{"id":7212,"date":"2025-08-18T17:28:01","date_gmt":"2025-08-18T20:28:01","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=7212"},"modified":"2025-08-21T12:50:58","modified_gmt":"2025-08-21T15:50:58","slug":"a-infancia-berco-da-democracia1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/a-infancia-berco-da-democracia1\/","title":{"rendered":"A INF\u00c2NCIA, BER\u00c7O DA DEMOCRACIA<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Christiane Alberti<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua recente interven\u00e7\u00e3o na R\u00fassia, Jacques-Alain Miller afirmou que a autodetermina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as em mat\u00e9ria de identidade de g\u00eanero \u00e9 uma \u201cmonstruosidade em vista do que \u00e9 ser cidad\u00e3o. Se apagarmos toda a diferen\u00e7a entre crian\u00e7a e adulto, os pr\u00f3prios fundamentos da democracia estar\u00e3o em quest\u00e3o\u201d. A liga\u00e7\u00e3o entre inf\u00e2ncia e democracia n\u00e3o deixa de concernir \u00e0 psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autodetermina\u00e7\u00e3o est\u00e1 de vento em popa. Hoje, muito particularmente, se trata de sensibilizar pais e filhos para o fato de que todo mundo, sem exce\u00e7\u00e3o, pode ser autodeterminado e pode exercer um controle sobre sua vida, fazer escolhas livremente sem ser influenciado de maneira importante <em>por uma terceira pessoa<\/em>. Esse determinismo nada tem a ver com o que est\u00e1 ocorrendo com o programa do inconsciente. Ele \u00e9 apagado e se \u00e9 reconduzido ao sujeito da vontade. A emerg\u00eancia da autodetermina\u00e7\u00e3o deve ser situada nas mudan\u00e7as incorridas pela desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o, que o apoio comunit\u00e1rio progressivamente substituiu. Trata-se, aqui, da passagem de uma vis\u00e3o m\u00e9dica para uma vis\u00e3o social do sintoma, o que nos leva ao pr\u00f3prio cerne da quest\u00e3o da despatologiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autodetermina\u00e7\u00e3o \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 pr\u00f3pria ess\u00eancia da psican\u00e1lise, uma vez que o sujeito nunca \u00e9 <em>causa<\/em> <em>sui<\/em> e que existir \u00e9, precisamente, depender do Outro, segundo a f\u00f3rmula de Lacan. Depender do Outro numa singularidade pr\u00f3pria a cada um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata apenas de evocar aqui os <em>lobbies<\/em> de militantes que fazem ouvir suas vozes. Trata-se, aqui, das crian\u00e7as. Crian\u00e7as no seio de Estados que, dando um passo a mais, as consideram imediatamente como cidad\u00e3s. Estados que n\u00e3o formulam nenhum questionamento sobre a natureza da inf\u00e2ncia e, por exemplo, sobre a rela\u00e7\u00e3o desta, fundamental, com a sexualidade. Uma sexualidade cuja \u201cmatura\u00e7\u00e3o\u201d deve ser concebida como constru\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com o objeto <em>a<\/em> e n\u00e3o num desenvolvimento qualquer. No entanto, n\u00e3o foi esta quest\u00e3o que abriu muitos debates sobre a idade do consentimento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o italiana, em suas rela\u00e7\u00f5es com o Vaticano, nos coloca no caminho para mensurar a import\u00e2ncia da inf\u00e2ncia em mat\u00e9ria de democracia. O Vaticano ficou profundamente tocado, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, pela penetra\u00e7\u00e3o da teoria de g\u00eanero nas escolas, incluindo as escolas maternais. De todo modo, foi nesse momento que o Estado religioso se sentiu suficientemente amea\u00e7ado para enviar uma nota diplom\u00e1tica ao Estado italiano. Nesta ocasi\u00e3o, ele convocou uma discuss\u00e3o, no \u00e2mbito dos Acordos de Latr\u00e3o \u2013 o que constitui uma primeira desde a sua assinatura \u2013 sobre a liberdade que a Igreja tem \u201cde desenvolver a sua a\u00e7\u00e3o pastoral, educativa e social\u201d. Os programas de sensibiliza\u00e7\u00e3o e de inclus\u00e3o s\u00f3 deixaram muito pouca margem. V\u00ea-se bem que o confronto se d\u00e1 naquele terreno. Nossa colega Francesca Biagi-Chai chamou nossa aten\u00e7\u00e3o para esse ponto durante nossa \u00faltima AG (Assembleia Geral).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A refer\u00eancia \u00e0 It\u00e1lia n\u00e3o deixa de nos lembrar que, em regimes autorit\u00e1rios e fascistas, s\u00e3o as crian\u00e7as, em primeiro lugar, os alvos privilegiados da propaganda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consideremos agora a situa\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos e no Reino Unido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Helen Joyce, em seu livro <em>Trans<\/em>, evoca a posi\u00e7\u00e3o de cl\u00ednicos e militantes muito famosos a favor da transi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica em crian\u00e7as e adolescentes. Ela cita, em particular, Diane Ehrensaft, diretora da Gender Clinic do Hospital da Universidade da Calif\u00f3rnia em San Francisco, que exalta em um manual os benef\u00edcios das transi\u00e7\u00f5es precoces, <em>The Gender Creative child<\/em>. Ela chegou ao ponto de sustentar que uma crian\u00e7a que ainda n\u00e3o sabe falar \u00e9, por\u00e9m, capaz de indicar aos seus pais (por meio de \u201cgender messages\u201d n\u00e3o verbais) que ela tem uma identidade trans. A incid\u00eancia da penetra\u00e7\u00e3o no psiquismo das crian\u00e7as \u00e9 aqui evidente. Desaparecimento subjetivo e mundo pr\u00e9-linguageiro est\u00e3o em primeiro plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ci\u00eancia vem em socorro dos Estados ao afirmar (cf. a American Academy of Pediatrics &#8211; AAP), apesar da aus\u00eancia de retornos ou estudos cl\u00ednicos s\u00e9rios sobre os efeitos dessas subst\u00e2ncias, que os <em>gender affirmation treatments<\/em><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> s\u00e3o tratamentos \u201c\u00e9ticos\u201d para crian\u00e7as sofrendo de disforia de g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Reino Unido, foi no <em>a posteriori<\/em> que a atmosfera se tornou mais comedida e que parece que se voltou atr\u00e1s quanto a essas pr\u00e1ticas, principalmente na sequ\u00eancia do processo muito midiatizado de Keira Bell: trata-se de uma mulher de 23 anos que destransicionou para voltar a ser uma mulher. Ela entrou com uma a\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a contra a cl\u00ednica Tavistok, por n\u00e3o ter questionado seu desejo de se tornar um menino numa \u00e9poca em que ela apenas havia sa\u00eddo da inf\u00e2ncia, e por lhe ter prescrito, aos 14 anos, bloqueadores de puberdade, depois de apenas tr\u00eas consultas de uma hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A insist\u00eancia do real, que n\u00e3o \u00e9 a realidade, far\u00e1 com que os Estados recuem em sua prescri\u00e7\u00e3o precipitada de autodetermina\u00e7\u00e3o, para levar em conta a singularidade subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Espanha, deve-se notar que um sujeito, antes dos 16 anos, pode ter sua mudan\u00e7a de sexo registrada em seu estado civil, com o consentimento de seus pais, mas, se estes se opuserem, ele pode apelar legalmente para fazer ouvir sua voz. Aqui, a crian\u00e7a ilustra perfeitamente a situa\u00e7\u00e3o do Um-sozinho e do cr\u00e9dito dado ao eu (<em>moi<\/em>) forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os defensores da autodetermina\u00e7\u00e3o n\u00e3o acreditam diz\u00ea-lo t\u00e3o bem assim quando indicam que \u00e9 em nome da liberdade que eles exaltam essa autodetermina\u00e7\u00e3o. Mas de que liberdade se trata sen\u00e3o de uma liberdade pr\u00f3pria \u00e0 loucura, uma liberdade mortal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A loucura requer \u201co inating\u00edvel consentimento da liberdade\u201d, diz Lacan, e especifica que ele n\u00e3o pode intervir antes da \u201cidade da raz\u00e3o\u201d. Em outras palavras, uma crian\u00e7a n\u00e3o tem de ser alistada como cidad\u00e3. Um livro de Mariella Colin, <em>Les enfants de Mussolini<\/em>, mostra, nesse sentido, o papel central do livro no regime de Mussolini. A educa\u00e7\u00e3o sempre foi um dos meios de difus\u00e3o da ideologia, a ideologia massificante pr\u00f3pria dos regimes totalit\u00e1rios e de seu mito bem conhecido de constru\u00e7\u00e3o do \u201chomem novo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Avellar Ribeiro<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Revis\u00e3o: Fernanda Otoni Brisset<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Interven\u00e7\u00e3o proferida durante as Jornadas \u201cQuest\u00e3o de Escola\u201d, organizadas pela ECF em Paris, em 22 de janeiro de 2022, sobre o tema \u201cTodo mundo \u00e9 louco. A despatologiza\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica\u201d. Publicada originalmente, com a gentil autoriza\u00e7\u00e3o da autora, em: Correio: Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \/ Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. v. 1, n. 1 (1993). S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 87, abril 2022.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, AME, Membro da \u00c9cole de la Cause Freudienne (ECF) e Presidente da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lsie (AMP).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> A terapia hormonal de afirma\u00e7\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 um medicamento prescrito para ajudar uma pessoa a obter as caracter\u00edsticas externas que correspondem \u00e0 sua identidade de g\u00eanero.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christiane Alberti[2] Em sua recente interven\u00e7\u00e3o na R\u00fassia, Jacques-Alain Miller afirmou que a autodetermina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as em mat\u00e9ria de identidade de g\u00eanero \u00e9 uma \u201cmonstruosidade em vista do que \u00e9 ser cidad\u00e3o. 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