{"id":6682,"date":"2025-08-03T18:09:03","date_gmt":"2025-08-03T21:09:03","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=6682"},"modified":"2025-08-04T07:49:15","modified_gmt":"2025-08-04T10:49:15","slug":"como-a-crianca-interroga-o-amor-de-transferencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/como-a-crianca-interroga-o-amor-de-transferencia\/","title":{"rendered":"COMO A CRIAN\u00c7A INTERROGA O AMOR DE TRANSFER\u00caNCIA?"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #ff0000;\">SALA: LER O INSUPORT\u00c1VEL DA INF\u00c2NCIA<br \/>\n<\/span><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>COMO A CRIAN\u00c7A INTERROGA O AMOR DE TRANSFER\u00caNCIA?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong>\u201c\u2018<em>Diga que me ama\u2019 equivale a <\/em><em>\u00a0<\/em><em>um \u2018me d\u00e1 um ser, uma<\/em> <em>espessura de ser\u2019. O acesso ao Outro \u00e9 uma maneira de ter <\/em><em>\u00a0<\/em><em>acesso a si mesmo. Amamos aquele que responde a<\/em> <em>nossa pergunta: Quem sou eu? O <\/em><em>\u00a0<\/em><em>outro revela-se a si mesmo, nele h\u00e1 mais do que ele\u201d<\/em><em>. a nuestra pregunta: \u2018\u00bfQui\u00e9n soy?\u2019. Se revela el otro a s\u00ed mismo, en \u00e9l hay m\u00e1s que \u00e9l\u201d.<\/em> (Alberti, C. Los fundamentos de la orientaci\u00f3n lacaniana: cl\u00ednica y lectura.<em> Conferencia dictada en la clase de apertura del IOM3, <\/em>marzo 29 de 2025)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Relatores: <\/strong>Susane Zanotti (EBP) e Carolina Vignoli (NEL)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Participantes:<\/strong>\u00a0Alejandra Rossi (Buenos Aires), Amparo Barrionuevo (Ushuaia), Betsy Aricel Rivera (Chiapas), Bibiana Poggi (Recife), Daniele Menezes (Rio de Janeiro), Iv\u00e1n D\u00b4Onad\u00edo (Lima), Luc\u00eda Marquina (Buenos Aires), Siglia Le\u00e3o (S\u00e3o Paulo), Silvana Gallegos (Guayaquil), Silvia Bottazzi (Punta del Este), Veronica Montenegro (Itapema), Zindy Valencia (Arequipa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inf\u00e2ncia pode ser lida como vers\u00f5es do insuport\u00e1vel: \u201ca inf\u00e2ncia como momento e a inf\u00e2ncia como essa exig\u00eancia insuper\u00e1vel do que foi a sexualidade infantil\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>. Esta \u00faltima, como algo que nunca se atravessa, mas como uma exig\u00eancia. Portanto, seja na an\u00e1lise de uma crian\u00e7a ou de um adulto, o insuport\u00e1vel do infantil, sua rela\u00e7\u00e3o com o ilimitado, est\u00e1 em jogo. Cabe destacar uma pequena diferen\u00e7a: nas crian\u00e7as, a interven\u00e7\u00e3o do analista ocorre quando <em>a defesa ainda n\u00e3o est\u00e1 cristalizada<\/em>. O que nos oferece, como diz Miller, <em>uma oportunidade que deve ser aproveitada<\/em><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O narcisismo na \u00e9poca<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos numa \u00e9poca em que, como afirma Miller em <em>Uma Fantasia<\/em>, temos perdido a b\u00fassola do Pai como efeito da ascens\u00e3o do objeto a -produto do marketing- ao z\u00eanite da civiliza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m dos limites de qualquer regulamenta\u00e7\u00e3o de governos ou pa\u00edses. Podemos tirar as consequ\u00eancias desse movimento em n\u00edvel global, que se apresenta a n\u00f3s com guerras por toda parte e desastres da natureza manchada pela m\u00e3o do homem com a m\u00e1quina do significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que supomos que a queda da autoridade simb\u00f3lica e o comando do objeto mais de gozar t\u00eam consequ\u00eancias sobre as subjetividades da \u00e9poca. \u201cUm mundo onde o fazer e o ter prevaleceram sobre o ser\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se supomos que o narcisismo secund\u00e1rio \u00e9 consequ\u00eancia da instala\u00e7\u00e3o do Ideal do Eu como heran\u00e7a da Met\u00e1fora Paterna, e essa fun\u00e7\u00e3o declina pela falta de funcion\u00e1rios que a encarnem, haver\u00e1 dificuldades para que esse tipo de narcisismo se enra\u00edze nos sujeitos da \u00e9poca. Lacan situa o \u00c9dipo como aquilo que permite ao sujeito assumir seu pr\u00f3prio sexo &#8211; \u00e0 maneira da identifica\u00e7\u00e3o viril ou feminina-, estabilizar as rela\u00e7\u00f5es com a realidade, e tem como herdeiros o Ideal do eu e o Supereu<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. \u00c9 o que permite uma transi\u00e7\u00e3o do narcisismo prim\u00e1rio para o secund\u00e1rio. Sobre esses narcisismos, Lacan afirma que o narcisismo prim\u00e1rio \u00e9 a reserva libidinal, \u00e9 o que n\u00e3o pode ser especularizado, \u00e9 o que \u201cpermanece profundamente investido no n\u00edvel do pr\u00f3\u00adprio corpo &#8211; do narcisismo prim\u00e1rio, daquilo a que chamamos auto-erotismo, de um gozo autista\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>. Por outro lado, \u201co narcisismo secund\u00e1rio, isto \u00e9, do momento em que o <em>a<\/em> se desprende, cai de i(a), a imagem narc\u00edsica\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A queda do nome do pai atinge os corpos solit\u00e1rios, isolados em seu pr\u00f3prio autoerotismo, efeito da n\u00e3o cess\u00e3o libidinal. Lacan refere-se ao narcisismo prim\u00e1rio como um outro que definir\u00e1 suas normas \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do pr\u00f3prio corpo em sua fun\u00e7\u00e3o sedutora<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>podemos ler em nossa \u00e9poca governantes com esse modo autista, agressivo e cheio de certezas sobre sua pr\u00f3pria lei de como tratar seus semelhantes, sobretudo os diferentes, fazendo reinar a segrega\u00e7\u00e3o. Amo quem reflete minha pr\u00f3pria imagem no espelho, odeio quem \u00e9 diferente e devo aniquil\u00e1-lo. Erotomania, agressividade e morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos detalhar as consequ\u00eancias desse panorama hist\u00f3rico na cl\u00ednica. Uma colega recebe um grupo de crian\u00e7as de 5 anos que est\u00e3o em treinamento de alto rendimento para um esporte individual. Essas crian\u00e7as j\u00e1 est\u00e3o marcadas por uma vontade espec\u00edfica de seus pais, como um \u201cSer Nomeado Para\u201d. Sem a plasticidade de um desejo que poderia permitir a um ser falante encontrar o caminho a seguir por sua pr\u00f3pria escolha. Outra colega, que trabalha com menores infratores da lei, onde essas crian\u00e7as s\u00e3o abandonadas como res\u00edduos do sistema, \u00e9 questionada se ela as ama e pedem abra\u00e7os. Nesses exemplos, h\u00e1 pouco espa\u00e7o para o surgimento do sujeito e do ser, mas alguns, com a pergunta do amor, tentam faz\u00ea-lo emergir passando pelo Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cl\u00ednica, temos pessoas que Miller chama de \u201cquestionadores\u201d, at\u00e9 mesmo aqueles que n\u00e3o perguntam nada ao analista, mas sim a si mesmos. Sobre os questionadores, Miller diz que \u201ctrata-se de um tipo de sujeitos com os quais \u00e9 especialmente dif\u00edcil manobrar com a transfer\u00eancia, enquanto, ao mesmo tempo, com sua perspic\u00e1cia, eles fazem surgir o estatuto fundamental da pergunta na experi\u00eancia. A quest\u00e3o \u00e9 a demanda, \u00e9 claro\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>. Demanda que se dirige explicitamente a um saber. A forma como a crian\u00e7a questiona o amor de transfer\u00eancia pode surgir como uma pergunta dirigida ao analista. Se for esse o caso, surge a quest\u00e3o \u201cO que isso significa?\u201d mas tamb\u00e9m \u201cQuem \u00e9?\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a> \u201c(&#8230;) a pergunta estabelece a dimens\u00e3o do saber na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d.<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Transfer\u00eancia libidinal, o lugar do S2<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destacamos a transfer\u00eancia como mecanismo libidinal e intraps\u00edquico que se baseia no primeiro la\u00e7o social com o Outro. De acordo com Miller em <em>O estatuto do trauma<\/em><a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a>, \u201co sujeito n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma defesa (&#8230;) do excesso de sexualidade\u201d e prop\u00f5e que \u201co trauma \u00e9 o trauma de um sentido\u201d que se fixou para o sujeito. Ent\u00e3o, nos perguntamos: como o sujeito se defende desse excedente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1894, Freud identifica um mecanismo ao qual nomeia transposi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[xii]<\/a>. Esse transpor \u00e9 a primeira forma de transfer\u00eancia do afeto de uma representa\u00e7\u00e3o para outra. Uma representa\u00e7\u00e3o \u00e9 inconcili\u00e1vel com a realidade, o mundo ou o Outro porque implica um <em>excesso de sexualidade<\/em> insuport\u00e1vel para o sujeito, do qual ele se defende. Trata-se do quantum sexual que investe uma representa\u00e7\u00e3o que deve ser reprimida, transferindo o afeto para outra pessoa ou para o corpo como um pano metaf\u00f3rico. No caso das neuroses, o desejo materno -S1- produzir\u00e1 esse excesso sexual, que depois ser\u00e1 elidido pela opera\u00e7\u00e3o do significante do nome do pai -S2-, que permitir\u00e1 ao sujeito orientar-se pelo falo como significante do desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller afirma que se trata do \u201c&#8230; inconsciente real, o inconsciente como algo imposs\u00edvel de suportar. (&#8230;) O sujeito sai esmagado de seu encontro com a linguagem, soterrado sob o significante que o preenche. Ele renasce, <em>nasce de novo<\/em>, do chamado feito a um segundo significante. L\u00e1 est\u00e1 ele entre dois, reprimido, deslizando, ek-sistente, sujeito barrado e que se barra. Se o analista consegue se tornar esse segundo significante, consegue milagres com a crian\u00e7a<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[xiii]<\/a>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de dois estatutos do significante, como um <em>unguento<\/em>, quando aparece o par S1-S2 separado por uma hi\u00e2ncia que permite ao sujeito emergir dessa barreira, produzindo-se a extra\u00e7\u00e3o do objeto a do pr\u00f3prio corpo e perdido para sempre, ocupando o lugar do objeto causa do desejo. Lacan prop\u00f5e <em>o sujeito como aquilo que representa um significante para outro significante<\/em>, como efeito entre dois significantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito <em>esmagado pelo significante que o preenche<\/em><a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[xiv]<\/a> \u00e9 o sujeito alienado pelo desejo materno que n\u00e3o foi elidido, sem produzir um deslocamento do \u00danico gozo no corpo marcado por um S1 \u00edmpar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de o analista conseguir ocupar o lugar do S2 \u2014 lugar da transfer\u00eancia \u2014 para que a libido possa circular produz al\u00edvio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0O ser e o amor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAmamos aquele que esconde a resposta (&#8230;) \u00e0 nossa pergunta: \u201cQuem sou eu?\u201d<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[xv]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pergunta fundamental se considerarmos, com Lacan, que \u201cexistir n\u00e3o \u00e9 ser, \u00e9 depender do Outro\u201d<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[xvi]<\/a>.\u00a0 Algo do real da exist\u00eancia sustenta-se no Outro, pedir ao Outro palavras de amor. O ser n\u00e3o se sustenta apenas pelo s\u00edmbolo. No cora\u00e7\u00e3o do nosso ser encontra-se o real do sexo<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[xvii]<\/a>, trata-se do seu ser libidinal<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[xviii]<\/a>. \u201cPara Lacan, n\u00e3o se pode falar de amor sen\u00e3o onde a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica existe como tal\u201d<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[xix]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan refere que a <strong>Bejahung<\/strong>, a opera\u00e7\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o do S\u00edmbolo, \u201cconcerne a uma rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o ser, e n\u00e3o do sujeito com o mundo\u201d<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[xx]<\/a>, \u201cA Bejahung que Freud enuncia como o processo prim\u00e1rio em que o ju\u00edzo atributivo se enra\u00edza, e que n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o primordial para que, do real, alguma coisa venha se oferecer \u00e0 revela\u00e7\u00e3o do ser, (&#8230;) uma vez que \u00e9 s\u00f3 depois dele que se poder\u00e1 encontrar o que quer que seja como ente.\u201d<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\">[xxi]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destacamos o consentimento ao significante como condi\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia, e \u00e9 por isso que verificamos nas psicoses a dificuldade em subjetivar a pr\u00f3pria exist\u00eancia como efeito do recha\u00e7o \u00e0 lei do significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que o sujeito possa consentir a uma simboliza\u00e7\u00e3o primordial, o Outro de quem ele dependa deve poder acolh\u00ea-lo, deixar de tom\u00e1-lo objeto de gozo. Segundo Miller, \u201cA quest\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9 que, pela recep\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e1 o Outro, o grito bruto, o grito como peda\u00e7o da realidade, torna-se uma significa\u00e7\u00e3o do sujeito [\u2026] essa delta do grito suscita um significante do Outro e, de maneira retroativa, esse significante faz do grito, chamado\u201d. \u201cA transforma\u00e7\u00e3o do grito em chamado \u00e9 operada por S2, o significante que faz emergir o sujeito onde seu lugar original \u00e9 uma aus\u00eancia. [&#8230;] o grito cria o Outro; ou seja, cria o espa\u00e7o de resson\u00e2ncia\u201d<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\">[xxii]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A preocupa\u00e7\u00e3o com o amor na crian\u00e7a diz respeito \u00e0 sua preocupa\u00e7\u00e3o com sua inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica no lugar do Outro, o que produziria uma perda em rela\u00e7\u00e3o ao excesso de gozo da marca primordial da l\u00edngua e um apaziguamento do corpo &#8211; que se distancia do organismo &#8211; como efeito da inscri\u00e7\u00e3o do ser e da exist\u00eancia. O sujeito aparece como efeito do S2, o significante do saber, que fixa um sentido ao S1 primordial, \u201cchamamos <strong><em>efeito de transfer\u00eancia<\/em><\/strong>. Este efeito \u00e9 o <strong>amor<\/strong>\u201d<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\">[xxiii]<\/a>, diz Lacan. Um amor narcisista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O insuport\u00e1vel do infantil, na experi\u00eancia anal\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomamos um trecho do testemunho de Alejandro Reinoso para mostrar como isso pulsa e impulsiona uma an\u00e1lise levada at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO menino chega em casa depois da escola gritando a todos e a ningu\u00e9m: estou com fome! estou com fome! O av\u00f4 materno, sentado em sua poltrona, o olha fixamente nos olhos e lhe diz com um tom muito s\u00e9rio: Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9 a fome. O menino ficou com o corpo petrificado e com um efeito de vergonha em sua pr\u00f3pria voz. [\u2026] O objeto voz ficou marcado e silenciado. [\u2026] N\u00e3o se pode sair falando qualquer coisa que vem \u00e0 cabe\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\">[xxiv]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cS\u00e9rio no trabalho, angustiado pelas tem\u00e1ticas mortificantes, <strong>topava com frequ\u00eancia com um sorriso do analista que me inquietava<\/strong>. Um sorriso sem sentido. <strong>\u2018Do que ele sorri?\u2019<\/strong>, eu dizia internamente. N\u00e3o entendia, n\u00e3o havia motivo para rir. Levo um sonho estranho: estava em um restaurante chin\u00eas e saboreava um arroz que estava muito saboroso, comia com muito gosto. Era um arroz a la cantonesa (Il risso all cantonese<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\">[xxv]<\/a>). O analista, antes de que eu conclu\u00edsse o relato do sonho recorta o equ\u00edvoco Il risso al Lacan- tones, o riso a la Lacan. Neste momento ca\u00ed na risada, uma risada aberta que envolveu todo o corpo; o analista tamb\u00e9m ria. Mas o que \u00e9 isso? E o que tem a ver esse riso a la Lacan? Nenhum sentido. Escritura po\u00e9tica da interpreta\u00e7\u00e3o que tocou as tripas\u201d<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\">[xxvi]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As marcas desse gozo, que ficou fixado com um sentido traum\u00e1tico atribu\u00eddo \u00e0s palavras do av\u00f4, produzindo um corpo s\u00e9rio, im\u00f3vel e mortificado, trazem suas consequ\u00eancias para a rela\u00e7\u00e3o com o analista sob transfer\u00eancia, que vai abalando a defesa sob a manobra de um sorriso sem sentido. O sonho traz uma cena tamb\u00e9m sem sentido, mas o analista aproveita a ocasi\u00e3o para recortar algo novo no significante &#8211; em conson\u00e2ncia com o sorriso perturbador &#8211; que comove o analisante de sua posi\u00e7\u00e3o mortificada e chega at\u00e9 \u00e0s tripas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia anal\u00edtica permite ao analisante sustentar uma investiga\u00e7\u00e3o sobre suas marcas da \u201cinf\u00e2ncia como essa exig\u00eancia insuper\u00e1vel do que foi a sexualidade infantil\u201d<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\">[xxvii]<\/a> al\u00e9m dos v\u00e9us que o amor lan\u00e7a sobre o pr\u00f3prio gozo insuport\u00e1vel como ponto de extimidade. O analista tem a oportunidade de se tornar parceiro dessas marcas que falam no corpo para causar no analisante sua leitura e muta\u00e7\u00e3o. Elas s\u00e3o tratadas por meio da produ\u00e7\u00e3o de um S2 em transfer\u00eancia. Para isso, o analista perturba a defesa com suas manobras, para produzir que esse saber percuta o corpo. Tal como nos mostra o sorriso perturbador do analista de Alejandro, obtendo uma muta\u00e7\u00e3o de gozo que permite ao analisante passar do sintoma como p\u00e1thos para o sinthome como um arranjo mais leve e viv\u00edvel.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Laurent, E., Lo insoportable de la infancia. Entrevista realizada por Raquel Cors Ulloa, Bit\u00e1cora Lacaniana, Revista de la Nueva Escuela Lacaniana No. 9, julio 2021, p. 297.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Miller, J-A. Prefacio. In: Bonnaud, H. El inconsciente del ni\u00f1o. Del s\u00edntoma al deseo de saber. Espanha: Gredos, 2014.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Alberti, C., 2025, <em>op. cit<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente (1957-58). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia (1962- 1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, Li\u00e7\u00e3o de 05\/12\/1962, p. 55.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Lacan, J. (1962- 1963), op. cit., Li\u00e7\u00e3o de 27\/03\/1963, p. 225.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> Cfr. Lacan, J. (1962- 1963), op. cit. p. 55.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> Miller, J.-A. Los preguntones (1984). In: Introducci\u00f3n a la cl\u00ednica lacaniana. Confer\u00eancias em Espanha. Barcelona: RBA Libros, 2007. p. 63.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> Miller, J.-A. 2007, <em>op. cit<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> <em>Ibidem.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> Miller, J.-A. O estatuto do trauma. &lt;<a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/o-estatuto-do-trauma\/\">https:\/\/enapol.com\/xii\/o-estatuto-do-trauma\/<\/a>&gt;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a> Freud, S. <em>\u201cLas Neuropsicosis de Defensa\u201d<\/em> (1894). Amorrortu Vol III, Arg. p\u00e1g 50. \u201cEn la histeria, el modo de volver inocua la representaci\u00f3n inconciliable es <strong>trasponer a<\/strong> lo corporal la suma de excitaci\u00f3n\u2026\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[xiii]<\/a> Miller, J-A., 2014. op. cit.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[xiv]<\/a> <em>Ibidem.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[xv]<\/a> Miller, J-A. Entrevista. &lt;<a href=\"https:\/\/www.revconsecuencias.com.ar\/ediciones\/006\/template.php?file=arts\/alcances\/Amamos-a-aquel-que-responde-a-nuestra-pregunta-Quien-soy-yo.html\">https:\/\/www.revconsecuencias.com.ar\/ediciones\/006\/template.php?file=arts\/alcances\/Amamos-a-aquel-que-responde-a-nuestra-pregunta-Quien-soy-yo.html<\/a>&gt;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 19: \u2026ou pior. (1971-1972). Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. Li\u00e7\u00e3o de 03\/03\/1972, p. 103.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[xvii]<\/a> Lacan, J. 1971-1972\/2012, <em>op. cit.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[xviii]<\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 1: os escritos t\u00e9cnicos de Freud (1953-1954). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986, Li\u00e7\u00e3o de 24\/03\/1954, p. 148.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[xix]<\/a> Alberti, C. 2025, <em>op. cit.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[xx]<\/a> Lacan, J. Resposta ao coment\u00e1rio de Jean Hyppolite sobre a \u201cVerneinung\u201d de Freud. In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 384.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[xxi]<\/a> <em>Ibidem.<\/em> p. 389-390.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[xxii]<\/a> Miller, J.-A. Los signos del goce. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1998. p. 111-113. Li\u00e7\u00e3o de 07\/01\/1987.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref23\" name=\"_edn23\">[xxiii]<\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 239, Li\u00e7\u00e3o de 17\/06\/1964.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref24\" name=\"_edn24\">[xxiv]<\/a> Reinoso, A. \u201cOu\u00efr\u201d, Bit\u00e1cora Lacaniana n. 8, Buenos Aires, Grama, 2019, p. 39.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref25\" name=\"_edn25\">[xxv]<\/a> Em italiano no original. A an\u00e1lise de Reinoso foi em italiano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref26\" name=\"_edn26\">[xxvi]<\/a> <em>Ibidem.<\/em> p. 43.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref27\" name=\"_edn27\">[xxvii]<\/a> Laurent, E., 2021, <em>op. cit.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SALA: LER O INSUPORT\u00c1VEL DA INF\u00c2NCIA COMO A CRIAN\u00c7A INTERROGA O AMOR DE TRANSFER\u00caNCIA? &nbsp; \u00a0\u201c\u2018Diga que me ama\u2019 equivale a \u00a0um \u2018me d\u00e1 um ser, uma espessura de ser\u2019. O acesso ao Outro \u00e9 uma maneira de ter \u00a0acesso a si mesmo. Amamos aquele que responde a nossa pergunta: Quem sou eu? 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