{"id":566,"date":"2021-04-15T18:36:02","date_gmt":"2021-04-15T21:36:02","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/pt\/?post_type=avada_portfolio&#038;p=566"},"modified":"2021-04-15T18:36:02","modified_gmt":"2021-04-15T21:36:02","slug":"o-amor-ao-proximo-sao-martinho-e-salomao","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/portfolio-items\/o-amor-ao-proximo-sao-martinho-e-salomao\/","title":{"rendered":"O amor ao pr\u00f3ximo. S\u00e3o Martinho e Salom\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: center;\"><strong>O amor ao pr\u00f3ximo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>S\u00e3o Martinho e Salom\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[*]<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Jacques-Alain Miller<\/em> <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[\u2020]<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>O amor e a caridade<br \/><\/em><em>Depois do salm\u00e3o maionese<br \/><\/em><em>Desejo e gozo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos prosseguir com a terceira parte da exposi\u00e7\u00e3o de Pierre-Gilles Gu\u00e9guen. Ele tomou como fio condutor as refer\u00eancias de Lacan \u00e0 obra de Bentham e, em particular, sua teoria das fic\u00e7\u00f5es destacada por Ogden e Richards em seus famosos <em>The Meaning of Meaning<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vantagem dessa escolha \u00e9 justapor momentos do ensino de Lacan em que as descontinuidades s\u00e3o t\u00e3o flagrantes quanto as constantes. A refer\u00eancia a Bentham \u00e9 frequente em Lacan, tratando-se da conex\u00e3o do conceito de gozo com a categoria do semblante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>1<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como introdu\u00e7\u00e3o, direi o que me inspirou a passagem da \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o de P.-G.\u00a0Gu\u00e9guen sobre o ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho, cuja refer\u00eancia encontra-se nas p\u00e1ginas 223 e 270 do Semin\u00e1rio 7, <em>A \u00c9tica da psican\u00e1lise: <\/em>\u201cSeria conveniente se perguntar qual \u00e9 o <em>parceiro-sintoma<\/em> de cada um dos protagonistas nesse ap\u00f3logo. Do lado do soldado, em refer\u00eancia a <em>A Parte Maldita<\/em> de Bataille, assim como, atrav\u00e9s dele, a Mauss e seu ensaio sobre o dom, aquele que d\u00e1 afirma o seu poder e, sobretudo, sua posi\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o evidente e falsa em rela\u00e7\u00e3o ao seu ser. Deste modo ele encontra um parceiro no pobre que reflete o seu poder. Do lado do pobre, aquele que n\u00e3o tem exige tamb\u00e9m que se reconhe\u00e7a n\u00e3o apenas a pobreza e a mis\u00e9ria na qual se encontra, mas igualmente a mentira, a fic\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao seu ser pelo simples fato de que partilha, com aquele que d\u00e1, a pr\u00f3pria ideia do valor de gozo da falta. A castra\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Martinho, com quem ele partilha o temor dessa amea\u00e7a, lhe serve como parceiro. Encontramos a\u00ed o casal daquele que tem e daquele que n\u00e3o tem, e o dom como a problem\u00e1tica do ter, meton\u00edmia do ser\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como diz Lacan, esse ap\u00f3logo diz respeito a um casal, o soldado em seu cavalo e o mendigo, figura eminente da demanda. Eles se distinguem segundo uma hierarquia que pode ser reconduzida ao \u00e2mbito do ter, entre aquele que tem e aquele que n\u00e3o tem. O que se passa entre os dois? Para que o ato de S\u00e3o Martinho aconte\u00e7a, \u00e9 preciso ainda que o rico e o pobre possam se encontrar, o que hoje n\u00e3o \u00e9 mais \u00f3bvio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos o exemplo atual da proibi\u00e7\u00e3o da mendic\u00e2ncia em alguns munic\u00edpios. Foi preciso um protesto moral para que ela cessasse, pelo menos de virar manchete nos jornais, pois n\u00e3o sabemos o que \u00e9 isso na pr\u00e1tica. Nos Estados Unidos, vemos se desenvolver uma ind\u00fastria de constru\u00e7\u00e3o de cidades segregadas. A partir disso, na escolha de uma moradia, d\u00e1-se prefer\u00eancia ao investimento em uma casa que fa\u00e7a parte de uma cidade artificial, cercada com arame farpado, onde \u00e9 preciso mostrar a pata branca para poder entrar. Em alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, esse tipo de cidade j\u00e1 existia aqui e ali. Pelas \u00faltimas not\u00edcias, isto teria se tornado uma ind\u00fastria de massa. Trabalhadores de n\u00edvel t\u00e9cnico e mesmo oper\u00e1rios, ricos somente por ter um trabalho, recorrem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o desses enclaves. Ali se encontra a vanguarda da segrega\u00e7\u00e3o, onde a no\u00e7\u00e3o daquele que tem se estende muito longe e deixa de fora os desprovidos, constitu\u00eddos em classe. Essa vontade de segrega\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 presente, em seus contornos mais amenos, na quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o. A busca de meios para fixar o pobre em casa para n\u00e3o ter que encontr\u00e1-lo aqui constitui o que h\u00e1 de mais avan\u00e7ado na preocupa\u00e7\u00e3o social em rela\u00e7\u00e3o a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa hist\u00f3ria, portanto, o rico e o pobre se encontram. O que se passa? Um dom se efetua. Sublinhemos que aquele que d\u00e1 mant\u00e9m sua posi\u00e7\u00e3o e, al\u00e9m disso, torna-se um santo. O que ele d\u00e1 exatamente? Uma metade. Esse dom \u00e9 uma partilha, a a\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Martinho, que estabelece uma igualdade dos bens no \u00e2mbito do ter: um tem o que o outro tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse ap\u00f3logo \u00e9 utilizado de bom grado para ilustrar o amor ao pr\u00f3ximo sobre o qual Lacan se interroga, considerando a refer\u00eancia reticente que Freud faz a isto em <em>Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. <\/em>Ser\u00e1 que esse ap\u00f3logo ilustra o amor ao pr\u00f3ximo no sentido do <em>Tu amar\u00e1s teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo? <\/em>A a\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Martinho ilustra esse princ\u00edpio, como esclarece Lacan, sob a forma particular do <em>Tu n\u00e3o amar\u00e1s mais do que a ti mesmo. <\/em>A partilha do manto traduz esse <em>como a ti mesmo <\/em>de modo quase ris\u00edvel, indicando, manifestamente, um <em>at\u00e9 aqui, mas n\u00e3o mais longe<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se dizer que se trata de altru\u00edsmo? \u00c9 not\u00e1vel que S\u00e3o Martinho n\u00e3o d\u00e1 o seu manto, mas, em vez disso, ele o destr\u00f3i. N\u00e3o \u00e9 o <em>tudo para o outro, <\/em>mas somente a metade. Isto nos lembra o julgamento de Salom\u00e3o que, ao enunciar <em>a metade do beb\u00ea, <\/em>faz surgir a resposta do amor materno, <em>Entregue-o ao outro, em vez de cort\u00e1-lo em dois.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Os dois ap\u00f3logos poderiam ser comparados. De um lado, temos dois homens, S\u00e3o Martinho e seu mendigo e, de outro, duas mulheres, duas m\u00e3es. Em um caso, a quest\u00e3o \u00e9 um objeto material de circula\u00e7\u00e3o comercial, o manto e especialmente seu pano; no outro, esse pequeno ser vivente que acaba de vir ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No julgamento de Salom\u00e3o, um terceiro faz justi\u00e7a e descobre a verdade pela fala. Ele se serve de seu primeiro julgamento que, de alguma forma, \u00e9 falso, para fazer surgir a verdade escondida. Nesse momento ele pronuncia o segundo julgamento, o verdadeiro, atrav\u00e9s do qual reconhece a verdadeira m\u00e3e naquela que abre m\u00e3o de seu direito de propriedade sobre a crian\u00e7a. Esse ap\u00f3logo do Antigo Testamento compara duas respostas, a do amor e a da inveja. N\u00e3o encontramos ali a resposta da caridade, termo pelo qual Lacan designa o ato de S\u00e3o Martinho. A resposta da inveja <em>Que o outro n\u00e3o tenha o que eu mesmo n\u00e3o tenho!<\/em> poderia se aproximar do <em>Destruir, disse ela <\/em>de Marguerite Duras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Notemos ainda a rivalidade das mulheres, a mentira, o engodo, a sabedoria do terceiro e, discretamente, uma descida ao horror que inspirou numerosos pintores. Um quadro de Poussin representa esse momento em que o beb\u00ea, suspenso por um p\u00e9, \u00e9 amea\u00e7ado por aquele que o segura, de ser cortado em dois por um instrumento afiado. \u00c9 necess\u00e1rio esse assombro para que surja o grito mais puro do amor. O sujeito feminino, sob a forma do <em>Quem n\u00e3o tem, <\/em>\u00e9 especialmente valorizado. Ele n\u00e3o se resigna, n\u00e3o implora, mas toma, rouba e mente. Ele tamb\u00e9m \u00e9 capaz de dar a resposta do amor que falta ao ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho no qual, longe dos extremos, ele somente aparece sob a forma da caridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ap\u00f3logo de Salom\u00e3o, a fala est\u00e1 em primeiro plano, enquanto no de S\u00e3o Martinho \u00e9 uma hist\u00f3ria sem fala. De um lado, temos as ast\u00facias da fala, a mentira e a contradi\u00e7\u00e3o; de outro, a simplicidade de um fazer. A fala de Salom\u00e3o \u00e9 uma ast\u00facia, pois d\u00e1 uma ordem para ser jogada, e n\u00e3o para ser obedecida. Ela evoca a frase de <em>Hamlet<\/em> citada por Freud, <em>Com a isca da mentira, fisguei a carpa da verdade<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A compara\u00e7\u00e3o permite apreender o que Lacan criticava no ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho, a saber, a aus\u00eancia de terceiro. Pelo contr\u00e1rio, a hist\u00f3ria valoriza o car\u00e1ter dual, imagin\u00e1rio do altru\u00edsmo, de tal forma que aparece como o avesso do ego\u00edsmo. O altru\u00edsmo \u00e9 apenas a proje\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo, no sentido em que, nessa dimens\u00e3o, o outro \u00e9 apenas um outro eu-mesmo, tendo como resultado a rivalidade, a competi\u00e7\u00e3o. Lacan aponta essa tens\u00e3o atrav\u00e9s de outro ap\u00f3logo, o do Campo do Pano de Ouro no qual Francisco I encontra Henrique VIII e, n\u00e3o sem ironia, proclama <em>O que meu irm\u00e3o quer, eu tamb\u00e9m o quero<\/em>. Nessa frase vibra o equ\u00edvoco do acordo e da luta at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acordo \u00e9 poss\u00edvel no \u00e2mbito dos interesses materiais do \u00fatil. Ele \u00e9 representado no ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho pelo fato de cortar a p\u00eara em dois. Lacan formula assim, na p\u00e1gina 224 do Semin\u00e1rio <em>A \u00c9tica da psican\u00e1lise: <\/em>\u201cMeu ego\u00edsmo se satisfaz extremamente bem com um certo altru\u00edsmo, com aquele que se situa no n\u00edvel do \u00fatil\u201d. O exemplo atual da imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma boa ilustra\u00e7\u00e3o disto. Nosso ego\u00edsmo toma esta forma: <em>Desenvolvamos a economia local deles para que fiquem em casa,<\/em> vers\u00e3o progressista do altru\u00edsmo moral contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passando agora ao valor do \u00fatil. O utilitarismo realiza em parte, como diz Lacan, uma subvers\u00e3o da moral tradicional, na medida em que faz surgir os ideais como semblantes ou fic\u00e7\u00f5es, e situa o prazer que isto d\u00e1 como \u00fanico real. Lacan escande, at\u00e9 mesmo elogia essa matan\u00e7a do ideal, mas assinala, a prop\u00f3sito, o seu limite. Ela consiste no fato de que o utilitarismo mant\u00e9m o prazer como um bem, e mesmo como um bem absoluto. Este \u00e9 o sentido que dou \u00e0 seguinte frase da p\u00e1gina 222: \u201cO moralista tradicional, quem quer que seja ele, recai invencivelmente na rotina de persuadir-nos que o prazer \u00e9 um bem, que a via do bem nos \u00e9 tra\u00e7ada pelo prazer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso entender que Lacan visa os limites do utilitarismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 subvers\u00e3o freudiana. N\u00e3o est\u00e1 totalmente claro, na sequ\u00eancia do <em>Semin\u00e1rio 7<\/em>, porque Lacan insiste na oposi\u00e7\u00e3o entre a moral tradicional, que prop\u00f5e ideais, e o utilitarismo, que os subverte pelo valor absoluto do prazer. Mas, nessa frase, Bentham encontra-se inclu\u00eddo na tradi\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o questiona o car\u00e1ter ben\u00e9fico do prazer: ele n\u00e3o acede \u00e0 no\u00e7\u00e3o, um passo al\u00e9m, do gozo. Vemos aqui a agudez da reflex\u00e3o de Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito antes de Bentham, o engodo do ideal da moral tradicional foi denunciado. Pensemos em Di\u00f3genes e na escola dos c\u00ednicos. Por tr\u00e1s do ideal, encontra-se o prazer. Lacan nos convida a prestar aten\u00e7\u00e3o ao fundo falso porque n\u00e3o h\u00e1 nada mais enganoso do que aquilo que se descobre em segunda vista. Al\u00e9m disso, ele faz uma nova an\u00e1lise dos sonhos de Freud, n\u00e3o parando em seu primeiro fundo falso. Qual \u00e9 aqui o fundo falso do fundo falso sen\u00e3o o do <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>? Bentham \u00e9 o te\u00f3rico social do princ\u00edpio do prazer, enquanto n\u00f3s estamos, no sentido de Freud, no al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomemos a cr\u00edtica de Lacan ao ato de S\u00e3o Martinho: \u201cdisso se fez uma longa hist\u00f3ria, mas, enfim, \u00e9 uma simples quest\u00e3o de domestica\u00e7\u00e3o, o pano \u00e9, por natureza, feito para ser espalhado\u201d, diz ele na p\u00e1gina 223, rebaixando assim o ato desnudado pela moral crist\u00e3 como uma quest\u00e3o de mordomia, baseado simplesmente na escassez do tecido. Ele deixa de lado at\u00e9 a forma do manto, j\u00e1 que o gesto de S\u00e3o Martinho o reduz ao pano e vai al\u00e9m da eleg\u00e2ncia de vestir um manto completo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00edamos tamb\u00e9m apelar para o dandismo: S\u00e3o Martinho seria um jovem na moda, voltando de seu ato de caridade para ir festejar com seus companheiros; algu\u00e9m lan\u00e7aria um <em>Que chique essa metade de manto! <\/em>e, imediatamente, todo mundo rasgaria o seu. Ali\u00e1s, certo n\u00famero de coisas desse g\u00eanero aconteceu com Alceb\u00edades, uma esp\u00e9cie de S\u00e3o Martinho, de Brummell do seu tempo, \u00e1rbitro das eleg\u00e2ncias morais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomando o ato por esta via, chegamos \u00e0 quest\u00e3o-chave da interpreta\u00e7\u00e3o, piv\u00f4 do coment\u00e1rio de Lacan. S\u00e3o Martinho interpreta a demanda silenciosa do mendigo no n\u00edvel da necessidade, do frio que deve sentir em sua nudez e, de repente, o veste. N\u00e3o estamos falando de sua bolsa, mas ele poderia tamb\u00e9m partilhar o conte\u00fado de sua tigela e isto faria o <em>resto du c\u0153ur <\/em><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><em>.<\/em> A quest\u00e3o \u00e9 atual, j\u00e1 que nos convidam tamb\u00e9m, com a for\u00e7a midi\u00e1tica atual, a suprir aquele que n\u00e3o tem, no \u00e2mbito das necessidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>2<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abre-se um espa\u00e7o infinito para n\u00e3o tomar a demanda no campo da necessidade, mas implicar nela uma <em>outra satisfa\u00e7\u00e3o, <\/em>tema do cap\u00edtulo V do Semin\u00e1rio <em>Mais, ainda, \u201c<\/em>A outra satisfa\u00e7\u00e3o\u201d. O ponto de interroga\u00e7\u00e3o colocado por Lacan no ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho faz surgir a no\u00e7\u00e3o da outra satisfa\u00e7\u00e3o implicada nesse ato. Lacan diz isto de maneira forte na p\u00e1gina 224 do Semin\u00e1rio 7: \u201cMas talvez, para al\u00e9m de precisar vestir-se, mendigava ele outra coisa, que S\u00e3o Martinho o matasse, ou que trepasse com ele\u201d. Paremos um instante nesta sugest\u00e3o de Lacan. Ele se refere diretamente \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de homem proposta por Freud em<em> Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o <\/em>a partir da agress\u00e3o que o leva a querer escravizar, gozar, at\u00e9 mesmo matar seu semelhante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta outra satisfa\u00e7\u00e3o evoca o que est\u00e1 em jogo nos <em>Witz <\/em>reagrupados por Freud sob a rubrica dos chistes por deslocamento. Se voc\u00eas leram livro dele <em>O chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente<\/em>, conhecem o ap\u00f3logo que gira em torno do salm\u00e3o com maionese. Trata-se de uma hist\u00f3ria judaica, que Freud nos entrega em seus aspectos aned\u00f3ticos, mas que tem um valor humano universal:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm homem empobrecido toma emprestado vinte e cinco florins de um homem rico que ele conhecia, depois de ter-lhe assegurado, v\u00e1rias vezes, que estava passando necessidade\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos o mesmo casal: aquele que tem e aquele que n\u00e3o tem. Este \u00faltimo demanda, manifestamente, em nome da necessidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNo mesmo dia, seu benfeitor [a caridade, como em S\u00e3o Martinho] o encontra no restaurante, instalado diante de um prato de salm\u00e3o com maionese\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o sei se o salm\u00e3o com maionese parece para voc\u00eas o m\u00e1ximo do que se pode obter no restaurante, mas na Viena da \u00e9poca, especialmente no meio judaico, parece ter o valor de uma Festa de L\u00faculo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO qu\u00ea! Voc\u00ea pega dinheiro emprestado e, em seguida, voc\u00ea pede salm\u00e3o com maionese. \u00c9 para coisas assim que voc\u00ea precisa do meu dinheiro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u2018Eu n\u00e3o entendo voc\u00ea\u2019, responde o homem questionado. \u2018Quando n\u00e3o tenho dinheiro, eu n\u00e3o <em>posso<\/em> comer salm\u00e3o com maionese e, quando tenho dinheiro, eu n\u00e3o <em>devo <\/em>comer salm\u00e3o com maionese. <em>Mas quando, diabos, voc\u00ea quer que eu coma salm\u00e3o com maionese?<\/em>\u2019\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta hist\u00f3ria se inscreve muito bem do lado do ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho. Freud sublinha a l\u00f3gica da resposta que tem aspecto de um racioc\u00ednio. O credor adverte que na situa\u00e7\u00e3o em que ele se encontra, n\u00e3o tem o direito de pensar em comprar refei\u00e7\u00f5es t\u00e3o suculentas. O <em>bon vivant<\/em> empobrecido n\u00e3o considera isto e, fazendo como se n\u00e3o tivesse entendido, responde de modo evasivo. Freud valoriza o car\u00e1ter de desvio da resposta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 significa\u00e7\u00e3o da reprova\u00e7\u00e3o. Ele v\u00ea nisto um exemplo de deslocamento do acento ps\u00edquico para outro tema que n\u00e3o aquele de in\u00edcio. O efeito espirituoso desta hist\u00f3ria, segundo ele, n\u00e3o reside tanto no material verbal, mas no processo do pensamento. Lacan destaca que ele acontece tamb\u00e9m no \u00e2mbito da palavra e que a\u00ed se revela a meton\u00edmia de um desejo que n\u00e3o det\u00e9m \u00e0 necessidade, mas desliza para al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud realiza o que ele chama de redu\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a explicita\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria do sentido da hist\u00f3ria. Ele emprega esse m\u00e9todo com os diferentes chistes que s\u00e3o verdadeiramente reduzidos quando n\u00e3o provocam mais o riso. Qual \u00e9, ent\u00e3o, o enunciado m\u00ednimo desta hist\u00f3ria do salm\u00e3o com maionese? \u00c9: <em>Eu n\u00e3o posso recusar as refei\u00e7\u00f5es de que gosto e pouco importa de onde venha o dinheiro para pag\u00e1-las.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud observa que no momento em que ele d\u00e1 esta moral da hist\u00f3ria, isto deixa de ser um chiste para se tornar uma observa\u00e7\u00e3o c\u00ednica. O cinismo indica, segundo Freud, a posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica daquele que n\u00e3o tem e se delicia com o dinheiro do outro, desviado de seu emprego a servi\u00e7o da necessidade. Ele reside n\u00e3o apenas no fato de explorar o credor, mas tamb\u00e9m no prazer de consumir salm\u00e3o com maionese como um absoluto indiscut\u00edvel. Fazer do salm\u00e3o com maionese um direito do homem \u00e9 dizer novamente que o sup\u00e9rfluo \u00e9 mais necess\u00e1rio do que o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra hist\u00f3ria vai no mesmo sentido, mas com valor diferente. Um homem, entregue \u00e0 bebida, ganha sua vida com aulas particulares em uma cidadezinha. Seu v\u00edcio descoberto, ele perde a maioria de seus alunos. Um de seus amigos \u00e9 encarregado de lembr\u00e1-lo de uma conduta melhor:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u2019Sabe\u2019, disse-lhe este, \u2018voc\u00ea poderia ter as aulas particulares mais interessantes de toda a cidade se voc\u00ea quisesse parar de beber. Por favor, fa\u00e7a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;\u00a0Voc\u00ea \u00e9 um descarado!\u2019, responde o outro, indignado. \u2018<em>Eu dou aulas para poder beber; devo parar de beber para<\/em><em> ter aulas!\u2019<\/em>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A redu\u00e7\u00e3o dessa hist\u00f3ria indica simplesmente que a bebida \u00e9 o principal de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda uma terceira, porque estamos depois das festas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab\u00a0Um <em>schnorrer <\/em>[um parasita] vem solicitar ao rico bar\u00e3o, a fim de obter dele um seguro financeiro que lhe permitir\u00e1 fazer uma viagem a Ostende: os m\u00e9dicos, diz ele, o recomendaram tomar banho de mar para se reestabelecer<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEntendido, eu vou te dar algo para te ajudar\u201d, diz o rico [n\u00f3s estamos em uma atmosfera de apoio, aquela do meio judaico, globalmente constrangido, perseguido]. Mas voc\u00ea \u00e9 obrigado a ir exatamente a Ostende, a mais cara de todas as esta\u00e7\u00f5es balne\u00e1rias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211;\u00a0Senhor bar\u00e3o\u201d, retruca o <em>schnorrer<\/em>, com a inten\u00e7\u00e3o de recoloc\u00e1-lo em seu lugar, \u201cquando se trata de minha sa\u00fade, nada \u00e9 t\u00e3o caro para mim\u201d.\u00a0\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, os credores, os doadores querem fazer o bem, mas com a condi\u00e7\u00e3o de mant\u00ea-los no campo da necessidade. Encontrei isto na minha inf\u00e2ncia. Passeando com um amigo da fam\u00edlia, de certa idade, encontramos um mendigo que pediu uma moeda. E este senhor que me acompanhava foi interrog\u00e1-lo. Ele n\u00e3o se det\u00e9m na evid\u00eancia da necessidade, como S\u00e3o Martinho, e pediu explica\u00e7\u00f5es sobre o que ele queria fazer [com a moeda]. O infeliz disse: \u201cpara comprar um peda\u00e7o de p\u00e3o\u201d. Nosso amigo respondeu ent\u00e3o: \u201cVamos juntos \u00e0 padaria\u201d e lhe comprou uma grande baguete. Guardei desta hist\u00f3ria um profundo mal-estar. E s\u00f3 encontrei a chave ao ler Lacan, especialmente sua dial\u00e9tica da necessidade, da demanda e do desejo. Essa manifesta\u00e7\u00e3o de caridade fazia surgir seu car\u00e1ter de controle sobre o outro. Empobrecia-o ainda mais, dando-lhe esmolas dessa maneira, reduzindo o desejo \u00e0 demanda e \u00e0 necessidade. Como eu n\u00e3o era grande, esse amigo deve ter pensado que era preciso me dar uma explica\u00e7\u00e3o: \u201cSen\u00e3o, ele compraria algo para beber!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ato de caridade de S\u00e3o Martinho \u00e9 uma degrada\u00e7\u00e3o, do desejo \u00e0 demanda, da demanda \u00e0 necessidade e da enuncia\u00e7\u00e3o ao enunciado. Trata-se, portanto, em termos lacanianos, de um desconhecimento da meton\u00edmia do desejo, no sentido em que satisfazer a necessidade retorna <em>ipso facto<\/em> a rebaixar o desejo. Esta posi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 dif\u00edcil de sustentar. Pensemos, por exemplo, na famosa frase: <em>Eles n\u00e3o t\u00eam p\u00e3o? Que comam brioche! \u2013 <\/em>exagero porque brioche, eles tamb\u00e9m n\u00e3o tinham. Lacan desconfia dessa inclina\u00e7\u00e3o a satisfazer as necessidades do outro, na p\u00e1gina 273 de seu Semin\u00e1rio 7: \u201cO que bem pode ele, apesar disso \u2013 digo <em>apesar disso<\/em>, pois a partir desse momento, sabe-se cada vez menos \u2013, continuar a desejar?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o necess\u00e1rio faltar, voc\u00eas t\u00eam a ideia do que precisam. Em compensa\u00e7\u00e3o, uma vez supridas as necessidades, voc\u00eas perdem a b\u00fassola e perguntam: <em>O que posso desejar? <\/em>ou<em> O que o outro pode desejar?<\/em> N\u00e3o \u00e9 este o princ\u00edpio do consumo de luxo, ao qual assistimos em larga escala, em particular durante o per\u00edodo de festas de fim de ano? A abund\u00e2ncia dos bens apresentados repercute esta interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 outra coisa na cr\u00edtica do ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho por Lacan: \u201cMas, talvez, para al\u00e9m de precisar vestir-se, mendigava ele outra coisa, que S\u00e3o Martinho o matasse, ou que trepasse com ele\u201d. O al\u00e9m da necessidade n\u00e3o tem apenas um nome. Trata-se, sobretudo, do desejo, na medida em que ele visa outra coisa \u2013 o salm\u00e3o com maionese, a brioche, a esta\u00e7\u00e3o de Ostende \u2013 sob a forma do objeto de luxo, objeto marcado por um excesso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade vital. A redu\u00e7\u00e3o ao estritamente necess\u00e1rio \u00e9 a ess\u00eancia do cinismo para o qual todo o resto \u00e9 sup\u00e9rfluo, artif\u00edcio social. Pensemos em Di\u00f3genes, guardando apenas uma caneca para beber e que, ao ver uma crian\u00e7a fazer uma x\u00edcara com suas m\u00e3os, imediatamente a quebra, dizendo que ainda \u00e9 demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica de Lacan valoriza um outro al\u00e9m da necessidade que n\u00e3o \u00e9 o desejo, mas o gozo. A outra coisa somente n\u00e3o aparece a\u00ed como excesso de prazer, mas como mal. Eis porque eu distinguia esta hist\u00f3ria de bebida daquela de salm\u00e3o com maionese. Na bebida, o sujeito se destr\u00f3i n\u00e3o apenas no \u00e2mbito da sa\u00fade, mas tamb\u00e9m de seus meios de subsist\u00eancia. O al\u00e9m da necessidade se divide aqui em duas partes: desejo e gozo. Percebemos que o desejo, como deslocamento em dire\u00e7\u00e3o a outra coisa, n\u00e3o vai al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, tal como Lacan o apresenta em seu Semin\u00e1rio <em>A \u00c9tica da psican\u00e1lise<\/em>, n\u00e3o se alcan\u00e7a por um movimento cont\u00ednuo. \u00c9 preciso uma ultrapassagem que se oponha \u00e0 meton\u00edmia cont\u00ednua e horizontal. Lacan sublinha o valor disto com o termo transgress\u00e3o. Ultrapassando este limite, encontramos outra coisa, diferente do que nos faz rir como o salm\u00e3o com maionese e a brioche, mas a merda, a sujeira, a porra. Ali\u00e1s, Lacan traz ali\u00e1s, outros ap\u00f3logos na p\u00e1gina 225, que dizem respeio aos m\u00edsticos: \u201cuma \u00c2ngela de Folignio bebia com deleite a \u00e1gua na qual acabara de lavar os p\u00e9s dos leprosos\u201d, \u201cMaria Allacoque comia com n\u00e3o menos recompensas em efus\u00f5es espirituais, os excrementos de um doente\u201d. N\u00e3o se trata mais de salm\u00e3o com maionese!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan acha esse al\u00e9m pueril porque os primeiros objetos encontrados s\u00e3o xixi-coc\u00f4. Os objetos pr\u00e9-genitais colocados em jogo s\u00e3o escondidos pelo universal, j\u00e1 que s\u00e3o os excrementos ou os p\u00e9s de meu pr\u00f3ximo, seja quem for. Por um simples deslocamento de acento, Lacan faz surgir nesse mesmo lugar a pervers\u00e3o: \u201cO alcance convincente desses fatos, seguramente edificantes, vacilaria certamente um pouquinho se os excrementos em quest\u00e3o fossem, por exemplo, os de uma bela mo\u00e7a, ou ainda, se se tratasse de engolir a porra de um atacante da equipe de r\u00fagbi de voc\u00eas\u201d. N\u00e3o \u00e9 mais o pr\u00f3ximo que se visa, mas algu\u00e9m dotado de certo n\u00famero de atributos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma ultrapassagem porque h\u00e1 uma barreira entre prazer e gozo. O pr\u00f3prio prazer faz limite ao gozo; e o desejo, como desejo de outra coisa, doce meton\u00edmia, fica aqu\u00e9m. Onde situar esse <em>ti-mesmo<\/em> no mandamento <em>Amar\u00e1s teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo<\/em>? Ali onde se ama, no campo do narcisismo? Ali onde se permite o luxo, o sup\u00e9rfluo, no campo do desejo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amar-se como sujeito do gozo \u00e9 outra hist\u00f3ria. Se o cerne de mim mesmo \u00e9 meu gozo, eu n\u00e3o sou am\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 um bem, mas um mal. Lacan se apoia nesta defini\u00e7\u00e3o do homem dada por Freud em <em>Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o,<\/em> na p\u00e1gina 47 do texto franc\u00eas \u201co homem, com efeito, \u00e9 tentado a satisfazer no pr\u00f3ximo sua agressividade, a explorar seu trabalho sem compensa\u00e7\u00e3o, utiliz\u00e1-lo sexualmente sem o seu consentimento, apropriar-se de seus bens, humilh\u00e1-lo, causar-lhe sofrimento, tortur\u00e1-lo e mat\u00e1-lo\u201d \u2013\u00a0como diz Lacan, este poderia ser Sade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta defini\u00e7\u00e3o do homem integra a puls\u00e3o de morte e sua conclus\u00e3o: <em>Eu n\u00e3o posso me amar neste n\u00edvel, eu n\u00e3o posso me amar como a Coisa. <\/em>Ser\u00e1 que posso amar o outro no que faz o seu gozo e, precisamente, no que ele comporta de mal? Tratando-se do amor do outro, o gozo \u00e9 um problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixo a palavra com P.-G. Gu\u00e9guen para a terceira parte de sua apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pierre-Gilles\u00a0Gu\u00e9guen<strong>\u00a0\u2014<\/strong>\u00a0<em>Duas observa\u00e7\u00f5es me surgiram no curso de sua fala. A primeira diz respeito ao in\u00edcio do Semin\u00e1rio <\/em>A Transfer\u00eancia<em>, especialmente, a parte dedicada \u00e0 psicologia do homem rico. Antes de produzir o que ele chama de met\u00e1fora do amor, Lacan mostra, de um modo que lembra o coment\u00e1rio do ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho, que no <\/em>Banquete<em> S\u00f3crates toma a defini\u00e7\u00e3o de amor trazida por Paus\u00e2nias como uma piada de mau gosto.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Se podemos conceber as barreiras do belo e do bem que Lacan evoca no Semin\u00e1rio<\/em> A \u00c9tica <em>como fic\u00e7\u00f5es, o julgamento de Salom\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, desnuda as fic\u00e7\u00f5es, mostrando que, por detr\u00e1s delas, um real insiste. A fala interpretativa faz um uso dos semblantes que permite ultrapass\u00e1-los.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00edamos ir mais longe na interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do salm\u00e3o com maionese. Talvez n\u00e3o seja acidental com\u00ea-lo sendo visto pelo credor, para mostra-lhe que ele \u00e9 um imbecil. Lacan evoca as repercuss\u00f5es agressivas da caridade. Evidentemente, as hist\u00f3rias engra\u00e7adas de Freud n\u00e3o se banham em uma atmosfera de caridade&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P.-G.\u00a0Gu\u00e9guen<strong>\u00a0\u2014\u00a0<\/strong>\u2026<em>\u00a0e de humanitarice de encomenda<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de esmolas, mas de empr\u00e9stimos. N\u00e3o h\u00e1 universal, nem imperativo de caridade. \u00c9 isto que torna essas hist\u00f3rias engra\u00e7adas. A \u00fanica resposta v\u00e1lida do mendigo \u00e0quele que lhe faz caridade seria <em>Patife! <\/em>Na hist\u00f3ria do salm\u00e3o com maionese, este elemento odioso est\u00e1 presente, mas mais velado. A satisfa\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia agressiva, como diria Freud, faz parte da felicidade de comer o salm\u00e3o com maionese, sendo visto pelo outro. Por tr\u00e1s dessas refei\u00e7\u00f5es, h\u00e1, no extremo, a puls\u00e3o de morte. O salm\u00e3o com maionese n\u00e3o \u00e9 a palavra final da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P.-G.\u00a0Gu\u00e9guen<strong>\u00a0\u2014\u00a0<\/strong><em>Volto ao cinismo do utilitarismo. Eu dizia que Lacan talvez tivesse utilizado o termo <\/em>semblante <em>em vez de<\/em> fic\u00e7\u00e3o <em>porque o utilitarismo coloca no mesmo n\u00edvel o p\u00e3o e a renda. Ele desenvolve a quest\u00e3o at\u00e9 seus \u00faltimos limites, apresentando, de um lado, a barreira do bem e do belo e, de outro, sua ultrapassagem, at\u00e9 penetrar esta zona do entre-duas-mortes. Espera-se a\u00ed uma decis\u00e3o sobre o gozo que se resolve na assun\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, do ser-para-a-morte.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomemos a quest\u00e3o que voc\u00ea coloca, a respeito de S\u00e3o Martinho e do mendigo: em que medida eles s\u00e3o parceiros-sintoma? Somos tentados a dizer que este ap\u00f3logo se det\u00e9m verdadeiramente aqu\u00e9m de sua constitui\u00e7\u00e3o. A resposta da caridade pela metade do manto volta a dizer que a quest\u00e3o do gozo, recoberta por um v\u00e9u muito espesso, n\u00e3o ser\u00e1 colocada. \u00c9 isto que o Salom\u00e3o invis\u00edvel do ap\u00f3logo de S\u00e3o Martinho ilustra. Na moral crist\u00e3, pode-se contar hist\u00f3rias que, como observa Lacan, est\u00e3o a um dedo da pervers\u00e3o sem colocar a quest\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 de janeiro de 1998<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Camila Popadiuk<br \/>Revis\u00e3o: Teresinha N. M. Prado<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[*]<\/a> Miller J.-A. \u00abA orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. O parceiro-sintoma\u00bb (1997-1998), curso pronunciado no Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade de Paris VIII, aula de 7 de janeiro de 1998. Texto estabelecido por Christiane Alberti e Philippe Hellebois para sua publica\u00e7\u00e3o em \u201cLes bas-fonds\u201d, Ornicar? 55, 2021. Aula publicada tamb\u00e9m como cap\u00edtulo VI de El partenaire-s\u00edntoma, Ed. Paid\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[\u2020]<\/a> Publicado com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o de Jacques-Alain Miller. N\u00e3o relido pelo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> N.T.: <em>Restos du coeur <\/em>\u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o francesa de utilidade p\u00fablica que presta assist\u00eancia volunt\u00e1ria, sobretudo atrav\u00e9s de refei\u00e7\u00f5es gratuitas, \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> N.T. Cf. Lacan, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d. In <em>Outros escritos<\/em>. RJ, Zahar, 2003, p.533.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":567,"menu_order":76,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[27],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/566"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=566"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/566\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":568,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/566\/revisions\/568"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/567"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=566"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=566"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}