{"id":8030,"date":"2025-11-26T06:57:50","date_gmt":"2025-11-26T09:57:50","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=8030"},"modified":"2025-11-26T07:30:10","modified_gmt":"2025-11-26T10:30:10","slug":"algumas-pontuacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/algumas-pontuacoes\/","title":{"rendered":"Algumas pontua\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Cleide Monteiro<\/em> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio elaborado pelas tr\u00eas Antenas do Observat\u00f3rio <em>A deserotiza\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 Paix\u00f5es tristes de todos os g\u00eaneros<\/em> nos coloca diante do desafio de pensar \u201ccomo fazer ressoar a deserotiza\u00e7\u00e3o e o infantil\u201d. Da\u00ed decorrem v\u00e1rios desdobramentos, como a quest\u00e3o das paix\u00f5es tristes, trabalhada na parte 3 do relat\u00f3rio, sobre a qual me deterei em minhas breves considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre as in\u00fameras quest\u00f5es que suscitou, uma que me saltou aos olhos: \u201cpoder\u00edamos falar de um recha\u00e7o ao valor er\u00f3tico da l\u00edngua, sempre dita no singular?\u201d De que er\u00f3tica falamos em tempos de recusa da sexua\u00e7\u00e3o? Como ler a deserotiza\u00e7\u00e3o em cada parl\u00eatre nos tempos atuais, marcados pelo discurso que recha\u00e7a as coisas do amor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio indica que essa deserotiza\u00e7\u00e3o do mundo assume, na cl\u00ednica, a forma das paix\u00f5es tristes, que atravessam de modo t\u00e3o marcante a experi\u00eancia dos jovens e, no contempor\u00e2neo, sustentam pr\u00e1ticas de gozo, como a onipresen\u00e7a da pornografia \u2014 e, acrescentar\u00edamos, da toxicomania \u2014, pr\u00e1ticas que evocam a aus\u00eancia do erotismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio, sobretudo em sua terceira parte, nos convida a extrair consequ\u00eancias para a pr\u00e1tica anal\u00edtica hoje, a partir do que Lacan chama de paix\u00f5es da alma, paix\u00f5es do objeto <em>a<\/em>. Acho instigante pensarmos o que seria uma cl\u00ednica das paix\u00f5es. Diferentemente das paix\u00f5es do ser \u2013 \u00a0paix\u00f5es da aliena\u00e7\u00e3o ao outro, determinadas pelo sujeito do inconsciente como falta-a-ser \u2013,\u00a0 \u00a0as paix\u00f5es da alma \u2013 paix\u00f5es da separa\u00e7\u00e3o do Outro, nas quais o sujeito \u00e9 definido como <em>falasser<\/em> (<em>parl\u00eatre<\/em>) \u2013 dizem respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o corpo. Em que medida essas paix\u00f5es possibilitam pensar algumas demandas que chegam \u00e0 an\u00e1lise n\u00e3o reguladas pelo fantasma, mas por um gozo separado da opera\u00e7\u00e3o f\u00e1lica? Se podemos dizer que o amor e o \u00f3dio, como paix\u00f5es do ser, s\u00e3o correlatos ao fantasma antes de sua travessia, o que est\u00e1 em jogo nas paix\u00f5es do objeto <em>a<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent, retomando Lacan em <em>Televis\u00e3o<\/em>, destaca que \u201cse tivermos a paix\u00e3o do<em> a<\/em>, a experi\u00eancia dessa presen\u00e7a do a, temos que admitir que o que chamamos de paix\u00e3o \u00e9 uma articula\u00e7\u00e3o do inconsciente com o real do gozo\u201d.\u00a0 As paix\u00f5es do <em>a <\/em>situam-se a\u00ed, nessa solda entre o saber do inconsciente e o vivente do corpo. (Laurent, <em>Paix\u00f5es do parl\u00eatre<\/em>, p. 85).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, h\u00e1 a busca fren\u00e9tica por objetos, produzida pela alian\u00e7a da ci\u00eancia com o discurso capitalista, que afasta o sujeito de sua rela\u00e7\u00e3o com o objeto<em> a<\/em> e acentua as paix\u00f5es tristes. Como destaca o relat\u00f3rio, o sujeito se v\u00ea despojado de uma interioridade constitu\u00edda pela palavra e pela dimens\u00e3o er\u00f3tica que ela sup\u00f5e em seu encontro contingente com o corpo. Sem recorrer a esse \u201chabitat interior da palavra\u201d, vinculado \u00e0 puls\u00e3o \u2014 eco, no corpo, do fato de que h\u00e1 um dizer, como afirma Lacan no Semin\u00e1rio 23 \u2014, observa-se hoje, entre os jovens, uma ruptura do la\u00e7o que articula o objeto pulsional ao buraco do corpo. Como destaca Lacan, para que um dizer ressoe, \u00e9 preciso que o corpo lhe seja sens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio levanta uma hip\u00f3tese que muito me interessa discutir com voc\u00eas: a de que as paix\u00f5es tristes recha\u00e7am a causa escrita no inconsciente. Lacan indica, em <em>Televis\u00e3o<\/em>, que a tristeza \u00e9 uma paix\u00e3o central na modernidade. H\u00e1 um saber na tristeza, mas trata-se de um saber cortado da vida, separado do real do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomando Lacan em <em>Televis\u00e3o<\/em>, o texto evoca afetos \u2014 tristeza, pesar, melancolia, t\u00e9dio, morosidade e mau-humor \u2014 que indicam um extravio na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o inconsciente. Esse ponto me parece particularmente relevante e nos convoca a interrogar: o que pode o analista diante de tais afetos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, o \u00faltimo fragmento cl\u00ednico, bordeja essa hip\u00f3tese er\u00f3tica do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como voc\u00eas leram, trata-se de um sujeito que anuncia: \u201cme sinto muito crian\u00e7a\u201d. Diante do fato de que o \u201cn\u00e3o poder falar\u201d se apresenta como um tra\u00e7o infantil persistente, a analista \u2014 mais atenta ao que ressoa em sua palavra do que ao seu significado \u2014 acompanha com esfor\u00e7o o fio de sua fala. O paciente comenta n\u00e3o se sentir escutado em nenhum outro lugar como na an\u00e1lise. A partir desse ponto, passa a falar sobre como enfrenta a diminui\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sexuais com sua parceira, diante da alucinante exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pornografia e do fato de poder pagar pelo sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quais seriam, ent\u00e3o, as possibilidades de erotizar um dizer em uma cl\u00ednica de sujeitos entediados, que n\u00e3o conseguem passar da impot\u00eancia do saber \u2014 que constitui a tristeza \u2014 ao imposs\u00edvel do real? Perguntaria, portanto, como a pr\u00e1tica anal\u00edtica opera a partir de uma er\u00f3tica do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me muito interessante essa ideia de \u201cperturbar as paix\u00f5es tristes\u201d. De que forma perturbar o saber implicado na tristeza, esse saber triste que n\u00e3o pode disser-se? O relat\u00f3rio aponta para a via da \u00e9tica do bem-dizer, a aposta no <em>gaio saber<\/em> (<em>gay s\u00e7avoir<\/em>), um saber ligado ao real do vivente. Como pensar essa \u00e9tica do bem-dizer relacionada \u00e0 extimidade, como assinala Miller? (p. 466).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, cabe ainda interrogar: qual \u00e9 a luta da psican\u00e1lise contra as paix\u00f5es tristes? O que os efeitos de uma experi\u00eancia anal\u00edtica, apreens\u00edveis ao final de uma an\u00e1lise, podem nos ensinar? O que uma experi\u00eancia anal\u00edtica, ao chegar ao seu t\u00e9rmino, pode orientar quanto \u00e0 entrada em an\u00e1lise de sujeitos que n\u00e3o contam com a garantia sustentada por seu fantasma?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o mais quest\u00f5es que respostas. Mas gostaria de sinalizar um aspecto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio sugere que essas paix\u00f5es tristes \u2014 que podem chegar at\u00e9 a mania \u2014 recha\u00e7am o inconsciente. Miller, por sua vez, observa que o final de an\u00e1lise se define por um certo modo de recha\u00e7o do inconsciente, podendo vir acompanhado de um saber triste e, \u00e0s vezes, da mania. No entanto, com assinala Lacan em <em>Nota italiana<\/em>, o acontecimento pr\u00f3prio do final de an\u00e1lise, que produz um analista, abre uma outra via: a do entusiasmo, de uma alegria que acompanha a ideia do objeto<em> a<\/em> como causa de desejo \u2014 n\u00e3o um desejo de saber, mas um horror ao saber. Sup\u00f5e-se, assim, que ao final da an\u00e1lise o sujeito saiba isolar a causa de seu horror ao saber (Miller, Extimidade, p. 468).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a\u00ed que podemos situar os afetos do riso e do entusiasmo, que se contrap\u00f5em \u00e0s paix\u00f5es tristes. Laurent prop\u00f5e como a aposta do analista a via do riso comunicante. Laurent prop\u00f5e, como aposta do analista, a via do \u201criso comunicante\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Termino, ent\u00e3o, com Lacan em <em>Televis\u00e3o<\/em>, quando situa o psicanalista como um santo que, ao prestar-se a bancar o dejeto, faz \u201cdescaridade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele nos diz: \u201cQuanto mais somos santos, mais rimos: esse \u00e9 o meu princ\u00edpio, ou at\u00e9 mesmo a sa\u00edda do discurso capitalista \u2014 o que n\u00e3o constituir\u00e1 um progresso se for apenas para alguns\u201d (Televis\u00e3o, p. 519).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleide Monteiro O relat\u00f3rio elaborado pelas tr\u00eas Antenas do Observat\u00f3rio A deserotiza\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 Paix\u00f5es tristes de todos os g\u00eaneros nos coloca diante do desafio de pensar \u201ccomo fazer ressoar a deserotiza\u00e7\u00e3o e o infantil\u201d. 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