{"id":6032,"date":"2025-06-30T09:23:02","date_gmt":"2025-06-30T12:23:02","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=6032"},"modified":"2025-06-30T09:33:54","modified_gmt":"2025-06-30T12:33:54","slug":"nossa-alfabestizacao1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/nossa-alfabestizacao1\/","title":{"rendered":"Nossa alfabestiza\u00e7\u00e3o<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\">Entre l\u00edngua e lal\u00edngua<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Marcus Andr\u00e9 Vieira<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">I<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em o <em>Aturdito<\/em>, Lacan retoma e parodia o t\u00edtulo de seu texto inaugural. Em vez de <em>Fun\u00e7\u00e3o<\/em> <em>e<\/em> <em>Campo<\/em> da fala e da linguagem na psican\u00e1lise, <em>Fic\u00e7\u00e3o<\/em> <em>e<\/em> <em>Canto<\/em>. Ele retoma a preval\u00eancia da fala em nossa pr\u00e1tica, mas, com esta par\u00f3dia, op\u00f5e o modo de presen\u00e7a e o ato propriamente anal\u00edtico da fala (do discurso ou mesmo da palavra, poss\u00edveis tradu\u00e7\u00f5es do franc\u00eas <em>parole<\/em>) a estes dois outros modos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele traz, inclusive, uma cena que dramatiza os lugares e fun\u00e7\u00f5es da fic\u00e7\u00e3o e do canto: a sala de plant\u00e3o de Saint Anne, o hospital em que foi residente e psiquiatra, onde seu semin\u00e1rio come\u00e7ou e esteve localizado em sua primeira d\u00e9cada. Lacan afirma, ent\u00e3o, que eles teriam feito melhor ao cruzar o hospital para irem assistir seu semin\u00e1rio em vez de ficar perdidos naquele lugar que s\u00f3 era uma zona [<em>foutoir<\/em>] por conta da cantoria.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tudo \u00e9 muito preciso com Lacan, vale levar a s\u00e9rio sua provoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o no sentido de seriedade, mas no de dar consequ\u00eancias \u00e0 brincadeira. Digo, j\u00e1, ent\u00e3o, onde quero chegar: a partir do \u00faltimo ensino de Lacan, mais especificamente do modo de tomar a l\u00edngua encarnado no neologismo <em>lal\u00edngua<\/em>, muito do modo como lidamos com o vasto campo da fala e da linguagem em uma an\u00e1lise precisa ser ressituado. Entendo que a brincadeira com a fic\u00e7\u00e3o e o canto serve a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como se tudo o que dissesse mais diretamente respeito ao sentido, ao que h\u00e1 de comum na linguagem, encarnado aqui pela fic\u00e7\u00e3o e pelo canto, se afastasse do que ocorre na an\u00e1lise. Disse, por\u00e9m, <em>ressituar<\/em>, n\u00e3o descartar. N\u00e3o quero opor o Lacan do sentido ao do fora do sentido. Lacan n\u00e3o deixa de lidar com o real da singularidade que pode ser acessado e posto a trabalho em uma an\u00e1lise pela fala e apenas por ela. Esta \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o fundamental do ato anal\u00edtico desde <em>Fun\u00e7\u00e3o e Campo&#8230; <\/em>e a meu ver segue valendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, por\u00e9m, diferen\u00e7a. Qual ent\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>II<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil falar em <em>lal\u00edngua<\/em> e resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de opor a ela a <em>l\u00edngua<\/em> como se gosta de opor o corporal ao cerebral, o oral ao escrito ou ainda o materno ao paterno, mas \u00e9 mais que necess\u00e1rio. Opor uma pr\u00e9-hist\u00f3ria l\u00fadica a uma perda inaugural, por exemplo, tende a nos jogar nos bra\u00e7os de um ideal de liberdade que embute toda uma normatividade na cl\u00ednica. Afinal, quem n\u00e3o diria que \u00e9 melhor ser travesso ou criativo que desorientado com o absurdo da vida como todos n\u00f3s? Para combater esse tipo de deriva, Lacan destacou a cria\u00e7\u00e3o <em>ex-nihilo<\/em>, do nada, como a maneira mais apropriada para o analista que lida com as miragens do que teria sido. \u00c9 o que resume a tirada lacaniana: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada como a refer\u00eancia ao primitivo para primitivizar o pensamento\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejam esta defini\u00e7\u00e3o de Lacan:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">A l\u00edngua, que escrevo numa palavra. Lal\u00edngua, porque significa lalala, lala\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 um fato que muito cedo o ser humano faz lala\u00e7\u00f5es, assim, basta ver um beb\u00ea, ouvi-lo, e que pouco a pouco surge uma pessoa, a m\u00e3e &#8211; que \u00e9 exatamente a mesma coisa que lal\u00edngua, s\u00f3 que \u00e9 algu\u00e9m encarnado -, que lhe transmite lal\u00edngua\u2026 e me parece dif\u00edcil n\u00e3o ver que a pr\u00e1tica anal\u00edtica passa por isso, pois tudo o que se pede \u00e0 pessoa que vem se confiar a n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 nada a n\u00e3o ser falar.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada \u00e9 simples com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>lal\u00edngua<\/em>. Segundo essa passagem, a m\u00e3e transmite sua lal\u00edngua \u00e0 crian\u00e7a que, sem ela, apenas balbucia, <em>lala<\/em>. Neste sentido, n\u00e3o apenas n\u00e3o h\u00e1 l\u00edngua primitiva como n\u00e3o h\u00e1 um embalar natural da voz antes da linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que para avan\u00e7ar com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as com rela\u00e7\u00e3o ao par sentido e fora do sentido a partir do surgimento de lal\u00edngua no ensino de Lacan, ser\u00e1 preciso partir, ent\u00e3o, de uma mudan\u00e7a concomitante em seu ensino com rela\u00e7\u00e3o ao que entendemos por <em>escrita<\/em>. \u00c9 o que nos impedir\u00e1 de apenas nos embalarmos com as can\u00e7\u00f5es que nos levam ao sentimento invenc\u00edvel de uma comunh\u00e3o universal ou de um tempo origin\u00e1rio em que \u00e9ramos felizes \u2013 como encarnado pelo pessoal da sala de plant\u00e3o para Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>III<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos \u00e0s voltas com a escrita desde o in\u00edcio. Por tomarmos a fala analisante como texto \u00e9 que podemos \u201couvir\u201d um ato falho que, de fato, lemos. \u00c9 o que os corretores ortogr\u00e1ficos de nossos celulares n\u00e3o nos deixam esquecer, quando trocam, por exemplo, \u201cQue Deus te ilumine\u201d por \u201cQue Deus te elimine\u201d. Alguns fonemas mudam tudo e abrem a possibilidade de um gozo at\u00e9 ent\u00e3o insuspeitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O protagonismo de <em>lal\u00edngua<\/em>, sup\u00f5e, por\u00e9m, um novo modo de conceber a escrita que est\u00e1 diretamente relacionado a um deslocamento na fun\u00e7\u00e3o do Outro, entendido como a alteridade cultural em que ser\u00e1 mergulhado o <em>falasser<\/em>. Quero encarnar esse Outro de <em>lal\u00edngua <\/em>em uma cena de escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan op\u00f5e \u00e0 sala de plant\u00e3o a capela onde ocorria seu semin\u00e1rio. Vou substituir ambas por outras duas. A primeira ser\u00e1 o jardim de inf\u00e2ncia, especificamente em um momento de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria e de roda de ciranda. \u00c9 o momento em que a fic\u00e7\u00e3o e o canto s\u00e3o ferramentas para a experi\u00eancia do Outro do sentido e do universal da comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eles, oponho outra cena de sala de aula: a da alfabetiza\u00e7\u00e3o. Aqui vamos encontrar outro Outro, bem menos consistente do que se imagina. N\u00e3o ser\u00e1, por\u00e9m, a alfabetiza\u00e7\u00e3o com o m\u00e9todo f\u00f4nico, cl\u00e1ssico, discurso do mestre, mas em uma perspectiva construtivista. \u00c9 outro modo de <em>Falar<\/em><em> com a crian\u00e7a<\/em>, derivado de Paulo Freire, encarnado no fragmento abaixo:<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M. pergunta a L. se ela quer escrever \u201cmala\u201d e ela responde \u201cn\u00e3o\u201d, mas logo em seguida desenha a letra M e a letra A, que a m\u00e3e l\u00ea \u201cma\u201d, que L. repete.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: Ma! O que que voc\u00ea vai escrever agora? L: Mala.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: Ent\u00e3o faz um ele e um a e fica mala. L: (L. faz a letra L.)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: Mal, Voc\u00ea escreveu \u201cmal\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L: Eu quero mala! M: Ent\u00e3o faz um a. L: Como?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: O a, do telhadinho, n\u00e9? L: (L. desenha a letra A) M: Mala.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L: (L. desenha a letra I) M: Mal\u00e1i.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: Que \u00e9 mal\u00e1i?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L: A\u00ed, oh, mala a\u00ed! (com \u00eanfase noa\u00ed, fazendo gesto indicativo, tentando mostrar\/explicar o si; em seguida, L. desenha a letra O).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: Malaio. [Mala a\u00ed, \u00f4]<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>C: [Se fizer um b\u00ea d\u00e1 balaio] (os[ ]indicam que a fala de C.,uma outra crian\u00e7a de dez anos, que no momento se encontrava na cozinha sendo que M. e L. estavam na copa, foi simult\u00e2nea \u00e0 fala de M.)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L: (L. desenha a letra a) M: Malai\u00f3ai.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L: (L. desenha a letra P) M: malaio\u00e1ip.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L: Oh! Eu escrevi tia Pi! (mostrando a letra P que acabara de desenhar)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: N\u00e3o. C\u00ea escreveu o p\u00ea, que \u00e9 a letra da tia Pi, mas c\u00ea tem que fazer o i pra ficar pi.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L: Qual que \u00e9 o i?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: Aquela do pauzinho com o pinguinho. L: (L.desenha a letra I)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>M: Mallaioa\u00edpi. Oh! Voc\u00ea escreveu \u201cmala a\u00ed, oh, a\u00ed, Pi!\u201d L: Repete entuxiasmada \u201cOh1 Eu escrevi \u201cMala a\u00ed, oh, a\u00ed Pi\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como lhes parece o estatuto do Outro nessas trocas entre Malu e Lulu? Percebe- se como o Outro da Alfabestiza\u00e7\u00e3o, encarnado aqui por Malu e o irm\u00e3o \u201cC\u201d, n\u00e3o parece ser exatamente aquele do discurso do mestre?<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Certamente, ser\u00e1 preciso se alfabetizar, ser\u00e1 preciso jogar o jogo do mestre, da linguagem ordenada, do discurso, mas \u00e9 dif\u00edcil ver, sob a perspectiva desse fragmento, que o que est\u00e1 em jogo \u00e9 necessariamente uma ortopedia ao modo do trauma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensamos normalmente a escrita como resultado de uma experi\u00eancia na qual um Outro imprime, marca seu desejo em alguma superf\u00edcie, o corpo da crian\u00e7a, por exemplo. Essa concep\u00e7\u00e3o de escrita n\u00e3o nos ajudar\u00e1 a lidar com a mudan\u00e7a encarnada por lal\u00edngua, por isso o exemplo do construtivismo tem valor.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sigo aqui J. A. Miller em seu curso Pe\u00e7as Soltas, quando fala em \u201cdois corpos da escrita\u201d.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> H\u00e1 outro modo de escrita em uma an\u00e1lise que o da escrita como impress\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o que deixa claro o final da an\u00e1lise? Deixamos para tr\u00e1s o Outro da transfer\u00eancia, o Outro que teria sido o agente do trauma, aquele que o analista at\u00e9 ent\u00e3o encarnara. Isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque implica em apropriar-se de um acontecimento que marcou o corpo \u201cantes\u201d desse Outro.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Outro do exemplo pode ser visto como agente da pedagogia alfab\u00e9tica, mas pode, tamb\u00e9m, ser pensado de outro modo. Digamos, para usar a met\u00e1fora c\u00e9lebre de Lacan em Lituraterra, trata-se de um Outro como nuvem, lugar de uma precipita\u00e7\u00e3o, uma chuvarada que deixar\u00e1 ravinamentos e n\u00e3o impress\u00f5es, marcas no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cchoque\u201d, a \u201cpercuss\u00e3o\u201d do significante sobre o corpo n\u00e3o s\u00e3o exatamente termos escolhidos por Miller para dar lugar a esse evento \u201csem agente\u201d? Neste sentido, o acontecimento de corpo, por mais que Lacan o chame de troumatisme, n\u00e3o \u00e9 um trauma em um sentido concreto. H\u00e1 tra\u00e7o, trou, lacuna, mas n\u00e3o h\u00e1 agente encarnado. Por isso, Miller fala em \u201cescrita selvagem\u201d. N\u00e3o \u00e9 exatamente um acontecimento sem Outro, mas certamente a alteridade em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a da fantasia.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>V<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos partir, ent\u00e3o, de <em>lal\u00edngua<\/em> como Outro-nuvem. Outro inconsistente. Inconsistente, mas n\u00e3o primitivo, id\u00edlico. Ser\u00e1 preciso cuidado para n\u00e3o tomar sua inconsist\u00eancia como puerilidade primitiva, de uma inf\u00e2ncia m\u00edtica idealizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de sonhar com um momento primitivo em que n\u00e3o \u00e9ramos ainda submetidos \u00e0 l\u00edngua, mas sim de levar a s\u00e9rio <em>lal\u00edngua<\/em>. Lulu pode traduzir-se na l\u00edngua, mas sempre a partir de lal\u00edngua. \u00c9 a l\u00edngua que n\u00e3o existe, apenas como elucubra\u00e7\u00e3o, o que existe s\u00e3o os ravinamentos, as modula\u00e7\u00f5es sonoras, o cristal da l\u00edngua das gera\u00e7\u00f5es que nos precederam e nos constituem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta crucial \u00e9, portanto: qual seriam Fun\u00e7\u00e3o e Campo de <em>lal\u00edngua <\/em>na experi\u00eancia psicanal\u00edtica de nossa cl\u00ednica hoje? Este conceito-ferramenta tem sido utilizado por n\u00f3s para exprimir os limites da cl\u00ednica \u2013 os do final da an\u00e1lise, da psicose ou dos sintomas contempor\u00e2neos. Como situ\u00e1-lo em um horizonte mais abrangente que inclua o in\u00edcio da an\u00e1lise, por exemplo, ou o campo da neurose?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendo que, quando estamos lidando com o Outro da estrutura, do fantasma, consistente, o paradigma \u00e9 atravessar, esvaziar a l\u00edngua da fantasia de seu real. Quando estamos lidando com <em>lal\u00edngua<\/em>, como quando buscamos enveredar pela \u00faltima cl\u00ednica de Lacan, qual seria a dire\u00e7\u00e3o? Como esvaziar o Outro, torn\u00e1-lo inconsistente quando j\u00e1 \u00e9 o caso? Afinal, <em>lal\u00edngua<\/em> nada mais \u00e9 que uma multiplicidade inconsistente de tra\u00e7os e experi\u00eancias sonoro-corporais.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> N\u00e3o podemos apostar no que seja poss\u00edvel em termos de montagem, bricolagem e <em>produ\u00e7\u00e3o <\/em>em vez de descompletar, desconsistir ou furar? Trata-se mais de buscar os enlaces que sustentam, estabilizam alguma conex\u00e3o como real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00daltimo exemplo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\">Era uma ves um men\u00edno que so sabia falar palavrois tipo caga boba xata besta idiota e todos os meninos ficavoo asustados o com tudo aquilo e ele ficou sem amigos e um dia ele se viu no espelho porque eu so falo palavross e disse para a main main eu so falo palavroin a maim dise que tal irmos no dentista o menino disse para a main main eu aseito a main disse que bom que voc\u00ea aseitou ela pegou o carro e os dois forao e la no dentista dise vou ter que arrancar o dente escero ele tirou depois ele foi na \u00edscola e so falava coisas mais ou menos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, aparentemente, estamos diante de um processo de perda de <em>lal\u00edngua<\/em> em detrimento da l\u00edngua. Mas, o real como perda, falta, pode eventualmente perder lugar e apresentar-se n\u00e3o mais sob a rubrica da perda e da falta, neologicamente por exemplo, como aquilo que a miragem da alfabestiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue ocultar. Vejam este ultim\u00edssimo exemplo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/06\/marcus_001.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6026\" src=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-content\/uploads\/sites\/10\/2025\/06\/marcus_001.jpg\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"117\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cIr ao Mossar\u201d pode ser tomado como chiste, dependendo da par\u00f3quia na qual se apresenta. Interessa n\u00e3o tanto que um dito interditado consiga se dizer, mas sim o que \u00e9, ali, produ\u00e7\u00e3o de realidade, mesmo que meio aberrante. O que \u00e9 o <em>Mossar<\/em>? Talvez seja um (n\u00e3o) lugar, ou um (n\u00e3o)ser, mas certamente tem exist\u00eancia e, eventualmente pode fazer la\u00e7o. N\u00e3o foi assim que surgiram, por exemplo, \u201cnonada\u201d, ou \u00a0\u201cdeu um ginge?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da rede de significantes, universal, a uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber local a partir de <em>lal\u00edngua<\/em>; do gozo do Um ao <em>haum<\/em>, um do gozo, multiplicidade de possibilidades na conting\u00eancia dos encontros; teria, a plan\u00edcie siberiana como ser, ela, o ch\u00e3o da cl\u00ednica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obrigado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto redigido para \u201cFic\u00e7\u00e3o e Canto da Fala e da Linguagem\u201d, preparat\u00f3ria do <em>XII ENAPOL \u2013 Falar com a crian\u00e7a <\/em>&#8211; e que deve muito do que avan\u00e7a \u00e0s discuss\u00f5es na comiss\u00e3o organizadora das Conversa\u00e7\u00f5es Federativas do evento, a quem agrade\u00e7o (Andrea Zelaya, Flavia C\u00eara, Gladys Mart\u00ednez, Marina Recalde, Mirmila Musse e Raquel Cors).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> AME-EBP\/AMP.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u201cDigo isso em nome dos bons velhos tempos de uma sala de plantonistas que, perdida nisso tudo, admite que sua reputa\u00e7\u00e3o de zona [<em>foutoir<\/em>] decorria apenas das can\u00e7\u00f5es ali esgani\u00e7adas. Fic\u00e7\u00e3o e canto da fala e da linguagem, se eles tivessem podido, rapazes e mo\u00e7as, permitir-se (&#8230;) dar os duzentos passos que levavam ao lugar onde falei durante dez anos. Mas nem um s\u00f3 os deu dentre aqueles a quem fui proibido.\u201d (Lacan, J. \u00a0O \u201cAturdito\u201d, <em>Outros Escritos<\/em>, Rio de Janeiro, JZE, 2003, p. 461 [<em>4c2<\/em>].<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan. J. O Semin\u00e1rio livro 18, Rio de Janeiro, JZE, 2009, p.56.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan, J. \u201cConfer\u00eancia no Centro Cultural Franc\u00eas em 30 de mar\u00e7o de 1974\u201d, publicada em Lacan in Italia 1953-1978., Mil\u00e3o, La Salamandra, 1S78, pp. 104-147.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Abaurre, M. B. et ali, Cenas de aquisi\u00e7\u00e3o da escrita, Campinas, Mercado das Letras, 1997.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> \u201cEu, considerando-se com quem falo, tive que tirar dessas cabe\u00e7as o que elas acreditam trazer do tempo da escola, sem d\u00favida dita maternal, pelo que ela tem de desmaternaliza\u00e7\u00e3o: ou seja, aprende-se a ler alfabestificando-se. Como se a crian\u00e7a, ao saber ler num desenho que se trata da girafa [girafe], e noutro, que \u00e9 macaca [guenon] que ela deve dizer, n\u00e3o aprendesse apenas que o G com que as duas se escrevem n\u00e3o tem nada a ver com o ser lido, j\u00e1 que n\u00e3o corresponde a elas (Lacan, J., Outros Escritos, p. 504<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Se algu\u00e9m sabia da linguagem que desce como uma nuvem, como a chuva da plan\u00edcie siberiana de Lacan e n\u00e3o como tra\u00e7o, impress\u00e3o, marca, por um agente do trauma, esse algu\u00e9m foi Paulo Freire.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Cf. Miller, J. A. Piezas avulsas, li\u00e7\u00e3o VI, Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2013, pp.80 e seguintes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> \u00c9 realmente necess\u00e1ria uma nova concep\u00e7\u00e3o de escrita que n\u00e3o a estrutural, ligada \u00e0 ideia de impress\u00e3o. N\u00e3o basta buscar o fora do sentido da escrita. Vejam, por exemplo: Era briluz. As lesmolisas touvas \/ Roldavam e relviam nos gramilvos&#8230; \/ E os momirratos davam grilvos. Nessas senten\u00e7as podemos supor inten\u00e7\u00f5es, agentes da a\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso dos momirratos que davam grilvos e, no sentido mais geral do poema de Lewis Carrol, de seu protagonista o Jaguadarte, o Outro feroz do poema mesmo sem entender nada do que se diz. Pode-se dizer que mesmo fora do sentido, ainda estamos com o Outro da fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 porque seguimos com a escrita como tradu\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Por isso, falamos em abertura \u00e0 conting\u00eancia ao final da an\u00e1lise. Dizer, por\u00e9m, apenas que a marca que nos define \u00e9 aleat\u00f3ria, apesar de esvaziar em parte o Outro, s\u00f3 o deixa \u201cno anonimato\u201d, mant\u00e9m sua dimens\u00e3o no ar. O Outro de lal\u00edngua \u00e9 participante, mas n\u00e3o como agente (do trauma por exemplo).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Vejam o que afirma Lacan neste sentido: (\u2026) \u201cSe eu disse que n\u00e3o h\u00e1 metalinguagem foi para dizer que a linguagem n\u00e3o existe. S\u00f3 h\u00e1 m\u00faltiplos suportes da linguagem que se denominam lal\u00edngua e o que seria necess\u00e1rio \u00e9 que a an\u00e1lise consiga, por meio de uma suposi\u00e7\u00e3o, desfazer pela fala [parole] o que foi feito pela fala\u201d (Lacan, J., O Semin\u00e1rio, livro 25 (O momento de concluir), 1S77-78, li\u00e7\u00e3o de 15\/11\/77 (in\u00e9dito).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre l\u00edngua e lal\u00edngua Marcus Andr\u00e9 Vieira[2] I Em o Aturdito, Lacan retoma e parodia o t\u00edtulo de seu texto inaugural. Em vez de Fun\u00e7\u00e3o e Campo da fala e da linguagem na psican\u00e1lise, Fic\u00e7\u00e3o e Canto. Ele retoma a preval\u00eancia da fala em nossa pr\u00e1tica, mas, com esta par\u00f3dia, op\u00f5e o modo de presen\u00e7a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[95],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6032"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6032"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6032\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6033,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6032\/revisions\/6033"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6032"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6032"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6032"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6032"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}