{"id":6722,"date":"2025-08-03T18:59:36","date_gmt":"2025-08-03T21:59:36","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/el-colador-y-el-lenguaje\/"},"modified":"2025-08-04T07:45:44","modified_gmt":"2025-08-04T10:45:44","slug":"a-peneira-e-a-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/a-peneira-e-a-linguagem\/","title":{"rendered":"A PENEIRA E A LINGUAGEM"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\">SALA: O \u201cTALVEZ\u201d DA CRIAN\u00c7A E SUA LOUCURA<br \/>\n<span style=\"color: #ff0000;\"><strong>A PENEIRA E A LINGUAGEM<\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u201cO fato de que uma crian\u00e7a diga talvez, ainda n\u00e3o, antes mesmo de ser capaz de<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>construir verdadeiramente uma frase, prova que h\u00e1 algo nela: uma peneira que se<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>atravessa, por onde a \u00e1gua da linguagem chega a deixar algo na passagem, alguns<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>detritos com os quais ela vai brincar, com os quais, necessariamente, ela ter\u00e1 que lidar.&#8221; <\/em>(Lacan, J. Confer\u00eancia de Genebra.<em> Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 23. S\u00e3o Paulo: Eolia,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">dezembro de 1998, p. 11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Relatores:<\/strong> Aliana Santana (NEL) e Cristiane Barreto (EBP)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Participantes:<\/strong> Andressa Luz (S\u00e3o Paulo), Areli Leeworio (Ciudad de M\u00e9xico), Carlos Ch\u00e1vez (Bogot\u00e1), Carmen Palmieri (Buenos Aires), Fernanda Baptista (Curitiba), Jorge Santiago (Chiapas), Maria Antunes Tavares (Rio de Janeiro), Mar\u00eda Luj\u00e1n Ros (Buenos Aires), Mat\u00edas Mazzotta (Buenos Aires), Rafaela Oliveira Quixabeira (Goi\u00e2nia), Ra\u00fal Sabbagh (Ciudad de M\u00e9xico), Ver\u00f3nica Fern\u00e1ndez (Venado Tuerto).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201ctalvez\u201d da crian\u00e7a e sua loucura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan , na Confer\u00eancia de Genebra, aborda o sintoma como o detrito da peneira da \u00e1gua da linguagem sob o corpo. Nessa confer\u00eancia, Lacan fala com a crian\u00e7a. Mais precisamente, diz que ao observ\u00e1-las, repara que dizem \u201ctalvez\u201d, &#8220;ainda n\u00e3o\u201d, antes mesmo de constru\u00edrem uma frase<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio Um, Lacan interroga \u201ccomo esse mundo se p\u00f5e em movimento\u201d e \u201co que representa o apelo no campo da palavra\u201d, responde: \u201cPois bem, \u00e9 a possibilidade da recusa. Eu digo, a possibilidade.&#8221;<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra \u201ctalvez\u201d \u00e9 um adv\u00e9rbio de d\u00favida, indica incerteza ou possibilidade, carrega como sin\u00f4nimo n\u00e3o apenas o ocasional, o que eventualmente acontece ou poder\u00e1 acontecer, mas tamb\u00e9m o fortuito, o contingente. A equa\u00e7\u00e3o de dizer \u201ctalvez\u201d antes mesmo de construir uma frase, atesta a exist\u00eancia dos restos com os quais a crian\u00e7a brinca, experimenta e lidar\u00e1 mais tarde. Registro de atividade n\u00e3o-refletida, restos aos quais somar\u00e3o \u201cos problemas do que a vai assustar\u201d, gra\u00e7as a isso, far\u00e1 a soldadura, a jun\u00e7\u00e3o da realidade sexual e da linguagem<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O talvez da crian\u00e7a expressa possibilidades, que ela pode inclusive usar sem saber o que diz, ou fora de contexto, \u00e9 a sensibilidade das formas de dizer que a circunda. Para Lacan, \u201co detrito \u00e9 o ponto a ser retido, n\u00e3o s\u00f3 como sinal, mas como algo essencial\u201d, pois \u00e9 em torno disso que vai girar a aliena\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aprende-se a falar com as part\u00edculas da l\u00edngua materna. A apari\u00e7\u00e3o da linguagem \u00e9 consentimento com o que vem do Outro e o registro da insond\u00e1vel decis\u00e3o do ser. Das palavras que comp\u00f5e a linguagem, resta a resson\u00e2ncia no corpo e o modo singular com que cada um usa a l\u00edngua, carregando enxurrada de restos inassimil\u00e1veis. O n\u00e3o simbolizado se expresar\u00e1 no sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que resta na peneira do cruzamento entre gozo e significante ter\u00e1 lugar est\u00e1vel no corpo como equ\u00edvocos ou no mal-entendido que se instala quando uma crian\u00e7a diz \u201ctalvez\u201d. Vem da\u00ed, do leito do rio da linguagem que banha cada crian\u00e7a e dos seus afluentes, materiais que concernem ao \u201cgrau zero do ser, mas fragment\u00e1rio, feito de esparsos disparatados e bricolagens prec\u00e1rias\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sutilezas: o talvez e o real da mensagem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa hip\u00f3tese de partida \u00e9, com Lacan, que entre homens e mulheres n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o produto do instinto, o la\u00e7o se funda na inscri\u00e7\u00e3o da linguagem \u00e0 massa org\u00e2nica do ser vivente, a mesma que ter\u00e1 o alcance de transformar organismo em corpo falante. Quando a crian\u00e7a diz, talvez, ou ainda n\u00e3o, j\u00e1 est\u00e1 em jogo o gozo pr\u00f3prio do corpo, efeito da opera\u00e7\u00e3o do passo do organismo ao corpo.<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando uma crian\u00e7a chega ao mundo, n\u00e3o o faz sem que j\u00e1 havia sido falada. Para o bem ou para o mal, com ou sem desejo j\u00e1 falaram dele. \u00c9 importante assinalar, talvez por sua obviedade, que quando um beb\u00ea \u00e9 falado, implica que algu\u00e9m, distinto do beb\u00ea, fa\u00e7a uso da linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem \u00e9 composta da somat\u00f3ria da l\u00edngua mais o elemento social que a normaliza. A crian\u00e7a \u00e9 capturada pela estrutura de linguagem que preexiste, experimentado como lal\u00edngua. Os efeitos de lalingua \u201cvai bem al\u00e9m de tudo que o ser que fala \u00e9 suscet\u00edvel de enunciar\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da captura do ser vivo pelo simb\u00f3lico, Lacan coloca em quest\u00e3o o la\u00e7o entre o corpo e a linguagem, enfatiza o dizer que fica esquecido por tr\u00e1s do que se diz e s\u00f3 pode ser capturado pelo que se ouve<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>. Na vertente da fala, a \u00fanica materialidade \u00e9 que se diga, porque o dizer inclui o corpo. Que se diga alguma coisa, remete ao objeto <em>a<\/em>, causa de desejo, que impele a crian\u00e7a a dizer. O \u201creal da mensagem inconsciente\u201d \u00e9 definido \u201cdos efeitos do significante que lhe escapa\u201d.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a> O dizer inclui a enuncia\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio ato de dizer, feito de rela\u00e7\u00f5es, elo das pessoas ao social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a l\u00edngua \u00e9 \u201cmultiplicidade inconsistente de fic\u00e7\u00e3o mutante\u201d, compartilhada entre os que falam a mesma l\u00edngua, por sua vez, a inven\u00e7\u00e3o de \u201clal\u00edngua\u201d aponta a babel subjetiva, mostrando que falar serve mais ao gozo que ao entendimento.<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a> Essencialmente privada, lal\u00edngua \u00e9 cora\u00e7\u00e3o da singularidade; uma gambiarra que cola, recorta, colore \u201cbalbucios, retalhos de palavras escutadas, significantes amo, entona\u00e7\u00f5es, sotaques\u201d, \u201cn\u00facleo imposs\u00edvel de compartilhar\u201d, tanto ponto de inser\u00e7\u00e3o, quanto de exclus\u00e3o.<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 considerada como um sistema origin\u00e1rio, mas como derivado de lalingua. O infans recebe aluvi\u00f5es de sem sentido e seu corpo se afeta. Balbucia aquilo que mais adiante na vida n\u00e3o dar\u00e1 conta de dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramos em um testemunho de passe de Irene Kuperwajs uma enuncia\u00e7\u00e3o que ensina. Irrompe na mem\u00f3ria um significante primordial esquecido por d\u00e9cadas, de um remoto acontecimento de corpo. \u201cDurante os primeiros seis meses de vida, tive <em>\u00a8espasmosdesollozo\u00a8,<\/em> sempre escutado ao modo de uma hol\u00f3frase\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[xii]<\/a>. Os pais contavam que ela ficava azul e deixava de respirar, retinha o ar e a voz, o grito e o pranto os enlouquecia. Por muito tempo, Irene tentou obter a \u00faltima palavra sobre esse trauma, at\u00e9 que a analista pontua: \u00a8responde \u00e0 insond\u00e1vel decis\u00e3o do ser\u00a8. Reter, em vez de gritar. Entre os gritos maternos que representavam o gozo ilimitado e o sil\u00eancio do pai&#8230;o <em>\u00a8espasmodesollozo\u00a8.<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\"><strong>[xiii]<\/strong><\/a> <\/em>A insond\u00e1vel decis\u00e3o do ser fixa esse gozo ao sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acontecimento de corpo testemunha que a l\u00edngua deixa marcas com as quais o falasser tem que se virar, \u00e0s vezes, pelo avesso, por ser ao mesmo tempo o mais \u00edntimo, indivis\u00edvel, e o que serve para fazer la\u00e7o com o Outro. Contudo, h\u00e1 tamb\u00e9m incid\u00eancia dos detritos no corpo social. Corpo n\u00e3o \u00e9 sem outros. Para Eric Laurent, o corpo social se faz a partir de afetos que concernem aos grupos e atravessam corpos individuais.<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[xiv]<\/a> Cada ser falante, em singular uso da l\u00edngua enla\u00e7ada com o corpo, d\u00e1 conta do tratamento da enfermidade humana por exc\u00ealencia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fragmentos Cl\u00ednicos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Antes de cair, a morte<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[xv]<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G, inicia a an\u00e1lise aos 14 anos (agora tem 26), para ser psic\u00f3logo, mas rapidamente se desvela a verdadeira raz\u00e3o de sua demanda: pensamentos intrusivos de morte. \u00c0s vezes queria se jogar pela janela ou ser atropelado por um carro. Nasceu com paralisia celebral, caminha e fala com dificuldade, n\u00e3o escreve com as m\u00e3os. Odeia e sente repugn\u00e2ncia pelo corpo.\u00a8Desde que nasci odiei a vida e odiei meu corpo\u00a8. Um pensamento o atormenta: cair. N\u00e3o teme a queda, mas sim o que o corpo sente antes da queda, ou o corpo despeda\u00e7ado depois da queda. A vida o esgota, a palabra o drena. N\u00e3o quer continuar sendo a cola da fam\u00edlia, o que os mant\u00e9m juntos e, muito menos, viver s\u00f3 por gratid\u00e3o a todos. \u00a8Os amo e os culpo\u00a8.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G nunca pensou chegar \u00e0 vida adulta, e hoje se surpreende ao se ouvir dizer: \u201cquero viver, por\u00e9m n\u00e3o da mesma maneira, voc\u00ea tem sido minha parede, n\u00e3o quer me ajudar. Eu precisava de uma parede para dizer o que nunca havia podido dizer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma carta de amor<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[xvi]<\/a> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lourdes, 7 anos, insisti ser chamada de Joaquim na escola. A m\u00e3e n\u00e3o teve rela\u00e7\u00e3o amorosa com seu pai, que foi embora quando ela tinha dois meses; recebeu sobrenome da av\u00f3 materna. Conta que o pai lhe deu um segundo nome, Joaquim, para ela o seu nome \u00e9 Lourdes e seu sobrenome, Joaquim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema familiar \u00e9 um emaranhado. Diz que o pai tem um filho com uma mulher que tamb\u00e9m \u00e9 sua m\u00e3e. A analista indaga: \u201cComo, se voc\u00ea j\u00e1 tem uma m\u00e3e?\u201d\u00a0 Prop\u00f5e que jogassem sem falar, a analista aceita. Queria ter nascido menino, se veste de menino, mas diz saber que n\u00e3o \u00e9 menino. A analista pergunta como sabia disso, responde que a m\u00e3e havia dito. \u201cMinha mam\u00e3e queria que eu nascesse menino. Eu digo a ela que nasci mal.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi para a escola disfar\u00e7ada de \u201cga\u00facho\u201d. A analista pergunta de qu\u00ea ela estava fantasiada, ela corrige: \u201cfantasiado\u201d. Na sess\u00e3o, jogam bola e ela anota os pontos, escreve sua inicial ao lado da inicial da analista, pergunta se poderia colocar o J, a analista consente. Uma alegria se abre e anuncia que Joaquim tinha encontrado um lugar. Conta estar enamorado de Helena. Escreve a ela uma carta de amor. A m\u00e3e diz que ela tem insistido, e fica alegre quando chamada de Joaquim. Disse \u00e0 m\u00e3e: \u201ceu n\u00e3o sou como os meninos\u201d, e que teria de deixar de ser menino quando tivesse mamas como ela. A m\u00e3e afirma que quando crescesse o corpo mudaria. Ela reflete: \u201c\u2026e bom, eu vou resolvendo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro com a analista retificou o lugar que a perspectiva de g\u00eanero dava ao seu nome.\u00a0 Dos dois nomes, Joaquim est\u00e1 no lugar do emaranhado familiar, a vestimenta Joaquim faz funcionar o que na m\u00e3e n\u00e3o tem lugar. Entre dois nomes, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o \u00fanica de fazer par com as mulheres de sua casa, ela promove a diferen\u00e7a com Joaquim. Quando escreve a letra J, de Joaquim, deixa do lado do analista o que h\u00e1 neste nome e alivia-se de estar s\u00f3 com esse nome. Do <em>acting out<\/em> \u00e0 carta de amor entregue \u00e0 Helena, efeito de um vazio de interpreta\u00e7\u00e3o. Desenha Joaquim com um cora\u00e7\u00e3o roxo ao seu lado. Joaquim, \u00e9 Lourdes, um homem que ama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do que n\u00e3o se apaga<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[xvii]<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00facio, 10 anos, repete sem parar um gesto. A m\u00e3e teme que se agrave e que tenha \u201calgo pior por detr\u00e1s\u201d; cogita um neurologista, TCC, e conta que o filho \u00e9 feliz. Os tiques iniciaram nas f\u00e9rias com o pai, que mora em outra cidade. Na fila da montanha russa, na sua vez, desiste, ao fim da escada, faz o tique pela primeira vez. A analista pede para que a m\u00e3e fa\u00e7a o tal gesto. A rela\u00e7\u00e3o amorosa dos pais termina a partir da decis\u00e3o materna, em grande explos\u00e3o de ira contra o pai, na frente do filho, com menos de dois anos de idade. Ao se virar para peg\u00e1-lo e ir embora, ele recusa fazendo um gesto para tr\u00e1s com os ombros. Ao contar, a m\u00e3e repete o gesto no lugar das palavras. A analista sinaliza sutil: \u201cAh, o gesto!\u201d Impactada, sai confiante que o filho deva iniciar a an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00facio n\u00e3o faz o tique na sess\u00e3o, a n\u00e3o ser ao se deparar com a m\u00e3e na sala de espera. Nada da separa\u00e7\u00e3o foi ruim \u201cou traum\u00e1tico\u201d, express\u00e3o que chama aten\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 ali porque a m\u00e3e quer e por causa dos tiques, duas raz\u00f5es. Conta que o tique atrapalha desenhar, do incomodo por ter desistido da montanha russa, e que o pai n\u00e3o havia ficado bravo. Comenta ser um gesto sem sentido. Em suspiro, uma frase inusitada: \u201cporque aqui tem um cheiro t\u00e3o bom?\u201d. A analista aproveita o ensejo e indaga: \u201co que seu pai faz da vida?\u201d \u2013 \u201c\u00c9 baterista\u201d. A analista repete a palavra, gesticulando. Aceita voltar e ir\u00e1 desenhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e diz que ele achou a analista \u201cabstrata\u201d. Leva materiais e pasta com desenhos, e conta que \u201cos tiques desapareceram magicamente\u201d. \u201cN\u00e3o sou eu que fa\u00e7o isso\u201d. \u201cQuem faz?\u201d, responde: \u201cmeu corpo\u201d. A analista diz que numa an\u00e1lise pode-se falar do corpo. Escolhe desenhar uma m\u00e3o. A analista prop\u00f5e que n\u00e3o terminasse naquele dia, faz um corte no segundo sombreado do contorno das m\u00e3os. Escolhe levar o desenho. Ao sair, faz o tique ao ver a m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decide escrever uma frase no desenho: \u201cpor tr\u00e1s de toda vit\u00f3ria, tem uma guerra!\u201d. Ao escrever a frase, erra duas letras: \u201cPor tr\u00e1s de toda vit\u00f3ria, tem uma gera\u201d. A analista l\u00ea. Esquece o U e o R, letras que comp\u00f5e seu nome pr\u00f3prio e de uma pessoa especial. Ao ato falho, risos. Constata que quando se apaga, algo fica marcado e que \u201cas letras mudam tudo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo associando o gesto \u00e0 montanha russa da ira materna, o que verdadeiramente se extrai desse caso \u00e9 que o <em>falasser<\/em> \u00e9 afetado pela <em>lalangue<\/em> que abriga um gozo sem palavras, sem lembran\u00e7a registrada al\u00e9m da marca apagada que, ainda assim, insere uma iterac\u00e3o. O indel\u00e9vel de um experi\u00eancia ordena um modo de estruturar o verbo, habitar um corpo e interagir com os pares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> LACAN, J., Confer\u00eancia de Genebra. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana,\u00a0<\/em>n. 23. S\u00e3o Paulo: Eolia, dez de 1998, p. 11.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> LACAN, J. Seminario 1, Os Escritos T\u00e9cnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1983, p. 105.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> LACAN, J., Confer\u00eancia de Genebra. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana,\u00a0<\/em>n. 23. S\u00e3o Paulo: Eolia, dez de 1998, p. 11.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> LACAN, J., Seminario 14, A l\u00f3gica do fantasma. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2024, p. 101.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> VIEIRA, M. A. Sintoma, cl\u00ednica e pol\u00edtica. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/<\/a> 2021. Acesso: jul, 2025.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> LACAN, J., Confer\u00eancia de Genebra. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana,\u00a0<\/em>n. 23. S\u00e3o Paulo: Eolia, dezembro de 1998.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> LACAN, J., Semin\u00e1rio 20, Mais Ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p.190.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> LACAN, J. O Aturdito. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2003, p. 448.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> ALBERTI, C (2025). Corpos aprisionados pelo discurso. In: Correio, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. N\u00b0 94, 2025, p. 17.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> FARI, Pascale (2022). Confer\u00eancia Internacional: Hablar es un trastorno del lenguaje. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qz4jD-2ONDw\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qz4jD-2ONDw<\/a> . Out 2022. Acesso: julho de 2025.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a> KUPERWAJS, I. (2019). Tomar la palabra. In: Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis N\u00b027: Operaci\u00f3n Anal\u00edtica, 2019, p. 13.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[xiii]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[xiv]<\/a> LAURENT, E. O avesso da biopol\u00edtica: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra-Capa, 2016.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[xv]<\/a> Caso atendido por Aliana Santana (NEL\/AMP)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a> Caso atendido por Ver\u00f3nica Fern\u00e1ndez (EOL\/AMP)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[xvii]<\/a> Caso atendido por Cristiane Barreto (EBP\/AMP)<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SALA: O \u201cTALVEZ\u201d DA CRIAN\u00c7A E SUA LOUCURA A PENEIRA E A LINGUAGEM \u201cO fato de que uma crian\u00e7a diga talvez, ainda n\u00e3o, antes mesmo de ser capaz de construir verdadeiramente uma frase, prova que h\u00e1 algo nela: uma peneira que se atravessa, por onde a \u00e1gua da linguagem chega a deixar algo na passagem,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[106,14],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6722"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6722"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6722\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6759,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6722\/revisions\/6759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6722"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}