{"id":8066,"date":"2025-11-26T07:27:47","date_gmt":"2025-11-26T10:27:47","guid":{"rendered":"https:\/\/enapol.com\/xii\/?p=8066"},"modified":"2025-11-26T07:29:36","modified_gmt":"2025-11-26T10:29:36","slug":"o-eterno-do-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/enapol.com\/xii\/o-eterno-do-infantil\/","title":{"rendered":"O Eterno do Infantil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><em>R\u00f4mulo Ferreira da Silva &#8211; EBP<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para dar a in\u00edcio \u00e0 nossa conversa, parti da quest\u00e3o que tivemos como refer\u00eancia para essa sala de trabalho: \u201cComo articular as fases da vida, inscritas no campo do sentido, com o eterno do infantil gozo da vida?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No relat\u00f3rio <em>Modalidades do morrer no s\u00e9culo XXI<\/em> do Observat\u00f3rio que se dedica ao tema das mortes violentas de adolescentes e jovens na Am\u00e9rica Latina, que mostra n\u00fameros alarmantes, independentemente da classe social; a pergunta que se apresentou entre o \u201cilimitado empuxo pulsional a gozar\u201d e a \u201cbusca da morte para terminar com uma exist\u00eancia dolorosa\u201d, ou seja, a esperan\u00e7a diante da luta em dire\u00e7\u00e3o a ilus\u00f5es grandiosas e a morte alcan\u00e7ada por essa via, se desenvolve no relat\u00f3rio, levando em conta que n\u00e3o h\u00e1 apenas um sentido para tentar avan\u00e7ar sobre o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como distinguir essas duas motiva\u00e7\u00f5es em um mesmo movimento e, por outro lado, como esperar outra coisa baseada nos atos falhos, na elucida\u00e7\u00e3o do inconsciente, que \u00e9 a via aberta pela psican\u00e1lise. Em rela\u00e7\u00e3o a essa esperan\u00e7a \u00e9 preciso lembrar que Lacan em Televis\u00e3o disse:<\/p>\n<blockquote><p><em>Saiba apenas que vi v\u00e1rias vezes <\/em><em>a <\/em><em>esperan\u00e7a, o que chamam de: os amanh\u00e3s<\/em> <em>que <\/em><em>cantam\/levar <\/em><em>as pessoas que<\/em> <em>eu estimava tanto quanto o estimo, muito<\/em> <em>simplesmente, ao suic\u00eddio.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o que se apresenta fundamentalmente \u00e9 sobre aqueles que n\u00e3o est\u00e3o decididos pela via da transfer\u00eancia, a abordar o sofrimento. \u00c9, portanto, interessante e oportuno explorar os caminhos que as experi\u00eancias que comp\u00f5em o material utilizado pelo Observat\u00f3rio, pudessem elucidar, ou abrir um pouco mais, como foi que em alguns casos que passaram por esses dispositivos, puderam decidir pela transfer\u00eancia via psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, foram tomados caminhos inversos ao que Lacan prop\u00f4s em seu primeiro ensino, ou seja, que no in\u00edcio est\u00e1 a transfer\u00eancia e depois a interpreta\u00e7\u00e3o. Aqui se prop\u00f5e uma a\u00e7\u00e3o do analista para que se inaugure a transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, o que se espera dessas iniciativas foi manejado com a devida prud\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o relat\u00f3rio conclui que na maioria desses casos os sujeitos parecem n\u00e3o ter sido desejados, carregando a marca do abandono e atualizando no Outro social a posi\u00e7\u00e3o de objeto dejeto e resto, qual a posi\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise diante deles, j\u00e1 que pela itera\u00e7\u00e3o do gozo, o movimento \u00e9 o de fazer-se recha\u00e7ado e abandonado para permanecer na mesma posi\u00e7\u00e3o de gozo, se fazendo matar ou matando? Fen\u00f4meno observado at\u00e9 mesmo no caso relatado das tentativas de suic\u00eddio que n\u00e3o se concretizam na pris\u00e3o para travestis, mulheres trans e homens homossexuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me interessou a constata\u00e7\u00e3o de que em muitos casos, foi observada a car\u00eancia \u201cde uma estrutura capaz de nomear o mal-estar\u201d que habitava o sujeito em rela\u00e7\u00e3o aos objetos pulsionais, ao corpo e \u00e0 linguagem. Estar\u00edamos a\u00ed diante de quadros nos quais a concep\u00e7\u00e3o milleriana da psicose ordin\u00e1ria poderia nos orientar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta que se apresenta \u201cquem sou eu?\u201d nos recorda o momento m\u00edtico da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, e certamente o que adv\u00e9m ap\u00f3s a regress\u00e3o t\u00f3pica ao est\u00e1dio do espelho no momento de desencadeamento de uma psicose, como observado em Schreber. Ou ainda, no caso M que, sob o ideal de \u201csair da vila\u201d se deparou com o \u201cvazio de significa\u00e7\u00e3o\u201d, que o lan\u00e7ou para a morte em um ato de desaparecimento do sujeito. O tema do suic\u00eddio nos aproxima da psicose e podemos constatar com os sintomas que chamamos contempor\u00e2neos, se apresentam de maneira t\u00e3o pr\u00f3xima da psicose, tornando nossa cl\u00ednica mais complexa por ser mais cont\u00ednua. Gostaria de saber se voc\u00eas chegaram a essa aproxima\u00e7\u00e3o ou, o que pensam sobre isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o esquecendo que \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d, a refer\u00eancia ao conceito de <em>necrossuic\u00eddio<\/em> proposto por Marcelo Veras<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, como efeito de um \u201cdel\u00edrio de que a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 o ultraliberalismo\u201d, tamb\u00e9m nos avizinha do tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A certeza de um corpo que se goza, insuport\u00e1vel por ser fora do sentido, resvala para a preval\u00eancia do imagin\u00e1rio na decis\u00e3o sobre a morte. O que convoca o analista ao eterno do infantil, assim: \u201cCom quem o analista joga sua partida?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de abordar o \u201cCom quem?\u201d, foi necess\u00e1rio dedicar uma reflex\u00e3o sobre a posi\u00e7\u00e3o do analista frente \u00e0s modalidades do morrer no s\u00e9culo XXI que evidenciam o recha\u00e7o do inconsciente a partir do sofrimento encarnado no corpo que se presentifica nos casos que foram abordados. O desafio se d\u00e1 diante do que n\u00e3o fala, do que se apresenta no sil\u00eancio das puls\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De que interpreta\u00e7\u00e3o se trata quando n\u00e3o \u00e9 mais na ordem do sentido que o discurso anal\u00edtico toca o real, inaugurando a transfer\u00eancia? Trago essa pergunta, pautado no Resumo que Lacan faz do Semin\u00e1rio 19:<\/p>\n<blockquote><p><em>De resto, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a descoberta do inconsciente, que no simb\u00f3lico tem sua mat\u00e9ria pr\u00e9-formada, mas a cria\u00e7\u00e3o do dispositivo cujo real toca no real, ou seja, o que articulei como o discurso anal\u00edtico\u201d.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais um ponto que gostaria que fosse aberto na discuss\u00e3o se refere \u00e0 express\u00e3o \u201cmod\u00e9stia ativa\u201d que surge como uma orienta\u00e7\u00e3o a fim de bordear o empuxo ao gozo mort\u00edfero a partir de \u201cuma oferta, um convite\u201d desde uma posi\u00e7\u00e3o d\u00f3cil do analista visando ao consentimento do sujeito ao inconsciente. Assim, o que \u00e9 jogar com os divinos detalhes que enla\u00e7am o sujeito \u00e0 vida, ao inv\u00e9s de jogar a partida com o sentido?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como operar com \u201cas marcas de gozo no corpo deixadas pelo encontro traum\u00e1tico com a <em>lal\u00edngua<\/em>\u201d? \u2013 arriscando aqui uma ponte com o pr\u00f3ximo texto que ser\u00e1 abordado nessa sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> LACAN,J. <em>Televis\u00e3o.<\/em> Outros Escritos. Zahar. Rio de Janeiro. 2003. p. 540.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> VERAS,M. A morte de si. Cult. S\u00e3o Paulo. 2023.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> LACAN,J. O Semin\u00e1rio &#8230;ou pior \u2013 Livro 19. Zahar. Rio de Janeiro. 2012. p. 232.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>R\u00f4mulo Ferreira da Silva &#8211; EBP Para dar a in\u00edcio \u00e0 nossa conversa, parti da quest\u00e3o que tivemos como refer\u00eancia para essa sala de trabalho: \u201cComo articular as fases da vida, inscritas no campo do sentido, com o eterno do infantil gozo da vida?\u201d No relat\u00f3rio Modalidades do morrer no s\u00e9culo XXI do Observat\u00f3rio que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[106],"tags":[],"post_series":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8066"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8066"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8066\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8070,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8066\/revisions\/8070"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8066"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xii\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=8066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}