{"id":8024,"date":"2025-11-26T06:50:44","date_gmt":"2025-11-26T09:50:44","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=8024"},"modified":"2025-11-26T07:30:30","modified_gmt":"2025-11-26T10:30:30","slug":"leitora-1o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/leitora-1o-tempo\/","title":{"rendered":"Leitora \u2013 1\u00ba tempo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-size: 13px;\">Ruskaya Maia EBP\/AMP<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira coisa que destaco em minha leitura \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o do termo freudiano <em>g\u00e9rmen<\/em>, que ser\u00e1 articulado aos conceitos lacanianos de <em>letra<\/em> e <em>lal\u00edngua<\/em>. Os autores o foram buscar numa das cartas de Freud a Fliess, cujo recorte, que vou reler, constitui a ep\u00edgrafe do texto: \u201cO que aconteceu na primeira inf\u00e2ncia? Nada, mas j\u00e1 havia o <em>g\u00e9rmen<\/em> de um primeiro impulso sexual\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Nenhuma hist\u00f3ria, nenhum sentido \u2013 e j\u00e1 l\u00e1 algo havia. N\u00e3o se trata mais da concep\u00e7\u00e3o freudiana que colocava o atentado sexual como elemento necess\u00e1rio na etiologia das neuroses, antes, essa cita\u00e7\u00e3o faz ressoar que, para Freud, tratava-se de algo constitutivo, um fator quantitativo do qual Freud nunca abriu m\u00e3o. A hip\u00f3tese \u00e9, ent\u00e3o, a de que Freud est\u00e1, a\u00ed, nos guiando ao <em>Ur<\/em>, \u00e0 origem e o <em>g\u00e9rmen<\/em> \u00e9 a estrada que nos leva at\u00e9 o trauma origin\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m Lacan nos guia em dire\u00e7\u00e3o ao origin\u00e1rio ao propor o <em>troumatisme<\/em> para dizer de um choque primevo, quando, de maneira totalmente contingente, a libra de carne \u00e9 definitivamente perfurada por um dos in\u00fameros est\u00edmulos sonoros em que nasce mergulhada. Duas materialidades se encontram<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>: a do corpo biol\u00f3gico e a materialidade sonora que o faz vibrar. Essa fus\u00e3o resulta na exist\u00eancia desse peda\u00e7o de corpo formado de puro gozo que Lacan chama de subst\u00e2ncia gozante, marca de gozo que facilmente vibrar\u00e1 ante novos e futuros impactos de resson\u00e2ncias. Furo traum\u00e1tico que inaugura o corpo do <em>infans<\/em>, ferida que deixa uma cicatriz, um tra\u00e7o, uma escrita que n\u00e3o \u00e9 desenho, tatuagem, mas sim, perturba\u00e7\u00e3o, gozo como saldo permanente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo a articula\u00e7\u00e3o feita por Horne<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, retomamos Miller quando fala de uma primeir\u00edssima escrita que se instaura a partir do UM<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. A imagem que temos \u00e9 a de um vulc\u00e3o que explode a partir de dentro e tra\u00e7a sulcos. \u00a0Lacan chamar\u00e1 de campo do Uniano, puro real, o campo dessa escrita que n\u00e3o depende de fora, que vem de dentro do vulc\u00e3o como gozo. O Um que jamais acessar\u00e1 o dois. Tal fator \u201cconstitutivo\u201d depende do fator quantitativo e da mat\u00e9ria do corpo. Proponho alinharmos esse conceito lacaniano ao que Freud prop\u00f5e como <em>g\u00e9rmen<\/em>, no qual ferve uma energia que se distribui desordenadamente pelo corpo como ondas pulsionais, sempre presentes, imposs\u00edveis de serem reduzidas a zero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O campo uniano \u00e9 a exist\u00eancia como puro gozo. Mas, o instante da encarna\u00e7\u00e3o tem tamb\u00e9m o furo (o <em>trou<\/em>) como efeito. Ao mesmo tempo, ent\u00e3o, esse existir estabelece a n\u00e3o-exist\u00eancia. O significante primordial, o Um uniano \u00e9, a rigor, uma resson\u00e2ncia sem sentido que produz dois efeitos: uma resson\u00e2ncia como som e vibra\u00e7\u00e3o no corpo, uma quantidade que n\u00e3o resulta poss\u00edvel de se escoar e, por outro lado, sil\u00eancio e quietude total.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como, a partir da subst\u00e2ncia gozante, puro real, o simb\u00f3lico ganha lugar? Miller<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> diz que a apari\u00e7\u00e3o e o poder do simb\u00f3lico sobre a subst\u00e2ncia gozante \u00e9 um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa mesma carta, Freud diz tamb\u00e9m haver encontrado um outro elemento ps\u00edquico, um est\u00e1gio preliminar aos sintomas, anterior, mesmo, \u00e0 fantasia. Isso nos \u00e9 apresentado pelo texto como o prel\u00fadio freudiano para o \u2018concerto\u2019 lacaniano de lal\u00edngua. A origem no fora de sentido \u00e9, de fato, o ponto decisivo para outra abordagem lacaniana da linguagem, se n\u00e3o pelo seu avesso, pelo que nela \u00e9 sedimento, detrito, resto, franja, som e impacto que perturba o corpo. Segundo momento de escrita, segundo Miller, em que uma chuva desses fragmentos de palavras, resson\u00e2ncias, cai sobre o corpo, provocando gozo, cavando sulcos. O gozo de lal\u00edngua (chuva) amalgama-se ao gozo Um (vulc\u00e3o). Assim, no gozo com o significante de lal\u00edngua, ainda real, sempre existe algo daquele gozo autista, ou seja, o Um do gozo mant\u00e9m sua presen\u00e7a nas modula\u00e7\u00f5es e resson\u00e2ncias que decantam da lal\u00edngua.\u00a0 A letra de gozo sendo o que engancha ambos os gozos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a linguagem e a lal\u00edngua, Lacan<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> n\u00e3o faz mist\u00e9rio: lal\u00edngua \u00e9 o aluvi\u00e3o do banho da linguagem e a linguagem uma elabora\u00e7\u00e3o de saber sobre lal\u00edngua. Desse modo, \u201cCada um vive a l\u00edngua a partir da lal\u00edngua e lal\u00edngua s\u00f3 existe porque tem a l\u00edngua\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Mergulhado na l\u00edngua do Outro, o corpo do <em>infans<\/em> \u2013 que hoje somos todos n\u00f3s \u2013 foi, e \u00e9, continuamente, banhado e perturbado por esse aluvi\u00e3o. A linguagem, a\u00ed, \u00e9 recobrimento necess\u00e1rio. Em termos freudianos, defesa.\u00a0 Uma an\u00e1lise ent\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia que faz uso das tor\u00e7\u00f5es entre linguagem e lal\u00edngua \u2013 ao fazer falar a crian\u00e7a em cada tratamento \u2013 para tocar, do <em>troumatisme<\/em>, o que \u00e9 sua cicatriz. Uma an\u00e1lise que chega a seu fim, testemunha sobre o trauma origin\u00e1rio, com a extra\u00e7\u00e3o da letra, \u00faltima esta\u00e7\u00e3o antes do real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse campo, penso, que podemos localizar a frase que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 terceira parte do texto: \u2018Falar com a crian\u00e7a \u00e9 falar com o trauma\u2019, afirma\u00e7\u00e3o que condensa duas defini\u00e7\u00f5es para o que \u00e9 uma experi\u00eancia anal\u00edtica: falar com a crian\u00e7a \/ falar com o trauma. Aqui vale um exerc\u00edcio de precis\u00e3o \u2013 uma volta a mais no parafuso \u2013 para dar conta do estatuto do trauma em quest\u00e3o. \u00c9 para esse ponto que nosso texto converge quando traz para a discuss\u00e3o o Caso Emma e nos provoca: Qual o trauma de Emma? do que tratamos quando propomos fazer falar a crian\u00e7a na traumatizada mo\u00e7a? Qual \u00e9 o trauma que queremos eloquente? Captar o trauma como um fato de hist\u00f3ria \u00e9 faz\u00ea-lo sob a perspectiva do sentido, ou seja, a partir do sintoma e da defesa fantasm\u00e1tica. Isso \u00e9 o que temos de Emma, o que ela alcan\u00e7ou associar de sua verdade mentirosa. Se, como vimos, o trauma que nos interessa \u00e9 aquele que atravessou as tripas de Emma, n\u00e3o \u00e9 pelo sentido que devemos operar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>Freud, S. Carta de Freud a Fliess &#8211; 3 de janeiro de 1899. A correspond\u00eancia completa de Freud para Fliess 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago, 1986, p. 339.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> HORNE, Bernardino; GURGEL, Iordan (orgs). O Campo Uniano: o \u00faltimo ensino de Lacan e suas consequ\u00eancias. Goi\u00e2nia. Ed. Ares, 2022.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ibid.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J.-A. O Real \u00e9 sem lei. S\u00e3o Paulo: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 34, 2002.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. In: Scilicet. O corpo falante: sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI. S\u00e3o Paulo: EBP, 2016, p. 25<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>. Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 1985. \u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Vieira, M. A. Fic\u00e7\u00e3o e canto da fala e da linguagem. Conversa\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria para o XII ENAPOL. Belo Horizonte. 31 de maio de 2025.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ruskaya Maia EBP\/AMP A primeira coisa que destaco em minha leitura \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o do termo freudiano g\u00e9rmen, que ser\u00e1 articulado aos conceitos lacanianos de letra e lal\u00edngua. 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