{"id":8028,"date":"2025-11-26T06:55:26","date_gmt":"2025-11-26T09:55:26","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=8028"},"modified":"2025-11-26T07:30:20","modified_gmt":"2025-11-26T10:30:20","slug":"a-devastacao-da-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/a-devastacao-da-palavra\/","title":{"rendered":"A devasta\u00e7\u00e3o da palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Henri Kaufmanner<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre me lembro da viagem que fiz com meus filhos mais velhos, j\u00e1 faz alguns anos. Fomos \u00e0 Patag\u00f4nia Argentina e ali pudemos conhecer a assim chamada Ilha dos Pinguins. Creio que nossos &#8220;hermanos\u201d daquele pa\u00eds estejam mais acostumados a esse encontro. Para mim foi uma imensa e intensa surpresa. Nessa ilha, na \u00e9poca da nidifica\u00e7\u00e3o, os Pinguins se dirigem aos milhares para ali botarem seus ovos. Impressionou-me a quantidade deles, milhares como disse, cada pequena fam\u00edlia em seu ninho. Ali, a n\u00f3s humanos, cabia caminhar delicadamente por entre as pequenas barreiras demarcadas, sem tentar qualquer contato ou aproxima\u00e7\u00e3o. Pelo bem da natureza n\u00e3o dever\u00edamos ultrapassar as linhas que nos separavam. J\u00e1 os pinguins passeavam livremente, \u00e0s vezes se aproximavam, nos olhavam e seguiam seu curso. A presen\u00e7a de uma vida totalmente Outra, enigm\u00e1tica, mesmo infamiliar (unheimlich) eu diria, produziu em mim um certo fasc\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei a quanto tempo esses ciclos anuais de nidifica\u00e7\u00e3o dos pinguins vem se repetindo. Certamente, a novidade ali \u00e9ramos n\u00f3s, os turistas, e que por nossa condi\u00e7\u00e3o humana viv\u00edamos aquilo como se fosse um espet\u00e1culo. \u00c9 quando nosso olhar e o gozo ali envolvido entra em cena, que o espet\u00e1culo se constitui como tal. A cena em si, iluminada, em muito nos antecede, por\u00e9m, nossa presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 sem efeitos. Por mais que preservada, a ilha j\u00e1 \u00e9 afetada por nossos tra\u00e7os, caminhos demarcados, placas de aten\u00e7\u00e3o, enfim, por nossas palavras. A presen\u00e7a humana ja deixa ali seus significantes, suas leis e felizmente, pelo menos naquela ilha, o esfor\u00e7o de conter qualquer gozo excessivo, qualquer presen\u00e7a mais devastadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais cuidados se fazem certamente necess\u00e1rios, pois a natureza humana \u00e9 antiecol\u00f3gica, por natureza. A leitura do texto produzido pelos colegas, inserido no tema &#8220;A Devasta\u00e7\u00e3o da Palavra\u201d conduziu-me a essa sequ\u00eancia de ox\u00edmoros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud ja assinalava essa condi\u00e7\u00e3o antiecol\u00f3gica do humano ao nos mostrar que, na medida que n\u00e3o temos como satisfazer a puls\u00e3o, o que nos resta como recurso, \u00e9 modificarmos o nosso entorno, o ambiente, civilizarmo-nos. A dial\u00e9tica Puls\u00e3o de vida\/Puls\u00e3o de morte explicita a\u00ed seus impasses. Lacan, por sua vez, apontava que os animais mant\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com os objetos. O animal encaixa-se muito bem em seu meio, ele reconhece seu parceiro sexual, reconhece a bela forma, seu semelhante, encontrando dessa maneira seu lugar em seu ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso humano n\u00e3o havendo conhecimento &#8220;\u00e9 a m\u00e1 forma que \u00e9 prevalente. \u00c9 na medida em que uma tarefa est\u00e1 inacabada que o sujeito volta a ela&#8221;. (Lacan, sem 2). De maneira distinta do animal, o homem opera na via de um excesso, tendo a beleza como anteparo \u00faltimo ao encontro com essa m\u00e1 forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua exposi\u00e7\u00e3o sobre As L\u00f3gicas da vida amorosa Miller nos d\u00e1 sua vers\u00e3o de Ad\u00e3o e Eva. Apoiando-se na tradu\u00e7\u00e3o francesa da B\u00edblia, Miller aponta que Eva, da maneira como \u00e9 descrita, foi apresentada ao homem por Deus. Ela contudo n\u00e3o seria a primeira. Ad\u00e3o teria tido rela\u00e7\u00f5es sexuais com todos os animais dom\u00e9sticos e selvagens, mas n\u00e3o teria ficado satisfeito. Miller sustenta que essas c\u00f3pulas de Ad\u00e3o com animais n\u00e3o eram <em>contra natura,<\/em> ao menos at\u00e9 o aparecimento de Eva. Seu aparecimento produz uma transfigura\u00e7\u00e3o da sexualidade. Essa mulher, extra\u00edda da costela do homem e ofertada pelo pai, inaugura a rela\u00e7\u00e3o de objeto. Pois ali, Ad\u00e3o de alguma forma se satisfaz, escolhe Eva, e a partir de ent\u00e3o fala. Eva era algo diverso de uma f\u00eamea. Assim como o humano \u00e9 diverso da natureza. A fala, a exist\u00eancia simb\u00f3lica, esse gozo que se apresenta Outro, nos diferenciam de forma indel\u00e9vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que em nosso tempo,\u00a0 Deus n\u00e3o \u00e9 mais aquele que organiza a &#8220;Ordem do mundo&#8221;. Fora da ordem simb\u00f3lica, hoje se faz presente nos algoritmos. Sua obscuridade e o imperativo de gozo que a\u00ed se imp\u00f5e agora transita nas redes, na Intelig\u00eancia Artificial, na realidade ampliada do mundo digital.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Suas ofertas dirigem-se ao consumo, a fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual. O Bigdata,\u00a0 esse Deus dos algoritmos, n\u00e3o apenas imp\u00f5e seus objetos, ele tamb\u00e9m interpreta as fantasias que por mais incofess\u00e1veis que possam ser,\u00a0 acabam sendo reveladas inadvertidamente por seus devotos na intimidade da\u00a0 rela\u00e7\u00e3o com as telas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Freud aprendemos que &#8220;toda forma\u00e7\u00e3o humana tem, por ess\u00eancia, e n\u00e3o por acaso, de refrear o gozo\u201d. Contudo, a alian\u00e7a do discurso de capitalismo \u00e0 t\u00e9cnica, provoca uma nova transfigura\u00e7\u00e3o da sexualidade. O imperativo de gozo agora promete o para\u00edso, devidamente monetizado. Para tanto, o Discurso do Capitalismo produz uma tor\u00e7\u00e3o no Discurso do Mestre, curto-circuitando o sujeito e o objeto (Sa), este \u00faltimo substitu\u00eddo pelos <em>gadgets<\/em> da t\u00e9cnica. Al\u00e9m disso, entre S<sub>1<\/sub> e S<sub>2<\/sub> n\u00e3o existe mais um intervalo, uma hi\u00e2ncia (huelco), pela qual o sujeito ali representado se precipitaria em sua queda como objeto. Como consequ\u00eancia, o que temos \u00e9 um circuito aut\u00f4nomo das letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal fen\u00f4meno\u00a0 paralisa o deslizamento da cadeia significante. O saber j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, aquilo que se articula, n\u00e3o produzindo nenhum efeito de verdade. Simplesmente se imp\u00f5e pela meton\u00edmia das letras, multiplica-se como informa\u00e7\u00e3o, sem produzir qualquer elabora\u00e7\u00e3o. Esse novo Deus busca fazer do n\u00e3o todo, um espet\u00e1culo todo, sintetizado sobretudo em imagens. O sujeito e sua divis\u00e3o est\u00e3o fora da cena.\u00a0 O ser falante se v\u00ea reduzido ao gozo que o tensiona, silencia-se, e assim a palavra \u00e9 devastada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para concluir, um detalhe. Em minha adolesc\u00eancia recebi um apelido: Pinguim. Meus amigos percebiam em mim algo dessa estranha alteridade que me atravessava. A psican\u00e1lise\u00a0 e o percurso pelo desfiladeiro dos significantes me permitiu que em minha vida, essa provocante ilha permane\u00e7a e que esse estranho em mim, possa continuar me surpreendendo, deixando-me sempre em condi\u00e7\u00f5es de passear diante da felicidade, visto que esta , insiste em me visitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Henri Kaufmanner Sempre me lembro da viagem que fiz com meus filhos mais velhos, j\u00e1 faz alguns anos. Fomos \u00e0 Patag\u00f4nia Argentina e ali pudemos conhecer a assim chamada Ilha dos Pinguins. 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