{"id":762,"date":"2021-06-04T13:22:29","date_gmt":"2021-06-04T16:22:29","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/pt\/?post_type=avada_portfolio&#038;p=762"},"modified":"2021-06-04T13:22:29","modified_gmt":"2021-06-04T16:22:29","slug":"a-maquina-do-nao-todo-e-o-sintoma-como-serie-sem-limite","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/portfolio-items\/a-maquina-do-nao-todo-e-o-sintoma-como-serie-sem-limite\/","title":{"rendered":"A m\u00e1quina do n\u00e3o-todo e o sintoma como s\u00e9rie sem-limite"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: justify;\">De que modo a advert\u00eancia de Lacan, de que se faz necess\u00e1rio \u00e0 pr\u00e1tica lacaniana \u201calcan\u00e7ar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, se aplica ao que se considera como as grandes muta\u00e7\u00f5es no la\u00e7o social da hipermodernidade? Quais raz\u00f5es levaram Jacques-Alain Miller \u2013 no instante conclusivo de sua interven\u00e7\u00e3o, junto \u00e0 comunidade de psicanalistas italianos, denominada \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas\u201d \u2013 a colocar em quest\u00e3o o alcance e a efic\u00e1cia do ato anal\u00edtico nos tempos do chamado mundo globalizado? N\u00e3o \u00e9 suficiente dizer que as inova\u00e7\u00f5es conceituais do \u00faltimo ensino de Lacan \u2013 como \u00e9 o caso do n\u00f3 borromeano \u2013 possam assegurar perspectivas promissoras para a psican\u00e1lise. Imp\u00f5e-se considerar tamb\u00e9m que, uma vez instaurada, a pr\u00e1tica lacaniana se mostra inteiramente suscet\u00edvel n\u00e3o s\u00f3 de interferir, por retroa\u00e7\u00e3o, na teoria, mas, tamb\u00e9m, de alterar-se e de reorientar-se por for\u00e7a de mudan\u00e7as inerentes ao real. Se se fez necess\u00e1ria uma teoria do inconsciente para inaugurar o discurso anal\u00edtico, nada impede que a pr\u00e1tica, por retroa\u00e7\u00e3o, modifique a teoria e, inclusive, possa substituir o inconsciente pelo falasser (<em>parl\u00eatre<\/em>). Em outros termos, frente \u00e0s exig\u00eancias cl\u00ednicas que as muta\u00e7\u00f5es de nossa \u00e9poca nos imp\u00f5em, n\u00e3o se pode dizer que os fundamentos conceituais da psican\u00e1lise s\u00e3o \u00fanicos e v\u00e1lidos para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conting\u00eancia das estruturas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afirmar que o ensino de Lacan \u00e9, antes de tudo, uma <em>teoria da pr\u00e1tica<\/em>, sup\u00f5e conceb\u00ea-lo para al\u00e9m das demonstra\u00e7\u00f5es e axiomatiza\u00e7\u00f5es da teoria e, por via de consequ\u00eancia, assumir a abertura daquelas ao car\u00e1ter contingente das estruturas que concernem \u00e0 experi\u00eancia do real. \u00c9 um paradoxo falar de conting\u00eancia da estrutura visto que ela se define pelas regras de funcionamento de seus elementos, independente das determina\u00e7\u00f5es que lhe transcendem. N\u00e3o me refiro, portanto, \u00e0s estruturas cl\u00ednicas freudianas cl\u00e1ssicas, pois, estas, de alguma maneira, se inserem no reino do <em>necess\u00e1rio<\/em> na medida em que suas distintas configura\u00e7\u00f5es est\u00e3o determinadas pela presen\u00e7a operativa ou n\u00e3o do Nome-do-Pai no lugar do Outro<em>. <\/em>No \u00e2mbito da pr\u00e1tica anal\u00edtica, trata-se precisamente das ferramentas com as quais se faz avan\u00e7ar a experi\u00eancia da an\u00e1lise e que se avizinham do imposs\u00edvel intr\u00ednseco ao real. Admitir o primado da pr\u00e1tica lacaniana sup\u00f5e levar em considera\u00e7\u00e3o que as estruturas internas do tratamento anal\u00edtico, como \u00e9 o caso da transfer\u00eancia e da interpreta\u00e7\u00e3o \u2013, mais do que compat\u00edveis ao imposs\u00edvel do real, s\u00e3o perme\u00e1veis \u00e0 conting\u00eancia do real, sobretudo, quando diz respeito ao sintoma. Desde o momento em que a pr\u00e1tica se volta para a experi\u00eancia do real no <em>falasser<\/em>, e n\u00e3o mais para os fatores determinantes do simb\u00f3lico, a conting\u00eancia passa a desempenhar um papel crucial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise, assim como a ci\u00eancia, acede ao real por meio do <em>imposs\u00edvel<\/em>, mas no caso da psican\u00e1lise de um imposs\u00edvel muito singular, porque este se enra\u00edza na <em>conting\u00eancia<\/em>, e n\u00e3o no <em>necess\u00e1rio.<\/em> No real da ci\u00eancia, o <em>imposs\u00edvel<\/em> \u00e9 submetido ao regime do <em>necess\u00e1rio<\/em> e, por essa raz\u00e3o, se revela um real \u00e1vido de leis que possam dot\u00e1-lo de uma arquitetura pertinente ao saber tido como causa pr\u00f3ximo do saber universit\u00e1rio. Na psican\u00e1lise, o \u201creal \u00e9 sem lei\u201d, porque a certeza que se obt\u00e9m desse real est\u00e1 sempre condicionada pela <em>conting\u00eancia<\/em>, pelo que se mostra prescind\u00edvel, definitivamente vari\u00e1vel ou, ainda, resultante do que pode <em>ser <\/em>ou <em>n\u00e3o ser.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exemplo maior dessa conting\u00eancia do real e que atinge de cheio a pr\u00e1tica anal\u00edtica s\u00e3o as muta\u00e7\u00f5es que t\u00eam lugar no la\u00e7o social que concernem \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o dos grandes relatos em torno das diversas figuras do patriarcado, com a consequ\u00eancia da atomiza\u00e7\u00e3o do social no m\u00faltiplo das comunidades, dos grupos e tribos e das identifica\u00e7\u00f5es que, nesse contexto, surgem como fluidas e irredut\u00edveis umas \u00e0s outras. Interpreta-se esse momento em que a sociedade se organizava a partir de um operador externo \u2013 o mito do pai e as fortes identifica\u00e7\u00f5es da\u00ed advindas \u2013 como uma contrapartida da sexua\u00e7\u00e3o masculina e da estrutura do todo que se ordena em fun\u00e7\u00e3o desse elemento antin\u00f4mico. Para Miller, o que fundamenta os dispositivos cl\u00ednicos que, se baseiam na sexua\u00e7\u00e3o masculina, \u00e9 pressupor a \u201cestrutura como dotada desse elemento suplementar e antin\u00f4mico que supostamente limita\u201d os excessos do gozo e, ao mesmo tempo, permite o todo se constituir enquanto uma organiza\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica e est\u00e1vel.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando o <em>todo <\/em>cede ao <em>n\u00e3o-todo<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que adv\u00e9m como muta\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio real do la\u00e7o social diz respeito ao fato de que essa estrutura do todo cedeu \u00e0 do <em>n\u00e3o-todo<\/em>, na medida em que o mundo do <em>n\u00e3o-todo<\/em> \u00e9 sem os operadores universais que dispunham o <em>Um<\/em> da civiliza\u00e7\u00e3o enquanto <em>toda<\/em>. Desmunido, portanto, desses filtros que faziam barreira e, por conseguinte, funcionavam na posi\u00e7\u00e3o de interdito, essa m\u00e1quina do <em>n\u00e3o-todo<\/em> se aproxima do que o fil\u00f3sofo Ant\u00f4nio Negri nomeia como <em>imp\u00e9rio<\/em> pois o social n\u00e3o se apresenta nos moldes de uma organiza\u00e7\u00e3o dotada de fronteiras, est\u00e1vel e hier\u00e1rquica, mas precisamente por uma ordem sem limites. Para Negri, a transi\u00e7\u00e3o para o Imp\u00e9rio surge do crep\u00fasculo da soberania moderna dos estados nacionais e n\u00e3o se baseia em fronteiras ou barreiras fixas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com esse ponto de vista, compreende-se a m\u00e1quina que coloca em cena a hipermodernidade como a dissolu\u00e7\u00e3o das fronteiras dos estados nacionais e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, Miller busca traduzi-la pelo <em>n\u00e3o-todo<\/em> que remonta ao que se passou a denominar como o lado feminino da sexua\u00e7\u00e3o. O uso do termo m\u00e1quina para falar do <em>n\u00e3o-todo<\/em> n\u00e3o aparece como uma aplica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica dos princ\u00edpios da ci\u00eancia pois \u00e9 concebida como um <em>processo sem sujeito, acef\u00e1lo<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e, por consequ\u00eancia, destitu\u00eddo do c\u00e1lculo racional e intencional das for\u00e7as pulsionais que acionam esse automatismo puramente mec\u00e2nico. Interessa-lhe salientar a postula\u00e7\u00e3o de que na \u00e9poca em que o Outro inexiste predomina esse automatismo mec\u00e2nico do <em>n\u00e3o-todo <\/em>do qual se depreende a prolifera\u00e7\u00e3o de \u201cmicrototalidades, em que se d\u00e1 a multiplica\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio investimento do falasser preso nesta engrenagem grupal ou comunit\u00e1ria\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Essas micrototalidades que reproduzem esse automatismo maqu\u00ednico do <em>n\u00e3o-todo<\/em> se definem como \u201cbolhas de certeza\u201d na medida em que s\u00e3o nichos, abrigo, verdadeiras tribos onde se manifesta certo grau de sistematicidade, estabilidade e codifica\u00e7\u00e3o, desses sujeitos, na rela\u00e7\u00e3o com o saber. Em fun\u00e7\u00e3o desta rela\u00e7\u00e3o compulsiva, apaixonada e de adora\u00e7\u00e3o a tais formas de saber, essas zonas limitadas s\u00e3o qualificadas como \u201cbolhas de certeza\u201d, e n\u00e3o de saber. S\u00e3o da ordem da certeza porque a adora\u00e7\u00e3o e o gozo do corpo est\u00e3o fortemente implicados nesses processos de especializa\u00e7\u00e3o extrema do saber no interior dessas bolhas. \u00c9 por meio da adora\u00e7\u00e3o do corpo em meio a esse culto compulsivo de seus objetos de gozo que se torna poss\u00edvel uma certa recomposi\u00e7\u00e3o do Outro e a restitui\u00e7\u00e3o do \u201cdom\u00ednio\u201d para esses indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Adi\u00e7\u00f5es do <em>Um <\/em>e a s\u00e9rie <em>sem-limite<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exemplo que Miller nos prop\u00f5e, referente \u00e0 adora\u00e7\u00e3o desses objetos do saber, \u00e9 o chamado \u201cefeito otaku\u201d que concerne ao \u201ccomportamento de adolescentes que se tornam fan\u00e1ticos por uma zona muito restrita destas novas tecnologias\u201d. Tornam-se especialistas completos no que parece ser um fen\u00f4meno f\u00fatil da cultura midi\u00e1tica, a saber, \u201ccertos tipos de mang\u00e1s, animes em geral, ou um \u00eddolo \u2013 ator, personagem, manequim etc. \u2013, ou ainda uma tecnologia em geral ligada ao computador ou em jogos eletr\u00f4nicos, sobre os quais eles acumulam um saber t\u00e3o completo quanto poss\u00edvel\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Um <em>otaku<\/em> prefere levar uma vida solit\u00e1ria para cultuar em paz sua paix\u00e3o e, assim, dedicar-se de forma obsessiva a seu interesse \u00fanico que s\u00e3o esses objetos de sua paix\u00e3o;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algo nos sintomas que decorrem da m\u00e1quina do <em>n\u00e3o-todo<\/em> que se assemelha com esse \u201cefeito otaku\u201d na medida em que esses jovens procuram uma pequena zona de conhecimento sobre a qual eles querem saber tudo. Penso que o intuito \u00e9 encontrar um meio para recompor o Outro, recomposi\u00e7\u00e3o que, por sua vez, recai sobre o pr\u00f3prio corpo. \u00c9 preciso considerar que em sua teoria do parceiro-sintoma, Miller demonstra que o Outro deixa de ser o lugar do significante para se encarnar no pr\u00f3prio corpo, uma vez que a aparelhagem significante passa a estar a servi\u00e7o do \u201csaber como meio de gozo\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Por outro lado, ao tomar o saber como <em>meio de gozo<\/em>, considera-se que n\u00e3o h\u00e1 gozo do corpo sen\u00e3o pelo significante e, portanto, se existe o gozo da fala \u00e9 porque \u201ca signific\u00e2ncia est\u00e1 enraizada no corpo\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Para se ter acesso ao funcionamento dessas \u201cbolhas de certeza\u201d, imp\u00f5e-se levar em conta uma conex\u00e3o estreita entre o gozo do corpo e o gozo da fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outros termos, \u00e9 pela presen\u00e7a decisiva do gozo do corpo que se fabrica esse <em>efeito otaku<\/em>, sabendo-se que n\u00e3o h\u00e1, para o ser falante, gozo anterior ao significante. Sob a \u00f3tica da psican\u00e1lise, o mais-gozar em que se manifesta a rela\u00e7\u00e3o desregrada com esses objetos se faz com um corpo que fala por meio do sintoma. Aplica-se, nesses<em> novos sintomas<\/em>, uma verdadeira subvers\u00e3o na pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do significante visto que passa a ser definido como \u201cmeio de gozo\u201d, ou \u201ccausa de gozo\u201d, e, a meu ver, \u00e9 o que conduz Lacan a tomar o corpo pela via de seu mist\u00e9rio, a saber, o <em>corpo falante<\/em><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse destaque conferido ao <em>corpo falante<\/em> nessas patologias quer dizer que \u00e9 uma certa modalidade do <em>Um<\/em> que se adiciona a cada vez que se recorre ao seu saber ultraespecializado dos <em>animes<\/em>, mang\u00e1s ou jogos eletr\u00f4nicos. Uma das intui\u00e7\u00f5es fundamentais de Miller, nesse texto, \u00e9 a de que as <em>adic\u00e7\u00f5es<\/em> apenas podem ser captadas, clinicamente falando, por meio desse \u201cfrenesi do <em>n\u00e3o-todo<\/em>, ou seja, s\u00e3o patologias em que consistem no sem-limite da s\u00e9rie\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. A adic\u00e7\u00e3o, nesse caso, confunde-se com a repeti\u00e7\u00e3o, confundida com a \u201ccomemora\u00e7\u00e3o de uma irrup\u00e7\u00e3o do gozo inesquec\u00edvel\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> que sobreveio quando do impacto traum\u00e1tico de <em>lal\u00edngua<\/em> sobre o corpo. O corpo falante torna-se o palco da reitera\u00e7\u00e3o desse <em>Um<\/em> que n\u00e3o se conta, via adic\u00e7\u00e3o, pois, enquanto referido ao gozo traum\u00e1tico, ele est\u00e1 fora da s\u00e9rie. Na reitera\u00e7\u00e3o, o fora da s\u00e9rie pr\u00f3prio ao trauma se repete e, ao faz\u00ea-lo, constitui a s\u00e9rie como sem limite. Isso quer dizer que a reitera\u00e7\u00e3o do <em>Um<\/em> de gozo n\u00e3o se confunde com a ordem das necessidades, pois \u00e9 criacionista, ou seja, ela \u201csempre demanda o novo\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. A s\u00e9rie \u00e9 sem limites porque a cada vez que o <em>Um<\/em> se repete, apesar de ser reitera\u00e7\u00e3o do mesmo, a s\u00e9rie nunca se esgota ou se extingue visto que o mesmo aparece sempre como novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de que o sintoma deixa de ser met\u00e1fora simb\u00f3lica ou condensa\u00e7\u00e3o de um conflito para se tornar manifesta\u00e7\u00e3o da itera\u00e7\u00e3o do <em>Um<\/em> de gozo permite cham\u00e1-lo de <em>novo sintoma.<\/em> Miller, algum tempo depois, retoma essa quest\u00e3o da adic\u00e7\u00e3o para dizer que ela \u201cest\u00e1 na raiz do sintoma\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, considerando sobretudo que, em seu cerne, veicula a satisfa\u00e7\u00e3o ac\u00e9fala da puls\u00e3o em detrimento da mensagem recalcada. Sob a sua \u00f3tica, n\u00e3o se trata mais, no sintoma, de uma sucess\u00e3o que se conta e se soma, trata-se de uma <em>reitera\u00e7\u00e3o <\/em>desse <em>Um <\/em>fora da s\u00e9rie<em>.<\/em> Precisa-se, nesse caso, que adicionar n\u00e3o \u00e9 somar. N\u00e3o se pode confundir a adi\u00e7\u00e3o do <em>Um<\/em> de gozo com uma soma do <em>Um<\/em> no sentido de um ac\u00famulo, ajuntamento ou totaliza\u00e7\u00e3o. A itera\u00e7\u00e3o do <em>Um<\/em> de gozo \u00e9, portanto, o que se pode designar como pura repeti\u00e7\u00e3o e, por isso, inventaram e promoveram o termo adic\u00e7\u00e3o. Inclusive, para o sintoma concebido como a s\u00e9rie <em>sem-limite<\/em>, Miller fornece o exemplo do sujeito alcoolista. N\u00e3o se tem nunca uma situa\u00e7\u00e3o em que o alcoolista diz: \u201ceu j\u00e1 bebi tr\u00eas copos, ent\u00e3o basta, pois bebe-se sempre o mesmo copo uma vez mais\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. \u00c9 como se o mesmo copo, fosse um outro copo, um outro copo e um outro copo\u2026 A partir do momento em que se delimita a presen\u00e7a do gozo nesta injun\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o no sintoma, percebe-se a amplitude que se pode dar \u00e0<em> adic\u00e7\u00e3o<\/em> do <em>Um <\/em>como \u201cmodo de defesa do real\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por \u00faltimo, o ensinamento cl\u00ednico que se extrai das intui\u00e7\u00f5es millerianas \u00e9 a \u201cprecariedade\u201d do gozo que se extrai nessas estrat\u00e9gias subjetivas que consistem em se ensimesmar nas zonas limitadas de certeza. Enfim, essa precariedade \u00e9 um mero acidente da \u00e9poca ou ela \u00e9 a pr\u00f3pria subst\u00e2ncia desta presen\u00e7a da repeti\u00e7\u00e3o no sintoma? Somos levados a admitir que as duas situa\u00e7\u00f5es fazem parte do circuito da repeti\u00e7\u00e3o em que a <em>adic\u00e7\u00e3o<\/em> explicita-se como a caracter\u00edstica essencial da pr\u00f3pria natureza do gozo do sintoma, a saber, que sua produ\u00e7\u00e3o se remete \u00e0 falha irredut\u00edvel pr\u00f3pria da montagem pulsional do falasser<em>.<\/em> Em \u00faltima inst\u00e2ncia, se a repeti\u00e7\u00e3o enquanto reitera\u00e7\u00e3o do <em>Um<\/em> est\u00e1 na raiz do sintoma \u00e9 porque o pr\u00f3prio gozo comporta uma falha irredut\u00edvel, um furo e, por isso, h\u00e1 sempre perda, desperd\u00edcio<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Ao lan\u00e7ar m\u00e3o da itera\u00e7\u00e3o do <em>Um<\/em>, a escrita do sintoma, ao mesmo tempo em que exp\u00f5e o furo, busca encobri-lo com o intuito de atenuar os seus efeitos sobre o ser falante. A meu ver, essa \u00e9 a maior consequ\u00eancia cl\u00ednica a ser retirada, pois se o gozo sempre produz entropia<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>, quanto mais se busca colocar ordem por meio da edipianiza\u00e7\u00e3o familialista, mais se produz desordem. \u00c9 uma evid\u00eancia cl\u00ednica de que nos dias de hoje o \u00c9dipo fracassa em conter essa entropia do gozo fortemente presente no caso das patologias em que o componente estruturante \u00e9 a <em>adic\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m desconhece que a psican\u00e1lise foi inventada para responder ao mal-estar dos sujeitos mergulhados em uma civiliza\u00e7\u00e3o na qual a proibi\u00e7\u00e3o funcionava para fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual. Na \u00e9poca de Freud, para fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual era necess\u00e1rio refrear, inibir, recalcar o gozo. Para Miller, a inven\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da pr\u00e1tica lacaniana, que se mostra orientada pelo \u00faltimo ensino de Lacan, deve tomar como ponto de partida fundamental o princ\u00edpio de que \u201cs\u00f3 h\u00e1 diferentes maneiras de falhar\u201d. A cl\u00ednica do impacto traum\u00e1tico de <em>lal\u00edngua<\/em> com o corpo revela o lado inofensivo e insuficiente dessa barreira do Nome-do-Pai, pois o gozo encontra, \u00e0 sua maneira, os seus pr\u00f3prios limites.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> Em sua pr\u00f3pria natureza, o gozo \u00e9 traum\u00e1tico, ele n\u00e3o precisa do pai que o interdite para encontrar o seu regime de funcionamento enquanto <em>sinthoma. <\/em>Ao contr\u00e1rio, por ser traum\u00e1tico, \u00e9 o gozo que fabrica a insist\u00eancia pr\u00f3pria da reitera\u00e7\u00e3o do <em>Um <\/em>no sintoma, reitera\u00e7\u00e3o que jamais encontrar\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o por meio da via messi\u00e2nica do pai.<\/p>\n<p><strong>J\u00e9sus Santiago<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. In: ___. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 322.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> MILLER, J.-A. Intui\u00e7\u00f5es milanesas. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>, S\u00e3o Paulo, ano 2, n. 6, p. 11, nov. 2011. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_6\/Intuicoes_Milanesas_II.pdf&gt;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> ALTHUSSER, L. <em>R\u00e9ponse \u00e0 John Lewis<\/em>. Pour une critique \u00e0 la pratique th\u00e9orique. Paris: Maspero, 1973. p. 72. Pode-se dizer que Lacan, no curso do semin\u00e1rio <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>, concebe o \u201ccar\u00e1ter ac\u00e9falo da puls\u00e3o\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o althusseriana da \u201chist\u00f3ria como um processo sem sujeito\u201d. Ou segundo ele, \u201cl\u2019histoire est bien un \u2018proc\u00e8s sans Sujet ni Fin(s)\u2019 dont les circonstances donn\u00e9s, o\u00f9 \u2018les hommes\u2019 agissent en sujets sous la d\u00e9termination de rapport sociaux, sont le produit de la lutte de classe. L\u2019histoire n\u2019a donc pas, au sens philosophique du terme un Sujet, mais un moteur: la lutte des classes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J.-A. Intui\u00e7\u00f5es milanesas, <em>Op .cit<\/em>., p.11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, J.-A. Intui\u00e7\u00f5es milanesas, <em>Op. cit<\/em>., p.11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 17: <em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>. (1969-1970) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. p. 74.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, J.-A. Perspectiva dos <em>Escritos<\/em> e <em>Outros escritos<\/em> de Lacan. In: ___. <em>Entre desejo e gozo<\/em>. (2008-2009) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011. p. 398.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> MILLER, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. (2016) <em>Scilicet<\/em>. O corpo falante. Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2016. p. 24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> MILLER. Intui\u00e7\u00f5es milanesas. <em>Op. cit<\/em>., p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> MILLER, J.-A. <em>Cours L\u2019orientation lacanienne. <\/em><em>L\u2019\u00catre et l\u2019Un<\/em>. (2010-2011) Universit\u00e9 de Paris-8, le\u00e7on du 30 mars 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 11: <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. (1964) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1979. p. 62.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> MILLER, J.-A. Ler o sintoma. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 70, p. 21, jun. 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> MILLER. Ler o sintoma. <em>Op. cit<\/em>., p. 21.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> MILLER, J.-A. Cl\u00ednica ir\u00f4nica. (1988) In: ___. <em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1996. p. 198. \u201c[\u2026] as formas cl\u00ednicas n\u00e3o passavam de modos de defesa contra o real, at\u00e9 no caso limite da esquizofrenia, onde o sujeito aparece sem defesa diante do imposs\u00edvel de suportar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> MILLER, J.-A. Religi\u00e3o, psican\u00e1lise. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 39, p. 23, maio 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> LACAN. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 17: <em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>. <em>Op. cit<\/em>., p. 46.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> MILLER. Religi\u00e3o, psican\u00e1lise. <em>Op. cit<\/em>., p. 23.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":775,"menu_order":60,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[27],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/762"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=762"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/762\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":776,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/762\/revisions\/776"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=762"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=762"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=762"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=762"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}