{"id":8046,"date":"2025-11-26T07:09:31","date_gmt":"2025-11-26T10:09:31","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/miguel-antunes\/"},"modified":"2025-11-26T07:29:59","modified_gmt":"2025-11-26T10:29:59","slug":"como-a-crianca-interroga-o-amor-de-transferencia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/como-a-crianca-interroga-o-amor-de-transferencia-2\/","title":{"rendered":"Como a crian\u00e7a interroga o amor de transfer\u00eancia?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Miguel Antunes<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agrade\u00e7o \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o do ENAPOL, em nome de Helenice de Castro, e tamb\u00e9m aos respons\u00e1veis pela Conversa\u00e7\u00e3o Federativa, em nome de Marcus Andr\u00e9 Vieira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que recebi o convite, me perguntei sobre a fun\u00e7\u00e3o de um leitor. Essa quest\u00e3o me lan\u00e7ou imediatamente a uma passagem de Lacan do Semin\u00e1rio XXIII, em uma li\u00e7\u00e3o dada no dia de seu anivers\u00e1rio. Lacan afirma:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>apesar de tudo, dizer visa a ser escutado. Gostaria de verificar, em suma, se n\u00e3o me contento em falar para mim \u2013 tal como todo mundo o faz, com certeza, se o inconsciente tem um sentido. Preferiria, portanto, hoje, que algu\u00e9m me coloque uma quest\u00e3o. (&#8230;) gostaria que algu\u00e9m escrevesse alguma coisa que justificasse o trabalh\u00e3o que venho tendo h\u00e1 pouco mais de vinte anos\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever um relat\u00f3rio n\u00e3o leva tanto tempo assim, mas como sabemos, nossa forma\u00e7\u00e3o \u00e9 infinita. Nessa l\u00f3gica, quem escreve quer ser lido! Inspirado nisso, tentarei formular uma ou duas quest\u00f5es (talvez um pouco mais), para em seguida passar a palavra para que ela possa circular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O in\u00edcio do relat\u00f3rio \u00e9 instigante. Ele apresenta os significantes que marcam o insuport\u00e1vel da inf\u00e2ncia e que conduziram o percurso dos participantes deste trabalho. S\u00e3o eles: <strong>insuper\u00e1vel<\/strong>, <strong>exig\u00eancia<\/strong> e <strong>ilimitado<\/strong>. Nomes do excesso libidinal que fazem <em>tropmatismo<\/em> (excesso) e <em>troumatismo<\/em> (furo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tais excessos, me parecem relacionar, de maneira direta, com o termo freudiano \u201cexcesso de sexualidade\u201d, forjado na Carta 46, de 30 de maio de 1886, dirigida ao seu amigo Fliess. N\u00e3o \u00e0 toa, Jacques-Alain Miller comenta que ali Freud estava \u00e0 frente de Lacan. Vale a pena retomar, pois Freud diz<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>o excesso de sexualidade, isoladamente, n\u00e3o \u00e9 suficiente para causar recalcamento; faz-se necess\u00e1ria a coopera\u00e7\u00e3o da defesa; entretanto, sem um excesso de sexualidade a defesa n\u00e3o produz uma neurose<\/em>\u201d (277).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, Freud assinala que a natureza da cena tem import\u00e2ncia quando ela \u00e9 capaz de dar origem \u00e0 defesa. Desde o final do s\u00e9culo XIX, Freud j\u00e1 sabia &#8211; mesmo sem saber &#8211; o que faz acontecimento de corpo. Mostrava que \u00e9 preciso pensar a sexualidade como o choque do significante com o corpo, que causa marcas e determina as satisfa\u00e7\u00f5es do falasser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um dos textos de orienta\u00e7\u00e3o ao ENAPOL, de Jacques-Alain Miller, o termo \u201cdefesa\u201d \u00e9 bastante enfatizado. Em suas palavras: \u201co sujeito n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma defesa do excesso de sexualidade\u201d. O relat\u00f3rio tomou tal axioma como fio condutor, destacando uma importante pergunta: como o sujeito se defende desse excedente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito isso, eu gostaria de ouvir como voc\u00eas avan\u00e7aram nessas elabora\u00e7\u00f5es, e acrescentaria um ponto: se trata de defender ou de fazer algo com essa marca, com isso que H\u00e1? A fun\u00e7\u00e3o do analista seria jogar a partida com as cartas que foram distribu\u00eddas \u00e0s crian\u00e7as? E a partir da\u00ed, quando poss\u00edvel, fazer uso dos equ\u00edvocos, a fim de for\u00e7ar uma leitura diferente na tentativa de favorecer ao sujeito n\u00e3o se deixar esmagar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomando a quest\u00e3o proposta para esta mesa, de pensar \u201ccomo a crian\u00e7a interroga o amor de transfer\u00eancia\u201d, me parece interessante retomar Miller, em seu texto \u201cA crian\u00e7a e o saber\u201d. JAM \u00e9 preciso ao situar nesta cl\u00ednica e alertar: cabe aos analistas resgatarem o saber da crian\u00e7a! Um saber aut\u00eantico, seja ele sabido ou n\u00e3o. Diferente dos adultos, j\u00e1 cretinizados por sua educa\u00e7\u00e3o consumada e armados por defesas cristalizadas. N\u00e3o \u00e9 excessivo destacar que \u00e9 preciso ir em dire\u00e7\u00e3o oposta da l\u00f3gica pedag\u00f3gica, que principalmente no contempor\u00e2neo, tem sido cada vez mais voraz em sua \u00e2nsia de patologiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retornando ao relat\u00f3rio, dois exemplos foram destacados para ilustrar o car\u00e1ter das crian\u00e7as \u201cquestionadoras\u201d. O primeiro diz respeito \u00e0s crian\u00e7as j\u00e1 nomeadas para serem de alto rendimento. E, o segundo, s\u00e3o crian\u00e7as restos do sistema neocapitalistas que demandam amor e pedem abra\u00e7os constantemente. Nestes exemplos trazidos, como os participantes pensaram o saber das crian\u00e7as?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um tratamento, as crian\u00e7as normalmente entregam algo, seja um desenho, um pensamento, uma pergunta&#8230; Podemos dizer que o inconsciente da crian\u00e7a sai pela boca e a posi\u00e7\u00e3o do analista se restringe mais \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de leitor. Cabe a ele organizar, acompanhar a crian\u00e7a e \u201cfazer acontecer\u201d uma pergunta \u2013 seja sobre seu funcionamento ou mesmo sobre o funcionamento do par parental. Quase sempre, n\u00e3o s\u00e3o as crian\u00e7as que resistem \u00e0s an\u00e1lises, nem quem coloca o analista sob suspeita, frequentemente s\u00e3o as fam\u00edlias hol\u00f3frases que assim o fazem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse termo \u2013 \u201cfam\u00edlias hol\u00f3frases\u201d -, foi trabalhado no Campo Freudiano para demarcar a fun\u00e7\u00e3o do analista: aprender a l\u00edngua falada pela fam\u00edlia. Aprender a \u201creligi\u00e3o privada\u201d que \u00e9 a fam\u00edlia de cada um, sua gram\u00e1tica, suas marcas, vocabul\u00e1rios. Ou seja, cabe ao analista ficar mais pr\u00f3ximo \u00e0 crian\u00e7a, operando separa\u00e7\u00f5es e dar a cada uma, a parte que lhe cabe. Contudo, vale lembrar que quando os pais apostam no tratamento, h\u00e1 mais chances de uma an\u00e1lise acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para concluir, Miller acentua que \u201cna psican\u00e1lise \u00e9 a crian\u00e7a quem \u00e9 o suposto saber, e \u00e9 mais ao Outro que se deve educar, no sentido de faz\u00ea-lo se conter\u201d. Ent\u00e3o, se para n\u00f3s, \u00e9 a crian\u00e7a quem \u00e9 o suposto saber, como pensar \u201ca crian\u00e7a interrogando o amor de transfer\u00eancia\u201d? E se ela questiona este amor, ela o faz de qual maneira?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 isso. Obrigado! Parab\u00e9ns pelo trabalh\u00e3o de voc\u00eas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro da EBP\/AMP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Antunes[1] Agrade\u00e7o \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o do ENAPOL, em nome de Helenice de Castro, e tamb\u00e9m aos respons\u00e1veis pela Conversa\u00e7\u00e3o Federativa, em nome de Marcus Andr\u00e9 Vieira. Assim que recebi o convite, me perguntei sobre a fun\u00e7\u00e3o de um leitor. 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