{"id":766,"date":"2021-06-03T20:38:26","date_gmt":"2021-06-03T23:38:26","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/pt\/?post_type=avada_portfolio&#038;p=766"},"modified":"2021-06-03T20:38:26","modified_gmt":"2021-06-03T23:38:26","slug":"a-transferencia-suas-mutacoes-e-o-real","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/portfolio-items\/a-transferencia-suas-mutacoes-e-o-real\/","title":{"rendered":"A transfer\u00eancia, suas muta\u00e7\u00f5es e o real"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: right;\"><strong>S\u00e9rgio Laia<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao localizar a transfer\u00eancia como o investimento libidinal no analista que, \u201cnas condi\u00e7\u00f5es\u201d estipuladas pelo paciente para o amor, faz as vezes de um \u201cclich\u00ea\u2026 repetido\u201d e \u201creeditado\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, Freud considerou seu manejo determinante para que, embora tomado por essa reedi\u00e7\u00e3o de clich\u00eas, \u201co caminho do analista\u201d se efetive \u201ccomo aquele para o qual a vida real n\u00e3o fornece um modelo\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Por sua vez, no Semin\u00e1rio inaugural de sua Escola, marca de uma nova forma de se conceber e praticar tanto os la\u00e7os entre os analistas quanto a forma\u00e7\u00e3o concernente a cada um, Lacan tematizou a transfer\u00eancia como um dos \u201cquatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Todavia, conforme ressalta-nos Miller, \u00e9 tamb\u00e9m Lacan que faz da transfer\u00eancia \u201ca ausente\u201d de seu \u201cultim\u00edssimo ensino, pelo menos nos Semin\u00e1rios 23 e 24\u201d, na medida em que ela \u201csup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o da alvenaria (<em>ma\u00e7onner<\/em>) do grande Outro\u201d como determinante das coordenadas do \u201cdestino\u201d de cada um<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se considerarmos, ent\u00e3o, essas breves refer\u00eancias a Freud e Lacan, <em>por que<\/em> e, sobretudo, <em>como a transfer\u00eancia<\/em> interessa <em>ainda<\/em> \u00e0 psican\u00e1lise? Al\u00e9m de permear esse trajeto referencial, tal quest\u00e3o concerne \u00e0 pr\u00e1tica atual da psican\u00e1lise porque \u2013 para averiguarmos algumas muta\u00e7\u00f5es quanto a esse <em>conceito fundamental <\/em>\u2013 \u00e9 oportuna a rela\u00e7\u00e3o destacada por Miller entre o envolvimento da transfer\u00eancia na constru\u00e7\u00e3o da <em>alvenaria do Outro<\/em>\u00a0 e sua aus\u00eancia no ultim\u00edssimo Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>A trama dos afetos<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos casos cl\u00ednicos relatados por Freud, e tamb\u00e9m naqueles da cl\u00ednica p\u00f3s-freudiana, desde os mais detalhados at\u00e9 os mais curtos, a transfer\u00eancia \u00e9 apresentada como <em>amor<\/em> e <em>\u00f3dio<\/em> endere\u00e7ados pelo analisante ao analista. Para o manejo cl\u00ednico desse investimento libidinal, Freud teve o cuidado de alertar aos praticantes da psican\u00e1lise que acolhessem o afeto transferencial como verdadeiro, mas sem que se confundissem pessoalmente com o objeto amado ou odiado pelo qual eram tomados. Essa esp\u00e9cie de <em>despersonaliza\u00e7\u00e3o<\/em> freudiana da transfer\u00eancia se justificava n\u00e3o por uma frieza com o qual o analista foi confundido na cl\u00ednica p\u00f3s-freudiana e no que se difundiu genericamente como psican\u00e1lise: ela foi o modo freudiano de fazer valer o real do investimento libidinal apresentado na condi\u00e7\u00e3o amorosa ou odiosa que uma an\u00e1lise acabaria por extrair da trama da vida inconsciente de cada analisante, composta pelos primeiros objetos libidinais relacionados \u00e0 \u201cimago do pai\u2026, da m\u00e3e ou\u00a0 do irm\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Valendo-se de esquecimentos, atos falhos, sonhos, lembran\u00e7as, associa\u00e7\u00f5es livres, ou seja, de elementos fugazes que cl\u00ednica alguma antes da psican\u00e1lise jamais ousou conferir alguma dignidade, Freud nos mostrou como manejar a transfer\u00eancia para se reencontrar a alvenaria do Outro, determinante para a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito. Mas ele tamb\u00e9m j\u00e1 constava as falhas e os abalos do Outro, por exemplo, nas fantasias hist\u00e9ricas do pai humilhado, sedutor e ideal; na divis\u00e3o vida er\u00f3tica obsessiva entre a m\u00e3e intoc\u00e1vel e a prostituta sedutoramente amea\u00e7adora; nos del\u00edrios psic\u00f3ticos de um Deus implac\u00e1vel e caprichoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan, por sua vez, sustentou o retorno a Freud em um mundo psicanal\u00edtico no qual a rela\u00e7\u00e3o analista-analisante passou a ser concebida como inter-pessoal e a transfer\u00eancia se viu reduzida a uma trama folhetinesca a ser reconduzida \u00e0 chamada \u201cvida real\u201d unicamente pelo analista considerado, ent\u00e3o, como senhor do pr\u00f3prio inconsciente. A <em>despersonaliza\u00e7\u00e3o <\/em>da transfer\u00eancia preconizada por Freud ressurge nos <em>pagamentos<\/em> que Lacan incumbe ao analista efetivar: \u201cpagar com palavras\u201d, elevadas, pela transmuta\u00e7\u00e3o realizada pela opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, \u201ca seu efeito de interpreta\u00e7\u00e3o\u201d; \u201cpagar com sua pessoa\u201d emprestada \u201ccomo suporte aos fen\u00f4menos singulares\u2026 descobertos na transfer\u00eancia\u201d; \u201cpagar no que h\u00e1 de essencial em seu julgamento mais \u00edntimo\u201d, para fazer valer \u201cuma a\u00e7\u00e3o que v\u00e1 ao \u00e2mago do ser\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Mais ainda, Lacan deslocou o manejo freudiano da transfer\u00eancia da trama narrativa de tipo amor-\u00f3dio para a dimens\u00e3o ainda mais despersonalizada e operativa de um <em>jogo:<\/em> \u201cos sentimentos do analista\u201d (que a decis\u00e3o de alguns p\u00f3s-freudianos em favor da contra-transfer\u00eancia passou, ao avesso de Freud, valorizar) \u201ct\u00eam apenas um lugar poss\u00edvel\u2026, aquele do morto\u201d que, ao ser reanimado, faz \u201co jogo prosseguir sem que se saiba quem o conduz\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Por\u00e9m, mesmo nessa muta\u00e7\u00e3o da forma-narrativa (e freudiana) para a forma-jogo, a transfer\u00eancia n\u00e3o deixou de ser um ingrediente na argamassa da alvenaria do Outro porque, nos termos mesmos de Lacan, embora o jogo prossiga sem qualquer saber sobre <em>quem<\/em> o conduz, tal aus\u00eancia de saber n\u00e3o abala a suposi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de <em>quem<\/em> seria respons\u00e1vel pela condu\u00e7\u00e3o do jogo<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Os afetos destramados e\u2026 o saber<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 <em>despersonaliza\u00e7\u00e3o <\/em>quanto ao endere\u00e7amento da transfer\u00eancia j\u00e1 sustentada pelo pr\u00f3prio Freud,\u00a0 acrescentou-se, com Lacan, o que eu chamaria de <em>despatologiza\u00e7\u00e3o <\/em>da transfer\u00eancia, ou seja, uma esp\u00e9cie de extra\u00e7\u00e3o de seu envolvimento com paix\u00f5es que conferiam aos relatos cl\u00ednicos freudianos e p\u00f3s-freudianos uma montagem pr\u00f3xima de um romance, uma pe\u00e7a de teatro ou mesmo um conto. Entretanto, essa <em>despatologiza\u00e7\u00e3o<\/em> lacaniana da transfer\u00eancia n\u00e3o extirpa os afetos das sess\u00f5es anal\u00edticas, pois os articula ao que se sup\u00f5e ou ao que se des-sup\u00f5e como saber. Ela me pareceu muito mais responder \u00e0s muta\u00e7\u00f5es da transfer\u00eancia em um mundo que \u2013 diferente daquele em que Freud sustentou sua pr\u00e1tica \u2013 j\u00e1 havia surpreendido pela desmontagem da narrativa e das pr\u00f3prias formas consolidadas do romance, do teatro e do conto. Afinal, se os relatos cl\u00ednicos freudianos n\u00e3o deixam de evocar, por exemplo, o <em>Werther<\/em> de Goethe, o <em>Despertar da primavera<\/em> de Wedekind e os contos de Hoffmann ou de Schnitzler, o mundo no qual Lacan praticou a psican\u00e1lise teve de se haver com os diferentes modos como um Joyce (para ficar aqui em apenas uma refer\u00eancia cara ao ultim\u00edssimo Lacan) abalou a composi\u00e7\u00e3o de um romance, de um conto e mesmo de uma pe\u00e7a de teatro ou de um livro de poemas. O mundo de Lacan foi ainda aquele no qual a ci\u00eancia \u2013 j\u00e1 consolidada \u00e0 \u00e9poca de Freud \u2013 conheceu ao mesmo tempo seu fulgor e a ang\u00fastia na medida em que, por exemplo, poder operar a fiss\u00e3o nuclear permitiu-nos o acesso in\u00e9dito a uma energia que tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel pelas bombas em Hiroshima e Nagasaki, a cat\u00e1strofe de Chernobyl, o acidente com o C\u00e9sio 137 em Goi\u00e2nia\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto de desmontagem da narrativa, como tamb\u00e9m de experi\u00eancias de ascens\u00e3o, de impasse e ang\u00fastia com as promessas e os feitos da ci\u00eancia, considero instigante como Lacan renova o manejo e a pr\u00f3pria forma de concebermos a transfer\u00eancia que os analisantes nos endere\u00e7am, ensinando-nos a tom\u00e1-la \u2013 mais al\u00e9m da <em>ambival\u00eancia <\/em>amor-\u00f3dio e da <em>alvenaria do Outro <\/em>\u2013 como referente ao real que perturba as vidas e pode ser abordado na \u201catualiza\u00e7\u00e3o da realidade do inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>,\u00a0 no \u201camor que se endere\u00e7a ao saber\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> e, mais ainda, no \u00f3dio resultante da \u201cde-suposi\u00e7\u00e3o de\u2026 saber\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Atualidade da transfer\u00eancia<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1tica anal\u00edtica em nossos dias, embora ainda perme\u00e1vel pelo que se sup\u00f5e ou se des-sup\u00f5e quanto ao saber, parece-me mais esvaziada da paix\u00e3o amorosa que se destacava, nos relatos cl\u00ednicos freudianos, como transfer\u00eancia do analisante ao analista. Um exemplo desse esvaziamento, a meu ver, contraposto talvez apenas por eventos erotoman\u00edacos que aparecem (mas tampouco com grande frequ\u00eancia) na cl\u00ednica atual das psicoses, \u00e9 a raridade de situa\u00e7\u00f5es com as quais um analista, hoje, tenha de se haver com o que Freud relatava nos seguintes termos: \u201ca paciente n\u00e3o quer falar nem ouvir mais nada al\u00e9m do seu amor, que ela exige que seja correspondido\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Lacan ensinou-nos a articular o \u00f3dio com a des-suposi\u00e7\u00e3o de saber (e n\u00e3o pura e simplesmente com hostilidades endere\u00e7adas ao analista), considero pertinente investigarmos se a contempor\u00e2nea descren\u00e7a no inconsciente como saber, muitas vezes manifestada por uma impermeabilidade ao que se pode saber sem saber que sabe ou pela busca de solu\u00e7\u00f5es que funcionem sem implica\u00e7\u00e3o efetiva de quem se encontra sofrendo, n\u00e3o nos indicaria uma preval\u00eancia da transfer\u00eancia negativa em nossa pr\u00e1tica, embora n\u00e3o endere\u00e7ada (como j\u00e1 preconizava Freud) \u00e0 pessoa do analista e, sim (como antecipou-nos Lacan), ao saber a que um analista \u00e9 identificado e do qual se vale em sua escuta. Esse modo<em> fleum\u00e1tico<\/em> \u2013 para n\u00e3o dizer indiferente ou <em>blas\u00e9<\/em> \u2013 de apresenta\u00e7\u00e3o do \u00f3dio transferencial nos daria a chance de expandir, mais al\u00e9m das psicoses (mas com as diferen\u00e7as devidas a cada estrutura cl\u00ednica), o que Lacan p\u00f4de designar como o \u201cdesabonamento do inconsciente\u201d experimentado no modo como Joyce, com sua escrita e sua obra, p\u00f4de prescindir da psican\u00e1lise para exercer, quanto aos acontecimentos que lhe cometia a vida e o faziam desprender-se do corpo, um <em>savoir y faire<\/em><a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, nessa expans\u00e3o contempor\u00e2nea do desabonamento do inconsciente evocada aqui por mim, nem sempre vamos encontrar a genialidade da solu\u00e7\u00e3o joyceana, mas, como demarcou Miller, \u00e9 a essa solu\u00e7\u00e3o que Lacan recorria \u201cpara dar um passo al\u00e9m do ponto onde Freud se deteve\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> e nos permitir faz\u00ea-la atravessar ainda mais um s\u00e9culo, agora o XXI. No caso de Joyce, sua lida com o sintoma se fez com tanto rigor e determina\u00e7\u00e3o que acabou por identificar-se \u201ccom o <em>individual<\/em>\u201d, chegando \u2013 com sua obra \u2013 \u201cao ponto extremo de encarnar nele o sintoma, atrav\u00e9s do qual ele escapa a toda morte poss\u00edvel, deixa de se reduzir a uma estrutura que \u00e9 aquela mesma do uom\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>, ou seja, do <em>homem<\/em> reduzido a sua pr\u00f3pria resson\u00e2ncia, ao materialismo do significante, a um sopro: <em>u o m<\/em>. No mundo contempor\u00e2neo, essa presen\u00e7a do <em>individual<\/em> se ressalta na escala massificada do que, mesmo em outros campos diferentes da psican\u00e1lise, tem sido chamado de \u201cindividualismo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>massifica\u00e7\u00e3o<\/em> dessa <em>identifica\u00e7\u00e3o ao individual, <\/em>incluindo at\u00e9, pela via do destemor ou do que se imp\u00f5e como fleum\u00e1tico, uma esp\u00e9cie de descren\u00e7a quanto \u00e0 pr\u00f3pria morte, pode a meu ver ser detectada, por exemplo, na onda pela qual, em plena pandemia do Coronav\u00edrus e em v\u00e1rias partes do mundo, indiv\u00edduos se aglomeram como se a Covid n\u00e3o resultasse em \u00f3bitos e sequelas. De modo mais circunstanciado, em nossa pr\u00e1tica como analistas, a <em>identifica\u00e7\u00e3o ao individual<\/em> se apresenta, por exemplo, nas dificuldades de acessar ou na express\u00e3o de n\u00e3o-pertin\u00eancia de muitos analisantes quanto ao que se tramaria antes mesmo da suas pr\u00f3prias exist\u00eancias. Esse distanciamento, e mesmo a descren\u00e7a no inconsciente como discurso do Outro s\u00e3o, por um lado, mais genericamente compensados pelo que se busca nos \u201cor\u00e1culos\u201d <em>Google<\/em> ou <em>Big Pharma<\/em> como ordenamento e tratamento para o que acontece ao corpo e, por outro lado, de modo mais circunscrito, eles fazem nossa cl\u00ednica se apresentar como o que Lacan chamou de \u201cum autismo a dois\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m esse \u201cautismo a dois\u201d \u2013 ao qual a cl\u00ednica psicanal\u00edtica se reduz hoje em dia mais do que nunca e (com suas devidas e importantes diferen\u00e7as) muito antes de uma an\u00e1lise ter a perspectiva de seu fim \u2013 n\u00e3o\u00a0\u00e9 para ser confundido com individualismo de massa que se difunde pelo mundo contempor\u00e2neo.\u00a0 Porque, a princ\u00edpio, mesmo imerso nesse autismo, o analisante faz um endere\u00e7amento, ou seja, seu desabonamento do inconsciente n\u00e3o \u00e9 suficientemente radical para recusar a busca por um analista que, ent\u00e3o, tem a ocasi\u00e3o para as vezes de <em>Heteros<\/em>, ou seja, de alteridade e diferen\u00e7a, no \u00e2mbito mesmo do <em>auto-<\/em> que se \u201calteriza\u201d na transfer\u00eancia experimentada nesse \u201c<em>aut<\/em>ismo a dois\u201d. Laurent, em sua confer\u00eancia no \u00faltimo Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, nos oferece uma leitura inovadora da fun\u00e7\u00e3o do analista como Sujeito Suposto Saber a partir do Semin\u00e1rio 24 de Lacan<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>. Nesse Semin\u00e1rio, a transfer\u00eancia relacionada \u00e0 alvenaria do Outro est\u00e1 mesmo ausente, como destacou Miller<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>, mas o real ao qual ela responde leva Lacan a ressaltar que, como \u201csuposto saber\u201d, o analista \u201c\u00e9 uma atribui\u00e7\u00e3o\u201d, indicada pelo adjetivo <em>suposto<\/em> e porque saber aparece a\u00ed como \u201cseu atributo\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>. Por sua vez, Laurent esclarece que, desde Freud, fazer um ju\u00edzo de atribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o confere, ao que \u00e9 assim atribu\u00eddo, um \u201cju\u00edzo de exist\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>.\u00a0 A meu ver, se atribuir um saber ao analista n\u00e3o lhe confere uma exist\u00eancia, \u00e9 a partir dessa inexist\u00eancia que um analista, imerso no \u201cautismo a dois\u201d convocado pela pr\u00e1tica anal\u00edtica, e hoje mais do que nunca, pode responder \u00e0 altura do que se experimenta, n\u00e3o sem perturba\u00e7\u00f5es, como a inexist\u00eancia do Outro. Em outras palavras: nesse \u201cautismo a dois\u201d, um analista, gra\u00e7as a transfer\u00eancia, faz as vezes do Outro que n\u00e3o existe, mas que tem um corpo e responde ao que lhe \u00e9 endere\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, quando algu\u00e9m \u00e9 relegado em sua exist\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 incomum que ele (ou ela) comece a seguir ou, como dizem os jovens hoje, <em>stalkear, <\/em>imiscuir na \u201cprivacidade\u201d de quem lhe declarou como inexistente. O problema, nesses casos t\u00e3o atuais e constantes em nossa cl\u00ednica, \u00e9 que o(a) <em>stalkeador(a)<\/em> n\u00e3o consegue sair do pr\u00f3prio autismo a que foi relegado(a) ao ser \u201cbloqueado(a)\u201d ou mesmo \u201ccancelado(a)\u201c como \u201cinexistente\u201d. Mais ainda, nesse contexto, <em>stalkear <\/em>\u00e9 o modo extremo de impor sua exist\u00eancia a quem lhe alijou o ser. Por sua vez, um analista, de acordo com a cita\u00e7\u00e3o que Laurent recorta e comenta de Lacan, coloca-se como \u201cum Outro que segue\u201d o que um analisante \u201ctem para dizer, para saber o que ele sabe\u201d, mas ele o faz pelo que lhe \u00e9 atribu\u00eddo e n\u00e3o a partir da pr\u00f3pria exist\u00eancia, apresentando-se, portanto, como o Outro que Lacan marcou \u201ccom uma barra que o rompe\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>, isto \u00e9, a marca mesmo da inexist\u00eancia do Outro, e para qual n\u00e3o h\u00e1 alvenaria capaz de escamote\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma an\u00e1lise, ent\u00e3o, configurando-se como um \u201cautismo a dois\u201d, implica \u201cfor\u00e7ar esse autismo\u201d porque se vale de algo \u201ccomum\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> aos <em>dois<\/em> que o comp\u00f5em<em>,<\/em> ou seja, algo que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o segregado, \u201cauto\u201d ou isolado. Esse elemento <em>comum<\/em> \u00e9 o que Lacan forjou com um termo \u2013 <em>lal\u00edngua <\/em>\u2013 no qual as palavras s\u00e3o decompostas, n\u00e3o sem satisfa\u00e7\u00e3o, pela lala\u00e7\u00e3o, ou seja, pelo que ressoa sem sentido (mas n\u00e3o sem fazer algum \u201cla\u00e7o\u201d, alguma \u201cpega\u201d), por exemplo, nessa resson\u00e2ncia pela qual a gente se v\u00ea balbuciando ao ecoar os balbucios de um beb\u00ea, pela qual os adolescentes se inventam palavras como se falassem uma l\u00edngua inexistente ou, ainda, os enamorados se nomeiam de uma forma inaudita e que, por vezes, passa a ser adotada por aqueles que os rodeiam\u2026 Assim, enredado nesse \u201cautismo a dois\u201d, um analista <em>d\u00e1 pega<\/em>, isto \u00e9, faz ainda valer a transfer\u00eancia quando, seguindo aquele que lhe endere\u00e7a a fala, o faz escutar o real que, de modo surpreendente e inadvertido, lhe toma o corpo. Nos tempos de Freud, marcados, como nos elucidou Miller<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>, pela interdi\u00e7\u00e3o, o sem sentido se fazia ecoar como o pr\u00f3prio sentido sexual dos sintomas. Nos nossos tempos, aturdidos pela devasta\u00e7\u00e3o da alvenaria do Outro, o sem sentido se apresenta no modo como um analista faz seus analisantes escutarem as palavras que insistem em ecoar em um mundo que tende a desmerecer ou mesmo recusar a for\u00e7a que ela t\u00eam de impactarem os corpos. \u00c9 pela escuta desses ecos de lal\u00edngua e em conson\u00e2ncia com o que eles t\u00eam de efetivamente <em>individual<\/em>, ou seja, <em>n\u00e3o-compartilh\u00e1vel<\/em>, que os analistas mostram como a transfer\u00eancia, tomada por muta\u00e7\u00f5es que podem diferenci\u00e1-la radicalmente do que se l\u00ea na trama freudiana dos afetos, pode ainda afetar o que se passa em uma an\u00e1lise, e fazer a psican\u00e1lise transpor mais um s\u00e9culo \u2013 o XXI.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Psicanalista, Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e pela Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP); <em>e-mail:<\/em> <a href=\"mailto:laia.bhe@terra.com.br\">laia.bhe@terra.com.br<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> FREUD, S. Sobre a din\u00e2mica da transfer\u00eancia (1912). In: ____ <em>Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017, p. 108.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> FREUD, S. Observa\u00e7\u00f5es sobre o amor transferencial (1915 [1914]). In: ____ <em>Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/em>\u2026, p. 173.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire. Livre XI: les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse<\/em> (1964). Texte \u00e9tabli para Jacques-Alain Miller. Paris: Seuil, 1973, p. 113-248.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> MILLER, J-. A. En de\u00e7\u00e0 de l\u2019inconscient. <em>La Cause du D\u00e9sir<\/em>, revue de psychanalyse., Paris, n. 91, p.\u00a0 105. Trata-se aqui, das aulas dos dias 14, 21 e 29 de mar\u00e7o de 2007 do Curso <em>L\u2019orientation lacanienne. Le tout dernier Lacan<\/em>, pronunciado no Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade de Paris VIII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> FREUD, S. Sobre a din\u00e2mica da transfer\u00eancia (1912)\u2026,\u00a0 p. 109.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> LACAN, J. La direction de la cure et les principes de son pouvoir (1958). In: ____. <em>\u00c9crits<\/em>. Paris: Seuil, 1966, p. 587.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Ibidem, p. 589.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire. Livre XI: les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse<\/em> (1964)\u2026, p. 133.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> LACAN, J. Introduction \u00e0 l\u2019\u00e9dition allemande des <em>\u00c9crits <\/em>(1973)<em>. <\/em>In: ____. <em>Autres \u00e9crits<\/em>. Paris: Seuil, p. 558.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire. Livre XX: encore<\/em> (1972-1973).\u00a0 Texte \u00e9tabli para Jacques-Alain Miller. Paris: Seuil, 1975, p. 64.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> FREUD, S. Observa\u00e7\u00f5es sobre o amor transferencial (1915 [1914])\u2026, p. 168-169.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio. Livro 23: o sinthoma<\/em> (1975-1976). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> MILLER, J-. A. Nota passo a passo (2005). In: LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio. Livro 23: o sinthoma<\/em> (1975-1976)\u2026\u00a0 p. 201.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> LACAN, J. Joyce, o sintoma. In: ____. <em>O semin\u00e1rio. Livro 23: o sinthoma<\/em> (1975-1976)\u2026, p. 163.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> LACAN, J. Vers un signifiant nouveau. <em>Ornicar?<\/em> Paris, n. 17-18, p. 13. Correspondente \u00e0 sess\u00e3o do dia 19 de abril de 1977 do Semin\u00e1rio 24.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a> LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 79, 2019, p. 52-63.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a> MILLER, J-. A. En de\u00e7\u00e0 de l\u2019inconscient\u2026., p.\u00a0 105.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> LACAN, J. Vers un signifiant nouveau\u2026 p. 18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a> LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia\u2026, p. 56.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup>[21]<\/sup><\/a> LACAN, J. Vers un signifiant nouveau\u2026 p. 18. Para a leitura de \u00c9ric Laurent com rela\u00e7\u00e3o a essa passagem do Semin\u00e1rio 24 de Lacan, ver: LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia\u2026, p. 55-57.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> Ibidem, p. 13.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><sup>[23]<\/sup><\/a> MILLER, J.-, A. O sintoma e o cometa. <em>Op<\/em><em>\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 19, p. 5-13.<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":768,"menu_order":63,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[27],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/766"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=766"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/766\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":769,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/766\/revisions\/769"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/768"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=766"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=766"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}