{"id":6069,"date":"2025-06-30T15:16:25","date_gmt":"2025-06-30T18:16:25","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=6069"},"modified":"2025-07-03T05:26:55","modified_gmt":"2025-07-03T08:26:55","slug":"rubrica-eixo-2-semblante-e-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/rubrica-eixo-2-semblante-e-real\/","title":{"rendered":"Rubrica Eixo 2 &#8211; SEMBLANTE E REAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros<br \/>\n<\/strong><strong>EBP\/AMP<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acrescentar ao falar a dimens\u00e3o do testemunho coloca em jogo a presen\u00e7a de algo que escapa ao sujeito ao falar e que\u00a0o atormenta e\u00a0vai al\u00e9m de qualquer inten\u00e7\u00e3o de comunicar.\u00a0Est\u00e1 l\u00e1 o que atormenta, o que angustia,\u00a0sem que se possa falar.\u00a0O testemunhar\u00a0requer um trabalho, a constru\u00e7\u00e3o\u00a0de uma verdade mentirosa, uma <em>histoeria<\/em><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, que torna transmiss\u00edvel\u00a0o que permite lidar com a tormenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso da fala em an\u00e1lise serve\u00a0para tratar um real\u00a0que\u00a0acossa cada um de forma bem singular.\u00a0A experi\u00eancia da fala dirigida a um analista abre a possibilidade de entrar em contato com o que\u00a0escapa, ponto de partida para cria\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o, \u201ccujo lastro \u00e9 algo que n\u00e3o cabe em palavras e n\u00e3o caber\u00e1 nunca\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Extrair\u00a0das fic\u00e7\u00f5es, das fantasias constru\u00eddas em an\u00e1lise, o imposs\u00edvel que elas\u00a0circunscrevem\u00a0\u00e9 o que d\u00e1\u00a0testemunho\u00a0do real que elas tratam. \u00c9 dessa forma que a psican\u00e1lise acolhe as fic\u00e7\u00f5es e fantasias como\u00a0pontos de apoio na articula\u00e7\u00e3o que cada um faz entre semblante e real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise se sustenta em um discurso no qual o lugar de semblante \u00e9 ocupado pelo objeto <em>a. <\/em>Nesse lugar o objeto \u00e9 \u00edndice do imposs\u00edvel de uma totalidade no n\u00edvel do sujeito e de um absoluto no n\u00edvel da verdade e do gozo. A interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, como diz Jacques-Alain Miller, introduz o imposs\u00edvel, que assegura o real no n\u00edvel da fala<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. O que faz valer ao mesmo tempo o limite da interpreta\u00e7\u00e3o. Estar advertido de que a interpreta\u00e7\u00e3o tem limite vai dar lugar a uma modalidade de escuta que privilegia a dist\u00e2ncia entre falar e escrever. \u00c9 a partir dessa dist\u00e2ncia que se pode ler o que as fic\u00e7\u00f5es e fantasias circunscrevem como imposs\u00edvel. Extrair delas uma verdade mentirosa ao longo de uma an\u00e1lise abre caminho para que a verdade esteja conectada com o real que marca o limite da fic\u00e7\u00e3o e que vai permitir consentir com uma nova forma de satisfa\u00e7\u00e3o, poss\u00edvel de trazer a marca de singularidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colocar juntas a verdade e a mentira d\u00e1 uma nova dimens\u00e3o \u00e0 verdade e \u00e0 mentira. E dessa forma permite que a verdade mentirosa tenha uma fun\u00e7\u00e3o no tratamento do real.\u00a0 A captura que pode exercer um tudo vale como verdade, tend\u00eancia do relativismo generalizado pr\u00f3prio de nossa\u00a0\u00e9poca, leva a uma degrada\u00e7\u00e3o do semblante, pois ele perde sua conex\u00e3o com o real de um gozo que carrega tanto a dimens\u00e3o da conting\u00eancia, como do imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluo com uma frase de Serge Cottet: \u201cN\u00e3o temos, ent\u00e3o, de aprovar nenhum <em>philosoph\u00e8me<\/em> relativo ao ser aut\u00eantico, nem a empurrar para o cinismo da irris\u00e3o dos semblantes\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. \u00a0Temos que apostar que a verdade mentirosa toca o real, que se transmite atrav\u00e9s dela.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, J. Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11. In: Outros Escritos. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 2003, p. 567.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Do R\u00eago Barros, R.: \u00c9 isso uma coisa? Pref\u00e1cio para o livro de Luc\u00edola Freitas de Mac\u00eado, Primo Levi: a escrita do trauma. Rio de Janeiro: Subversos, 2014.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Miller, J-A. O mon\u00f3logo da apparola. In: Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo, n.23, p. 68-76, dez. 1998.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Cottet, S. Vacillation sauvage et vacillation calcul\u00e9e. In\u00a0: Revue de psychanalyse la Cause Freudienne, n.47, p. 83.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros EBP\/AMP Acrescentar ao falar a dimens\u00e3o do testemunho coloca em jogo a presen\u00e7a de algo que escapa ao sujeito ao falar e que\u00a0o atormenta e\u00a0vai al\u00e9m de qualquer inten\u00e7\u00e3o de comunicar.\u00a0Est\u00e1 l\u00e1 o que atormenta, o que angustia,\u00a0sem que se possa falar.\u00a0O testemunhar\u00a0requer um trabalho, a constru\u00e7\u00e3o\u00a0de uma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[93],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6069"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6069"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6069\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6186,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6069\/revisions\/6186"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6069"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6069"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6069"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6069"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}