{"id":7226,"date":"2025-08-18T17:35:26","date_gmt":"2025-08-18T20:35:26","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=7226"},"modified":"2025-08-18T17:35:56","modified_gmt":"2025-08-18T20:35:56","slug":"rubrica-eixo-4-o-impossivel-de-educar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/rubrica-eixo-4-o-impossivel-de-educar\/","title":{"rendered":"Rubrica Eixo 4 &#8211; O IMPOSS\u00cdVEL DE EDUCAR"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Daniela Fern\u00e1ndez &#8211; <\/strong><strong>EOL\/AMP<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua m\u00e3e vem \u00e0 consulta por imposi\u00e7\u00e3o da escola, que amea\u00e7a expuls\u00e1-lo. A gota d\u2019\u00e1gua foi que Ivan, famoso por bater em outras crian\u00e7as, gritou na aula dedicada ao 2 de abril: &#8220;as Malvinas s\u00e3o inglesas&#8221;, negando-se a &#8220;desdizer-se&#8221;, inclusive perante o diretor. Nessa escola, convidam as crian\u00e7as a se desdizer. Para a psican\u00e1lise, isso \u00e9 imposs\u00edvel. Quando uma crian\u00e7a encontra um analista descobre que falar t\u00eam consequ\u00eancias. Dirigindo-me d\u00f3cil a seu texto, levando muito \u00e0 s\u00e9rio sua palavra, lhe pergunto sobre seu v\u00ednculo com os ingleses: por acaso ele \u00e9 ingl\u00eas? Por acaso \u00e9 torcedor do Manchester? Quais s\u00e3o seus fundamentos para sustentar semelhante afirma\u00e7\u00e3o? Tamb\u00e9m falo com ele em ingl\u00eas. Ao inv\u00e9s de buscar que se retrate, dou lugar ao mist\u00e9rio <em>cipayo<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em> que palpita no cora\u00e7\u00e3o de sua subjetividade, esse Outro estrangeiro que grita nesse menino que as Malvinas s\u00e3o inglesas, tornando-o objeto de \u00f3dio e recha\u00e7o de toda sua escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mila se interessa pelos ditadores, quer saber tudo sobre eles \u2013 para ang\u00fastia de sua m\u00e3e, militante do lado do bem. Na sess\u00e3o, pergunta: Como se chama o Videla chileno? O que ele comia? Do que brincava quando era pequeno? Tinha m\u00e3e e pai? Tamb\u00e9m pergunta se meninas m\u00e1s v\u00eam me ver e como fa\u00e7o para reconhec\u00ea-las. A maldade a concerne, a interroga. Nessa via, interpretarei, em uma sess\u00e3o crucial, que <em>a m\u00e1<\/em> (<em>la mala<\/em>) est\u00e1 escrita em seu nome. Com frequ\u00eancia, chora, sente-se culpada, sem saber por qu\u00ea. Assim funciona o supereu quando n\u00e3o se \u00e9 um ditador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus pais foram esquiar com seus dois irm\u00e3os mais velhos, deixando-a em casa com sua av\u00f3, que &#8220;n\u00e3o sabe brincar&#8221;, e com o beb\u00ea, que &#8220;n\u00e3o serve para nada&#8221;. Nesse contexto desolador, Luli coloca no micro-ondas sua boneca, a mamadeira do irm\u00e3ozinho e um spray aerossol, liga o aparelho, produzindo uma explos\u00e3o com inc\u00eandio. Os bombeiros dir\u00e3o aos pais, obrigados a retornar com urg\u00eancia, que sentiram calafrios quando ao interrog\u00e1-la seriamente, com apenas quatro anos, Luli negou qualquer responsabilidade: &#8220;eu n\u00e3o fui&#8221;, repetia. Encontrar um bombeiro n\u00e3o \u00e9 o mesmo que encontrar um analista. Em nossa primeira entrevista, poucos dias ap\u00f3s a passagem ao ato, ela entra chorando e dizendo: &#8220;eu n\u00e3o fui\u201d, ao que respondo: &#8220;\u00e9 isso!&#8221; Seguido de: &#8220;voc\u00ea poderia me contar o que foi que ela fez para produzir semelhante explos\u00e3o?&#8221; Seu pranto se det\u00e9m, dando lugar \u00e0 descri\u00e7\u00e3o minuciosa de seu ato em terceira pessoa: \u201cPrimeiro, ela colocou minha boneca preferida, depois a mamadeira do Tomy e um veneno para formigas, ligou o micro-ondas e saiu correndo, fez bum! O pranto irrompe novamente \u2013 e sua analista sabe: ao colocar sua boneca preferida, Luli golpeou a si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Carla S\u00e1 Freire<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Revis\u00e3o: Renata Martinez<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> NT: <em>Cipayo<\/em> \u00e9 um termo originalmente usado para designar soldados indianos que serviam nos ex\u00e9rcitos coloniais europeus, especialmente o brit\u00e2nico. Na Argentina e em outros contextos latino-americanos, o termo adquiriu um sentido figurado e pejorativo, sendo utilizado para nomear aquele que age em favor de interesses estrangeiros, em detrimento dos pr\u00f3prios ou de sua na\u00e7\u00e3o \u2014 algu\u00e9m visto como submisso ao imperialismo ou traidor da causa nacional.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Fern\u00e1ndez &#8211; EOL\/AMP Sua m\u00e3e vem \u00e0 consulta por imposi\u00e7\u00e3o da escola, que amea\u00e7a expuls\u00e1-lo. A gota d\u2019\u00e1gua foi que Ivan, famoso por bater em outras crian\u00e7as, gritou na aula dedicada ao 2 de abril: &#8220;as Malvinas s\u00e3o inglesas&#8221;, negando-se a &#8220;desdizer-se&#8221;, inclusive perante o diretor. 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