{"id":6020,"date":"2025-06-30T09:16:36","date_gmt":"2025-06-30T12:16:36","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=6020"},"modified":"2025-06-30T09:16:36","modified_gmt":"2025-06-30T12:16:36","slug":"conceber-uma-crianca1-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/conceber-uma-crianca1-2\/","title":{"rendered":"Conceber uma crian\u00e7a<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong><em>Christiane Alberti<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conceber<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>O t\u00edtulo que voc\u00eas deram a esta Jornada<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> chama a aten\u00e7\u00e3o de imediato por seu car\u00e1ter moderno, afinado com a vanguarda da atualidade. De fato, a escolha do termo \u201cconceber\u201d j\u00e1 implica algumas consequ\u00eancias que merecem ser assinaladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria palavra <em>concebe<\/em>r nos interpela, sobretudo quando consideramos sua origem latina \u2013 <em>concipere,<\/em> que significa \u2018conter completamente\u2019 \u2013, de onde veio, \u201cformar em si mesmo uma crian\u00e7a\u201d. Assim, a palavra foi primeiramente introduzida para expressar a ideia de \u201cformar uma crian\u00e7a em si\u201d e, simultaneamente, adquiriu um sentido intelectual: \u201crepresent\u00e1-la para si no pensamento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde sua origem, o termo <em>conceber<\/em> implica tanto conter em si mesmo uma crian\u00e7a quanto represent\u00e1-la para si \u2013 conter, no sentido f\u00edsico de carreg\u00e1-la durante a gravidez, e de represent\u00e1-la para si, imagin\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses dois componentes s\u00e3o muito atuais: tanto a import\u00e2ncia contempor\u00e2nea de \u201ccarregar no ventre\u201d quanto as fic\u00e7\u00f5es que variam ao infinito sobre a concep\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, destaco sua modernidade. Esse termo evoca todas as fic\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas sobre o parto e sobre gerar uma crian\u00e7a, no sentido de abarcar todos os cen\u00e1rios poss\u00edveis que floresceram ao redor do nascimento \u2013 e que mostram que a imagina\u00e7\u00e3o humana \u00e9 sem limites. Assistimos, assim, aos cen\u00e1rios mais loucos \u2013 no sentido de mais livres \u2013, mas sabemos que se trata de uma liberdade mortal (o louco \u00e9 o homem livre). Ao mesmo tempo \u2013 e este \u00e9 o ponto essencial, a meu ver \u2013, vemos surgir a exig\u00eancia contempor\u00e2nea do direito de conceber uma crian\u00e7a de acordo com uma equival\u00eancia: \u201cposso, portanto, tenho direito e devo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca da igualdade entre os sexos e das separa\u00e7\u00f5es, a fam\u00edlia est\u00e1 claramente absorvida pelo direito. Este evolui segundo as fic\u00e7\u00f5es de cada um e se transforma em um lugar de experimenta\u00e7\u00e3o. Serge Cottet falava do \u201cromance familiar dos pais\u201d, invocando o fantasma camuflado pelas ci\u00eancias sociais sob o vocabul\u00e1rio da inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, \u00e9 uma banalidade dizer que a fam\u00edlia muda: ela sempre se apresenta como moderna e renovada. Entretanto, \u201cn\u00e3o estamos entre os que se afligem com um pretenso afrouxamento dos la\u00e7os de fam\u00edlia.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> N\u00e3o h\u00e1 nenhuma nostalgia em Lacan, j\u00e1 que este concebe a fam\u00edlia moderna em sua evolu\u00e7\u00e3o. Tampouco h\u00e1 qualquer fasc\u00ednio em Lacan pela multiplicidade dos costumes. Nossa \u00e9poca desnuda o \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d \u2013 e \u00e9 precisamente por isso que nos impele a distinguir o realismo da estrutura como resto irredut\u00edvel, e os semblantes e fic\u00e7\u00f5es que o revestem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1953, em \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d, Lacan recorda que s\u00e3o as leis da linguagem que regulam os interc\u00e2mbios no n\u00edvel das estruturas elementares de parentesco. Ele destaca a import\u00e2ncia das nomea\u00e7\u00f5es de parentesco como o \u00fanico poder capaz de instituir a ordem das prefer\u00eancias e n\u00e3o deixa de sublinhar a import\u00e2ncia da lacuna geracional ou os estragos de uma filia\u00e7\u00e3o falsificada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas palavras dos anos 50 ganham relevo na contemporaneidade, que impele \u00e0 horizontalidade e \u00e0 igualdade das rela\u00e7\u00f5es contratuais \u2013 uma \u00e9poca que tende a interpretar qualquer dissimetria nas rela\u00e7\u00f5es, com uma crian\u00e7a, por exemplo, como um exerc\u00edcio de poder sobre ela, algo que seria necess\u00e1rio denunciar. Escotomiza-se, assim, o Outro da suposi\u00e7\u00e3o de saber que os pais encarnam para o filho. Os pais s\u00e3o aqueles que transmitem o mundo para uma crian\u00e7a. Essa tend\u00eancia ao apagamento da distin\u00e7\u00e3o entre pais e filhos evidencia, sem d\u00favida, a recente necessidade de inscrever na lei francesa a proibi\u00e7\u00e3o do incesto, como se a lei simb\u00f3lica que funda o humano j\u00e1 n\u00e3o bastasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As regras mudaram no que diz respeito \u00e0 fam\u00edlia: o eixo central do direito de fam\u00edlia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o casamento, mas a filia\u00e7\u00e3o. Qualquer que seja o modo de arranjo dos pais, o estatuto da parentalidade se define pelo nascimento. Trata-se de uma fic\u00e7\u00e3o comum e pluralista da fam\u00edlia que coloca toda a \u00eanfase na concep\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dissemina\u00e7\u00e3o das reprodu\u00e7\u00f5es medicamente assistidas \u2013 com terceiros como doadores de gametas, de embri\u00f5es ou por meio de gesta\u00e7\u00e3o de substitui\u00e7\u00e3o \u2013 introduziu uma \u201cdesordem na filia\u00e7\u00e3o\u201d e modificou a situa\u00e7\u00e3o. Do com\u00e9rcio de ov\u00f3citos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es excedentes, surgem novos tipos de objetos, de bio-objetos. A reprodu\u00e7\u00e3o medicamente assistida, que at\u00e9 agora era de car\u00e1ter terap\u00eautico, transformou-se hoje em \u201cuma nova forma de gerar filhos\u201d, caminhando para se tornar uma modalidade ordin\u00e1ria de filia\u00e7\u00e3o e ser considerada como a mais comum, como <em>old school<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois exemplos da metamorfose do discurso. A gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as nascidas a partir da doa\u00e7\u00e3o de gametas apresentou uma nova e apaixonada reivindica\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 suspens\u00e3o do anonimato dos doadores, considerando o acesso \u00e0s suas origens como um direito fundamental. Afirma-se em alto e bom som que n\u00e3o se trata nem de um rastreamento biol\u00f3gico nem de p\u00f4r em quest\u00e3o os pais que os educaram: \u201cN\u00e3o nos falta um DNA, nos falta um nome!\u201d. \u00c9 como se a fam\u00edlia tivesse se tornado demasiadamente restrita, mal formada. Trata-se de inscrever o nome na biologia, como grau zero da nomea\u00e7\u00e3o? N\u00e3o seria tamb\u00e9m uma tend\u00eancia fazer do Nome-do-Pai \u201calgo mais leve\u201d (J. Lacan), implicando mais de um homem e mais de uma mulher na fam\u00edlia? Um protagonista suplementar, para dar uma base mais ampla aos pais \u2013 uma vers\u00e3o contempor\u00e2nea do romance familiar. \u201cO direito de ter um passado\u201d, como dizem, parece muito distante daquele de Gide: \u201cnada \u00e9 mais perigoso para ti que tua fam\u00edlia, teu passado, teu quarto!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, sob a press\u00e3o de novos questionamentos feministas, afirma-se claramente uma tend\u00eancia, especialmente nos Estados Unidos, que pretende analisar a procria\u00e7\u00e3o em termos econ\u00f4micos como \u201cum trabalho socialmente organizado de produ\u00e7\u00e3o de filhos\u201d, cujas formas de divis\u00e3o em termos de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe devem ser criticadas. No seio dessa corrente, Sophie Lewis milita para exigir \u201ca produ\u00e7\u00e3o de filhos para outros\u201d, para qualquer um que deseje ter uma crian\u00e7a; em suma, uma gesta\u00e7\u00e3o sub-rogada sistem\u00e1tica, com o fim de liberar-se definitivamente do patriarcado. Esta <em>surrogacy<\/em> imperativa estaria associada a um \u201ccomunismo gestacional\u201d que pretende instaurar uma justi\u00e7a reprodutiva. Em resumo, a proposta seria separar e distribuir as crian\u00e7as fora da fam\u00edlia para \u201cdesedipianiz\u00e1-las\u201d, \u201cdesfamiliariz\u00e1-las\u201d. Quando \u201cprescindir do pai\u201d funciona como um ideal para aqueles que n\u00e3o se deixam enganar pelo inconsciente, vemos que isso conduz \u00e0s utopias mais loucas e ao pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa tend\u00eancia ideol\u00f3gica se nutre da antropologia dos anos 1970, que atacava o familiarismo da psican\u00e1lise. Inspira-se no anti-\u00c9dipo deleuziano, que concebia o desejo em termos de produ\u00e7\u00e3o desejante e social. Contudo, trata-se de uma m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o do anti-\u00c9dipo, tal como evidenciado em <em>O semin\u00e1rio,<\/em> livro 23, <em>O sinthoma<\/em>, onde Lacan \u2013 como demonstra J.-A. Miller \u2013 dedica-se a pensar a psican\u00e1lise a partir do ponto de vista da ironia joyceana diante dos semblantes comuns do \u00c9dipo como solu\u00e7\u00e3o \u00fanica para o desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de n\u00e3o haver motivos para se crer at\u00e9 o fim nas fic\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas do casamento, da paternidade e, hoje em dia, da maternidade, n\u00e3o nos exime de ter que lidar, por muito tempo ainda, com a coexist\u00eancia do decl\u00ednio da ordem patriarcal e da dimens\u00e3o do que a fam\u00edlia representa para um sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca do individualismo democr\u00e1tico, as refer\u00eancias estruturais que Lacan indica desde \u201cOs complexos familiares\u201d conservam sua vig\u00eancia no que diz respeito ao desejo da m\u00e3e e \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do pai \u2013 dois princ\u00edpios que n\u00e3o podem se sobrepor \u00e0 diferen\u00e7a entre os sexos: <em>o princ\u00edpio paterno<\/em>, entendido como uma encarna\u00e7\u00e3o da lei no desejo materno (fun\u00e7\u00e3o de transmiss\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o, que falha na rela\u00e7\u00e3o com o outro sexo), e o <em>princ\u00edpio materno<\/em>, cujo gozo a crian\u00e7a prolonga no fantasma. H\u00e1 um verdadeiro problema com esses pontos de refer\u00eancia, j\u00e1 que o desejo de ter um filho, hoje, pode claramente se desvincular da rela\u00e7\u00e3o com o parceiro sexuado e transformar-se em objeto de uma demanda ilimitada \u2013 o fantasma sem a media\u00e7\u00e3o do desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O direito e o empuxo a gozar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Em fun\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o das ci\u00eancias da vida, conceber uma crian\u00e7a \u2013 e todo o processo reprodutivo \u2013 pode hoje, claramente, constituir-se como algo duplamente desvinculado: 1) da sexualidade, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel conceber uma crian\u00e7a fora da rela\u00e7\u00e3o sexual; e 2) da fam\u00edlia tradicional, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel conceber uma crian\u00e7a de uma maneira n\u00e3o articulada \u00e0 fam\u00edlia convencional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, o que se reproduz s\u00e3o as c\u00e9lulas e, na reprodu\u00e7\u00e3o, \u00f3vulos e espermatozoides. Agora \u00e9 poss\u00edvel separar as c\u00e9lulas dos organismos que as carregam. Os limites impostos pela natureza ou pela moral foram despeda\u00e7ados e o desejo de ter um filho pode se liberar, pode at\u00e9 se transformar em um \u201cdever\u201d. O sujeito aparentemente \u00e9 o senhor de suas escolhas, mas seria poss\u00edvel dizer que, na realidade, trata-se de uma exig\u00eancia que n\u00e3o est\u00e1 muito distante do empuxo a gozar. Se j\u00e1 n\u00e3o existem obst\u00e1culos naturais, conceber uma crian\u00e7a se torna um desejo ou, ao menos, um direito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e est\u00e1 pluralizada: doadora, portadora, biol\u00f3gica, homem ou mulher. Que os homens de hoje queiram dar \u00e0 luz \u00e9 uma das mudan\u00e7as mais importantes de nosso tempo. Exemplos disso s\u00e3o homens transg\u00eaneros que, ap\u00f3s sua transi\u00e7\u00e3o, escolhem ser pais biol\u00f3gicos, o que reflete uma redefini\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is materno e paterno na sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desejo de um filho, transformado pela lei, emancipa-se da rela\u00e7\u00e3o com o outro sexo e se transforma em objeto de uma exig\u00eancia, de um \u201ceu quero\u201d. \u00c0s vezes, um \u201ceu quero\u201d sem raz\u00e3o, assim como a raz\u00e3o \u00e9 sem porqu\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ci\u00eancia n\u00e3o apenas proporciona a cura para a infertilidade, como tamb\u00e9m possibilita a fertiliza\u00e7\u00e3o de uma mulher l\u00e9sbica e o parto de um casal homossexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a ocasi\u00e3o de uma disjun\u00e7\u00e3o radical entre o homem e a mulher na procria\u00e7\u00e3o. Essas modifica\u00e7\u00f5es t\u00eam um impacto significativo por despeda\u00e7arem a ilus\u00e3o da fam\u00edlia paternalista, assim como o universal do desejo de ter uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conceber \u00e9 mais importante que \u201cter um filho\u201d ou ser m\u00e3e ou pai<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Tenho o direito de conceber um filho como eu quiser, de acordo com minhas fantasias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise n\u00e3o se deixa levar por isso, n\u00e3o se comove. Ela acompanha os sujeitos nas muta\u00e7\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o que eles pr\u00f3prios conhecem. Essas muta\u00e7\u00f5es levantam um v\u00e9u, fazendo aparecer dois pontos:<\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: justify;\">O fato de que pai, m\u00e3e e filho s\u00e3o, antes de tudo, significantes. Pai, m\u00e3e e filho s\u00e3o apenas significantes e o significante tende sempre a irrealizar os corpos. Como ser de linguagem, a m\u00e3e n\u00e3o existe. E, apesar disso, as m\u00e3es existem verdadeiramente.<\/li>\n<li style=\"text-align: justify;\">Tudo aquilo que envolve o desejo de ter um filho. Em primeiro lugar, as aporias do desejo de maternidade em mulheres e homens, destacando-se tamb\u00e9m o valor da crian\u00e7a desejada e o valor da crian\u00e7a objeto de gozo.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">A via metaf\u00f3rica do amor p\u00f5e em jogo a crian\u00e7a como substituto da falta e permite que a significa\u00e7\u00e3o do falo seja evocada no imagin\u00e1rio do sujeito. Entretanto, algo escapa \u00e0 faliciza\u00e7\u00e3o. A crian\u00e7a cobre apenas parcialmente a falta f\u00e1lica. Muito cedo em seu ensino, Lacan se pergunta se a media\u00e7\u00e3o f\u00e1lica drena toda a dimens\u00e3o pulsional em uma mulher e em particular toda a vertente materna. Algo escapa \u00e0 lei do pai. Um gozo que n\u00e3o passa pela media\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e que se refor\u00e7a de forma ilimitada. Nesse gozo em que a mulher n\u00e3o \u00e9 toda \u2013 ou seja, que a torna ausente de si mesma, outra para si mesma, ausente enquanto sujeito \u2013, ela \u201cencontrar\u00e1 o tamp\u00e3o do que ser\u00e1 seu filho\u201d. Portanto, a maternidade \u00e9 concebida como uma supl\u00eancia a esse gozo de ser n\u00e3o-toda. Nessa vertente, ela se encontra com um gozo que toca a devasta\u00e7\u00e3o ou o arrebatamento. Um resto que significa que o corte nunca \u00e9 total.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cl\u00ednica do \u201cconceber uma crian\u00e7a\u201d \u00e9, antes de tudo, uma cl\u00ednica da separa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a b\u00fassola da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Como Lacan aborda isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele prop\u00f5e algo incr\u00edvel, considera que a separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontece entre a m\u00e3e e o filho, mas entre a m\u00e3e e o peito. Lacan parte da fisiologia da m\u00e3e nutriz, <em>in utero<\/em>, que responde \u00e0 estrutura da imbrica\u00e7\u00e3o, na qual h\u00e1 elementos amboceptivos: \u00e9 da crian\u00e7a e \u00e9 da m\u00e3e. A crian\u00e7a grudada ao peito, assim como a placenta grudada ao \u00fatero \u2013 ou o peito grudado ao corpo da m\u00e3e e a crian\u00e7a grudada ao mamilo. Essa ruptura faz, daquilo que se desprende do corpo, objetos <em>a<\/em>: objetos perdidos como causa de desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo, acreditou-se que carregar uma crian\u00e7a no ventre fazia desse ser \u201ccarne de nossa carne\u201d, \u201cnosso filho\u201d, oferecendo o modelo de uma uni\u00e3o na qual formamos um s\u00f3 corpo com o outro. Essa mitologia mam\u00e1ria, a imagem do seio, de uma <em>sweet home<\/em>, domina poderosamente nossa subjetividade, como nostalgia de uma suposta harmonia que, \u00e0s vezes, se aproxima do mais obscuro anseio de morte. Estar gr\u00e1vida, \u00e0s vezes, beira uma plenitude na qual a palavra, a imagem e o corpo se unem. Por meio de uma complac\u00eancia som\u00e1tica, de que fala Freud, a histeria submete seu corpo para dar ao significante seu peso de real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o com o corpo e a sensibilidade corporal devem ser interrogadas: as diferentes modalidades de corporiza\u00e7\u00e3o da linguagem \u2013 desde a convers\u00e3o hist\u00e9rica no \u00f3rg\u00e3o at\u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o. Isso implica uma fratura entre o significante que nomeia um \u00f3rg\u00e3o e sua fun\u00e7\u00e3o, e a manifesta\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos corporais: o defeito do primeiro provoca a desapari\u00e7\u00e3o do segundo. Os fen\u00f4menos do corpo, se n\u00e3o s\u00e3o integrados na significa\u00e7\u00e3o da maternidade \u2013 que deveria integr\u00e1-los \u2013, podem passar despercebidos. \u00c9 o que se produz na nega\u00e7\u00e3o da gravidez no contexto de uma psicose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, essa rela\u00e7\u00e3o entre continente e conte\u00fado \u00e9 uma ilus\u00e3o. \u00c9 uma fic\u00e7\u00e3o do tipo \u201ceu te contenho\/tu me cont\u00e9ns\u201d. Porque, como diz Lacan, pensar no outro como o prolongamento de si mesmo \u00e9 o pior dos extravios, n\u00e3o apenas um extravio, sen\u00e3o o pior. De fato, a crian\u00e7a est\u00e1 radicalmente separada, n\u00e3o da m\u00e3e ou do Outro, mas de uma parte de si mesma: aquela que a linguagem lhe arrebata e que d\u00e1 lugar a um vazio que Lacan chama de imagin\u00e1rio \u2013 cen\u00e1rios, ilus\u00f5es, sonhos, mas tamb\u00e9m ang\u00fastia. O desmame esteve a\u00ed desde sempre e para todos como um corte fundamental que nos priva de uma plenitude do ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m da criatura idealizada que a m\u00e3e imaginava ou esperava, a crian\u00e7a pode vir a encarnar um sujeito do qual uma mulher deve se separar. A crian\u00e7a aparece, ent\u00e3o, como o objeto de sua exist\u00eancia. A crian\u00e7a \u00e9 separada como objeto <em>a<\/em>, ou seja, ela ex-siste. Assim, para a m\u00e3e, a crian\u00e7a \u00e9 aquilo que mais \u00e9 ela pr\u00f3pria e, ao mesmo tempo, aquilo que est\u00e1 separado dela. Gra\u00e7as a esse corte, a crian\u00e7a pode se inscrever em seu desejo, ser captada por seu olhar e sua voz pode ser escutada como sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa cl\u00ednica da separa\u00e7\u00e3o, o fato de que, na subjetividade da m\u00e3e, a crian\u00e7a seja tomada como objeto, longe de reduzi-la a uma coisa, ao contr\u00e1rio, a eleva ao estatuto de objeto que deve ser reencontrado, conhecido, desejado \u2013 objeto causa do desejo da m\u00e3e. \u00c9 algo mais do que a extens\u00e3o n\u00e3o individualizada dela mesma. O poder do significante \u00e9 tal que, antes mesmo da gravidez, a crian\u00e7a \u00e9 Outra coisa que n\u00e3o uma mera extens\u00e3o do corpo da m\u00e3e. Como diz Lacan: \u201cGostaria de ter tratado esses outros como objetos cujo peso, sabor e subst\u00e2ncia pudessem ser apreciados\u201d. Pode-se apreciar o peso, o gosto, a subst\u00e2ncia de um objeto. Essa \u00e9 uma maneira de dizer que torna poss\u00edvel considerar a crian\u00e7a em sua singularidade como sua crian\u00e7a, e n\u00e3o como uma crian\u00e7a em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, ent\u00e3o, mais de uma separa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e em rela\u00e7\u00e3o a si mesma do que de uma separa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso da nega\u00e7\u00e3o de uma gravidez, aquilo que se apresenta como uma gesta\u00e7\u00e3o \u2013 para al\u00e9m de todas as expectativas e sentimentos \u2013 experimenta-se como se nunca tivesse existido. Pode ser que tenha faltado uma marca: o significante da maternidade se transformou em um significante qualquer e n\u00e3o em um significante privilegiado de ser mulher ou ser m\u00e3e. Como resultado, o sujeito traduz suas sensa\u00e7\u00f5es com significantes corriqueiros e descritivos. Um significante ordena o corpo, fora do desejo do sujeito. Um significante pode ter seus pr\u00f3prios efeitos de gozo e ter a fun\u00e7\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o de um programa, uma l\u00f3gica, mas o gozo n\u00e3o est\u00e1 subordinado \u00e0 lei do desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma inclina\u00e7\u00e3o ao unilateral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Assim, entendemos, ao mesmo tempo, por que a crian\u00e7a \u00e9 chamada a aparecer na s\u00e9rie de objetos do mercado. Geralmente, faz parte da s\u00e9rie de coisas valorizadas, intercambi\u00e1veis e negoci\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se mencionei a preval\u00eancia do direito, foi para marcar seu peso na subjetividade. De fato, seria poss\u00edvel pensar que o recurso ao direito constitui um limite para todas as fic\u00e7\u00f5es mais extravagantes, mas, ao contr\u00e1rio, a lei corre atr\u00e1s das fic\u00e7\u00f5es, sempre com atraso. Estruturalmente, o direito se encontra na posi\u00e7\u00e3o de dizer sim a tudo, ou seja, assume o valor de um imperativo de gozo, digamos, materno, no qual o princ\u00edpio do limite desaparece no gozo. A lei cria contratos cada vez mais restritivos, encarnando um mestre do gozo, como o da alcova sadeana, um \u201cmata o desejo\u201d, abandonando o sujeito aos imperativos do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O unilateral. O Um-pai<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Lacan havia assinalado que outra fun\u00e7\u00e3o se sobreporia \u00e0quela do pai, uma fun\u00e7\u00e3o que apenas a m\u00e3e pode encarnar: a fun\u00e7\u00e3o de \u201cnomear para&#8230;\u201d, que passa a ser preferida \u00e0quela do Nome-do-pai. O valor de objeto desejado se acentua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fun\u00e7\u00e3o parental unit\u00e1ria (a redu\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o \u201cm\u00e3e\u201d e \u201cpai\u201d a apenas um progenitor) se esclarece por aquilo que Lacan chama de registro do unilateral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crian\u00e7a, em posi\u00e7\u00e3o de objeto a, causa o desejo de maternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma feminiza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com as crian\u00e7as como objeto <em>a<\/em>? Em que sentido? A crian\u00e7a \u00e9 desejada e, ao mesmo tempo, \u00e9 causa do desejo. Segue sendo um objeto no fantasma, na origem do desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso tem a estrutura daquilo que Lacan chama de unilateral, quando a lei surge de um S1 sem esbarrar com uma causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan evoca esse registro do unilateral quando um sujeito n\u00e3o pode se apoiar na fun\u00e7\u00e3o do ideal ou na fun\u00e7\u00e3o da lei que tece os la\u00e7os da palavra e do reconhecimento, que civiliza o gozo, limitando-o. O sujeito, ent\u00e3o, n\u00e3o se apoia no significante do pai ou na lei simb\u00f3lica, mas em um significante mestre que vem no lugar da palavra, um S1 imagin\u00e1rio que reveste a falha central da subjetiva\u00e7\u00e3o. Estabelece-se, assim, um modo de rela\u00e7\u00e3o unilateral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, efetivamente, menciona isso no contexto da psicose em <em>O<\/em> <em>Semin\u00e1rio, <\/em>livro 3<em>: As Psicoses<\/em>, onde o filho ocupa uma posi\u00e7\u00e3o feminina em rela\u00e7\u00e3o ao pai, sem passar pela castra\u00e7\u00e3o. Uma transmiss\u00e3o ocorre sem a participa\u00e7\u00e3o da causa sexual, unilateralizando o complexo de \u00c9dipo a partir de uma figura parental matriz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estabelece-se um la\u00e7o com ele mesmo, um suporte, diz Lacan, \u201cque n\u00e3o se inscreve em nenhuma dial\u00e9tica triangular, mas cuja fun\u00e7\u00e3o de modelo, de aliena\u00e7\u00e3o especular, d\u00e1 ainda assim ao sujeito um ponto de enganchamento, e lhe permite apreender-se no plano imagin\u00e1rio\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. \u201cEssa verdadeira despossess\u00e3o primitiva do significante, ser\u00e1 preciso que o sujeito dela se encarregue e assuma a sua compensa\u00e7\u00e3o, longamente, na vida, por uma s\u00e9rie de identifica\u00e7\u00f5es puramente conformistas a personagens que lhe dar\u00e3o o sentimento do que \u00e9 preciso fazer para ser um homem\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que significa \u2018unilateral\u2019?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>\u00c9 quando o S1 assume em si mesmo a fun\u00e7\u00e3o sexualizada, sem necessidade de nenhum intermedi\u00e1rio. Teremos uma neo-significa\u00e7\u00e3o do amor que n\u00e3o passa pela assun\u00e7\u00e3o do significante \u2018pai\u2019 no n\u00edvel simb\u00f3lico, mas que deriva de um S1 em sua fun\u00e7\u00e3o de modelo, de prot\u00f3tipo. Como se, apoiado neste S1, o sujeito tivesse assumido a marca sem ser o resultado do encontro de dois seres sexuados, de dois seres de pleno direito. Um la\u00e7o com a m\u00e3e que n\u00e3o inclui o pai em sua rela\u00e7\u00e3o com uma mulher. \u00c9 um mundo feminizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos um exemplo no caso de Aim\u00e9e: ser uma mulher de letras \u00e9 o S1 que percorre toda sua vida. Aim\u00e9e assume o S1 de sua identifica\u00e7\u00e3o: <em>a mulher de letras<\/em>. A delicada pergunta sobre a diferen\u00e7a entre os sexos parece depender mais do encontro casual entre um pequeno outro e o significante mestre do que de uma identifica\u00e7\u00e3o sexuada bem ancorada naquilo que, dessa vez, seria um ideal do eu, ou seja, um saber sobre os ideais de seu sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pistas de Aim\u00e9e est\u00e3o borradas, quando surge outro significante mestre, como se viesse resgat\u00e1-la para lhe dar um lugar e uma consist\u00eancia na vida: ser normal, casar-se, ter um filho. \u201cEm algum momento da vida, diz ela, \u00e9 conveniente casar-se e ter um filho\u201d. Esclare\u00e7o que se trata de outro significante mestre, um S1 sozinho, j\u00e1 que ser mulher parece ser um saber fechado, a menos que se lhe acrescente um S1 para lhe dar corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser uma mulher de letras \u2013 ser uma mulher \u2013 ser. [(<em>a<\/em>) = livro = publica\u00e7\u00e3o].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser normal \u2013 ser esposa \u2013 ser mulher \u2013 ser. [(<em>a<\/em>) = filho = m\u00e3e].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algo indecid\u00edvel entre esses dois S1. O lugar de um desloca o lugar do outro, de tal sorte que \u00e9 algo mais do que um conflito ou um sintoma. A gravidez, o filho por vir, chega como uma realiza\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie: ser esposa, mulher, m\u00e3e. De certo modo, a crian\u00e7a aqui, como objeto <em>a<\/em> no lugar do fantasma materno que \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a norma, apresenta-se para dissociar os significantes holofraseados em torno do S1. Esse \u00e9 o come\u00e7o dos transtornos psiqui\u00e1tricos, segundo Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual seria a l\u00f3gica do neur\u00f3tico? A l\u00f3gica do n\u00e3o-todo, n\u00e3o-toda m\u00e3e, n\u00e3o-toda mulher de letras. No entanto, aqui, cada \u201cideal\u201d reivindica seu gozo frente ao outro. Em outras palavras, n\u00e3o s\u00e3o ideais no sentido cl\u00e1ssico do termo. Este \u00e9 o poder do significante mestre na psicose, e \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas exig\u00eancias \u2013 que fazem lei \u2013 que o sujeito se feminiza. Antes da passagem ao ato, a crian\u00e7a e ela estavam fundidas, e a crian\u00e7a \u2013 o objeto <em>a \u2013 <\/em>era o <em>kakon<\/em> de sua impossibilidade de ser mulher de letras e, portanto, de cumprir o que, ent\u00e3o, era sua miss\u00e3o. Para proteger seu filho, ela golpeia no Outro o pr\u00f3prio significante de sua miss\u00e3o:<em> a mulher de letras.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9 o que Lacan chama de \u201cunilateral\u201d em <em>O<\/em> <em>Semin\u00e1rio, <\/em>livro 3<em>: As Psicoses<\/em>: um v\u00ednculo de filia\u00e7\u00e3o se estabelece diretamente a partir de uma figura paterna, sem a implica\u00e7\u00e3o de uma causa sexual articulada a uma transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma extens\u00e3o do \u201cpai Um-todo-s\u00f3\u201d com seu filho em um la\u00e7o de continuidade no gozo, um modo de rela\u00e7\u00e3o sem media\u00e7\u00e3o nem corte. Na rela\u00e7\u00e3o com a crian\u00e7a, h\u00e1 uma continuidade do gozo atrav\u00e9s do fantasma, que vincula a crian\u00e7a \u00e0 m\u00e3e, objeto separado dela, em um v\u00ednculo que n\u00e3o admite nenhuma media\u00e7\u00e3o. Da\u00ed vem um ilimitado que se manifesta no amor. Portanto, toda a quest\u00e3o est\u00e1 no princ\u00edpio que romper\u00e1 essa continuidade ilimitada do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai \u00e9 um dos nomes dessa ruptura, que permitir\u00e1 \u00e0 crian\u00e7a se situar. A refer\u00eancia de Lacan ao que ele chama de dimens\u00e3o do pai \u00e9 essencial aqui. Ele invoca \u201cao menos como uma possibilidade, negligenciada ou ausente, a manuten\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o do pai, do drama do pai, dessa fun\u00e7\u00e3o do pai\u201d. O pai \u2013 ou \u201calgo ou algu\u00e9m\u201d que se faz de pai, n\u00e3o necessariamente encarnado pelo pai \u2013 \u00e9 que faz barreira ao desejo da m\u00e3e, dividindo-a entre m\u00e3e e mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desocultar o princ\u00edpio feminino<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan assinalava, desde \u201cOs complexos familiares\u201d, que o que assegura a coes\u00e3o da fam\u00edlia paternalista \u00e9 o ocultamento do princ\u00edpio feminino e a preval\u00eancia do princ\u00edpio masculino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse movimento acelerado em fun\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os das ci\u00eancias da vida rearticulou as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos. A crian\u00e7a, antes objeto de desejo (causa de desejo), tornou-se objeto de exig\u00eancias e, at\u00e9 mesmo, de um querer sem raz\u00e3o, uma vontade infinita que, \u00e0s vezes, se esgota no desejo de ter um filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um ensinamento sobre o desejo de ter um filho quando este j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 estruturado pelo \u00c9dipo. O desejo freudiano de ter um filho \u00e9 interpretado atrav\u00e9s da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. A crian\u00e7a \u00e9 tomada como objeto da m\u00e3e. H\u00e1 uma dimens\u00e3o de gozo que \u00e9 parte da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, mas h\u00e1 um mais al\u00e9m como objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desejo da m\u00e3e e o desejo feminino se entrela\u00e7am. Quando a crian\u00e7a aparece, h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o entre o objeto <em>a<\/em> e o que se considera a castra\u00e7\u00e3o. A crian\u00e7a, como falo, encarna o objeto de sua exist\u00eancia e satura o modo da falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, vem \u00e0 luz, de um modo mais cru, o estatuto da crian\u00e7a como objeto de gozo, que sempre foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses exemplos, certamente, n\u00e3o t\u00eam todos o mesmo impacto social, mas d\u00e3o uma ideia da fragmenta\u00e7\u00e3o provocada pela pulveriza\u00e7\u00e3o do pai. Eles revelam os significantes mestres que v\u00eam no lugar do Nome-do-Pai, mas que n\u00e3o encontram seu ponto de basta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma an\u00e1lise \u00e9 feita precisamente para se centrar naquilo que vem no lugar do pai, naquilo que toma seu relevo. Ela busca um saber sobre aquilo que permite a cada um ordenar sua experi\u00eancia \u2013 a do mundo \u2013 e que permite levar a vida de uma maneira menos extraviada, com uma b\u00fassola de gozo. N\u00e3o se trata do Pai com P mai\u00fasculo, nem da Lei com L mai\u00fasculo, mas sim de um instrumento \u00fatil, um operador fundamental para encontrar-se com o desejo, com o real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A refer\u00eancia de Lacan \u00e0quilo que ele chama de dimens\u00e3o do pai continua sendo essencial aqui: ele invoca \u201cao menos como uma possibilidade, negligenciada ou ausente, a manuten\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o do pai, do drama singular do pai, que ele extrai do universal\u201d. A partir dessa fun\u00e7\u00e3o do pai, que \u00e9 \u201calgo ou algu\u00e9m\u201d que o transforma em pai, n\u00e3o necessariamente encarnado pelo pai e que se interp\u00f5e no caminho do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui que a psican\u00e1lise produz a melhor cr\u00edtica aos patriarcados atuais, tanto os vis\u00edveis quanto aqueles que n\u00e3o pronunciam seu nome. De fato, uma an\u00e1lise n\u00e3o conduz a acreditar at\u00e9 o fim na fic\u00e7\u00e3o do pai, nem na onipot\u00eancia dos significantes mestres, ainda se estiverem \u2018purificados\u2019, nem na onipot\u00eancia da justi\u00e7a! O simb\u00f3lico n\u00e3o conseguir\u00e1 reabsorver o gozo enquanto perverso, n\u00e3o estandardizado pelo pai. Por outro lado, cremos na obje\u00e7\u00e3o que o real constitui, o real do pai, sua natureza irredut\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe apenas a vers\u00e3o particularizada da fam\u00edlia \u2013 <em>seu<\/em> pai, <em>sua<\/em> m\u00e3e, <em>seu<\/em> filho \u2013, compreendida numa rela\u00e7\u00e3o mais leve com a fam\u00edlia, uma passagem do Outro ao outro. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio cortar esse la\u00e7o: ele \u00e9 uma b\u00fassola na cl\u00ednica e na pr\u00e1tica, pois essa continuidade assegura o v\u00ednculo que nos faz autenticamente humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>fam\u00edlia<\/em> no sentido de <em>famil,<\/em> tem, portanto, uma voca\u00e7\u00e3o universal. \u00c9 uma extens\u00e3o do dom\u00ednio da m\u00e3e. Segundo J.-A. Miller, a m\u00e3e, por sua vez, tamb\u00e9m foi vaporizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Confer\u00eancia proferida em Buenos Aires, por ocasi\u00e3o das 33\u00aa Jornadas Anuais da EOL &#8211; Concebir um ni\u00f1o, em 1\u00ba de dezembro de 2024. Publicada com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o da autora.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o para o espanhol:<\/strong> Silvina Molina<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Revis\u00e3o:<\/strong> Silvia Elena Tendlarz<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas:<\/strong> Diego Cervelin<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Revis\u00e3o:<\/strong> Ruskaya Maia, Paola Salinas e Renata Martinez<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Confer\u00eancia proferida em Buenos Aires, por ocasi\u00e3o das 33\u00aa Jornadas Anuais da EOL &#8211; Concebir un ni\u00f1o, em 1\u00ba de dezembro de 2024. Publicada com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o da autora.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Psicanalista, AME, Membro da \u00c9cole de la Cause Freudienne (ECF) e Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lsie (AMP).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> 33\u00aa Jornadas Anuais da Escuela de la Orientaci\u00f3n Lacaniana, Conceber uma crian\u00e7a, ocorrida nos dias 30 de novembro e 1\u00ba de dezembro de 2024, em Buenos Aires.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. Os complexos familiares na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. (1938) In: ____. <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003 p.66.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan, J. O semin\u00e1rio, livro 3: As psicoses. (1955-1956). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1988. p. 233. Li\u00e7\u00e3o de 18\/04\/1956.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>Ibidem<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christiane Alberti[2] \u00a0 Conceber \u00a0O t\u00edtulo que voc\u00eas deram a esta Jornada[3] chama a aten\u00e7\u00e3o de imediato por seu car\u00e1ter moderno, afinado com a vanguarda da atualidade. De fato, a escolha do termo \u201cconceber\u201d j\u00e1 implica algumas consequ\u00eancias que merecem ser assinaladas. 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