{"id":5180,"date":"2025-06-02T17:18:56","date_gmt":"2025-06-02T20:18:56","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=5180"},"modified":"2025-06-03T07:52:25","modified_gmt":"2025-06-03T10:52:25","slug":"rubrica-eixo-2-ficcao-e-canto-da-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/rubrica-eixo-2-ficcao-e-canto-da-palavra\/","title":{"rendered":"Rubrica Eixo 2 &#8211; FIC\u00c7\u00c3O E CANTO DA PALAVRA"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Gisela Smania &#8211; <\/strong><strong>EOL\/AMP<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma an\u00e1lise implica enla\u00e7ar-se de maneira original com o fato de falar. Destinadas a dar voltas no dizer, as recorda\u00e7\u00f5es encontram seu lugar, imediatamente, como peda\u00e7os de vida exercidos em nome da hist\u00f3ria, impress\u00f5es, pe\u00e7as infantis que \u201ca mem\u00f3ria \u2013 suspeitosamente \u2013 acredita que reproduz\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> e que carregam o anseio da revela\u00e7\u00e3o, o lampejo fugidio da verdade com o qual o inconsciente sonha. Mas, como anuncia Lacan em seu \u00faltimo ensino, com a hora do real, \u201cn\u00e3o h\u00e1 verdade que, ao passar pela aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o minta. O que n\u00e3o impede que se corra atr\u00e1s dela\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns anos antes de apresentar esse tipo de ox\u00edmoro com a verdade mentirosa, Lacan se deter\u00e1 especialmente nessas representa\u00e7\u00f5es chamadas de <em>lembran\u00e7as <\/em>que trazem a marca do infantil, assinaladas pela caracter\u00edstica do imposs\u00edvel de suportar ou, como dir\u00edamos com Miller, marcadas \u201cpelo inapreens\u00edvel, por um excesso de gozo, por uma despropor\u00e7\u00e3o que p\u00f5e a causa em jogo\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan apontar\u00e1 que, nessas representa\u00e7\u00f5es e nessas <em>lembran\u00e7as, <\/em>podemos encontrar o \u00edndice da \u201cinser\u00e7\u00e3o do vivente na realidade que \u00e9 o que disso ele imagina e que pode ser avaliada por sua maneira de reagir nela\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>; mas tamb\u00e9m, a implica\u00e7\u00e3o de quem fala, a rela\u00e7\u00e3o com o saber como a indetermina\u00e7\u00e3o do sujeito ali onde algo <em>se diz<\/em>, sem que o sujeito saiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar <em>da<\/em> verdade mentirosa impele a palavra para al\u00e9m do que ela quer dizer, aproximando-a da <em>fic\u00e7\u00e3o<\/em> <em>e do <\/em><em>canto<\/em> que nela habita. Quando a verdade mostra sua estrutura de fic\u00e7\u00e3o, as lembran\u00e7as assumem seu papel de tela. O analista \u201clhes extrai o suco\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>, sem se apegar ao formigamento de sentido que elas destilam. Nessa empreitada, \u201caqui se insinua a verdade mentirosa. Na transmuta\u00e7\u00e3o da conting\u00eancia em necessidade\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan \u00e9 categ\u00f3rico neste ponto, advertindo-nos que \u201cmesmo que as lembran\u00e7as \u2013 por exemplo \u2013 da repress\u00e3o familiar n\u00e3o fossem verdadeiras, seria preciso invent\u00e1-las, e n\u00e3o se deixa de faz\u00ea-lo. O mito \u2013 nos diz \u2013 \u00e9 isso, a tentativa de dar forma \u00e9pica ao que se opera pela estrutura. O impasse sexual secreta as fic\u00e7\u00f5es que racionalizam a impossibilidade da qual prov\u00e9m. N\u00e3o as digo imaginadas, mas leio a\u00ed, como Freud, um convite ao real que responde por isso.\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> Encontramos nessa afirma\u00e7\u00e3o uma orienta\u00e7\u00e3o precisa: diante desse impasse, h\u00e1 que se inventar. Cada um constr\u00f3i sua pequena inven\u00e7\u00e3o, sob transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a aposta, o horizonte de uma an\u00e1lise levada at\u00e9 suas \u00faltimas consequ\u00eancias. Colocar alguns restos da inf\u00e2ncia com o seu <em>insuport\u00e1vel<\/em>, \u00e0 prova dessa ponta de exist\u00eancia, real, contingente. Colocar um punhado de relatos a servi\u00e7o da \u201chistoristeriza\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>, para autorizar com eles o relato sobre \u201cas marcas, cicatrizes, rastros\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, os pontos vivos sobre os quais se apoiam um modo de satisfa\u00e7\u00e3o irrepet\u00edvel e o imposs\u00edvel na palavra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Caroline Quixabeira<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Revis\u00e3o: Gustavo Ramos<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, J. Universidad de Yale, Semin\u00e1rio Kanzer. <em>Revista Lacaniana<\/em>, Buenos Aires, n. 19, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lacan, J. <em>Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do<\/em> Semin\u00e1rio 11. (1976) In: ___. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 567.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Miller, J.- A. <em>Causa y Consentimiento<\/em>, Buenos Aires; Paid\u00f3s, 2019, P.138-145. NT: parte dessa aula do dia 13 de janeiro de 1988 est\u00e1 publicado com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o do autor, como <em>O estatuto do trauma,<\/em> em: <a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/orientacao-lacaniana\/\">https:\/\/enapol.com\/xii\/orientacao-lacaniana\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Lacan, J. O engano do sujeito suposto saber. (1967) In: ___. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 335.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Miller, 1988\/2019, <em>op. cit.<\/em>, p. 140.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. <em>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan<\/em>. (2008-2009) Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 128.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Lacan, J. Televis\u00e3o. (1974) In: ___. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 531.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Lacan, 1976\/2003, <em>op. cit.<\/em>, p. 569.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Miller, <em>Causa y Consentimiento<\/em>, Buenos Aires; Paid\u00f3s, 2019, P.141. NT: parte dessa aula do dia 13 de janeiro de 1988 est\u00e1 publicado com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o do autor, como <em>O estatuto do trauma,<\/em> em: <a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/orientacao-lacaniana\/\">https:\/\/enapol.com\/xii\/orientacao-lacaniana\/<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gisela Smania &#8211; EOL\/AMP Uma an\u00e1lise implica enla\u00e7ar-se de maneira original com o fato de falar. 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