita a esses modos de extra\u00e7\u00e3o no jardim do \u00c9den tamb\u00e9m o fizeram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um horizonte de extra\u00e7\u00e3o para a psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise e o tratamento anal\u00edtico tamb\u00e9m t\u00eam esse horizonte de extra\u00e7\u00e3o. Extra\u00e7\u00e3o de todas as repeti\u00e7\u00f5es significantes poss\u00edveis at\u00e9 poder alcan\u00e7ar o efeito imprevisto, o acontecimento imprevisto. Bem, n\u00e3o \u00e9 a \u201ccondensa\u00e7\u00e3o de <em>Bose<\/em>\u201d o que se trata de obter, mas sim uma nova apresenta\u00e7\u00e3o do que se apresentava como imposs\u00edvel de extrair do todo. Jacques-Alain Miller comentou esse novo estado do objeto ao nomear um cap\u00edtulo no Semin\u00e1rio de Lacan, \u201cO luto do analista\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 \u201co luto do analista\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>\u00c9 que n\u00e3o h\u00e1 um objeto que valha mais que outro. \u00c9 essa a extra\u00e7\u00e3o fundamental. O que quer dizer luto do amor, luto do objeto \u00fanico e um acordo com a lei da puls\u00e3o. Cito Jacques-Alain Miller em <em>A ang\u00fastia lacaniana<\/em>: \u201cIsso indica alguma coisa concernindo \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do tratamento. Ou seja: o analista s\u00f3 opera sob a condi\u00e7\u00e3o de corresponder ele pr\u00f3prio \u00e0 estrutura do estranho. \u00c9 preciso que ele passe o sentimento de estranheza. Na falta disso tudo demonstraria que, caso ele pr\u00f3prio n\u00e3o se acostume com o estranho, ele n\u00e3o poder\u00e1 desorganizar a defesa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos retomar a pragm\u00e1tica do tratamento, seu funcionamento efetivo, a transfer\u00eancia, a interpreta\u00e7\u00e3o, o final do tratamento, a partir dessa extra\u00e7\u00e3o, do que daria forma a essa subst\u00e2ncia estranha que n\u00e3o pode se exibir dentro do Outro. E de como se maneja a transfer\u00eancia n\u00e3o somente a partir do ponto de imobilidade, que \u00e9 uma face do objeto <em>a<\/em>, um ponto neutro, como dizia Lacan em sua \u201cInterven\u00e7\u00e3o sobre a transfer\u00eancia\u201d nos anos 50. Esse ponto em torno do qual gira todo o percurso \u00e9 um ponto de imobilidade, de estranheza em sua imobilidade. Ter\u00edamos que ter testemunhos n\u00e3o s\u00f3 da imobilidade do analista, mas tamb\u00e9m de como ele consegue emitir esse sinal, essa sensa\u00e7\u00e3o de estranheza na transfer\u00eancia e tamb\u00e9m na interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o manejo do \u201csem sentido\u201d desde cedo, n\u00e3o o \u201csem sentido\u201d como uma arte gratuita, mas visando obter o efeito de estranheza. E, no final do tratamento, \u00e9 preciso que o analisante n\u00e3o tenha pressa por reintegrar esse objeto \u00e0 sua hist\u00f3ria, que possa respeitar a separa\u00e7\u00e3o entre o enigma que se produziu e sua estranheza como tal, distinta de toda dimens\u00e3o de sua hist\u00f3ria, irredut\u00edvel a ela mesma, extra\u00edda dela, mas irrecuper\u00e1vel dentro das formas de sua hist\u00f3ria. Ele mesmo, o analisante, tem a\u00ed que se preparar para ocupar o vazio, como a presen\u00e7a do analista tratou de manifestar ao longo da an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, a caverna de Plat\u00e3o que visitamos nos leva a Arist\u00f3teles e \u00e0 alma como forma do corpo. A alma como sensa\u00e7\u00e3o, a alma como grande experi\u00eancia do corpo e nada mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria \u00fatil poder rearranjar nossas maneiras de falar da transfer\u00eancia, da interpreta\u00e7\u00e3o e do final de an\u00e1lise para nos aproximarmos dessa modula\u00e7\u00e3o dos objetos <em>a<\/em>. S\u00e9rgio [Laia] viu em Joyce, como ele mesmo reconhecia nas palavras sua forma, a forma substancial que tamb\u00e9m se encontra na nova escritura que pode aparecer no final de um tratamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, s\u00e3o todos temas de investiga\u00e7\u00e3o. Veremos se o Congresso do m\u00eas de abril de 2008, a Conversa\u00e7\u00e3o prevista sobre a pragm\u00e1tica do tratamento a partir do objeto, poder\u00e1 enfrentar essas quest\u00f5es para fazer um esfor\u00e7o de incorpora\u00e7\u00e3o da perspectiva do objeto <em>a<\/em> nos modos pelos quais descrevemos o tratamento anal\u00edtico.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">*Confer\u00eancia proferida em Belo Horizonte, por ocasi\u00e3o do Terceiro Encontro Americano do Campo Freudiano, em 4 de agosto de 2007: Colof\u00f3n, Bolet\u00edn de la Federaci\u00f3n Internacional de Bibliotecas do Campo Freudiano n.28, abril 2008. Publicada com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o do autor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Ruskaya Maia<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\">Revis\u00e3o: Paola Salinas e Renata Martinez<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9ric Laurent \u00a0 O que \u00e9, para n\u00f3s, a extra\u00e7\u00e3o do objeto a? \u00c9 uma pergunta que me fa\u00e7o depois de ler os textos preparat\u00f3rios do pr\u00f3ximo Congresso da AMP, em Buenos Aires, em abril de 2008. Alguns desses textos come\u00e7am sua investiga\u00e7\u00e3o a partir do Semin\u00e1rio 2, quando Lacan fala do luto e diz&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[95],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2659"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2659"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2659\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2857,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2659\/revisions\/2857"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2659"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2659"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2659"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2659"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}