{"id":2679,"date":"2025-04-11T06:27:44","date_gmt":"2025-04-11T09:27:44","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=2679"},"modified":"2025-04-11T06:27:44","modified_gmt":"2025-04-11T09:27:44","slug":"a-substancia-sonora-e-imagetica-de-mineral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/a-substancia-sonora-e-imagetica-de-mineral\/","title":{"rendered":"A SUBST\u00c2NCIA SONORA E IMAG\u00c9TICA DE <em>MINERAL<\/em>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Daniela Viola<br \/>\n<\/strong><strong>Fernanda Costa<br \/>\n<\/strong><strong>Michelle Sena<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<div style=\"width: 980px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-2679-1\" width=\"980\" height=\"980\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/TEASER-MINERAL.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/TEASER-MINERAL.mp4\">https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/TEASER-MINERAL.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong><em>Mineral<\/em><\/strong><strong>, Teaser. <\/strong><strong>Ciro Thielmann.Paisagem Lava<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes de percutirem os tambores do animado carnaval de Belo Horizonte, cidade de Minas Gerais que acolher\u00e1 o XII ENAPOL, M\u00e1ximo Soalheiro<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> nos recebe em sua casa. Conversamos \u00e0 mesa posta, com caf\u00e9 e p\u00e3o de queijo, lanche t\u00edpico de um mineiro, servidos nas inconfund\u00edveis cer\u00e2micas assinadas por seu ateli\u00ea. Ceramista e artista pl\u00e1stico, ele \u00e9 reconhecido mundialmente pelo trabalho em ambos os campos. Entre suas incont\u00e1veis obras, uma instala\u00e7\u00e3o sonora da qual \u00e9 idealizador e diretor art\u00edstico materializa de forma exemplar pontos fundamentais do que este Boletim se prop\u00f5e a transmitir. <em>Mineral<\/em> \u00e9 um concerto <em>sui generis<\/em> realizado em parceria com artistas e colaboradores de saberes diversos, desde oleiros, t\u00e9cnicos de v\u00e1rias \u00e1reas a m\u00fasicos de vasta experi\u00eancia<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Tamb\u00e9m participa dessa conversa Kristoff Silva<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, reconhecido m\u00fasico mineiro e um desses talentosos parceiros. Expressamos nossos agradecimentos a M\u00e1ximo e Kristoff pela generosidade em nos conceder a entrevista.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo de sa\u00edda, M\u00e1ximo ressalta a originalidade do instrumento que inventou. Suas cer\u00e2micas remetem \u00e0 estrutura de um tambor por incluir o vazio e a vibra\u00e7\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o do som, mas se diferem de outros instrumentos cer\u00e2micos, tais como certos tambores da tradi\u00e7\u00e3o africana, de percuss\u00e3o com fun\u00e7\u00e3o r\u00edtmica, ou ocarinas andinas, que tocam melodias pelo deslocamento do ar em seu interior. \u201cNo caso do <em>Mineral<\/em>, a parede daquele material \u00e9 que d\u00e1 o som\u201d, afirma o artista \u2013 um som harm\u00f4nico, com notas de diferentes alturas e um timbre \u00fanico, in\u00e9dito. Sua m\u00fasica resulta do encontro do som que essa mat\u00e9ria produz com outros instrumentos tradicionais, canto e recursos eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e1ximo conta que a hist\u00f3ria de <em>Mineral<\/em> tem um importante marco em 1999, a partir de seu encontro com o agalmatolito, rocha presente nos arredores de uma cidade do interior de Minas, o que inicia uma extensa pesquisa. Rico em \u00e1lcalis, esse mineral raro de 2,7 bilh\u00f5es de anos, ao ser sinterizado num forno a 1.300 graus por 14 horas, transforma-se em cer\u00e2micas que soam notas musicais temperadas. Algumas pe\u00e7as chegam a sair como um \u201cl\u00e1 perfeito\u201d, observa Kristoff, embora, em geral, seja necess\u00e1ria \u00e1gua em conta-gotas para uma microafina\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um exerc\u00edcio sobre os elementos fundamentais, \u00e1gua, terra, fogo e ar\u201d, define M\u00e1ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da particularidade radical da mat\u00e9ria que constitui o instrumento, sua disposi\u00e7\u00e3o no palco \u00e9 tamb\u00e9m singular. As pe\u00e7as de cer\u00e2mica s\u00e3o posicionadas numa grande mesa partilhada pelos m\u00fasicos que se movimentam a seu redor, junto de instrumentos como piano, contrabaixo ac\u00fastico e metais, al\u00e9m dos vocais e de toda uma parafern\u00e1lia eletr\u00f4nica e digital. Essa dimens\u00e3o excepcional exige certa performance corporal dos m\u00fasicos. Kristoff explica que em qualquer outro \u201cinstrumento, voc\u00ea tem uma dimens\u00e3o compat\u00edvel com a de uma s\u00f3 pessoa\u201d. J\u00e1 no caso \u201cpeculiar\u00edssimo\u201d do <em>Mineral<\/em>, a disposi\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as de cer\u00e2mica cria um instrumento para ser tocado coletivamente. Afinal, \u201cn\u00e3o d\u00e1 tempo de voc\u00ea tocar essa nota e pular dois metros para l\u00e1 para tocar outra. Exige ceder uma nota ou pedir que o outro toque a nota para voc\u00ea\u201d. Cria-se uma dan\u00e7a, acrescenta M\u00e1ximo. H\u00e1, portanto, uma abertura para que cada m\u00fasico brinque com as pe\u00e7as e com seu corpo, resultando numa sonoridade que vai al\u00e9m de qualquer partitura e num espet\u00e1culo que \u00e9 tamb\u00e9m muito imag\u00e9tico.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2675\" aria-describedby=\"caption-attachment-2675\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia001.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2675\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia001.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia001.jpg 929w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia001-300x200.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia001-768x512.jpg 768w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia001-500x333.jpg 500w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia001-700x466.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2675\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Mineral \u2013 Foto: Anna Lara<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, n\u00e3o h\u00e1 som sem o sil\u00eancio que o permeia<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Kristoff chama a aten\u00e7\u00e3o para a imprevisibilidade da cer\u00e2mica, que, \u00e0s vezes, em seu processo de afina\u00e7\u00e3o, aceita a \u00e1gua at\u00e9 um limite. \u201cTem uma hora que ela fala assim: eu n\u00e3o posso ser a nota que voc\u00ea quer\u201d. Nesses momentos a cer\u00e2mica fica muda. Ele e M\u00e1ximo relatam epis\u00f3dios surpreendentes em que se depararam com esse mutismo. Numa primeira experi\u00eancia, de anos atr\u00e1s, decidiram \u201crestartar\u201d as pe\u00e7as: retirar e recolocar a \u00e1gua, e, com esse procedimento simples, elas voltaram a tinir. Numa ocasi\u00e3o mais recente, antes do concerto apresentado em Inhotim no ano passado, o banho de sereno de uma noite fria devolveu a m\u00fasica \u00e0s cer\u00e2micas. Kristoff sublinha o \u201cmist\u00e9rio do vazio\u201d que faz cantar e silenciar esse instrumento. \u201cO <em>Mineral<\/em> tem alguns milagres\u201d, diz o m\u00fasico. Para ele, trata-se de um \u201cmist\u00e9rio\u201d sem \u201cesoterismo\u201d, relacionado \u201c\u00e0 beleza da incompletude\u201d. A partir da experi\u00eancia, os artistas encontraram uma forma de \u201crestartar\u201d, um saber que mant\u00e9m uma opacidade, um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem-se aqui uma das deslumbrantes complexidades de <em>Mineral<\/em>. Por um lado, essa obra de arte demanda uma prepara\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica rigorosa e requintada, conquistada por anos de pesquisa, por meio de v\u00e1rios campos do saber, pelas m\u00e3os de muitos artistas e profissionais. Por outro lado, a conting\u00eancia \u00e9 a marca desse concerto que, devido \u00e0 composi\u00e7\u00e3o de seus instrumentos, \u00e0 natureza de sua mat\u00e9ria, a cada apresenta\u00e7\u00e3o precisam ser afinados e podem se silenciar de acordo com as condi\u00e7\u00f5es do ambiente. Esse sil\u00eancio imprevis\u00edvel evoca o vazio que esses objetos cer\u00e2micos em forma de vaso cont\u00eam.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2673\" aria-describedby=\"caption-attachment-2673\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia002.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2673\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia002.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia002.jpg 931w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia002-300x200.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia002-768x512.jpg 768w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia002-500x334.jpg 500w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia002-700x467.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2673\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Mineral \u2013 Foto: Anna Lara<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante lembrar que o vaso e seu vazio n\u00e3o passam despercebidos por Lacan<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>, que d\u00e1 todo um lugar ao of\u00edcio do oleiro, a fun\u00e7\u00e3o art\u00edstica mais primitiva. O oleiro faz, a partir da mat\u00e9ria mineral bruta, esse objeto primeiro da sublima\u00e7\u00e3o art\u00edstica que \u00e9 talvez, segundo Lacan, o \u201celemento mais primordial da ind\u00fastria humana. \u00c9 seguramente um instrumento, um utens\u00edlio que nos permite, sem ambiguidade, afirmar a presen\u00e7a humana l\u00e1 onde o encontramos\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><sup>.<\/sup> Acontece que o vaso n\u00e3o \u00e9 apenas um utens\u00edlio, j\u00e1 que, quando n\u00e3o est\u00e1 cumprindo sua fun\u00e7\u00e3o de conter qualquer coisa, cont\u00e9m um vazio. \u201c\u00c9 justamente o vazio que ele cria, introduzindo assim a pr\u00f3pria perspectiva de preench\u00ea-lo\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><sup>.<\/sup> Como objeto que cont\u00e9m o vazio, um vaso n\u00e3o serve para nada, e, ainda assim, \u00e9 fundamental, no sentido de elementar, constitutivo do que \u00e9 humano. \u00c9 interessante notar como a m\u00fasica e a cer\u00e2mica, essas duas formas de arte t\u00e3o antigas quanto a cultura humana, se tocam nesse ponto de fundamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rio de Andrade<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> escreveu que a m\u00fasica \u00e9 \u201cirm\u00e3-g\u00eamea\u201d da palavra, \u201ctendo ambas nascido do mesmo grito inicial\u201d. Real\u00e7a-se na palavra a \u201csubst\u00e2ncia sonora\u201d que lhe \u201cd\u00e1 poderes\u201d e \u201ctoma sua parte em tudo que se inventa como resposta ao real\u201d, como Fernanda Otoni apresenta no Argumento<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> deste XII ENAPOL. Assim como na arte da cer\u00e2mica, a m\u00fasica \u00e9 um fazer humano em que o corpo est\u00e1 em \u00edntima conex\u00e3o com a mat\u00e9ria e o vazio \u2013 no caso da m\u00fasica, o sil\u00eancio. <em>Mineral<\/em>, essa inven\u00e7\u00e3o genial que amalgama esses dois of\u00edcios, tem muito a ensinar sobre a marca que a mat\u00e9ria sonora da l\u00edngua grava num corpo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2671\" aria-describedby=\"caption-attachment-2671\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia003.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2671\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia003.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia003.jpg 960w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia003-300x200.jpg 300w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia003-768x512.jpg 768w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia003-500x333.jpg 500w, https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/substancia003-700x467.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2671\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Mineral \u2013 Foto: Anna Lara<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso se faz presente quando ouvimos o relato de M\u00e1ximo sobre a primeira centelha de <em>Mineral<\/em>. \u201cEu lembro sempre de m\u00fasica. Mas eu lembro do dia do meu encanto. Em que eu fui completamente tomado por uma coisa que jamais eu esqueci.\u201d Ao falar sobre o come\u00e7o do projeto, M\u00e1ximo \u2013 um \u201cusu\u00e1rio antigo\u201d da psican\u00e1lise, como se apresenta no in\u00edcio da entrevista \u2013, traz uma lembran\u00e7a de seus 5 ou 6 anos. Numa cidade do interior de Minas, onde nasceu, o menino se depara com um trio de bai\u00e3o \u2013 tr\u00eas m\u00fasicos tocando zabumba, tri\u00e2ngulo e acordeom. \u201cPara voc\u00ea ter uma ideia, eu lembro dos p\u00e9s, da trinca dos p\u00e9s deles. O que eles usavam, e aquele som que tomava conta&#8230; E lembro que parece que um deles tinha sono e fome\u201d, conta, recordando que um dos homens estava de olhos fechados, quase em transe. \u00c9 capturado pela cena, uma m\u00fasica \u201cmuito imag\u00e9tica\u201d. Diz se lembrar \u201cem close\u201d dos m\u00fasicos, de seus rostos, da textura da pele, do material das sand\u00e1lias. E de um ritmo que o marcou: \u201cFoi essa paix\u00e3o, essa coisa que desperta na gente, esse interesse imediato\u201d. \u201cAquele ritmo que, vamos combinar, \u00e9 uma coisa muito do nosso pa\u00eds\u201d. N\u00e3o se lembra das letras, mas do som e da imagem com uma nitidez e uma intensidade afetiva que sinalizam a presen\u00e7a de uma marca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ponto, Kristoff \u2013 um \u201cusu\u00e1rio recente\u201d da psican\u00e1lise, como se apresenta \u2013 fala da \u201cpalavra percussiva\u201d que sai da boca dos m\u00fasicos que fazem esse g\u00eanero nordestino. N\u00e3o se trata da letra das can\u00e7\u00f5es, do sentido, mas do som, dos acentos que parecem percutir as s\u00edlabas, produzindo ritmos singulares. Uma m\u00fasica que fala do Brasil, do sol, da cor&#8230;, diz M\u00e1ximo, e canta um pequeno trecho do bai\u00e3o \u201cDezessete e setecentos\u201d, eternizado por Luiz Gonzaga. Referindo-se a um dos m\u00fasicos de sua lembran\u00e7a, diz: \u201ctem aquela jogada com a l\u00edngua. Quando ele faz o que ele faz.\u201d Essa imagem sonora de um corpo percussivo que provoca resson\u00e2ncias atravessa o tempo, tem novos ecos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa viagem no tempo, voltamos a junho de 2024, Inhotim. E, aqui, pessoas de todas as idades s\u00e3o tamb\u00e9m tomadas por uma cena. \u201cUns pequenininhos dando cambalhota e uns maiorzinhos, assim, completamente fisgados\u201d, lembram. O que fisga nessa cena? O que toca essa plateia t\u00e3o diversa? Al\u00e9m da composi\u00e7\u00e3o incomum de seus instrumentos, para M\u00e1ximo, o <em>Mineral<\/em> toca tanto as pessoas porque \u00e9 uma instala\u00e7\u00e3o, no sentido das artes visuais, cuja sonoridade \u00e9 capaz de evocar as mais rec\u00f4nditas mem\u00f3rias dos mineiros, algo da montanha, dos sinos das igrejas barrocas, um som que se sustenta no tempo, pelos harm\u00f4nicos. Desse estranho conjunto composto por mat\u00e9rias t\u00e3o heterog\u00eaneas \u2013 a cer\u00e2mica de mil\u00eanios, os instrumentos inventados h\u00e1 alguns s\u00e9culos, os computadores de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o \u2013 sai um som que parece ecoar o sil\u00eancio das montanhas, as entranhas da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra de arte pode materializar o efeito que uma \u201cpalavra percussiva\u201d \u00e0s vezes provoca num corpo. Ou, no caso dessa bela tarde de inverno em Inhotim, aquilo que ressoa, no um a um, em centenas de corpos percussivos. Nas palavras do M\u00e1ximo, \u201cessa coisa que desperta na gente\u201d. No final da entrevista, o artista fala da espantosa escala temporal desse mineral de bilh\u00f5es de anos, quase t\u00e3o impens\u00e1vel quanto a temporalidade desse \u201csempre\u201d que desperta numa conting\u00eancia \u2013 vislumbre de uma marca atemporal que cada <em>falasser<\/em> carrega no corpo. A psican\u00e1lise permite a seus \u201cusu\u00e1rios\u201d seguir percutindo esse ponto de resson\u00e2ncia.<\/p>\n<div style=\"width: 980px;\" class=\"wp-video\"><video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-2679-2\" width=\"980\" height=\"980\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/INHOTIM.mp4?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/INHOTIM.mp4\">https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/04\/INHOTIM.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Mineral, <\/em><\/strong><strong>Inhotim. <\/strong><strong>Ciro Thielmann. Paisagem Lava<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Comp\u00f5em a equipe do boletim <em>Tambor <\/em>(EBP). S\u00e3o respons\u00e1veis pela concep\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o da entrevista sobre <em>Mineral <\/em>e autoras deste texto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> M\u00e1ximo Soalheiro nasceu em Sardo\u00e1, Minas Gerais. Ceramista e artista visual, suas obras j\u00e1 foram exibidas em mostras coletivas e individuais nas principais cidades brasileiras e capitais europeias. Tem colaborado com institui\u00e7\u00f5es culturais no Brasil e desenvolvido projetos <em>site-specifc<\/em> para in\u00fameras empresas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> O concerto re\u00fane os m\u00fasicos Camila Rocha, Davi Fonseca, Jo\u00e3o Paulo Drummond, Kristoff Silva, Leandro C\u00e9sar, Yuri Vellasco e Juliana Perdig\u00e3o. Pedro Dur\u00e3es assina a Dire\u00e7\u00e3o Musical e M\u00e1ximo Soalheiro a Dire\u00e7\u00e3o de Arte. At\u00e9 aqui, <em>Mineral<\/em> foi apresentado em Belo Horizonte em 2018 e 2019, no Pal\u00e1cio das Artes e na sala Minas Gerais, em 2024 no Instituto Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais, e novamente na Sala Minas Gerais. Ainda em 2024, esteve em S\u00e3o Paulo numa apresenta\u00e7\u00e3o no Teatro Oficina.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Kristoff Silva \u00e9 mestre e doutor em M\u00fasica. Atua principalmente na \u00e1rea de M\u00fasica Popular, \u00e9 compositor e trabalha com musicaliza\u00e7\u00e3o de adultos. Escreveu o Livro de Partituras de Jos\u00e9 Miguel Wisnik e \u00e9 um dos respons\u00e1veis pelo Cancioneiro Elomar. Autor de trilhas para teatro, dan\u00e7a e televis\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Agradecemos especialmente a M\u00e1ximo pela gentileza em nos receber e pela am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o do uso de imagens da obra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Wisnik, J. M. <em>O som e o sentido. Uma outra hist\u00f3ria das m\u00fasicas.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2017.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Lacan, J. <em>O<\/em> <em>Semin\u00e1rio, <\/em>livro 7: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, Ed.1997.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 151.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 152.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Andrade, M. <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 est\u00e9tica musical<\/em>. (1938) S\u00e3o Paulo: Editora Hucitec, Ed. 1995. p. 46.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Otoni Brisset, F.<em> Argumento: Falar com a crian\u00e7<\/em><em>a<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/epistemico\/argumento\/\">https:\/\/enapol.com\/xii\/es\/epistemico\/argumento\/<\/a>&gt;. Acesso em 15 mar. 2025.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Viola Fernanda Costa Michelle Sena[1] Mineral, Teaser. Ciro Thielmann.Paisagem Lava Pouco antes de percutirem os tambores do animado carnaval de Belo Horizonte, cidade de Minas Gerais que acolher\u00e1 o XII ENAPOL, M\u00e1ximo Soalheiro[2] nos recebe em sua casa. 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