{"id":7963,"date":"2025-08-29T09:04:11","date_gmt":"2025-08-29T12:04:11","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/artificios-del-saber-y-saber-autentico\/"},"modified":"2025-09-02T17:56:57","modified_gmt":"2025-09-02T20:56:57","slug":"artificios-do-saber-e-saber-autentico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/artificios-do-saber-e-saber-autentico\/","title":{"rendered":"Artif\u00edcios do Saber e Saber Aut\u00eantico"},"content":{"rendered":"<h3><strong>Artif\u00edcios do Saber e Saber Aut\u00eantico<\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Coordinaci\u00f3n: Roxana Vogler (EOL) e Virg\u00ednia Carvalho (EBP)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Participantes: Ang\u00e9lica Bastos (EBP), Candela M\u00e9ndez (EOL), Diana Wolkowicz (EOL), Estanislao Coconier Gatta (EOL), Federico Oyola (EOL), Gabriela Villaroel Carbajal(NEL), Juliana Motta (EBP), Maggie Jauregui (NEL), Marcia Mar\u00eda Rosa Vieira (EBP), Nancy Carneiro (EBP), Olivia Viana (EBP), Pablo Reyes (NEL), Virginia Baroli (EOL)<\/span><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como pensar os efeitos da transforma\u00e7\u00e3o na oferta de artif\u00edcios de saber pr\u00f3pria da nossa cultura, aliada ao imperativo capitalista, sem cair nem em um tradicionalismo tecnof\u00f3bico nem em um entusiasmo irrefletido? Existe um saber de artif\u00edcio ou um saber que n\u00e3o seja artificial? Um saber aut\u00eantico? Passaria esse saber aut\u00eantico, que n\u00e3o se confunde com o saber verdadeiro, pelo artif\u00edcio? Um conhecimento adquirido atrav\u00e9s da IA poderia se constituir como um saber que toque o gozo? Sujeitos consumidores de IA ou consumidos por ela? Lamentar a IA ou reconhec\u00ea-la em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 singular psicopatologia da vida cotidiana?<\/p>\n<p>Essas foram algumas das perguntas que orientaram nossa investiga\u00e7\u00e3o durante esses quatro meses de reuni\u00f5es do Grupo de Trabalho, mobilizado pela Rede Universit\u00e1ria Americana (RUA), como prepara\u00e7\u00e3o para a Conversa\u00e7\u00e3o que ter\u00e1 lugar em Belo Horizonte, Brasil, por ocasi\u00e3o do XII ENAPOL, sobre o tema\u00a0<em>\u201c<\/em>Algoritmos de saber: Psican\u00e1lise e Universidade<em>\u201d<\/em>. Este subgrupo, composto por colegas das tr\u00eas Escolas da FAPOL, buscou investigar e delimitar as dimens\u00f5es artificiais e aut\u00eanticas do saber, valorizando os usos singulares que o ser falante pode fazer desses artif\u00edcios tanto na cl\u00ednica psicanal\u00edtica quanto no \u00e2mbito universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A digitaliza\u00e7\u00e3o do mundo<\/strong><\/p>\n<p>O deslocamento do lugar do saber para o Outro digital produzido pela intelig\u00eancia artificial tem incid\u00eancia sobre os modos de fazer la\u00e7o, de acesso e constru\u00e7\u00e3o do saber e sobre o corpo dos seres falantes, atingindo tamb\u00e9m o discurso universit\u00e1rio em todos os seus n\u00edveis e colocando o desafio de sua atualiza\u00e7\u00e3o, dado que as institui\u00e7\u00f5es educativas s\u00e3o placas sens\u00edveis \u00e0s muta\u00e7\u00f5es subjetivas de cada \u00e9poca.<\/p>\n<p>O impacto da digitaliza\u00e7\u00e3o do mundo \u00e9 um fato inelud\u00edvel que vem tra\u00e7ando uma nova cartografia sociocultural e subjetiva, interpelando tanto o analista quanto o ensinante a respeito de seu pr\u00f3prio desejo e ato.<\/p>\n<p>Como psicanalistas, somos convocados a fazer uma leitura das mudan\u00e7as na civiliza\u00e7\u00e3o e sua incid\u00eancia nos sujeitos. A massifica\u00e7\u00e3o da IA acaba por minimizar o esfor\u00e7o requerido apra aprender a usar essas ferramentas digitais de maneira cr\u00edtica e reflexiva. O risco \u00e9 o da deprecia\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria enuncia\u00e7\u00e3o, com efeitos de segrega\u00e7\u00e3o. Os dispositivos tecnol\u00f3gicos se constatam como aut\u00eanticas superf\u00edcies libidinais onde as pessoas desdobram seus modos sintom\u00e1ticos de amarra\u00e7\u00e3o, onde criam e s\u00e3o criadas em uma espiral dial\u00e9tica que, embora n\u00e3o tenha bordas precisas nem bem delineadas, nos convoca a dar todo o realce de artif\u00edcios de um novo saber-fazer com o pulsional.<\/p>\n<p>Lacan pontua que \u201cali onde n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, isso produz\u00a0<em>troumatisme<\/em>&#8230; A gente inventa. A gente inventa o que pode&#8230; \u00e0 palavra \u2018inventado\u2019 eu a coloquei na frente&#8230; ligando-a ao que a necessita, ou seja, o Saber. O Saber se inventa&#8230;\u201d (Lacan, 1974, aula 11). Nessa perspectiva, como pensar essa inven\u00e7\u00e3o de um saber? Seria esse saber inventado um saber novo? Para inventar um saber \u00e9 preciso \u201cempenhar a pr\u00f3pria pele\u201d, como aponta Lacan no Semin\u00e1rio 20 (Lacan, 1972, p.130). Para ler esse saber, \u00e9 fundamental que os analistas n\u00e3o fiquem nem obnubilados nem espantados diante desses novos cen\u00e1rios, s\u00f3 assim poderemos orientar as curas pelo real de cada sujeito que nos procura pelo seu sofrimento, apontando a \u201cdespejar o x do seu pr\u00f3prio algoritmo\u201d (Vogler, 2024).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Usos da IA<\/strong><\/p>\n<p>O inconsciente, um saber n\u00e3o sabido, difere do conhecimento e da representa\u00e7\u00e3o que, embora possam ser considerados parte da ordem do conhecimento, constituem, em contrapartida, um saber que se sabe. Lacan admite que um computador pensa, mas se pergunta se sabe (Lacan, 1972, p.117). Tanto a aquisi\u00e7\u00e3o quanto o exerc\u00edcio do saber implicam gozo. No\u00a0<em>Semin\u00e1rio, Livro 20<\/em>, Lacan diz: \u201co saber vale justa quanto ele custa, ele \u00e9 custoso, ou gustoso, pelo que \u00e9 preciso, para t\u00ea-Io, empenhar a pr\u00f3pria pele, pois que ele e dif\u00edcil, dif\u00edcil de que? &#8211; menos de adquiri-lo do que de gozar dele.\u201d (Lacan, 1972, p.130).<\/p>\n<p>Ali situa-se, ent\u00e3o, a articula\u00e7\u00e3o do saber com o gozo. E Lacan acrescenta:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;esses saberes, t\u00ea-los feito entrar na pr\u00f3pria pele por duras experiencias, isto acaba a<\/p>\n<p>seco. N\u00e3o se importa nem se exporta isso. N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o que fique, sen\u00e3o da medida de algu\u00e9m formado no uso.\u201d (Lacan, 1972, p.131). <em>Formado pelo uso<\/em>, ent\u00e3o, parece nos dar uma chave para distinguir um saber que se produz e concerne ao sujeito, daquele que se obt\u00e9m apenas como informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se, por um lado, Lacan considera em \u201cA Terceira\u201d (Lacan, 1974) o <em>cogito<\/em> cartesiano como o momento inaugural do sujeito, por outro, sustenta que a subvers\u00e3o do <em>cogito <\/em>pelo descobrimento de pensamentos inconscientes conduz ao \u201cPenso, logo gozo\u201d (leia-se \u201c<em>Je pense, donc je souis<\/em>\u201d), que condensa o ser e o gozar (<em>souis = suis + jouis<\/em>). N\u00e3o passamos do pensamento ao ser, mas do pensamento ao gozo, atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o do inconsciente, o saber n\u00e3o sabido, do qual se faz experi\u00eancia na pr\u00e1tica psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>Dito isso, consideremos como uma fantasia a expectativa que impulsiona as ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o. Como qualquer ci\u00eancia, ela exclui o sujeito que nos interessa, como prop\u00f5e Lacan, n\u00e3o em sua totalidade, mas em sua abertura (Lacan, 1985, p.365). As ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o desenvolvem programas aut\u00f4nomos que simulam o pensamento humano e realizam tarefas complexas de forma independente, agilizando o tempo de resposta \u2014 hoje chamadas de Intelig\u00eancia Artificial (IA).<\/p>\n<p>No horizonte do discurso hipermoderno da nossa civiliza\u00e7\u00e3o capitalista e neoliberal, considerar essa expectativa no registro da fantasia nos permite evocar a provocadora confer\u00eancia de Jacques-Alain Miller na Ilha de Comandatuba, em 2004, \u201cUma Fantasia\u201d, na qual ele destaca tr\u00eas posturas entre os psicanalistas em rela\u00e7\u00e3o ao discurso hipermoderno: (1) uma orientada ao passado, que exalta o simb\u00f3lico e busca resgatar tradi\u00e7\u00f5es; (2) uma presente, que se refugia no imagin\u00e1rio para o qual nada acontece; e, por fim, (3) uma progressista, que tenta fazer com que a realidade da cl\u00ednica esteja aderida ao progresso da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Podemos usar essas tr\u00eas posturas para abordar os usos que fazemos dessa companheira inumana, a IA. A saber: (1) nost\u00e1lgicos dos tempos em que a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, seu ensino e transmiss\u00e3o desconheciam tal associa\u00e7\u00e3o; (2) t\u00e3o familiarizados com a IA que ela nem sequer nos parece estranha; (3) apegados \u00e0 expectativa de que o mist\u00e9rio da uni\u00e3o do significante com o corpo seja decifrado, ou seja, que se decifre o mist\u00e9rio do corpo falante, cada vez.<\/p>\n<p>Com Miller (2004), inscrevemos essas tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es dentro de um \u201cfunciona!\u201d. Sabemos disso pelo nosso uso di\u00e1rio de diversas aplica\u00e7\u00f5es que integram IA: buscas no Google, YouTube, Amazon, Netflix, Siri, Alexa e as ferramentas generativas mais surpreendentes \u2014 <em>ChatGPT, DeepSeek, AI Art<\/em> \u2014 al\u00e9m de tradutores de idiomas, tradutores de voz e muitos outros.<\/p>\n<p>Uma pergunta se imp\u00f5e: como isso chega \u00e0 psican\u00e1lise e \u00e0 cl\u00ednica psicanal\u00edtica? A resposta n\u00e3o se faz esperar, chega na medida em que isso gera novas psicopatologias na vida cotidiana, psicopatologias que nos mostram que, embora possa ser para melhor, tamb\u00e9m pode ser para pior, dependendo do uso e do usu\u00e1rio. Sob essa perspectiva, \u201cisso poderia n\u00e3o funcionar\u201d, pode-se fazer disso um uso\u00a0<em>off-label<\/em>, com seus riscos e benef\u00edcios.<\/p>\n<p>Assim, temos crian\u00e7as expostas a predadores maliciosos, adolescentes isolados em seus quartos visitando sites pornogr\u00e1ficos, pessoas insatisfeitas em aplicativos de encontros, estudantes universit\u00e1rios que produzem seus trabalhos com Ctrl+C e Ctrl+V, pais com dificuldade em limitar o tempo de internet dos filhos, sujeitos viciados em apps, como o tar\u00f4 online, pacientes que s\u00f3 aceitam sess\u00f5es online&#8230;<\/p>\n<p>Dever\u00edamos responsabilizar a IA por isso? Lamentar os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos? Tudo o que vir\u00e1 depende do uso e do usu\u00e1rio; portanto, depende do simples e r\u00e1pido ato de clicar!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>IA como artif\u00edcio de saber<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A Intelig\u00eancia Artificial, com suas respostas instant\u00e2neas e polidas, apresenta um novo desafio. Em um cen\u00e1rio onde o estudante pode acessar uma resposta perfeitamente redigida sem media\u00e7\u00e3o humana, o lugar do docente se redefine. Que lugar ocupa, ent\u00e3o, aquele que ensina? Como transmitir algo quando a voz que responde j\u00e1 n\u00e3o titubeia nem falha?<\/p>\n<p>Voz da IA que fala amavelmente, que n\u00e3o vocifera, que reconhece um estilo discursivo e persuade sem se opor, que corrige escritos e resolve problemas que lhe s\u00e3o apresentados. Como um professor se arranja para transmitir um saber diante dessa nova \u201cvoz de Deus\u201d? N\u00e3o mais trovejante, mas am\u00e1vel. Essa l\u00edngua que vem do al\u00e9m. \u201cL\u00edngua das telas, de um corpo sem volume\u201d (Berkoff, 2015). Que er\u00f3tica do ensino \u00e9 poss\u00edvel sem um corpo com volume que a sustente? Seria tamb\u00e9m a IA um corpo sem volume?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Saber aut\u00eantico, saber de artif\u00edcio e gozo<\/strong><\/p>\n<p>Partimos da ideia de que o <em>saber artificial<\/em> \u00e9 aquele que se assenta no discurso universit\u00e1rio. \u201cA estrutura geral de todos os aparelhos em que o saber est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de semblante e cujos assuntos tocam o poder \u00e9 o que Lacan chamou de discurso da Universidade\u201d (Miller, 2011, p.21). Um poder de dom\u00ednio se exerce sobre o gozo e a produ\u00e7\u00e3o de sujeitos. Nessa perspectiva, seria poss\u00edvel incluir entre os semblantes de saber a IA, e nos perguntarmos pelas consequ\u00eancias de seu uso no gozo?<\/p>\n<p>Um artif\u00edcio \u00e9 um produto que resulta de uma forma n\u00e3o natural de saber-fazer as coisas: objetos criados artificialmente, muitas vezes com intelig\u00eancia ou ast\u00facia. O termo artif\u00edcio tem uma dupla fun\u00e7\u00e3o: por um lado, \u00e9 uma forma artificial de saber que pode ter fun\u00e7\u00e3o de tamp\u00e3o e, por outro, como\u00a0<em>artis factum<\/em>, feito com arte, um saber-fazer em torno do vazio.<\/p>\n<p>Podemos, ent\u00e3o, considerar que o discurso do analista, ao sustentar um vazio, permite que um saber novo emerja, tal como um saber do artif\u00edcio? Lacan (2012) aponta que o analista \u00e9 aquele que enfrentou seu horror ao saber, o que se localiza nos testemunhos do passe. Esses apontam para um\u00a0<em>savoir-y-faire<\/em>\u00a0com o <em>sinthoma<\/em>, diferente do\u00a0<em>know-how pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em>\u00a0do fantasma (Naparstek, 2018). Nessa perspectiva, a psican\u00e1lise permite passar do artif\u00edcio do saber a um saber do artif\u00edcio que pode se constituir como um saber novo, ou um saber aut\u00eantico, que n\u00e3o se confunde com a fic\u00e7\u00e3o de um saber \u201cverdadeiro\u201d.<\/p>\n<p>Tentar que o aut\u00eantico seja acreditado como verdadeiro pode ser uma tenta\u00e7\u00e3o desorientadora. Lacan nos diz que \u201co verdadeiro visa o real\u201d (Lacan, 1972, p.123). E o verdadeiro nunca se alcan\u00e7a sen\u00e3o por vias tortuosas. A partir da experi\u00eancia de uma an\u00e1lise pode-se constituir um saber sobre a verdade, que s\u00f3 pode ser dita pela metade porque o gozo \u00e9 um limite: \u201cs\u00f3 se interpela, s\u00f3 se evoca, s\u00f3 se saprema s\u00f3 se elabora a partir de um semblante\u201d (Lacan, 1972, p.124).<\/p>\n<p>Mas, o que nos permite definir a <em>autenticidade de um saber<\/em>? Talvez encontremos uma orienta\u00e7\u00e3o para pens\u00e1-la em torno do <em>saldo de saber<\/em>, para precisar o estatuto de um saber para um sujeito: se este lhe concerne ou se apenas percorre as vias da circula\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o. Assim, independentemente do aparato utilizado para obter um saber, o que interv\u00e9m para que um saber se encarne?<\/p>\n<p>A obten\u00e7\u00e3o de um saber a partir de uma resposta estat\u00edstica do algoritmo deixaria de fora o custo que implica o gozo de seu exerc\u00edcio e sua aquisi\u00e7\u00e3o, como referimos anteriormente tomando Lacan? N\u00e3o se trata de degradar a IA, mas de distinguir \u201cinforma\u00e7\u00e3o\u201d da \u201cfunda\u00e7\u00e3o de um saber\u201d, que possibilita um uso singular e que, por isso mesmo, n\u00e3o entra na via do interc\u00e2mbio. Pois \u201co diferencial do gozo \u00e9 o que lan\u00e7a uma cifra singular, n\u00e3o comput\u00e1vel, no uso dos saberes\u201d (Farr\u00e1n, 2023).<\/p>\n<p>Miller questiona a ideia de que h\u00e1 um saber no real (Miller, 2014). H\u00e1 um furo no saber. Nessa perspectiva, a autenticidade de um saber que se inventa como artif\u00edcio, se faz a partir do furo no saber. O saber, enquanto inven\u00e7\u00e3o singular, se situa como aquele saber em reserva que s\u00f3 se fundar\u00e1 na medida em que o analista sustente um vazio de saber. Nesse ponto, poder\u00edamos dizer que saber de artif\u00edcio e saber aut\u00eantico cooperam.<\/p>\n<p>Lacan (1973-74), no Semin\u00e1rio 21, diz que o saber se inventa, onde h\u00e1\u00a0<em>troumatisme<\/em>, diante da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Assim, ainda que existam diferentes semblantes a partir dos quais o saber opera, n\u00e3o ter\u00e1 o mesmo resultado segundo o lugar que o saber ocupa em um discurso e o uso que dele se faz. Na psican\u00e1lise, o vazio ocupa um lugar central, j\u00e1 que o efeito de uma interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica n\u00e3o pode ser previamente determinado. E o saber, em qualquer de suas formas, se colocado em posi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio, sempre se colocar\u00e1 em risco de anular o saber que o sujeito traz consigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O saber da crian\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>De um analista residente no Canad\u00e1, em uma regi\u00e3o rodeada por v\u00e1rias comunidades ind\u00edgenas, recebemos algo dos habitantes locais: a exist\u00eancia de escolas e internatos cuja miss\u00e3o se guiava por um princ\u00edpio: \u201ctirar o ind\u00edgena da crian\u00e7a\u201d. Como podemos fazer uma crian\u00e7a falar, capturada t\u00e3o precocemente por artif\u00edcios de saber pr\u00e9vios e tecida por narrativas que fazem gozar de um corpo onde o sujeito n\u00e3o est\u00e1 presente? Quanto demora uma crian\u00e7a para falar quando goza e nesse gozo estabelece um saber?<\/p>\n<p>A pressa do Outro em responder com narrativas precoces aos apelos da crian\u00e7a que ainda n\u00e3o fala pode ter o efeito de antecipar um sujeito e aprision\u00e1-lo em um artif\u00edcio que bloqueia o saber aut\u00eantico da crian\u00e7a. A esse respeito, J.-A. Miller (2011, p.8) afirma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O saber da crian\u00e7a, no sentido do saber que ela tem, n\u00e3o \u00e9 desses saberes de semblante, artificiais, que s\u00e3o postos no discurso sobre a mesma matriz que o discurso da Universidade. O saber da crian\u00e7a \u00e9 um saber aut\u00eantico, seja sabido ou n\u00e3o sabido, e \u00e9 como tal que ele se inscreve no discurso anal\u00edtico&#8230; seu saber \u00e9 respeitado em sua conex\u00e3o com o gozo que o envolve, que o anima&#8230;<\/p>\n<p>Esse saber aut\u00eantico n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o a<em> lal\u00edngua<\/em>, um saber que se articula com o gozo. Fazer a crian\u00e7a falar alcan\u00e7a, ent\u00e3o, a apresenta\u00e7\u00e3o de um saber aut\u00eantico, um saber-fazer com o gozo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O artif\u00edcio da transfer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Podemos considerar que o discurso do analista oferece \u2014 em lugar de um saber que encerra \u2014 um saber de artif\u00edcio. Lacan, no Semin\u00e1rio 11, lan\u00e7a uma afirma\u00e7\u00e3o: \u00a0\u201cPode parecer que \u00e9, de sa\u00edda, resolver uma quest\u00e3o como a de saber se a transfer\u00eancia \u00e9 ou n\u00e3o ligada a pr\u00e1tica anal\u00edtica, se \u00e9 um produto dessa pr\u00e1tica, mesmo um artefato dela.\u201d\u00a0 (Lacan, 1985, p.120). A transfer\u00eancia seria, ent\u00e3o, uma elabora\u00e7\u00e3o, uma inven\u00e7\u00e3o, uma constru\u00e7\u00e3o situada mais do lado do ato do que do saber adquirido. Acaso isso n\u00e3o seria tamb\u00e9m um artif\u00edcio?<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia \u2014 esse la\u00e7o que sustenta a suposi\u00e7\u00e3o de um sujeito suposto saber no lugar do analista \u2014 permite que se produza um saber novo, singular, que n\u00e3o preexiste ao dispositivo. Nesse ponto, trata-se de um artif\u00edcio que opera no cora\u00e7\u00e3o mesmo da psican\u00e1lise, ou seja, a experi\u00eancia anal\u00edtica est\u00e1 \u201crealmente estruturada por algo artificial\u201d, como indica Lacan (1984, p.17) no semin\u00e1rio sobre as Psicoses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A transmiss\u00e3o de um saber<\/strong><\/p>\n<p>O que ocorre quando esse artif\u00edcio se desloca para a Universidade? Como gerar ali uma transfer\u00eancia que n\u00e3o se reduza ao reconhecimento acad\u00eamico, ao pertencimento simb\u00f3lico, \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o ritual do saber estabelecido?<\/p>\n<p>O saber aut\u00eantico, no qual o gozo de seu exerc\u00edcio \u00e9 o mesmo que o de sua aquisi\u00e7\u00e3o, difere do saber artificial do discurso universit\u00e1rio, onde o saber comanda, mantendo o S1 do mestre no lugar da verdade, mediante cita\u00e7\u00f5es, em s\u00f3lidos apoios autorais e produzindo impot\u00eancia na ilus\u00e3o de todo saber.<\/p>\n<p>Como produzir um vazio nesse saber j\u00e1 constitu\u00eddo? Graciela Brodsky (2023) sugere um caminho no qual \u00e9 poss\u00edvel sustentar um ensino n\u00e3o fundado no dom\u00ednio de conte\u00fados, mas na coragem de uma enuncia\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Trata-se mais de sustentar uma posi\u00e7\u00e3o desejante: n\u00e3o a de quem sabe, mas a de quem se deixa ensinar por aquilo que, no pr\u00f3prio ato de transmitir, se coloca em jogo: o imposs\u00edvel de saber. Transmitir implica abrir um buraco, gerar uma pergunta sem resposta imediata. Sem esse vazio, n\u00e3o h\u00e1 ensino. Sem transfer\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 desejo de saber.<\/p>\n<p>Aqui se joga uma diferen\u00e7a crucial: alguns saberes simulam totalidade, fecham sentidos e se apresentam como conclusivos; outros, em contrapartida, se sustentam sobre o imposs\u00edvel de todo saber. Alguns saberes respondem com pressa, imp\u00f5em respostas, fixam posi\u00e7\u00f5es. Outros, por sua vez, podem esperar, acolhem sem impor, abrem-se ao dizer sem captur\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O pedagogo Jorge Larrosa (2003) pontua que \u201censinar \u00e9 habilitar uma interroga\u00e7\u00e3o que se desdobra\u201d. Essa ideia dialoga com a proposta da psican\u00e1lise de que o inteligente \u00e9 \u201co sujeito aberto \u00e0 mensagem, capaz de ler nas entrelinhas\u201d (Santiago &amp; Mrech, 2017). Essa diferen\u00e7a, sutil, mas decisiva, marca o limiar entre o artif\u00edcio do saber \u2014como repeti\u00e7\u00e3o que fecha\u2014 e o saber do artif\u00edcio \u2014como inven\u00e7\u00e3o que se sustenta no furo pr\u00f3prio da linguagem.<\/p>\n<p>Como sugere\u00a0<em>O Banquete<\/em>\u00a0(2015) de Plat\u00e3o, seria necess\u00e1rio retomar a figura do mestre como amante do saber, e n\u00e3o como seu possuidor. N\u00e3o se trata de transmitir um saber acabado, mas de fazer do saber um objeto desej\u00e1vel, agalm\u00e1tico, cujo brilho se entrev\u00ea. S\u00f3 a\u00ed pode surgir um ensino vivo.<\/p>\n<p>Os algoritmos parecem governar a subjetividade da \u00e9poca a partir de fluxos num\u00e9ricos ac\u00e9falos que acabam por encobrir o real em um determinismo un\u00edvoco, padronizado, incessante e fechado a qualquer conting\u00eancia. Assemelhando-se ao discurso da ci\u00eancia, fazem supor que se trata de um saber an\u00f4nimo que devolveria ao usu\u00e1rio aquilo que este n\u00e3o sabe. Um saber an\u00f4nimo que traz a ilus\u00e3o de esgotar o real pela cifra. Pois bem, como captar a autenticidade de um saber, nos diferentes dispositivos da Universidade em que a psican\u00e1lise tem incid\u00eancia?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IA em uso: algumas vinhetas<\/strong><\/p>\n<p>Para conversar sobre isso, algumas vinhetas colhidas do trabalho realizado pelo Departamento de Sa\u00fade Mental da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), com consulentes do servi\u00e7o e estagi\u00e1rios da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Especializa\u00e7\u00e3o em Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica da Faculdade de Psicologia.<\/p>\n<p>Ema, uma estudante em tratamento, consultou o ChatGPT sobre o motivo de sentir-se estressada ap\u00f3s uma discuss\u00e3o com a irm\u00e3, que a havia insultado: \u201cfiquei paralisada, n\u00e3o sabia o que responder, n\u00e3o entendi a situa\u00e7\u00e3o, por que me senti t\u00e3o mal, com palpita\u00e7\u00f5es, nervosa, com medo da minha irm\u00e3. Contei toda a situa\u00e7\u00e3o ao chat e perguntei a causa do meu mal-estar. Ele me respondeu que fiquei incomodada por ter sido desvalorizada. Isso me fez bem, fiquei mais tranquila.\u201d Ainda que o <em>desvalorizada<\/em>\u00a0tenha vindo da IA, transforma-se em um saber que toca um gozo, pois algo se aquieta no corpo.<\/p>\n<p>Juan procura atendimento atormentado pela ansiedade por conta da reprova\u00e7\u00e3o de sua tese na Faculdade. Insiste que a Universidade valide sua pesquisa. Abre-se um espa\u00e7o para falar sobre isso: ele relata uma <em>enxurrada de informa\u00e7\u00f5es <\/em>sobre diferentes viv\u00eancias que precisa traduzir em linguagem matem\u00e1tica. O \u201ccientista duro\u201d de sua faculdade, como ele o chama, o reprovou categoricamente: \u201cesse saber aqui n\u00e3o conta\u201d. Em seguida, recorre \u00e0 IA, mas percebe que, embora esta n\u00e3o erre, oferece apenas probabilidades estat\u00edsticas que n\u00e3o consideram o verdadeiro valor de sua teoria. Em entrevistas, Juan revela seu saber-fazer: traduzir em f\u00f3rmulas num\u00e9ricas experi\u00eancias pessoais complexas sem explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Nomear-se <em>cientista da complexidade <\/em>lhe permite prosseguir com sua pesquisa, que n\u00e3o entra nos trilhos da valida\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas aposta em seu valor de uso.<\/p>\n<p>Gina utiliza v\u00eddeos do TikTok de onde extraiu um certo saber sobre o que e quanto comer para se manter magra: apenas saladas e n\u00e3o mais que 400 calorias por dia. Chega \u00e0 consulta trazendo um autodiagn\u00f3stico de anorexia nervosa, disforia corporal e depress\u00e3o, tamb\u00e9m estabelecido por diferentes aplicativos. O espa\u00e7o de consulta acolhe, sem questionar de imediato, esse saber adquirido e fechado, e outras palavras ganham lugar: ela se sente triste e sozinha, longe da fam\u00edlia. Localiza um excesso na contagem de calorias e na exig\u00eancia feroz por boas notas na faculdade. Pede para poder esquecer essa quantifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 produzido, no encontro com o analista, o deslocamento desse modo de \u201ccontar\u201d para um contar sobre sua ang\u00fastia ao vir estudar em outro pa\u00eds.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica com estagi\u00e1rios da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o consiste na transmiss\u00e3o das entrevistas de admiss\u00e3o realizadas pelos integrantes da equipe. Embora esse dispositivo se enquadre na matriz do discurso universit\u00e1rio, consideramos que realizamos uma transmiss\u00e3o viva da psican\u00e1lise quando notamos que algo novo se produz, um certo efeito de\u00a0<em>tyche<\/em>\u00a0no\u00a0<em>automat\u00f3n<\/em>\u00a0universit\u00e1rio. Podemos ler nessa fa\u00edsca a import\u00e2ncia de abrir, na universidade, a \u201ccoragem de uma enuncia\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, nascida de um saber que se ignora\u201d (Brodsky, 2023).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Saber a quente: pontua\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>O vazio no saber \u00e9 o que orienta a transmiss\u00e3o na pr\u00e1tica anal\u00edtica; sem isso, n\u00e3o h\u00e1 tratamento do gozo. Isto n\u00e3o pode ser negligenciado no ensino e na pr\u00e1tica da psican\u00e1lise; e \u00e9 precisamente o que se ensina na beira do imposs\u00edvel de ensinar, em conjun\u00e7\u00e3o com a transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma disciplina de ensino, j\u00e1 que nela n\u00e3o h\u00e1 nada de universal (Lacan, 1975), algo do gozo de quem a transmite pode ser capturado,\u00a0<em>a-prendido<\/em>. Lacan lembra que o saber se extrai do Outro; poder\u00edamos dizer que ele se\u00a0<em>a-prende<\/em>. Caetano Galindo (2024), ao falar de sua forma de traduzir James Joyce, relata que prefere fazer as tradu\u00e7\u00f5es \u201ca quente\u201d, no calor de suas primeiras leituras, pois assim algo do gozo do autor que est\u00e1 sendo traduzido pode passar ao leitor. \u00c9 nesse sentido que vemos a import\u00e2ncia da transmiss\u00e3o viva da psican\u00e1lise na Universidade. Trata-se de uma aposta \u00e9tica: resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da completude e sustentar que o saber s\u00f3 tem valor se articulado ao gozo. \u00c9 propor, na contram\u00e3o do discurso dominante, que o saber se encarna.<\/p>\n<p>Nesse sentido, h\u00e1 infinitas possibilidades de usar os artif\u00edcios, inclusive a favor da constru\u00e7\u00e3o de um saber novo e aut\u00eantico. Em resumo, cada um, aturdido ou n\u00e3o, tem a possibilidade de chegar a saber, com a psican\u00e1lise, onde o levou o seu\u00a0<em>clique<\/em>\u2026<br \/>\nA cada um, os seus\u00a0<em>cliques<\/em>!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Referencias Bibliogr\u00e1ficas <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Berkoff, M., (2015) \u201cHijos de una lengua sin volumen\u201d, <em>Revista Virtualia N\u00b030.<\/em> Buenos Aires. Recuperado de <u>https:\/\/www.revistavirtualia.com\/articulos\/102\/dossier-enapol-el-imperio-de-las-imagenes\/hijos-de-una-lengua-sin-volumen<\/u><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Brodsky, G. (2023). <em>Los psicoanalistas y el deseo de ense\u00f1ar<\/em>. Buenos Aires: Grama Ediciones.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Farran, R., (2023). \u201cLa inteligencia artificial y la formaci\u00f3n del sujeto\u201d. Recuperado de <u>https:\/\/enelmargen.com\/2023\/02\/01\/la-inteligencia-artificial-y-la-formacion-del-sujeto-por-roque-farran\/<\/u><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Galindo, C. W. (2024). Entrevista con Caetano W. Galindo. <em>Revista Derivas Anal\u00edticas<\/em>, (21). https:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/entrevista-com-caetano-w-galindo<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (1985). <em>O Semin\u00e1rio. Livro 2: O Eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: JZE.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (1972-1973). <em>O Seminario. Livro 20: Mais, ainda<\/em>. 2ed. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1985<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Laca, J. (1973-1974). <em>El Seminario. Libro 21: Les non-dupes errent<\/em>. Clase 11 del\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 19\/2\/1974. Seminario in\u00e9dito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (2003).Televis\u00e3o. In Lacan, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (1984). <em>El Seminario. Libro 3: Las psicosis.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (1985). <em>O Seminario. <\/em><em>Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em> (p. 120). Rio de Janeiro: Zahar Ed.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J. (1975). Talvez en Vincennes. En <em>Letras de la Escuela Freudiana de Par\u00eds<\/em>, (16), 177\u2013203.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Lacan, J., &amp; Miller, J.-A. (2022). A terceira \/ Teoria de <em>lal\u00edngua<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">a, J. (2003). <em>Esperando no se sabe qu\u00e9: Sobre el oficio de profesor.<\/em> Barcelona: Laertes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Laurent, \u00c9. 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(2015). <em>El banquete.<\/em> Buenos Aires: Alianza Editorial<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Santiago, A. L., &amp; Mrech, L. M. (2017). Semiolog\u00eda da inteligencia e da aten\u00e7\u00e3o. In Teixeira, A. e Caldas, H. <em>Psicopatologia Lacaniana<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Vogler, R., (2024). \u201cDespejar la x del propio algoritmo en el <em>parl\u00eatre<\/em>\u201d. <em>Revista Virtualia<\/em> <em>N\u00b044<\/em>. Buenos Aires<em>. <\/em>Recuperado de <u>https:\/\/www.revistavirtualia.com\/articulos\/1026\/nodos\/despejar-la-x-del-propio-algoritmo-en-el-parletre<\/u><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artif\u00edcios do Saber e Saber Aut\u00eantico Coordinaci\u00f3n: Roxana Vogler (EOL) e Virg\u00ednia Carvalho (EBP) Participantes: Ang\u00e9lica Bastos (EBP), Candela M\u00e9ndez (EOL), Diana Wolkowicz (EOL), Estanislao Coconier Gatta (EOL), Federico Oyola (EOL), Gabriela Villaroel Carbajal(NEL), Juliana Motta (EBP), Maggie Jauregui (NEL), Marcia Mar\u00eda Rosa Vieira (EBP), Nancy Carneiro (EBP), Olivia Viana (EBP), Pablo Reyes (NEL), Virginia&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[108],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7963"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7963"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7963\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7965,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7963\/revisions\/7965"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7963"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=7963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}