{"id":6743,"date":"2025-08-03T19:13:06","date_gmt":"2025-08-03T22:13:06","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/el-fantasma-de-la-epoca-el-hombre-neuronal-y-estilos-de-vida\/"},"modified":"2025-08-05T17:20:14","modified_gmt":"2025-08-05T20:20:14","slug":"o-fantasma-da-epoca-o-homem-neuronal-e-estilos-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/o-fantasma-da-epoca-o-homem-neuronal-e-estilos-de-vida\/","title":{"rendered":"O FANTASMA DA \u00c9POCA. O HOMEM NEURONAL E ESTILOS DE VIDA"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\">SALA: FILHOS DO MAL-ENTENDIDO<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #ff0000;\"><strong>O FANTASMA DA \u00c9POCA.<br \/>\n<\/strong><strong>O HOMEM NEURONAL E ESTILOS DE VIDA<\/strong><\/span><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u201cE agora temos que constatar, parece irresist\u00edvel, o real se tornou neuro-real. O<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>neuro-real \u00e9 chamado para dominar os pr\u00f3ximos anos. N\u00f3s teremos que averiguar o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>que fazer com esse neuro-real\u201d<\/em> (Miller, J.-A. <em>Todo el mundo es loco<\/em> (Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller, Editorial Paid\u00f3s, 2015, p. 142)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Relatores: <\/strong>Paula Borsoi (EBP); Carlos M\u00e1rquez (NEL); Celeste Vi\u00f1al (EOL)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Participantes:<\/strong> Andrea di Pietro (Rio de Janeiro), Diana Palma (Mendoza), Eduardo Vallejos da Rocha (S\u00e3o Paulo), Gonzalo Rodr\u00edguez (Tucum\u00e1n), Gresiela Nunes (Tubar\u00e3o), Jos\u00e9 Luis Obaid (Santiago de Chile), Juan Cruz Delellis (Buenos Aires), Margareth Acevedo (Buenos Aires), Mayra Alonso (La Habana), Pa\u00fal Mata (Caracas), Renzo Pita (Lima), Vin\u00edcius Lima (Belo Horizonte).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Entre os fortes e os fracos, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>entre ricos e pobres, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>entre senhor e servo, \u00e9 a liberdade que<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0oprime e a lei que liberta&#8221;<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, talvez mais do que nunca, ouvimos com for\u00e7a, \u00e0s vezes inusitada e vingativa, o que nosso tempo ergueu como um valor cardeal: o indiv\u00edduo livre. Observamos, escutamos e at\u00e9 participamos, com reservas e \u00e0s vezes, da proclama\u00e7\u00e3o que eleva o direito \u00e0 liberdade que se expande e permeia tanto os costumes quanto a vida cotidiana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u00a0 <em>zeitgeist <\/em>\u00a0contempor\u00e2neo coroa o que Lipovetsky chamou de &#8220;<em>o processo de personaliza\u00e7\u00e3o&#8221; <\/em>que tem, como um de seus efeitos, uma certa urg\u00eancia, ou melhor, uma generaliza\u00e7\u00e3o da busca por identidade. Algo como <em>todos, em todos os lugares e ao mesmo tempo <\/em>procurando sua identidade. Seguindo esse fio condutor do autor, o que nossos tempos consagram \u00e9 o abandono dos grandes sistemas de significa\u00e7\u00e3o e a paix\u00e3o pela personalidade como princ\u00edpios de uma civiliza\u00e7\u00e3o descentralizada e heter\u00f3clita, materialista e <em>psi<\/em>, uma vez que a redu\u00e7\u00e3o da carga emocional que investiu o espa\u00e7o p\u00fablico est\u00e1 correlativa ao aumento das prioridades da esfera privada e,\u00a0 portanto, a <em>&#8220;hipertrofia do ego&#8221; <\/em>que se manifesta no que conhecemos como\u00a0 a <em>psicologiza\u00e7\u00e3o <\/em>da vida que se encontra com uma <em>&#8220;democratiza\u00e7\u00e3o sem precedentes da palavra&#8230;&#8221;.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se destacamos o ponto da <em>psicologiza\u00e7\u00e3o da vida<\/em>, \u00e9 porque \u00e9 ent\u00e3o uma quest\u00e3o de como pensamos, falamos e abordamos, nesta \u00e9poca, <em>o mental <\/em>ou a mente ou, como os fil\u00f3sofos uma vez a chamaram, a alma humana, a alma que nos torna humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 aqui que parece que o capitalismo, ou sua vers\u00e3o neoliberal, aproveita o recurso n\u00e3o s\u00f3 cient\u00edfico-m\u00e9dico, mas tamb\u00e9m neurocient\u00edfico onde &#8220;o mental \u00e9 cerebral&#8221;. Um novo mestre do dia abrigado com seu armamento tecnol\u00f3gico que n\u00e3o apenas abala todas as coordenadas temporais e espaciais, at\u00e9 ent\u00e3o conhecidas, mas tamb\u00e9m todas as categorias estabelecidas de conhecimento e verdade, linguagem e palavra, liberdade e lei, responsabilidade e gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, para sustentar o desejo decidido que caracteriza nossa posi\u00e7\u00e3o como analistas, nossa escolha nos leva a estar \u00e0 altura da \u00e9poca, isto \u00e9, a saber l\u00ea-la. Mas se para nossa orienta\u00e7\u00e3o a leitura responde a uma l\u00f3gica retroativa, isso implica a passagem por um primeiro momento de olhar, observar, a fim de localizar os significantes e as letras das quais extrair a materialidade a ser lida. Uma leitura que pode nos guiar, no melhor dos casos, a calibrar e equalizar nosso discurso para oferecer as possibilidades de um reverso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este relat\u00f3rio consolida e analisa as informa\u00e7\u00f5es das tr\u00eas elabora\u00e7\u00f5es de antenas que pertencem ao observat\u00f3rio. Esses relatos abordam o conceito de &#8220;homem neural&#8221; e seu impacto na subjetividade e nos estilos de vida contempor\u00e2neos a partir de diferentes perspectivas e enunciados. O problema fundamental \u00e9 como o discurso neurocient\u00edfico, em alian\u00e7a com o capitalismo, configura novas formas de compreender o ser humano, a sa\u00fade, a doen\u00e7a e a liberdade, bem como as poss\u00edveis formas de resist\u00eancia ou di\u00e1logo diante da emerg\u00eancia desse problema a partir da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Paradigma do Homem Neural<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem neural\u00a0 \u00e9 um conceito central nos relat\u00f3rios. Jean-Pierre Changeux (1983) em &#8220;The Neural Man&#8221; desenvolveu a perspectiva de que todos os fen\u00f4menos mentais &#8211; da consci\u00eancia \u00e0 moralidade &#8211; emergem exclusivamente da atividade cerebral, moldada pela experi\u00eancia por meio da poda sin\u00e1ptica. Jacques-Alain Miller (1986) cunhou o termo &#8220;neuro-real&#8221; para nomear o surgimento de um novo real, descrevendo como as pessoas percebem seu c\u00e9rebro com vontade pr\u00f3pria, enganando-as e condenando-as a repetir padr\u00f5es. Essa vis\u00e3o reduz o ser humano \u00e0 sua rede neural, subordinando ou excluindo a rela\u00e7\u00e3o com a palavra e, portanto, com o inconsciente freudiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um caso paradigm\u00e1tico desse ideal \u00e9 o do empres\u00e1rio americano Bryan Johnson e seu &#8220;Projeto Blueprint&#8221;. Johnson, um milion\u00e1rio que fez fortuna com tecnologia de monitoramento cerebral, busca retardar o envelhecimento por meio de pr\u00e1ticas rigorosas de sa\u00fade, acompanhamento multiprofissional, dados cient\u00edficos e tecnologias emergentes. Seu projeto se tornou um estilo de vida influente nas m\u00eddias sociais, com sua empresa vendendo produtos personalizados sob um v\u00e9u de cientificismo e o slogan &#8220;Don&#8217;t Die&#8221;. Destacam-se o consumo de 135 comprimidos por dia e a experimenta\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias n\u00e3o aprovadas, tudo em uma rotina programada. Johnson justifica essa busca em uma hist\u00f3ria de depress\u00e3o e pensamentos negativos, considerando-se livre de uma mente autodestrutiva, chegando a afirmar: &#8220;A mente est\u00e1 morta&#8221;. Assim, o corpo \u00e9 oferecido como objeto da ci\u00eancia e das redes sociais, numa ilus\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o da subjetividade, da doen\u00e7a e da morte sob o casamento do discurso cient\u00edfico e capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O avan\u00e7o do discurso &#8220;neuro&#8221; e suas implica\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso &#8220;neuro&#8221; passou por uma ascens\u00e3o significativa, tornando-se dominante na medicina e o fantasma da \u00e9poca na ci\u00eancia. Observa-se a ascens\u00e3o de neuropsic\u00f3logos, neuropediatras, neuroeduca\u00e7\u00e3o e neuromarketing, com o sufixo &#8220;neuro&#8221; descrito por Miller (2018) como o sufixo mestre, sugerindo que tudo na vida humana pode ser neurologizado. Essa perspectiva tem sustentado tratamentos que patologizam o desconforto humano em termos bioqu\u00edmicos, reduzindo emo\u00e7\u00f5es como amor, tristeza ou ang\u00fastia a eventos neuroqu\u00edmicos ou desequil\u00edbrios de neurotransmissores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tese neurobiol\u00f3gica de Changeux foi reabsorvida na literatura de autoajuda, agora sob o r\u00f3tulo de &#8220;desenvolvimento pessoal&#8221;. T\u00edtulos como &#8220;Neuroci\u00eancias para sua vida&#8221; ou &#8220;Neurocoaching&#8221; traduzem essas ideias para a linguagem cotidiana, promovendo a reformula\u00e7\u00e3o cognitiva e a autodisciplina para moldar o c\u00e9rebro, otimizar o desempenho emocional e atingir objetivos pessoais. O que em Changeux era complexidade neurobiol\u00f3gica, torna-se um protocolo de autogest\u00e3o de si, ancorado em uma est\u00e9tica est\u00f3ica e uma \u00e9tica empresarial de alto desempenho. No entanto, essa ret\u00f3rica de empoderamento, longe de empoderar, reduz o sujeito a um mero c\u00e9rebro autorregulador, promovendo uma fic\u00e7\u00e3o de autocontrole e agindo como uma tecnologia de disciplina capitalista, distanciando o sujeito de seu desejo e responsabilidade subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Autismo, despatologiza\u00e7\u00e3o e a quest\u00e3o da subjetividade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O campo do autismo \u00e9 um exemplo claro da radicaliza\u00e7\u00e3o do discurso &#8220;neuro&#8221;. Embora a pesquisa neurocient\u00edfica e gen\u00e9tica n\u00e3o tenha localizado a etiologia do autismo ou um padr\u00e3o cerebral autista, a resposta &#8220;neuro&#8221; persiste, excluindo a psican\u00e1lise com o slogan: &#8220;a psican\u00e1lise culpa as m\u00e3es, n\u00f3s culpamos o c\u00e9rebro&#8221;. No entanto, dentro dessa redu\u00e7\u00e3o da pessoa autista ao seu funcionamento cerebral, surge outra disputa: trata-se de uma doen\u00e7a (modelo biom\u00e9dico) ou de uma diversidade do c\u00e9rebro humano (movimento da neurodiversidade)?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem de um discurso m\u00e9dico para um movimento social est\u00e1 alinhada com o alerta de Miller (2023) sobre a despatologiza\u00e7\u00e3o: &#8220;N\u00e3o haver\u00e1 mais patologias, haver\u00e1&#8230; estilos de vida, livremente escolhidos&#8221;. Essa ideia, que pode parecer uma liberta\u00e7\u00e3o, levanta uma quest\u00e3o crucial: se todos s\u00e3o livres para escolher seu estilo de vida, em uma perversa livre concorr\u00eancia do mercado capitalista, a liberdade se torna uma norma imposta. Essa liberdade c\u00ednica \u00e9 oferecida pelo discurso tecnocient\u00edfico e capitalista, onde tudo, incluindo o estilo de vida, se torna uma mercadoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Psican\u00e1lise e resist\u00eancia ao homem neuronal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante do avan\u00e7o do homem neuronal, a psican\u00e1lise apresenta-se como uma perspectiva cr\u00edtica e potencialmente resistente. Miller (1986) enfatiza que &#8220;na espinha dorsal da resist\u00eancia contra o homem neuronal est\u00e1 o ser falante&#8221;. Ou seja, o que se op\u00f5e ao homem neuronal \u00e9 o ser falante, sustentando que o sujeito \u00e9 determinado pela linguagem. Bassols (2011) sugere que a psican\u00e1lise pode dialogar com a corrente das neuroci\u00eancias que n\u00e3o acredita na localiza\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos subjetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, em &#8220;Televis\u00e3o&#8221;, refere-se \u00e0 depress\u00e3o como uma covardia moral: a ren\u00fancia ao dever \u00e9tico de se reconhecer no inconsciente. Desse ponto de vista, o desenvolvimento pessoal, ao reduzir o sujeito a um c\u00e9rebro autorregulador, o distancia do encontro com seu desejo e da possibilidade de dizer bem, uma forma de escapar dessa covardia moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller (1997), em sua palestra &#8220;Patologia da \u00c9tica&#8221;, articula a \u00e9tica, o sujeito do direito e a responsabilidade, afirmando que a possibilidade de um sujeito responder por suas a\u00e7\u00f5es o define como sujeito \u00e9tico e de direito. Embora na \u00e9poca ele n\u00e3o tenha encontrado ningu\u00e9m que procurasse o imperativo categ\u00f3rico de Kant em um neurotransmissor, hoje devemos questionar se n\u00e3o vivemos sob uma \u00e9tica onde o princ\u00edpio universal de nosso comportamento adere \u00e0 nossa bioqu\u00edmica neuronal, desresponsabiliza os sujeitos e promove uma liberdade sem sentido. Este tipo de liberdade leva a acreditar numa &#8220;equidade de gozo&#8221;, onde n\u00e3o haveria perda se cada um correspondesse ao seu estilo de vida livremente escolhido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estilos de vida, diferentes express\u00f5es dessa ideologia na cultura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estilos de\u00a0 vida\u00a0 no plural s\u00e3o apresentados como um axioma princeps da era atual, refletindo transforma\u00e7\u00f5es culturais. O avan\u00e7o da ci\u00eancia reduziu o pai ao biol\u00f3gico em detrimento da fun\u00e7\u00e3o paterna e da autoridade simb\u00f3lica, enquanto o discurso capitalista reduziu o ideal a uma figura, a um n\u00famero. Os estilos de vida, em sua pluralidade, correspondem \u00e0 pluraliza\u00e7\u00e3o do Nome do Pai, atuando como barreiras onde cada sujeito escolhe permanecer, produzindo agrupamentos em torno da identifica\u00e7\u00e3o de um sintoma ou de um meio de gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Intelig\u00eancia Artificial Generativa (AGI), como um &#8220;Novo Outro&#8221;, tamb\u00e9m levanta quest\u00f5es sobre a subjetividade atual. A intera\u00e7\u00e3o com &#8220;chats&#8221; ativa uma troca verbal desencarnada, sem corpo falante, que questiona sua resson\u00e2ncia para rastrear o afeto e os efeitos nos seres falantes expostos a essa palavra desencarnada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os relatos apontam para uma dificuldade em encontrar uma particularidade pr\u00f3pria, que \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 opera\u00e7\u00e3o de universaliza\u00e7\u00e3o do discurso cient\u00edfico em alian\u00e7a com o capital, que tende a apagar as diferen\u00e7as. No entanto, surge a quest\u00e3o de saber se as especificidades brasileiras poderiam estar em seus modos de refra\u00e7\u00e3o a essa l\u00f3gica, ou seja, um estilo particular de evas\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o desse discurso globalizado. Uma resposta espec\u00edfica do pa\u00eds \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o desse estilo de vida importado est\u00e1 sendo considerada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A s\u00e9rie brasileira &#8220;Sintonia&#8221; (primeira temporada) \u00e9 usada como exemplo. A hist\u00f3ria de tr\u00eas amigos de uma favela de S\u00e3o Paulo, cujas vidas se ramificam em igreja (pastor), funk (cantor) e tr\u00e2nsito (chefe), sugere que esses elementos \u2013 igreja, funk e tr\u00e2nsito \u2013 podem ser desvios particulares de uma cultura diante do estilo de vida globalizado que \u00e9 o homem neural. Questiona-se se o amor ou a &#8220;harmonia&#8221; entre eles permitiria que os diferentes modos de gozo n\u00e3o fossem insuport\u00e1veis, e se o caso singular poderia usar esses elementos culturais para se opor \u00e0 tend\u00eancia universalizante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, o plural de estilos de vida se op\u00f5e ao singular do estilo sintom\u00e1tico. Esta \u00faltima, longe de organizar v\u00e1rios sujeitos em torno da identifica\u00e7\u00e3o do sintoma, \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o absolutamente \u00fanica e incompar\u00e1vel, uma forma de fazer as coisas com um verdadeiro opaco ao sentido, &#8220;da ordem de uma inven\u00e7\u00e3o sutil, muito distante do que seria uma reprograma\u00e7\u00e3o realizada para retificar um del\u00edrio baseado em imagens neurais&#8221; (Meseguer,\u00a0 2023).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00f5es gerais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consolida\u00e7\u00e3o desses relatos revela a configura\u00e7\u00e3o da subjetividade contempor\u00e2nea sob a \u00e9gide do &#8220;homem neural&#8221; e do &#8220;discurso neuronal&#8221;. Essa perspectiva, impulsionada pela ci\u00eancia e pelo capitalismo, tende a reduzir o ser humano \u00e0 sua biologia cerebral, promovendo uma vis\u00e3o de autocontrole e desresponsabiliza\u00e7\u00e3o que culmina na prolifera\u00e7\u00e3o de &#8220;estilos de vida&#8221; como mercadorias livremente escolhidas, mas que apenas oferecem uma ilus\u00e3o de liberdade e impedem o encontro com o desejo singular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dessa tend\u00eancia, a psican\u00e1lise emerge como uma voz cr\u00edtica que sublinha a import\u00e2ncia do &#8220;ser falante&#8221;, a fun\u00e7\u00e3o da linguagem na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito e a necessidade de uma \u00e9tica da responsabilidade do sujeito sobre seu gozo. A possibilidade de resist\u00eancia ou de di\u00e1logo com esse &#8220;neuro-real&#8221; apresenta-se como um desafio crucial. Ser\u00e1 poss\u00edvel aos psicanalistas encontrar as fissuras que esse discurso tem, como qualquer outro, para tornar esse di\u00e1logo efetivo onde \u00e9 poss\u00edvel e a resist\u00eancia onde n\u00e3o \u00e9? Em todo caso, a posi\u00e7\u00e3o do psicanalista no extremo ser\u00e1 sempre a de coletar os efeitos devastadores que o universal, seja ele qual for, imprime no corpo falante.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Bassols, M. (2011). <em>Neuroci\u00eancias e o sujeito do inconsciente<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Braidot, N. (2016). <em>Neuroci\u00eancia para sua vida: Aprenda a usar seu c\u00e9rebro para mudar sua vida<\/em>. Editorial Paid\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Changeux, J.-P. (1983). <em>L&#8217;Homme neuronal<\/em>. Fayard.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Freud, S. (1905). <em>Tr\u00eas ensaios sobre teoria sexual<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Freud, S. (1914). <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Guerrero de las Cuevas, C. (2018). <em>Neurocoaching: Neuroplasticidade autodirigida<\/em>. Editorial Ediciones Aljibe.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Hill, N. (2013). <em>Pense e fique rico<\/em>. Editorial DeBolsillo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Kant, I. (1785). <em>Fundamentaci\u00f3n de la metaf\u00edsica de las costumbres<\/em>. Ed. Austral, p\u00e1g. 72. (trad. por Garc\u00eda Morente).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">La Sagna, P. (2012). <em>Adolesc\u00eancia prolongada, ontem, hoje e amanh\u00e3<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (2012). <em>Televis\u00e3o<\/em>. Em <em>outros escritos<\/em>. Editorial Paid\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Meseguer, O. (2023). <em>Clareza das imagens, opacidade da realidade<\/em>. Isto \u00e9. <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em>. Grama Ediciones.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (1997). <em>Patologia da \u00e9tica<\/em>. En <em>Lacan Elucidado &#8211; palestras no Brasil<\/em>. RJ: Jorge Zahar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (2018). <em>Neuro-, o novo real<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A. (2023). <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em>. Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do XIV Congresso Mundial da AMP. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/congresamp2024.world\/pt-br\/todo-mundo-e-louco\/\">https:\/\/congresamp2024.world\/pt-br\/todo-mundo-e-louco\/<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Miller, J.-A., &amp; Tendlarz, S. (1986). <em>Entrevista com Jacques-Alain Miller<\/em>. Publicado em <em>Mal-entendido N\u00b01<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Morales, P. (2019). <em>Neuroci\u00eancia e desenvolvimento pessoal para descobrir o potencial da sua mente<\/em>. Editorial C\u00edrculo Rojo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SALA: FILHOS DO MAL-ENTENDIDO O FANTASMA DA \u00c9POCA. O HOMEM NEURONAL E ESTILOS DE VIDA \u00a0 \u201cE agora temos que constatar, parece irresist\u00edvel, o real se tornou neuro-real. O neuro-real \u00e9 chamado para dominar os pr\u00f3ximos anos. N\u00f3s teremos que averiguar o que fazer com esse neuro-real\u201d (Miller, J.-A. 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