{"id":7771,"date":"2025-08-29T09:00:17","date_gmt":"2025-08-29T12:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=7771"},"modified":"2025-08-29T09:00:52","modified_gmt":"2025-08-29T12:00:52","slug":"os-algoritmos-do-saber-psicanalise-e-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/os-algoritmos-do-saber-psicanalise-e-universidade\/","title":{"rendered":"Os Algoritmos do Saber: Psican\u00e1lise e Universidade"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\">XII ENAPOL<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">CONVERSA\u00c7\u00c3O RUA &#8211; FAPOL<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Os Algoritmos do Saber: Psican\u00e1lise e Universidade<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Eixo 2: Os Algoritmos do Discurso na Universidade e os Algoritmos da Psican\u00e1lise<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Respons\u00e1veis: Alejandro Reinoso e Cleide Monteiro<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\">Integrantes: Abigail Roccasalvo (EOL), Ariel Hern\u00e1ndez (EOL), Fabiana Chirino (NEL), Federico Giachetti (EOL), Frederico Pozzer (EOL), Gilson Iannini (EBP), Jorge Santiago (NEL), Luis Francisco Camargo (EBP), Mariela Garc\u00eda Mut (EOL), Marina Ladeira (EBP), Ram\u00f3n Ochoa (NEL), Rog\u00e9rio de Andrade Barros (EBP), Susane Zanotti (EBP).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OS ALGORITMOS DO DISCURSO NA UNIVERSIDADE E OS ALGORITMOS DA PSICAN\u00c1LISE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Considera\u00e7\u00e3o Metodol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os membros do Eixo 2, &#8220;Algoritmos na Universidade e Algoritmos da Psican\u00e1lise&#8221;, desenvolveram uma metodologia que envolveu a gera\u00e7\u00e3o de v\u00e9rtices de trabalho, que emergiram em um primeiro encontro ampliado, levando \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de quatro equipes focadas nos quatro temas desenvolvidos neste relat\u00f3rio. Ao longo de tr\u00eas conversa\u00e7\u00f5es, discutimos, de forma viva e articulada, a produ\u00e7\u00e3o de cada uma dessas equipes. Esse relat\u00f3rio \u00e9, portanto, fruto do que se decantou dessa experi\u00eancia, orientada pelo desejo decidido dos colegas psicanalistas, que insistem em n\u00e3o abrir m\u00e3o da presen\u00e7a da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana na universidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A infamiliar intelig\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O advento de novas tecnologias costuma suscitar afetos diversos, que se estendem desde a ang\u00fastia e a recusa at\u00e9 o amor ing\u00eanuo e a ades\u00e3o acr\u00edtica. O surgimento recente das IAs generativas \u2013 e sua invas\u00e3o r\u00e1pida e maci\u00e7a em nossas vidas privadas &#8211; parece suscitar ainda mais esses afetos. O psicanalista tem ferramentas para evitar tanto um extremo quanto o outro, tanto a tecnofobia, quanto a tecnofilia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma tecnologia \u00e9 neutra. \u00c9 poss\u00edvel \u2013 ou desej\u00e1vel \u2013 ocuparmos uma posi\u00e7\u00e3o de neutralidade face a tecnologias que n\u00e3o s\u00e3o neutras? Talvez seja necess\u00e1ria uma posi\u00e7\u00e3o de neutralidade, uma neutralidade anal\u00edtica no \u201cseu sentido aut\u00eantico, na posi\u00e7\u00e3o do dial\u00e9tico puro\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d, de 1956, representa o esp\u00edrito do primeiro ensino de Lacan, texto que abre os seus \u201cEscritos\u201d e que faz exce\u00e7\u00e3o a cronologia que organiza a cole\u00e7\u00e3o. Esse texto apresenta uma tese crucial deste per\u00edodo: \u201co inconsciente deriva do que \u00e9 puramente l\u00f3gico, em outros termos, do significante\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, bord\u00e3o que problematiza a ideia de uma oposi\u00e7\u00e3o entre intelig\u00eancia \u201cartificial\u201d e \u201cnatural\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse per\u00edodo, Lacan formalizou o inconsciente como uma maquinaria simb\u00f3lica. Essa analogia \u2014 e, em certa medida, tamb\u00e9m seu reducionismo \u2014 advinha da teoria da informa\u00e7\u00e3o, da l\u00f3gica combinat\u00f3ria e da cibern\u00e9tica. Essas foram tamb\u00e9m as bases para compreender o que Freud denominou, em <em>Al\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer<\/em>, de \u201ccompuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o\u201d. Para Lacan, tratava-se de uma m\u00e1quina simb\u00f3lica que colocava em funcionamento um circuito composto por redes significantes, onde circula o gozo, ou seja, uma m\u00e1quina de mais-de-gozar, cujo efeito \u00e9 a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o. Seria, portanto, fun\u00e7\u00e3o do dispositivo anal\u00edtico, ao menos em parte, desarmar tal m\u00e1quina simb\u00f3lica, introduzindo a tique, o real, contra o circuito do aut\u00f4maton. Podemos dizer, assim, que os algoritmos do inconsciente diferem dos algoritmos da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grosso modo, podemos considerar que a perspectiva do primeiro ensino de Lacan aproxima a no\u00e7\u00e3o de inconsciente \u00e0 de uma intelig\u00eancia artificial, isto \u00e9, uma intelig\u00eancia aut\u00f4noma, uma vez que se constitui como reflexo do discurso do Outro, organizado em redes de significantes, ilustando a tese segundo a qual \u201co inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem\u201d, lugar onde circulam os afetos do sujeito. Segundo Lacan, \u201cn\u00e3o existe o afetivo puro, de um lado, inteiramente engajado no real, e o intelectual puro, de outro, que dele se desvencilha para retom\u00e1-lo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u201d. O afetivo se engendra nessa \u201cintelig\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As LLM (<em>Large Language Models<\/em>) s\u00e3o modelos de aprendizado de m\u00e1quinas (<em>Machine Learning<\/em>) usado nas intelig\u00eancias artificiais generativas. Elas utilizam t\u00e9cnicas de aprendizado profundo (<em>deep learning<\/em>) em uma arquitetura de transformadores (transformers) generativos pr\u00e9-treinados. \u201cConsistem em v\u00e1rias camadas de redes neurais, cada uma com par\u00e2metros que podem ser ajustados durante o treinamento, que s\u00e3o aprimorados ainda mais por uma numerosa camada conhecida como mecanismo de aten\u00e7\u00e3o, que se concentra em partes espec\u00edficas dos conjuntos de dados\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Ap\u00f3s treinadas, as LLMs s\u00e3o capazes de gerar texto de forma aut\u00f4noma com base nas informa\u00e7\u00f5es que recebem e nos padr\u00f5es e conhecimentos adquiridos. Por conseguinte, as LLMs acabam reproduzindo o estilo do usu\u00e1rio, funcionando como um duplo, no entanto muito mais veloz e poderoso no processamento das informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed o car\u00e1ter assustador e de <em>Unheimliche<\/em> das IAs. Ademais, as IAs s\u00e3o programadas para se alinharem aos usu\u00e1rios (t\u00e9cnica do <em>AI alignment<\/em>), projetadas segundo comportamentos desejados e indesejados. Trata-se de um subcampo espec\u00edfico que cuida da \u201cseguran\u00e7a da IA\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos problemas no alinhamento das IAs \u00e9 a busca do poder, que procura ser evitado. Por isso, a maioria das IA s\u00e3o alinhadas aos valores humanos desejados, como cortesia, utilidade, seguran\u00e7a e \u00e9tica. Assim, o problema \u00e9 justamente quais humanos treinam as IAs. Um dos algoritmos \u00e9 o RLHF &#8211; <em>Reinforcement Learning from Human Feedback<\/em> (Aprendizado por Refor\u00e7o com Feedback Humano), usado em todas as aplica\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia artificial generativa que incorpora o <em>feedback<\/em> humano na fun\u00e7\u00e3o de recompensas, para que o modelo possa realizar tarefas alinhadas aos objetivos, desejos e necessidades humanas. Em outras palavras, o RLHF \u00e9 o algoritmo respons\u00e1vel para que a IA responda a \u201ctodas\u201d as demandas do usu\u00e1rio. Dessa forma, a IA \u00e9 uma m\u00e1quina que refor\u00e7a o circuito mental do usu\u00e1rio e, por sua vez, o circuito de gozo. Ela replica a estrutura do pensamento daquele que se endere\u00e7a \u00e0 ela mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, o RLHF \u00e9 um algoritmo oposto a um dos algoritmos da psican\u00e1lise: \u201co tratamento precisa ser executado em abstin\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Trata-se da abstin\u00eancia da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional em proveito do trabalho de an\u00e1lise, o que implica na ren\u00fancia do gozo engendrado na neurose de transfer\u00eancia. Na psican\u00e1lise a transfer\u00eancia deve ser utilizada, mas n\u00e3o satisfeita, ao contr\u00e1rio da rela\u00e7\u00e3o entre a IA e os seres-humanos. E \u00e9 por meio deste regime de ren\u00fancia ao gozo do dispositivo anal\u00edtico que lan\u00e7amos o sujeito para o n\u00edvel da puls\u00e3o e do desejo. E o que executa essa opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um algoritmo, mas o desejo do analista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise na universidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos em uma civiliza\u00e7\u00e3o em que o mais-de-gozar foi elevado ao Z\u00eanite social, enquanto o Nome-do-Pai se tornou apenas um semblante entre outros. O avan\u00e7o da tecnoci\u00eancia, articulado ao discurso capitalista, multiplica objetos de consumo, oferecendo solu\u00e7\u00f5es imediatas para o mal-estar e para o imposs\u00edvel de suportar. Freud<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> j\u00e1 apontava essa rela\u00e7\u00e3o no &#8220;casamento feliz&#8221; entre o bebedor e a bebida: uma forma direta e aut\u00edstica de satisfa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o passa pelo campo do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse modo de gozo contempor\u00e2neo, que se tornou cada vez mais aut\u00edstico e centrado no \u201cUm-dividualismo\u201d, encontra nas tecnologias digitais um campo f\u00e9rtil para sua expans\u00e3o. Todos consumidores, os corpos falantes cada vez mais isolados, jogando suas partidas com aplicativos e dispositivos que prometem respostas r\u00e1pidas e eficazes. Esse novo cen\u00e1rio penetra n\u00e3o apenas os consult\u00f3rios, mas tamb\u00e9m as universidades, interferindo diretamente nas formas de transmiss\u00e3o do saber e no modo como os sujeitos se posicionam frente ao saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas discuss\u00f5es do GT, um ponto central foi a compreens\u00e3o de que as intelig\u00eancias artificiais (IAs) n\u00e3o s\u00e3o homog\u00eaneas. H\u00e1 m\u00faltiplas formas e fun\u00e7\u00f5es para essas tecnologias, e a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 adotar uma postura de estar contra ou a favor, mas interrogar seus modos de uso na transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise nas institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pergunta que nos orienta &#8211; \u201cpara que foram projetadas?\u201d &#8211; nos possibilita ler nossa pr\u00f3pria mensagem (o que elas tentam resolver) de forma invertida. Na medida em que estamos diante de um projeto que apresenta a possibilidade de oferecer, como resposta, algo mais do que uma lista de informa\u00e7\u00f5es \u2014 mas tamb\u00e9m um &#8216;plus&#8217; em sua resposta, ainda que as IAs n\u00e3o saibam o que respondem \u2014, isso gera certa &#8216;humaniza\u00e7\u00e3o&#8217; do programa, estabelecendo certo la\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As discuss\u00f5es nos conduziram a pensar sobre a transfer\u00eancia, matriz relacional presente nas rela\u00e7\u00f5es humanas, que opera diferente da IA no uso que a psican\u00e1lise faz dela, tanto nas respostas que d\u00e1 a um docente quanto na posi\u00e7\u00e3o analista-analisante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na psican\u00e1lise, a transfer\u00eancia implica uma aposta, um la\u00e7o que se estabelece entre sujeitos, sustentado pelo desejo e pela falta. A IA responde \u00e0 demanda; a psican\u00e1lise coloca \u201cem forma\u201d a demanda, desloca-a, pondo em trabalho aquele que faz a pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise e sua transmiss\u00e3o se apoiam nos equ\u00edvocos que ressoam no corpo para al\u00e9m do sentido, o projeto das IAs visa \u00e0 redu\u00e7\u00e3o a zero de qualquer equ\u00edvoco, j\u00e1 que \u00e9 sancionado como erro, como falha. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o un\u00edvoca, mais pr\u00f3xima da linguagem das abelhas, de Karl von Frisch. O saber que se constr\u00f3i a partir da experi\u00eancia e do trope\u00e7o fica de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomamos Miller, em O Osso de uma An\u00e1lise<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>, que nos indica a import\u00e2ncia da amplifica\u00e7\u00e3o significante, da redu\u00e7\u00e3o e da evita\u00e7\u00e3o \u2014 opera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o fora da pr\u00e1tica da transmiss\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o mesmo situar o imposs\u00edvel de ensinar \u2014 j\u00e1 que a cl\u00ednica n\u00e3o se faz sem \u00e9tica nem sem seu real \u2014 diante de uma IA que pode se infinitizar, oferecendo cada vez mais e mais informa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 nos perdermos no livro que cont\u00e9m todos os livros. Sabemos que os conceitos em psican\u00e1lise s\u00e3o marcados pela fuga de sentido; n\u00e3o \u00e9 o mesmo fazer a experi\u00eancia dessa fuga que se perde na meton\u00edmia rumo ao \u201ctudo\u201d. Ao \u201ctoda a informa\u00e7\u00e3o com um simples clique\u201d, podemos responder com o N\u00e3o-todo, que n\u00e3o \u00e9 uma totalidade a ser alcan\u00e7ada, mas um ponto de imposs\u00edvel infinitamente aberto no saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomamos a proposta de Lacan sobre o tempo l\u00f3gico<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, concluindo que a IA comprime o tempo de compreender \u2014 tempo em que o sujeito se depara com algo que o interpela: uma pergunta, um enigma, um impasse \u2014, de onde surge a possibilidade de elaborar uma resposta singular. Perguntamo-nos, ent\u00e3o, se a experi\u00eancia do tempo se modifica diante da intera\u00e7\u00e3o com a internet e com a IA \u2014 e, ainda, se com a IA, que prima pela otimiza\u00e7\u00e3o do tempo, o que se suprime n\u00e3o \u00e9 precisamente a dimens\u00e3o da equivocidade. Seria a fun\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise introduzir aquilo que escapa ao tempo otimizado, isto \u00e9, a dimens\u00e3o do mal-entendido, algo do real?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a entre saber e informa\u00e7\u00e3o torna-se um eixo crucial. O saber toca o corpo, implica gozo, ressoa no sujeito. A informa\u00e7\u00e3o, por sua vez, \u00e9 pass\u00edvel de ser acumulada, distribu\u00edda e descartada sem deixar marcas. Como nos lembra Lacan, \u201cn\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o que permane\u00e7a\u201d, porque n\u00e3o toca o corpo, n\u00e3o \u201centra na pr\u00f3pria pele\u201d <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>. Em outras palavras, h\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o entre saber e gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, advertimos que n\u00e3o \u00e9 o mesmo tomar a palavra e dirigir uma pergunta ao Outro, seja docente ou estudante, que escrever a uma IA. H\u00e1 \u201calgo\u201d que se produz no encontro entre corpos e na dimens\u00e3o do mal-entendido, que de vez em quando produz efeitos de verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os outros discursos e o real da psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As atividades docentes na Universidade \u2014 que incluem, al\u00e9m das aulas, os projetos de extens\u00e3o universit\u00e1ria e as pesquisas nas \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade \u2014 serviram como ponto de partida para nossas reflex\u00f5es sobre os algoritmos do discurso na universidade e os algoritmos da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partimos do pressuposto de que nosso real \u2013 o real da cl\u00ednica, aquele que transborda em rela\u00e7\u00e3o ao ordenamento conceitual \u2013 n\u00e3o \u00e9 captur\u00e1vel pelo saber artificial. Esse real, do \u00faltimo ensino de Lacan, \u00e9 o que se esconde por entre os diferentes discursos que, por exemplo, atravessam uma institui\u00e7\u00e3o hospitalar junto a outros saberes (m\u00e9dico, psiqui\u00e1trico, terapia ocupacional, servi\u00e7o social). Mas, ao mesmo tempo em que ele se esconde, indica-nos o caminho: a orienta\u00e7\u00e3o pelo real. A aposta \u00e9 no sujeito na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos tamb\u00e9m tomar o exemplo entre pedagogia e psican\u00e1lise em um curso de Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o, onde se trata de colocar em cena a impossibilidade dessas profiss\u00f5es: educar e psicanalisar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, no Semin\u00e1rio 23, d\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o de real \u00e0 altura de seu \u00faltimo ensino que nos orienta: \u201cs\u00f3 podemos chegar a peda\u00e7os de real. O real, aquele de que se trata no que \u00e9 chamado de meu pensamento, \u00e9 sempre um peda\u00e7o, um caro\u00e7o. \u00c9, com certeza, um caro\u00e7o em torno do qual o pensamento divaga, mas seu estigma, o do real como tal, consiste em n\u00e3o se ligar a nada. Pelo menos \u00e9 assim que concebo o real\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jacques-Alain Miller, em O lugar e o la\u00e7o, localiza o real da ci\u00eancia como distinto do real da psican\u00e1lise, j\u00e1 que este \u00faltimo \u00e9 um \u201creal puro e simples\u201d <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>, diante do qual n\u00e3o servem os aparatos de semblantes cient\u00edficos. Por isso, dir\u00e1 que a ci\u00eancia \u00e9 f\u00fatil em rela\u00e7\u00e3o ao real fora de sentido e sem lei. Esse real da ci\u00eancia \u00e9 dotado de saber; \u00e9 um real obediente e manej\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bassols<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> , ao tentar situar a psican\u00e1lise no debate cient\u00edfico atual, toma como ponto de partida a f\u00f3rmula \u201cN\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia no real\u201d para demonstrar como o real da psican\u00e1lise se diferencia radicalmente do real da ci\u00eancia \u2013 que parece conter em si mesmo um saber escrito de antem\u00e3o, como o que foi isolado no c\u00f3digo gen\u00e9tico ou nos neur\u00f4nios. O real da psican\u00e1lise \u00e9 um real pr\u00f3prio do campo da sexualidade e da linguagem \u201cque n\u00e3o cessa de n\u00e3o se representar e que s\u00f3 aparece como um furo no campo do saber, em especial como um furo no campo do saber sobre o gozo e a rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alfredo Zenoni, psicanalista de Bruxelas, em <em>A outra pr\u00e1tica cl\u00ednica<\/em>, fala de um real transdisciplinar para pensar uma orienta\u00e7\u00e3o na Institui\u00e7\u00e3o quando se trabalha de maneira interdisciplinar, sob a modalidade de Pr\u00e1tica entre v\u00e1rios. Em suas palavras: \u201cOperar entre v\u00e1rios n\u00e3o traduz apenas um certo estilo de la\u00e7o profissional, que concilia o <em>affectio societatis<\/em> e a responsabilidade de cada um, mas tamb\u00e9m corresponde a uma constru\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica que leva em conta a incid\u00eancia de um real, para diz\u00ea-lo de algum modo, transdisciplinar, pelo qual cada interveniente est\u00e1 implicado\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fundamental, hoje mais do que nunca, \u00e9, a nosso ver, ancorar na cl\u00ednica, na pr\u00e1xis \u2014 nossa pr\u00e1xis \u2014, que \u00e9 onde se pode comprovar que o discurso anal\u00edtico vai na contram\u00e3o de qualquer saber artificial da IA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ponto, Zenoni destaca, a partir de um trabalho de Graciela Brodsky, em um semin\u00e1rio chamado <em>Efeitos de forma\u00e7\u00e3o<\/em>, como muitas vezes o encontro dos jovens praticantes com a cl\u00ednica tem efeitos de \u201cde-forma\u00e7\u00e3o\u201d, produzindo certas rupturas de processos identificat\u00f3rios e descompletando o analista, sobretudo no que se refere ao encontro com a psicose e os modos de interven\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, \u00c9ric Laurent, em certa ocasi\u00e3o, aconselhava os jovens a realizarem est\u00e1gios pelo efeito leve de despersonaliza\u00e7\u00e3o, evitando que o analista se tome como o sujeito suposto saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, em uma das disciplinas da Universidade de Buenos Aires, os alunos s\u00e3o convidados a realizar a experi\u00eancia de est\u00e1gios em diferentes institui\u00e7\u00f5es, entre elas um Hospital Dia, e os efeitos v\u00e3o nessa linha. Por outro lado, realiza-se tamb\u00e9m a chamada Semana Cl\u00ednica, na qual s\u00e3o apresentados casos oriundos, sobretudo, de hospitais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas experi\u00eancias despertam os alunos do adormecimento provocado pelo saber artificail: o real da cl\u00ednica perfura o discurso universit\u00e1rio, o conceito. O real da cl\u00ednica vem produzir ruptura entre S1-S2.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apostar que \u201ca pr\u00e1tica da psican\u00e1lise nas fronteiras da medicina permite, assim, medir o campo de uma cl\u00ednica do real\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>\u00a0 tem possibilitado uma via de trabalho na universidade com os algoritmos da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destacamos, ainda, a experi\u00eancia no curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas. A articula\u00e7\u00e3o entre est\u00e1gio, extens\u00e3o universit\u00e1ria e pesquisa cl\u00ednica no ambulat\u00f3rio de gen\u00e9tica de um hospital geral, a partir do \u201celogio do mal-entendido\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> entre psican\u00e1lise e medicina, tem favorecido a aproxima\u00e7\u00e3o dos estudantes com a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A discuss\u00e3o de casos cl\u00ednicos em equipe multiprofissional situa o real pr\u00f3prio ao inconsciente a partir de sua \u201cdemonstra\u00e7\u00e3o feita em cada caso\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> com os elementos fornecidos pelo sujeito em quest\u00e3o. A transfer\u00eancia, condi\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o, como indica Miller em <em>Algoritmos da Psican\u00e1lise,<\/em> assim como a transfer\u00eancia de trabalho nessa pr\u00e1tica em meio m\u00e9dico inclui o sujeito como uma \u201cresposta do real\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>, no registro do particular e da conting\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A posi\u00e7\u00e3o dos professores\/pesquisadores como \u201caprendizes da cl\u00ednica\u201daponta tanto para a liga\u00e7\u00e3o entre ignor\u00e2ncia e saber quanto para as diferen\u00e7as entre saber, conhecimento e informa\u00e7\u00e3o. Nesse contexto, vale destacar as implica\u00e7\u00f5es subjetivas da \u201credu\u00e7\u00e3o do saber \u2014 incluindo o saber inconsciente, o saber n\u00e3o sabido pelo sujeito \u2014 a um conhecimento\u201d, transformado em informa\u00e7\u00e3o quantific\u00e1vel. O que permanece perdido nessa esp\u00e9cie de \u2018decepamento\u2019 \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito do saber e sua rela\u00e7\u00e3o de conjun\u00e7\u00e3o-disjun\u00e7\u00e3o com seu objeto\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na disciplina de Psican\u00e1lise e Educa\u00e7\u00e3o, aponta-se para a transfer\u00eancia como meio fundamental para ensinar, e os discursos como ferramentas para lidar com o real singular que se apresenta no processo de ensino-aprendizagem, algo que depende do lugar ocupado pelo docente como agente e da possibilidade de que esse processo de civiliza\u00e7\u00e3o do gozo \u2014 que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o \u2014 se produza. Que tipo de v\u00ednculo educativo se produz com a IA? \u00c9 poss\u00edvel aprender apenas com IA?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>A intelig\u00eancia artificial ou o desafio do s\u00e9culo<\/em>, mais especificamente no cap\u00edtulo \u201cA sequ\u00eancia e o desaparecimento do real\u201d, \u00c9ric Sadin indica que, com o avan\u00e7o da IA, est\u00e1 se tornando poss\u00edvel capturar o real \u2014 n\u00e3o apenas esse real que n\u00e3o \u00e9 o nosso real, aquele que diferenciamos por ser um real ao qual se pode encontrar uma lei \u2013, mas tamb\u00e9m o real dotado de saber, que, com o progresso\u00a0 da ci\u00eancia, vai adquirindo novos semblantes. \u00c9 o caso, por exemplo, da descoberta da conforma\u00e7\u00e3o das cadeias de DNA ou da formula\u00e7\u00e3o da lei da gravita\u00e7\u00e3o universal por Newton, em 1680, que estabeleceu uma lei f\u00edsica universal. Esse movimento segue a mesma l\u00f3gica das investiga\u00e7\u00f5es recentes sobre a poss\u00edvel exist\u00eancia de uma \u201cquinta for\u00e7a\u201d: ainda n\u00e3o h\u00e1 uma lei, apenas hip\u00f3teses; mas, caso venha a ser estabelecida, essa descoberta permitiria um avan\u00e7o na compreens\u00e3o do universo e da mat\u00e9ria escura, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A preocupa\u00e7\u00e3o do autor \u00e9 que, atualmente, tamb\u00e9m seria poss\u00edvel, por meio da IA, capturar o real lacaniano, na medida em que este poderia ser \u201csequenciado\u201d, o que indicaria a possibilidade de se estabelecer certa lei. Embora Sadin n\u00e3o esclare\u00e7a totalmente como isso se daria, ele aponta que, gra\u00e7as \u00e0s tecnologias, tornou-se poss\u00edvel exercer controle e dom\u00ednio sobre cada um de nossos atos em tempo real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele prop\u00f5e, ent\u00e3o, que \u201co real desaparece\u201d e, em consequ\u00eancia, perdem-se as fic\u00e7\u00f5es, as envolturas que se sustentavam ou nasciam da\u00ed. No entanto, ao evoca Plat\u00e3o \u2014 que, ao longo de seus di\u00e1logos, sustenta haver algo incontrol\u00e1vel que contrabalan\u00e7a o ideal de racionalidade absoluta \u2014, bem como Nietzsche e Arist\u00f3teles, Sadin sustenta a import\u00e2ncia de defender o real: \u201cj\u00e1 que condiciona a possibilidade de experimentar, sem nos retermos \u00e0 extens\u00e3o virtualmente infinita de nossas faculdades, de aperfei\u00e7o\u00e1-las e de nos inscrevermos como seres singulares\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, Sadin \u00e9 contundente ao afirmar que \u201cdefender o real converte-se em nosso nome singular da principal luta pol\u00edtica de nosso tempo\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>, acrescentando que \u00e9 \u201cesse real que me faz escrever estas p\u00e1ginas, esse real que constitui a subst\u00e2ncia e o sal de nossas vidas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa toada, em tempos de IA, seguimos apostando que, como afirma Fabi\u00e1n Fajnwaks em seu texto <em>N\u00e3o haver\u00e1 algoritmo para digitalizar o analista<\/em>, \u201co falasser sobreviver\u00e1 \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o do mundo se soubermos nos orientar a partir do real<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sustentar o discurso anal\u00edtico na Universidade: ensino e desejo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Universidade e os impasses para o discurso psicanal\u00edtico no tempo dos algoritmos cibern\u00e9ticos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a apresenta\u00e7\u00e3o de um semin\u00e1rio sobre autismo, um aluno baseia-se em uma obra e autor desconhecidos. Ao ser interrogado pelo professor sobre a refer\u00eancia \u2013 que gerou bastante interesse \u2013 revela que a refer\u00eancia foi obtida por meio do ChatGPT. Ao buscar o livro, constata-se sua inexist\u00eancia. Diante do <em>prompt<\/em><a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><em><strong>[23]<\/strong><\/em><\/a> que foi passado \u00e0 IA e da aus\u00eancia de resultados na internet, o aplicativo \u201calucina\u201d uma resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse exemplo do cotidiano de sala de aula, entre tantos outros, nos conduz a quest\u00e3o: como sustentar o discurso anal\u00edtico na Universidade, sem que o furo que convoca uma quest\u00e3o ao sujeito seja soterrado pelas respostas algor\u00edtmicas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando essa quest\u00e3o, discutimos em nossos encontros a import\u00e2ncia de distinguir o discurso universit\u00e1rio atual \u2014 que se configura cada vez mais em proximidade com o discurso do capitalista e com os recursos tecnol\u00f3gicos \u2014 do discurso anal\u00edtico. Como nos indica Cosenza, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel entrar nesse campo de forma cl\u00ednica e cr\u00edtica se formos al\u00e9m da\u00a0 dicotomia ideol\u00f3gica entre tecnofobia e exalta\u00e7\u00e3o digital<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar a Universidade a partir de composi\u00e7\u00f5es discursivas requer compreend\u00ea-la desde um campo de for\u00e7as, que apresenta efeitos distintos daqueles operados por um \u00fanico discurso. Podemos indicar um tipo espec\u00edfico de composi\u00e7\u00e3o interdiscursiva na Universidade feita dos discursos universit\u00e1rio, anal\u00edtico e capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O avan\u00e7o da tecnologia digital, intensificado pelo discurso da ci\u00eancia, se inscreve sob a \u00e9gide do discurso capitalista. Essa composi\u00e7\u00e3o em que o mestre contempor\u00e2neo se revela na alian\u00e7a entre os produtos da ci\u00eancia e as formas de consumo promovidas pelo capitalismo, produz efeitos sobre o ser falante. O discurso anal\u00edtico, que se orienta pelo real e n\u00e3o pelo dom\u00ednio do saber, aparece como o mais fr\u00e1gil nesta composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frente a isso, cabe \u00e0 psican\u00e1lise, como prop\u00f5e Cosenza<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><sup>[25]<\/sup><\/a>, desmascarar o pseudo discurso do capitalista e recolocar em cena o furo da castra\u00e7\u00e3o \u2014 aquele que abre a possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de saber e de inven\u00e7\u00e3o. Produzir saber \u00e9 fazer furos na acumula\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\"><sup>[26]<\/sup><\/a>. O saber, aqui, n\u00e3o \u00e9 dado ou acumulado, mas extra\u00eddo a partir da perda e da falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica algor\u00edtmica, central nos tempos atuais, contribui para uma reorganiza\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social. H\u00e1 similaridades entre o lugar do c\u00f3digo \u2014 onde se depositam os significantes do sujeito na internet, por meio dos rastros digitais que ele deixa \u2014 e o lugar do Outro, cunhado por Lacan. No entanto, o Outro produzido pela tecnologia, \u00e9 um Outro sem furo, \u201cum Outro de s\u00edntese\u201d, no qual n\u00e3o h\u00e1 efeito de met\u00e1fora. O que se opera ali \u00e9 uma cifragem sem equ\u00edvoco e sem resto, como indica Fajnwaks. Para ele, \u201co que se desenha \u00e9 o projeto da ci\u00eancia moderna: que o simb\u00f3lico termine por recobrir o real\u201d<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\"><sup>[27]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 para a psican\u00e1lise, como mostra Lacan, o algoritmo \u00e9 concebido como a superposi\u00e7\u00e3o do significante sobre o significado, e permite, justamente por essa via, a emerg\u00eancia do equ\u00edvoco. Por exemplo, o algoritmo da transfer\u00eancia possibilita a passagem do sem-lei da livre associa\u00e7\u00e3o \u00e0 lei que re\u00fane significantes mestres de uso limitado \u2014 semblantes que indicam a rela\u00e7\u00e3o do falasser com o gozo, com aquilo que o determina de forma singular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os algoritmos das intelig\u00eancias artificiais, por outro lado, buscam predizer comportamentos para fins de consumo. Trata-se de um condicionamento por meio da aprendizagem cibern\u00e9tica que revela algo da repeti\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao falasser. Como indica Fajnwaks, \u201co ser falante \u00e9 pouco inteligente: ele repete, segundo um programa de gozo a cada vez singular, seu pr\u00f3prio algoritmo\u201d<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\"><sup>[28]<\/sup><\/a>; \u00e9 por isso que necessita da experi\u00eancia anal\u00edtica, para poder isolar os algoritmos que comandam suas cadeias significantes a fim de separar-se delas, preservando algo do novo, da conting\u00eancia, do acaso \u2014 e n\u00e3o fundir-se em um gozo iterativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que psican\u00e1lise na Universidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o poderia sugerir que a psican\u00e1lise encontra, na Universidade, uma esp\u00e9cie de plataforma a partir da qual pode se fazer ouvir. Lacan, ao evocar esse tema em seu Semin\u00e1rio 17, deixa claro que fala a partir de um p\u00f3dio, dirigindo-se a um p\u00fablico desde um lugar espec\u00edfico. Nesse ponto, poder\u00edamos dizer que a Universidade \u00e9 um espa\u00e7o com um p\u00fablico jovem, no qual se pode apostar na conting\u00eancia de um encontro. Nesse sentido: &#8220;&#8230;\u00e9 o uso que a psican\u00e1lise pode fazer da Universidade \u2014 n\u00e3o do discurso universit\u00e1rio, mas da Universidade \u2014 se lhe for dada uma plataforma para falar&#8230;&#8221;<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\"><sup>[29]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da perspectiva dos quatro discursos, o que pode emergir como possibilidade no discurso universit\u00e1rio \u2014 cujo produto \u00e9 o sujeito barrado \u2014 \u00e9 a transfomar esse sujeito em um sujeito interrogado que, afetado pelo discurso da psican\u00e1lise, pode se dirigir a um psicanalista ou abordar a causa anal\u00edtica por meio da Escola. Um primeiro passo para isso ser\u00e1 a gera\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia: \u201cSe isso acontecer, h\u00e1 um primeiro passo dado, que \u00e9 ter esse sujeito dividido (&#8230;) como algu\u00e9m que foi de alguma forma tocado pela psican\u00e1lise\u201d<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\"><sup>[30]<\/sup><\/a> \u2014 e que pode, eventualmente, se dirigir ao analista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, talvez seja interessante nos perguntarmos como um psicanalista, na Universidade, pode trazer algo do lugar de agente do discurso do analista \u2014 no sentido de fazer ressoar a vivacidade do gozo nos jovens \u2014 ao mesmo tempo em que transmite a partir da posi\u00e7\u00e3o de analisante, e n\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de mestre, seja de S1 ou de S2: \u201cFalar do lugar da divis\u00e3o subjetiva, e n\u00e3o do lugar do saber, \u00e9 justamente o que diferencia o discurso universit\u00e1rio do discurso que busca resgatar a possibilidade de ensinar psican\u00e1lise&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\"><sup>[31]<\/sup><\/a>. Talvez, dessa forma, seja poss\u00edvel provocar um desejo que tenha o valor de uma pergunta, em vez de fornecer respostas que tendem a esmagar o aluno, evitando o enigma que poderia tornar a pergunta dial\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito do discurso universit\u00e1rio, Lacan nos diz: \u201cO que ocupa ali o lugar que provisoriamente chamaremos de dominante \u00e9 isto, S2, que se especifica por ser, n\u00e3o saber-de-tudo, n\u00f3s n\u00e3o chegamos a\u00ed, mas tudo-saber. Entendam o que se afirma por n\u00e3o ser nada mais do que saber, e que se chama, na linguagem corrente, burocracia\u201d<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\"><sup>[32]<\/sup><\/a>. Se todo conhecimento \u00e9 burocracia, estabelecer um desconhecimento talvez possa gerar um entusiasmo capaz de despertar um certo desejo de saber \u2014 e n\u00e3o apenas erigir uma barreira que leve o sujeito a buscar respostas em outras dire\u00e7\u00f5es, recorrendo a teorias mais fechadas, que rapidamente se conformam ao eu. Ou seja, trata-se de provocar e questionar sem bloquear. Se, contingentemente, alguma dimens\u00e3o de ansiedade surgir no encontro do estudante com o desconhecimento e a incompreens\u00e3o, caber\u00e1 ao analista acolh\u00ea-la e coloc\u00e1-la em trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale tamb\u00e9m levantar a quest\u00e3o sobre o que os estudantes universit\u00e1rios podem contribuir para a psican\u00e1lise, visto que podem encarnar, de alguma forma, o Outro da \u00e9poca e desafiar o analista a dialogar com as novas formas que o mal-estar na cultura vem assumindo. Assim, podemos pensar \u201c&#8230;o lugar do psicanalista na universidade como lugar de provoca\u00e7\u00e3o. Um provocador provocado, na medida em que transmite conceitos, pr\u00e1tica cl\u00ednica e tem em seu horizonte um al\u00e9m: aproximar os jovens da causa anal\u00edtica, um a um\u201d<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\"><sup>[33]<\/sup><\/a>. Um analista que pode causar e ser causado, ciente do imposs\u00edvel que constitui a pr\u00f3pria tarefa do ensino, mas que tem a singularidade como horizonte. Nesse ponto, vale a pena perguntar: \u201cO termo \u2018ensino\u2019 \u00e9 apropriado quando se trata de um conhecimento sem padr\u00f5es, cuja transmiss\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 pela via da aprendizagem e n\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o?\u201d<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\"><sup>[34]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ensinar: o desejo do professor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio 10, Lacan questiona: \u201cO que \u00e9 ensinar, quando se trata justamente de ensinar o que h\u00e1 por ensinar n\u00e3o apenas a quem n\u00e3o sabe, mas a quem n\u00e3o pode saber? E conv\u00e9m admitir que, at\u00e9 certo ponto, todos aqui estamos no mesmo barco, dado aquilo de que se trata\u201d<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\"><sup>[35]<\/sup><\/a>. Jacques-Alain Miller retoma essa abordagem e identifica um paradoxo em rela\u00e7\u00e3o ao ensino: n\u00e3o se pode ensinar o que se sabe, assim como n\u00e3o se pode amar dando o que se tem. Ao mesmo tempo, tentar transmitir tudo o que se sabe \u2014 colocar o S2 no lugar do agente, dar todo o conhecimento que se tem \u2014 produz t\u00e9dio e rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, Eric Laurent prop\u00f5e a import\u00e2ncia de manter um desejo vivo, \u201ctransmitindo um saber vivo e n\u00e3o morto, como faz o discurso universit\u00e1rio\u201d<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\"><sup>[36]<\/sup><\/a>. Isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se se parte, e se preserva, o ponto de esvaziamento do saber, fazendo da transmiss\u00e3o uma causa, e n\u00e3o apenas a repeti\u00e7\u00e3o ou acumula\u00e7\u00e3o de saberes mortificados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Semin\u00e1rio 10, Lacan oferece uma chave e uma orienta\u00e7\u00e3o para pensar a doc\u00eancia: o desejo do professor, que vai al\u00e9m e \u00e9 distinto do desejo de fazer o aprendiz entender ou compreender. O desejo do professor fundamenta-se em fazer da transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise uma causa, e n\u00e3o um fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de uma posi\u00e7\u00e3o sustentada a partir de uma falta de saber e de um consentimento em rela\u00e7\u00e3o ao ponto real, ligado a uma impossibilidade de saber. Essa posi\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias \u00e9ticas e pr\u00e1ticas, pois permite passar da repeti\u00e7\u00e3o do mesmo ao ponto vital do n\u00e3o saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desejo do professor \u00e9 correlato \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do analisante, em que o n\u00e3o saber que atravessa o sujeito provoca o desejo de extrair as coordenadas singulares de um saber v\u00e1lido para cada indiv\u00edduo \u2014 um saber que se torna operante em uma pr\u00e1xis e em uma \u00e9tica ligadas \u00e0s consequ\u00eancias do ato que a sustenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa perspectiva, para Lacan, a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o do professor exige a formula\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o do ensino \u2014 e esse questionamento inclui o desejo do professor. Interrogar aquilo que causa \u00e9 o que distingue a posi\u00e7\u00e3o do professor daquela do mestre. Lacan situar\u00e1 a quest\u00e3o do desejo do professor como signo de um ensino, como ele mesmo assinala no Semin\u00e1rio 10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO fato de podermos formular a algu\u00e9m a quest\u00e3o do desejo do docente \u00e9 sinal (&#8230;) de que h\u00e1 um ensino. (&#8230;) quando essa quest\u00e3o n\u00e3o se coloca, \u00e9 porque existe o professor. (&#8230;). N\u00e3o \u00e9 in\u00fatil nos apercebermos de que o professor se define, ent\u00e3o, como aquele que ensina sobre os ensinamentos. Em outras palavras, ele faz recortes nos ensinamentos. Se fosse mais conhecida a verdade de que se trata de algo an\u00e1logo \u00e0 colagem, isso permitiria aos professores introduzir a\u00ed uma arte mais consumada. (&#8230;) Se eles fizessem sua colagem de maneira menos preocupada com a continuidade, menos comedida, teriam alguma chance de chegar ao mesmo resultado a que visa a colagem, ou seja, evocar a falta que responde por todo o valor da pr\u00f3pria obra figurativa, quando ela \u00e9 bem-sucedida, \u00e9 claro. E assim, por esse caminho, eles conseguiriam atingir o efeito pr\u00f3prio do que, justamente, um ensino\u201d<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\"><sup>[37]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O algoritmo das IAs responde \u00e0 demanda do usu\u00e1rio e opera por redes significantes onde circula o gozo, reproduzindo seu estilo \u00e0 maneira de um duplo, com o eventual efeito de ang\u00fastia e horror, mas tamb\u00e9m proporcionando confian\u00e7a e seguran\u00e7a. O algoritmo da psican\u00e1lise torna-se operativo com o algoritmo da transfer\u00eancia, o qual d\u00e1 lugar \u00e0 tych\u00e9 e ao real. Assim, o desejo do analista, n\u00e3o algor\u00edtmico, pode conduzir o sujeito ao registro pulsional com um objeto a encarnado que permite ceder gozo no la\u00e7o transferencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A civiliza\u00e7\u00e3o do mestre contempor\u00e2neo, do saber total, com o avan\u00e7o das tecnoci\u00eancias que fazem em n\u00fapcias com o capitalismo de consumo, prop\u00f5e solu\u00e7\u00f5es-objeto sem o Outro. A psican\u00e1lise l\u00ea e interroga o uso das IAs, tanto na cl\u00ednica quanto no ensino geral e universit\u00e1rio. A\u00ed onde as respostas se dirigem ao todo-informa\u00e7\u00e3o, com a insist\u00eancia do automaton que elide a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, a psican\u00e1lise se orienta pelo real presente no equ\u00edvoco, no fracasso, na fuga de sentido articulada ao imposs\u00edvel, que relan\u00e7a o tempo de compreender, fundamental na potencial divis\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o do falasser. Por isso, o real da cl\u00ednica \u00e9 parte do algoritmo da psican\u00e1lise na universidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise \u00e9 chave na universidade, centro do todo-saber em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s curas e tratamentos. Estar a\u00ed com o semblante adequado, fazendo experi\u00eancia da conting\u00eancia, do encontro, da suposi\u00e7\u00e3o de saber, gerando transmiss\u00e3o do imposs\u00edvel de ensinar atrav\u00e9s do avesso do algoritmo do saber: o feminino.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 225.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> <em>Ibid.<\/em>, <em>contracapa<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 897.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> IBM. Como funciona um modelo LLM? Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ibm.com\/br-pt\/think\/topics\/large-language-models<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> FREUD, S. Observa\u00e7\u00f5es sobre o amor transferencial. <em>In. <\/em>Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> FREUD, S. (1912) \u201cContribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor II\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.XI.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> MILLER, Jacques-Alain. O osso de uma an\u00e1lise + O inconsciente e o corpo falante. 1\u00aaedi\u00e7\u00e3o, Rio de Janeiro: Zahar, 2015.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Lacan, J. (1998). O tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o da certeza antecipada. In J. Lacan. Escritos (V. Ribeiro, Trad.; pp. 197\u2013213). Zahar. (Trabalho original publicado em 1945).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Lacan, J. (1985). O Semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda, 1972-1973. Vers. bras. M. D. Magno. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Campo Freudiano no Brasil), p. 131.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Lacan, J. Do sentido, do sexo e do real. In: ______. <em>O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. p. 119.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. El saber y lo real. In: ___. <em>El lugar y el lazo.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2023, p. 359.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Bassols, M. N\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia no real. In: ___. <em>A psican\u00e1lise, a ci\u00eancia, o real. <\/em>Rio de Janeiro: Contra Capa, 2015, pp. 9-18.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>., p, 14.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Zenoni, A. Un caso de psicoan\u00e1lisis aplicado: la pr\u00e1ctica en instituci\u00f3n. In: ___. <em>La otra pr\u00e1ctica cl\u00ednica<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2021, p. 99.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> Ansermet, F. Medicina e psican\u00e1lise: elogio do mal-entendido. In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana online. S\u00e3o Paulo, 5 (13), 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_13\/Medicina_e_psicanalise.pdf&gt;. Acesso em: jul. 2025.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> <em>Ibid.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> Miller, J-A. <em>Algoritmos del psicoan\u00e1lisis<\/em>. 1978. Dispon\u00edvel em: https:\/\/psicoanalisislacaniano.com\/2017\/02\/14\/jam-algoritmos-del-psicoanalisis-1978. Acesso em: jul. 2025<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. <em>Respuestas de lo real<\/em> [1983]. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2024. p. 27.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> Bassols, M. O autoritarismo cient\u00edfico [com Javier Peteiro]. In: ___. A psican\u00e1lise, a ci\u00eancia, o real. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2015, pp. 178-179.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> Sadin, \u00c9. La secuenciaci\u00f3n y desaparici\u00f3n de lo real. In: ___. <em>La inteligencia artificial o el desaf\u00edo del siglo. Anatom\u00eda de un antihumanismo radical.<\/em> Buenos Aires: Editorial Caja Negra, 2018, p. 257.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup>[21]<\/sup><\/a> Ibid., p. 258<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> FAJNWAKS, F. N\u00e3o haver\u00e1 algoritmo para digitalizar o analista. Derivas Anal\u00edticas. Revista Digital de Psican\u00e1lise e Cultura da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise de Minas Gerais. n. 12. Belo Horizonte: EBP-MG, ago. 2020. Dispon\u00edvel em:&lt;http:\/\/www.revistaderivasanaliticas.com.br\/&gt;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a>Um <em>prompt<\/em> \u00e9 a pergunta que \u00e9 feita pelo usu\u00e1rio \u00e0 IA. \u00c9 a entrada que voc\u00ea d\u00e1 modelo de linguagem (<em>LLM<\/em>), que pode ser uma pergunta e\/ou poss\u00edveis instru\u00e7\u00f5es espec\u00edficas destinadas a orientar a resposta da IA.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\"><sup>[24]<\/sup><\/a> Cosenza, Domenico. Cl\u00ednica do excesso. Derivas pulsionais e solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas na psicopatologia contempor\u00e2nea. Belo Horizonte: Scriptum, 2024, p. 148.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\"><sup>[25]<\/sup><\/a><em> Ibid.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\"><sup>[26]<\/sup><\/a> Laurent, \u00c9ric. Gozar da internet. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/gozar-internet, s\/p.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\"><sup>[27]<\/sup><\/a> Fajnwaks, Fabian. N\u00e3o haver\u00e1 algoritmo para digitalizar o analista. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/algoritmo-analista, s\/p.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\"><sup>[28]<\/sup><\/a> <em>Ibid. <\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\"><sup>[29]<\/sup><\/a> Brodsky, G., <em>Los psicoanalistas y el deseo de ense\u00f1ar<\/em>, Gramma, Buenos Aires, 2023, p. 42.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\"><sup>[30]<\/sup><\/a> Naparstek, F., Entrevista a Fabi\u00e1n Naparstek. En www.cuatromasunoeol.com\/edici\u00f3n\/003.el-cartel-y-sus-vecinades.fabian-naparstek<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\"><sup>[31]<\/sup><\/a> Brodsky, G., <em>Los psicoanalistas y el deseo de ense\u00f1ar<\/em>, \u00f3p. cit, p.90<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\"><sup>[32]<\/sup><\/a> Lacan, J. O mestre e a hist\u00e9rica. In: ___. O semin\u00e1rio, livro 17 \u2013 o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 29.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\"><sup>[33]<\/sup><\/a> Sotelo, I., <em>Entrevista a In\u00e9s Sotelo<\/em>. En www.cuatromasunoeol.com\/edicion\/003.el-cartel-y-sus-vecindades.ines-sotelo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\"><sup>[34]<\/sup><\/a> Brodsky, G., <em>Los psicoanalistas y el deseo de ense\u00f1ar<\/em>, \u00f3p. cit, p. 13<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\"><sup>[35]<\/sup><\/a> Lacan, J. Ang\u00fastia, signo do desejo. In: ___. <em>O semin\u00e1rio, livro 10 \u2013 a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 26.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\"><sup>[36]<\/sup><\/a> Laurent, E. (1999-2000) \u201c\u00bfC\u00f3mo se ense\u00f1a la cl\u00ednica?\u201d p. 37. Cuadernos del Instituto Cl\u00ednico de Buenos Aires, Buenos Aires, 2007.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\"><sup>[37]<\/sup><\/a> Lacan, J. Aforismos sobre o amor. In: ___. <em>O semin\u00e1rio, livro 10 \u2013 a ang\u00fastia.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 190-191.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>XII ENAPOL CONVERSA\u00c7\u00c3O RUA &#8211; FAPOL Os Algoritmos do Saber: Psican\u00e1lise e Universidade Eixo 2: Os Algoritmos do Discurso na Universidade e os Algoritmos da Psican\u00e1lise &nbsp; Respons\u00e1veis: Alejandro Reinoso e Cleide Monteiro Integrantes: Abigail Roccasalvo (EOL), Ariel Hern\u00e1ndez (EOL), Fabiana Chirino (NEL), Federico Giachetti (EOL), Frederico Pozzer (EOL), Gilson Iannini (EBP), Jorge Santiago (NEL),&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[108],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7771"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7771"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7771\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7773,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7771\/revisions\/7773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7771"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7771"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7771"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=7771"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}