{"id":6698,"date":"2025-08-03T18:15:31","date_gmt":"2025-08-03T21:15:31","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/como-se-depositam-as-marcas-de-gozo\/"},"modified":"2025-08-04T07:49:08","modified_gmt":"2025-08-04T10:49:08","slug":"como-se-depositam-as-marcas-de-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/como-se-depositam-as-marcas-de-gozo\/","title":{"rendered":"COMO SE DEPOSITAM AS MARCAS DE GOZO?"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\">SALA: LER O INSUPORT\u00c1VEL DA INF\u00c2NCIA<br \/>\n<span style=\"color: #ff0000;\"><strong>COMO SE DEPOSITAM AS MARCAS DE GOZO?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u201c(&#8230;) seria necess\u00e1rio que o analista possa ler sobre o corpo da crian\u00e7a como se<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>depositam as marcas de gozo que elas receberam, que encontraram, que as<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>atravessaram, que foram escritas\u201d<\/em> (Laurent, E. Lo insoportable de la infancia. Entrevista \u00a0realizada por Raquel Cors Ulloa. <em>Bit\u00e1cora Lacaniana<\/em><em>.<\/em> Revista de la Nueva Escuela Lacaniana No. 9, julio 2021, p. 297)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Relatores:<\/strong> Mar\u00eda Teresa Russi (Membro NEL) e Liliana Aguilar (Membro EOL)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Participantes<\/strong>: \u00c1lvaro Rend\u00f3n (Guayaquil), Aurora Valladares (Ciudad de Guatemala), Caroline Quixabeira (Goi\u00e2nia), Eugenia Dest\u00e9fanis (C\u00f3rdoba), Fernando Espa\u00f1a (Ciudad de M\u00e9xico), Gonzalo Dom\u00ednguez (Mendoza), J\u00falia Solano (Salvador), Katya Schwazenberg (Santiago de Chile), Marcela Di Bella (Tandil), M\u00f4nica Campos (Belo Horizonte), Nelson Matheus Silva (Recife), Sasha Santrovichi (Misiones).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas perguntas simples iniciaram, sustentaram e orientaram o trabalho de cada uma de nossas reuni\u00f5es: O que entendemos por insuport\u00e1vel? O que entendemos quando falamos da inf\u00e2ncia? O que entendemos quando dizemos marcas de gozo? Essas perguntas recortam os tr\u00eas S1: insuport\u00e1vel \/ inf\u00e2ncia \/ marcas, que fazem parte de nossa l\u00edngua comum e que muitas vezes damos por compreendido. Foi preciso ent\u00e3o sair do sentido comum, para poder dar lugar a um n\u00e3o saber, tamb\u00e9m comum, em torno do qual foi poss\u00edvel escrever nosso pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O insuport\u00e1vel, um toque do real<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para interrogar o insuport\u00e1vel partimos do par\u00e1grafo que foi proposto pela Comiss\u00e3o Organizadora para apresentar o eixo tem\u00e1tica de nossa sala onde o insuport\u00e1vel se articula com o real, com o infantil e com o ilimitado: \u201c<em>O termo \u2018insuport\u00e1vel\u2019 acentua o toque do real que deve ser reintroduzido sempre, ao considerar o infantil. O insuport\u00e1vel na sexualidade infantil \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com o ilimitado. Por isso, sua insuper\u00e1vel exig\u00eancia \u00e9 sempre recha\u00e7ada, assim como <\/em><em>a do gozo chamado de feminino<\/em> (&#8230;)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud n\u00e3o s\u00f3 reconhece a sexualidade infantil, como tamb\u00e9m identifica um gozo que \u00e9 pr\u00f3prio e que define como polimorfo. A crian\u00e7a como perverso polimorfo implica que sua satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se reduz a um objeto ou a uma meta sexual, sen\u00e3o que se manifesta de diversas formas e se experimenta no corpo para al\u00e9m de uma ou outra zona er\u00f3gena.\u00a0 Esse gozo polimorfo se trata de um gozo n\u00e3o unificado, disperso, descentralizado<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, um gozo que n\u00e3o se reduz \u00e0 norma f\u00e1lica, um gozo sem norma, sem limite, ilimitado, uma vez que n\u00e3o conta com o limite proporcionado pelo falo. A esse gozo que Freud define como polimorfo, Lacan o chamou de feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, por qu\u00ea esse gozo seria insuport\u00e1vel ou, em todo caso, digamos assim,\u00a0o que \u00e9 isto que seria insuport\u00e1vel e que estaria em rela\u00e7\u00e3o com o ilimitado do gozo? O que Freud nos ensina de in\u00edcio \u00e9 que o encontro com o sexual tem o car\u00e1ter de um mau encontro. A sexualidade chega como uma perturba\u00e7\u00e3o, como uma exalta\u00e7\u00e3o, como um excedente e \u00e9 isso o que chamamos de trauma. Isso \u00e9 o que J. A. Miller elabora em seu texto de orienta\u00e7\u00e3o proposto \u201c<em>O estatuto do trauma<\/em>\u201d, quando recupera a express\u00e3o freudiana \u201c<em>excedente sexual<\/em>\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>A tese de Freud, a respeito da causalidade do recalque, \u00e9 que este se deve ao despertar de um excesso de sexualidade (Sexuell\u00fcberschuss) que suscita uma defesa. Por isso, h\u00e1 recalque. N\u00e3o nos defendemos da \u201cp\u00e1gina da vergonha que se esquece ou se anula\u201d, mas do excesso. Por esta via, Lacan chegar\u00e1 a reconhecer que o sujeito n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma defesa; que o sujeito se constitui, primordialmente, como um \u201cn\u00e3o\u201d, como uma nega\u00e7\u00e3o \u2013 e voc\u00eas sabem que Lacan estender\u00e1 a nega\u00e7\u00e3o at\u00e9 incluir, nela, a elis\u00e3o. Todo esse assunto est\u00e1 na linha da articula\u00e7\u00e3o freudiana: defendemos-nos de um excesso de sexualidade<\/em>.\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos dizer que se nos defendemos do excedente \u00e9 porque isso nos resulta insuport\u00e1vel. Podemos dizer tamb\u00e9m que o insuport\u00e1vel tem a ver com esse excesso que Lacan conceitualiza como gozo, um gozo inassimil\u00e1vel que produz o encontro, melhor dito, o mau encontro com o sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller traduz o excedente sexual freudiano pelo <em>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual <\/em>lacaniano, e o prop\u00f5e como f\u00f3rmula do <em>trouma<\/em>: \u201c<em>Eis a vers\u00e3o \u00faltima do trauma sexual em Lacan: n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>.\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Essa \u00faltima vers\u00e3o faz valer o que n\u00e3o h\u00e1, isto \u00e9, a dimens\u00e3o do furo que implica todo trauma. Por isso Lacan inventa o neologismo <em>troumatisme <\/em>\u00a0que condensa em franc\u00eas <em>trou<\/em> (furo) e traumatismo. No Semin\u00e1rio 21, o encontramos especialmente formulado quando disse: \u201c<em>Todos inventamos um truque para encher o trou no real. Ali onde n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, isso produz troumatisme. Se inventa. Se inventa o que se pode, claro<\/em>.\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trauma re\u00fane, ent\u00e3o, essas duas perspectivas em que se encontram <em>o que h\u00e1<\/em> e <em>o que n\u00e3o h\u00e1,<\/em> o <em>h\u00e1<\/em> do excedente sexual e o <em>n\u00e3o h\u00e1<\/em> da rela\u00e7\u00e3o sexual, o <em>troumatisme<\/em> (furo) e o <em>tropmatisme<\/em> (excedente)<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Duas dimens\u00f5es que confluem em uma marca que fixa um gozo, que persiste e que insiste ao longo de toda uma vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A inf\u00e2ncia n\u00e3o desaparece<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal como prop\u00f5e Eric Laurent, quando falamos de inf\u00e2ncia, podemos distinguir duas vertentes: \u201c<em>a inf\u00e2ncia como um momento que atravessa um sujeito e, por outro lado, algo que nunca se atravessa, que fica, que se deposita, um modo de exig\u00eancia do que foi em um momento e que n\u00e3o desaparece, que se mant\u00e9m como exig\u00eancia<\/em>.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No texto de orienta\u00e7\u00e3o, J. A. Miller prop\u00f5e ler o trauma a partir da sincronia e n\u00e3o da diacronia. Se o primeiro ensino de Lacan apontava para uma historiza\u00e7\u00e3o, no final de seu ensino, dir\u00e1 que n\u00e3o devemos nos aproximar da hist\u00f3ria, pelo contr\u00e1rio, se busca em todo caso o sem sentido. Desde essa perspectiva, a inf\u00e2ncia deixa de ser exclusivamente um fato de hist\u00f3ria para passar a uma presen\u00e7a viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inf\u00e2ncia de que falamos \u00e9 a que vive em cada um, \u00e9 a que vive no corpo falante. A inf\u00e2ncia de que falamos \u00e9 essa fixa\u00e7\u00e3o de gozo que itera, presen\u00e7a que fala de uma experi\u00eancia inapag\u00e1vel. Como foi dito no argumento deste Enapol, \u201c<em>falar com a crian\u00e7a \u00e9 falar da coisa louca, do gozo como tal, do real que na experi\u00eancia da fala s\u00f3 surge enquanto virtualidade, mat\u00e9ria do \u2018todo mundo \u00e9 louco\u2019 pois a lal\u00edngua do parl\u00eatre \u00e9 a crian\u00e7a que vive no corpo falante, presen\u00e7a que fala de uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel, insond\u00e1vel, e que participa da tessitura das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, da sua equivocidade<\/em>.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As marcas de gozo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partimos de uma afirma\u00e7\u00e3o: uma marca de gozo \u00e9 uma marca indel\u00e9vel, isto \u00e9, uma escritura. J. A. Miller recupera o termo lacaniano para definir o que \u00e9 uma marca de gozo: \u201c<em>\u2018Estigma\u2019 \u00e9 um termo excelentemente escolhido: designa as feridas, as marcas, as impress\u00f5es, as cicatrizes, as pegadas; evoca o termo trauma e, ao mesmo tempo, \u00e9 o ponto de fixa\u00e7\u00e3o, como se expressa Freud cada vez que fala de fixa\u00e7\u00e3o.\u201d <\/em>Uma marca de gozo, ent\u00e3o, <em>\u201cevoca o termo \u2018trauma\u2019 e, ao mesmo tempo, \u00e9 o ponto de fixa\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos dizer ent\u00e3o que a crian\u00e7a vive no corpo falante atrav\u00e9s das marcas de gozo que se fazem presentes na repeti\u00e7\u00e3o \u201c<em>&#8230;aquilo que a repeti\u00e7\u00e3o busca repetir \u00e9 precisamente o que se escapa atrav\u00e9s da fun\u00e7\u00e3o da marca. A marca \u00e9 original na fun\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o. A repeti\u00e7\u00e3o s\u00f3 se exerce a partir disso: que a marca se repita. Mas por que a marca provoca a repeti\u00e7\u00e3o buscada? Porque o que \u00e9 buscado \u00e9 o que a marca marcou da primeira vez<\/em>\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ler o insuport\u00e1vel da inf\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tr\u00eas eixos que nos propomos &#8211; o insuport\u00e1vel, o infantil e as marcas de gozo -,\u00a0 t\u00eam, tal como desenvolvemos nos pontos anteriores, cada um sua especificidade, mas t\u00eam tamb\u00e9m um fator comum: o trauma. Neste sentido, se \u201c<em>falar com a crian\u00e7a \u00e9 falar com o trauma<\/em>\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>, tal como prop\u00f5e Irene Kuperwajs nos textos preparat\u00f3rios, podemos seguir essa linha e dizer que falar com a crian\u00e7a \u00e9 falar com as marcas de gozo, e tamb\u00e9m, que falar com a crian\u00e7a \u00e9 falar com o que para cada um resultou insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos perguntamos, ent\u00e3o, como ler cada um desses termos em suas especificidades, mas tamb\u00e9m formando parte de um acontecimento. Nos perguntamos como l\u00ea-los quando se entrecruzam em uma l\u00f3gica, na l\u00f3gica de um caso. Nos perguntamos tamb\u00e9m como ler, o que implica a opera\u00e7\u00e3o de leitura. Com estas perguntas nos aproximamos de tr\u00eas testemunhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cDupla pena\u201d de H\u00e9l\u00e8ne Bonnaud<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O testemunho de H\u00e9l\u00e8ne Bonnaud nos ensina a distinguir duas marcas de gozo que repercutem no corpo de maneiras diferentes. Uma marca se desprende do que ela chama de \u201c<em>um rumor materno<\/em>\u201d para aludir \u00e0 queixa da m\u00e3e frente sua chegada ao mundo. Essa marca fixa um gozo pulsional oral que encontra seu apogeu na adolesc\u00eancia com um sintoma de anorexia-bulimia e que a an\u00e1lise lhe permite atravessar e esclarecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, algo resistia \u00e0 an\u00e1lise. \u201c<em>Algo concernente a uma irrup\u00e7\u00e3o no corpo de uma sensa\u00e7\u00e3o de queda, seguia sendo imposs\u00edvel de nomear. Se apresentava de um modo disruptivo e angustiante, manifesta\u00e7\u00e3o fora de sentido, inapreens\u00edvel<\/em>.\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> A segunda marca, a que se desprende do dizer paterno, \u201c<em>se \u00e9 menina, a jogaremos pela janela<\/em>\u201d revelou ser um acontecimento de palavra que repercutiu, j\u00e1 n\u00e3o na borda, mas em todo o corpo. \u00c9 a partir dessa frase que fica como \u201c<em>um elemento n\u00e3o inistoriciz\u00e1vel<\/em>\u201d <a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>, que ela p\u00f4de capturar Outro gozo. Outro gozo que enla\u00e7a uma satisfa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 para al\u00e9m da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional e mais pr\u00f3ximo dessa zona de trauma. Esse Outro gozo ilimitado que, tal como o assinalamos, Lacan chamou feminino, revela a proximidade do trauma e do feminino.<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO insuport\u00e1vel da angustia\u201d de Victoria Horne<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Freud passa da teoria do trauma ao fantasma de sedu\u00e7\u00e3o, passa de uma rela\u00e7\u00e3o causa-efeito entre o trauma e os sintomas para uma rela\u00e7\u00e3o <em>d\u2019apr\u00e9s coup<\/em>. Assim podemos entender o que Lacan disse quando formula que o trauma est\u00e1 implicado no sintoma e \u201c<em>mostra uma estrutura temporal de ordem mais elevada<\/em>\u201d<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O testemunho de Victoria Horne d\u00e1 \u00eanfase a essa outra temporalidade, onde a partir da repeti\u00e7\u00e3o e sua ressignifica\u00e7\u00e3o em um <em>apr\u00e9s coup <\/em>toma corpo o programa de gozo. \u00c9\u00a0 o <em>nachtr\u00e4glichkeit <\/em>freudiano. \u201c<em>A an\u00e1lise procede no sentido inverso da vida. Partimos das consequ\u00eancias, sintomas, efeitos para logo remontarmos, pouco a pouco, em dire\u00e7ao ao que funcionou como \u2018n\u00facleo traum\u00e1tico\u2019, tratando de elucidar quais foram as coordenadas e conting\u00eancias da percuss\u00e3o dos significantes no corpo.<\/em>\u201d<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dessa perspectiva, entendemos que \u201c<em>ler um sintoma<\/em>\u201d aponta para \u201c<em>ler este choque inicial<\/em>\u201d<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>. J. A. Miller nos ensina que o que se l\u00ea n\u00e3o \u00e9 um sentido, mas um fora de sentido, como <em>Anzeichen, <\/em>como letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO necess\u00e1rio e o imposs\u00edvel\u201d de D\u00e9bora Rabinovich<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O testemunho de D\u00e9bora Rabinovich nos permite localizar os dois tempos do trauma que o pr\u00f3prio Freud prop\u00f5e de in\u00edcio. Um primeiro momento, onde ela localiza o imposs\u00edvel, \u201c<em>o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever<\/em>\u201d e um segundo momento, onde localiza o necess\u00e1rio \u201c<em>o que n\u00e3o cessa de se escrever<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Domingo pela manh\u00e3. Momento tranquilo, agrad\u00e1vel. Somente minha m\u00e3e e eu. Ela se arruma em frente ao espelho de seu banheiro. Eu a observava. Uns raios de sol entravam pela janela. Toca o telefone. Naquela \u00e9poca eram fixos. Tive que ir at\u00e9 seu quarto para atender. Ainda n\u00e3o haviam levantado as cortinas. O quarto estava escuro e com a cama toda bagun\u00e7ada. Levanto o telefone. A\u00ed, a interrup\u00e7\u00e3o do inesperado. Uma voz feminina me disse: \u2018D\u00e9bora, ol\u00e1! Sou a namorada de seu pai\u2019. Essa liga\u00e7\u00e3o me fraturou<\/em>.\u201d<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 ali, o primeiro tempo, o acontecimento acidental, um <em>tiqu\u00ea<\/em>, um imprevisto, uma perplexidade. O segundo tempo, \u00e9 a resposta. A m\u00e3e pergunta quem era e ela responde: \u201c<em>N\u00e3o sei, ningu\u00e9m<\/em>!\u201d. A partir dali, o \u201c<em>n\u00e3o sei<\/em>\u201d se fixou como sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos concluir este percurso com uma cita\u00e7\u00e3o de Lacan que \u00e9 epigrafe do testemunho de D\u00e9bora: \u201c<em>O sujeito est\u00e1 a\u00ed, nessa coisa escura que chamamos seja de trauma, seja de prazer esquisito<\/em>\u201d<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>. A partir da perspectiva de nosso tema, podemos dizer que o sujeito est\u00e1 a\u00ed onde est\u00e1 a crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Caroline Quixabeira<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">Revis\u00e3o: Nelson Matheus Silva<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>Laurent, E., \u201cLo insoportable de la infancia\u201d, <em>op.cit<\/em>. p. 297.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Freud, S., \u201cCarta 46\u201d, Obras Completas, Amorrortu, Buenos Aires, 1992, Vol. 1.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., \u201cO estatuto do trauma\u201d. Link: \u00a0<a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/orientacao-lacaniana\/\">https:\/\/enapol.com\/xii\/orientacao-lacaniana\/<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Ibid<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Lacan, J., Seminario 21 \u201cLes non dupes errent\u201d, in\u00e9dito, Clase del 19\/02\/74.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Vidigal, C., Preparatoria \u201cFicci\u00f3n y canto del habla y del lenguaje\u201d. Link: \u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/live\/ou2S7ZmeZJM\">https:\/\/www.youtube.com\/live\/ou2S7ZmeZJM<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Laurent, E., \u201cLo insoportable de la infancia\u201d, <em>op.cit<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., \u201cO estatuto do trauma\u201d, <em>op.cit<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Lacan, J., \u201cO Semin\u00e1rio, livro 14: A l\u00f3gica do fantasma&#8221;. Rio de Janeiro: Zahar, 2024, p. 40.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Kuperwajs, I., \u201cAprender a hablar con eso\u201d,\u00a0 <a href=\"https:\/\/enapol.com\/xii\/aprender-a-falar-com-isso1\/\">https:\/\/enapol.com\/xii\/aprender-a-falar-com-isso1\/<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Bonnaud, H., \u201cDoble condena\u201d, <em>Lo real puesto al d\u00eda en el siglo XXI<\/em>, Buenos Aires, Grama, AMP\/WAP, 2014, pp.147-150.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., \u00ab\u00a0L\u2019esp d\u2019un lapsus. L\u2019esp d\u2019un hallucination\u00a0\u00bb, <em>Quarto N\u00b090<\/em>, ECF, Bruselas, Julio 1990, p.14.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Salman, S., \u201cEl trauma y lo femenino\u201d, <em>Trauma y defensa. Cuadernos del ICDEBA 36.<\/em> Buenos Aires, p. 322.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>\u00a0 Lacan, J., (1964) \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d. In: <em>Escritos,<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, p. 853.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> Horne, V., \u201cLo insoportable de la angustia\u201d. In: <em>Bit\u00e1cora Lacaniana, Revista de la Nueva Escuela Lacaniana N\u00b09, J<\/em>ulio 2021, p. 163-176.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> Miller, J.-A., (2001) \u201cLeer un s\u00edntoma\u201d, <em>op. cit<\/em>., p.17.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> Rabinovich, D., \u201cLo necesario y lo imposible\u201d. In: <em>Mediodicho N\u00b041, Revista anual de <\/em><em>Psicoan\u00e1lisis, <\/em>Publicaci\u00f3n de la EOL Secci\u00f3n C\u00f3rdoba, 2015, pp.124-130.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a> Lacan, J., (1966) Conferencia en Baltimore, <a href=\"http:\/\/elpsicoanalisis.elp.org.es\/category\/numero-3031\/conferencia-de-baltimore\/\">http:\/\/elpsicoanalisis.elp.org.es\/category\/numero-3031\/conferencia-de-baltimore\/<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SALA: LER O INSUPORT\u00c1VEL DA INF\u00c2NCIA COMO SE DEPOSITAM AS MARCAS DE GOZO? \u00a0 \u201c(&#8230;) seria necess\u00e1rio que o analista possa ler sobre o corpo da crian\u00e7a como se depositam as marcas de gozo que elas receberam, que encontraram, que as atravessaram, que foram escritas\u201d (Laurent, E. Lo insoportable de la infancia. 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