{"id":859,"date":"2021-07-21T17:46:14","date_gmt":"2021-07-21T20:46:14","guid":{"rendered":"http:\/\/x-enapol.org\/pt\/?post_type=avada_portfolio&#038;p=859"},"modified":"2021-07-21T17:46:14","modified_gmt":"2021-07-21T20:46:14","slug":"entrevista-com-dolores-reyes","status":"publish","type":"avada_portfolio","link":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/portfolio-items\/entrevista-com-dolores-reyes\/","title":{"rendered":"Entrevista com Dolores Reyes"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1352px;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:20px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-order-medium:0;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-order-small:0;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-column-has-shadow fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p style=\"text-align: right;\">Por <strong>Ludmila Malischevski<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dolores Reyes nasceu em 1978 a oeste da prov\u00edncia de Buenos Aires. Vive e escreve na Grande Buenos Aires, Caseros, Tres de Febrero. Cursou o Magist\u00e9rio no Col\u00e9gio Normal 10. Cursou Grego e Culturas Cl\u00e1ssicas com Victoria Juli\u00e1 na UBA (n\u00e3o terminou a Licenciatura). Trabalha como professora em Pablo Podest\u00e1, a 150 metros de onde est\u00e3o enterradas, Melina Romero, Araceli Ramos, e muitas das v\u00edtimas de feminic\u00eddio que marcaram sua vida e sua escrita. Trabalhou seu romance Cometierra com Selva Almada e Juli\u00e1n L\u00f3pez. Cometierra foi publicado pela Editora Sigilo na Argentina e Espanha, na Col\u00f4mbia pela Ed. Rey Naranjo, na It\u00e1lia pela Solferino, na Fran\u00e7a pela L\u00b4observatoire, pela Harper Collins na Inglaterra, Estados Unidos, Austr\u00e1lia, Pol\u00f4nia, Turquia, Su\u00e9cia, Noruega, Gr\u00e9cia e Brasil. Atualmente, trabalha em um livro de contos e no romance que ser\u00e1 a segunda parte de Cometierra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L.M: Como surgiu \u201cCometierra\u201d e o seu gesto de abordar o tema dos feminic\u00eddios atrav\u00e9s da literatura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D.R: Cometierra nasceu no espa\u00e7o de uma oficina de experimenta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, no segundo ano dessa oficina. No primeiro havia escrito contos durante todo o ano. Eu seguia, na realidade, com esta din\u00e2mica de escrever contos, mas a oficina j\u00e1 havia mudado muit\u00edssimo, cada um ia levando seus pr\u00f3prios projetos. E em uma dessas reuni\u00f5es (que t\u00ednhamos uma vez por semana \u00e0s quartas-feiras) cada um lia e os demais faziam observa\u00e7\u00f5es sobre o texto, sugest\u00f5es para poder chegar \u00e0 melhor vers\u00e3o poss\u00edvel daquele texto que estava sendo trabalhado. Um colega que se chama Marcelo Carnero leu um texto muito po\u00e9tico que terminava em \u201cterra de cemit\u00e9rio\u201d. O \u00faltimo verso era \u201cterra de cemit\u00e9rio\u201d e enquantoeu o lia, estava muito concentrada nisso, com os olhos fechados. E de alguma forma apareceu-me uma garotinha sentada nessa terra de cemit\u00e9rio, de costas, com o cabelo comprido e muito escorrido, e o que ela fazia justamente era lan\u00e7ar a m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 terra, fech\u00e1-la, e levar um punhado de terra \u00e0 boca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi uma imagem, por um lado, muito forte e tamb\u00e9m muito potente para come\u00e7ar a contar, a partir dela uma hist\u00f3ria. Ent\u00e3o de alguma forma, fui primeiro montar a imagem por escrito, e ver se podia conservar essa pot\u00eancia narrativa que eu via nessa cena inicial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed tirar um pouco da fic\u00e7\u00e3o e pensar: o que ocorre com isso? o que h\u00e1 com ela com essa terra de cemit\u00e9rio que est\u00e1 comendo? E da\u00ed me ocorreu que talvez algo de ordem espiritual podia retornar \u00e0 terra. N\u00e3o s\u00f3 a mat\u00e9ria como nos ensinaram, que o corpo retorna \u00e0 terra e a alma, ou o esp\u00edrito ao c\u00e9u\u2026 mas que algo da experi\u00eancia, ou da alma, ou da hist\u00f3ria dessa pessoa tamb\u00e9m fosse \u00e0 terra. E o que a garotinha faz, \u00e9 incorporar ao corpo o poder ver e contar o que est\u00e1 vendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, o tema dos feminic\u00eddios n\u00e3o foi uma transposi\u00e7\u00e3o, digamos, t\u00e3o volunt\u00e1ria, ocorre que cada um ao escrever p\u00f5e a\u00ed suas obsess\u00f5es, seu olhar, mas sobretudo, isso que nos problematiza. Isso que te sacode, que te comove e que n\u00e3o est\u00e1 resolvido. Ent\u00e3o, pensando no tema das pessoas mortas, dos corpos mortos que faltam\u2026 em seguida veio o tema das mulheres que foram violentadas, assassinadas e que seus corpos continuam sendo procurados por sua fam\u00edlias ou por seus entes queridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D.R: Parece-me que esse foi um tema central porque, se por um lado o romance tem tudo isso, t\u00e3o t\u00e2nico, ou t\u00e3o obscuro do lado dos mortos, esse lado do qual queremos muitas vezes nos separar, ou n\u00e3o estar em contato ou pensando nisso todo o tempo\u2026 Tamb\u00e9m tem todo o lado da vitalidade e a\u00ed o amor entra de cheio e com toda a pot\u00eancia que tem aos 16, 17 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed se situa a hist\u00f3ria de Cometierra e Ezequiel, mas tamb\u00e9m h\u00e1 outras formas de amor: a que constr\u00f3i com seu irm\u00e3o, a que constr\u00f3i com os rapazes que v\u00e3o ingressando na casa compartilhando coisas com eles. A que constr\u00f3i com Hern\u00e1n, com Miseria mais adiante, e que acabar\u00e1 sendo uma esp\u00e9cie de fam\u00edlia escolhida. Ent\u00e3o, h\u00e1 muito o que pensar desses la\u00e7os, sobretudo tendo em conta que eles de alguma forma se fecham ao mundo exterior dentro dessa casa, ao mundo dos adultos que tanto os vinha violentando. E come\u00e7am a se relacionar de uma forma que, para mim, \u00e9 muito mais saud\u00e1vel, livres de todas essas injun\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, que, de alguma forma o mundo dos adultos lhes est\u00e1 propondo e mostrando, todo o tempo. Eles compartilham, o pouco que t\u00eam, uma cerveja, um CD pirata, um jogo de <em>play station<\/em> e cada um vai contribuindo com algo. Al\u00e9m disso, comem juntos, se re\u00fanem, compartilham, passam o dia, conversam, jogam, v\u00e3o se relacionando de outra forma que n\u00e3o a da viol\u00eancia justamente, ou a das injun\u00e7\u00f5es que como resultado trazem tantas vezes muita viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por outro lado tamb\u00e9m, h\u00e1 um tipo de acordo entre Walter e Cometierra, que \u00e9 um acordo t\u00e1cito, nunca est\u00e1 dito, de n\u00e3o se abandonarem, de permanecerem, seguirem juntos, se acompanharem, se escutarem, de estarem um para o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L.M: Isso \u00e9 muito lindo, a rela\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os, e que, al\u00e9m disso, atravessa o crescimento dos personagens tamb\u00e9m, n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D.R: Sim, absolutamente, ainda mais nesses anos e tamb\u00e9m nesse n\u00edvel de intensidade que prop\u00f5e o romance, onde, em 10 anos, ocorre um mont\u00e3o de coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L.M: E constroem um mundo \u00e0 parte em que fazem algo diferente, n\u00e3o reproduzem o que vinham sofrendo, s\u00e3o outros tipos de la\u00e7os\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D.R: Sim, exatamente. De alguma forma eu tenho o olhar colocado a\u00ed, nos moleques jovens, que s\u00e3o para mim aqueles quem podem come\u00e7ar a se relacionar de outra forma, justamente n\u00e3o dessas formas herdadas que n\u00e3o foram discutidas. Cometierra \u00e9 um romance que leva muito em conta quais s\u00e3o as consequ\u00eancias de todas essas formas de se vincular e vai para outro lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L.M: Bem, vendo por esse outro lado, haver\u00e1 algo novo no amor no campo das fic\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D.R: Eu creio que o amor \u00e9 um tema central na literatura, ent\u00e3o sempre h\u00e1 muit\u00edssima indaga\u00e7\u00e3o a\u00ed. Vejo uma infinidade de coisas, como h\u00e1 uma infinidade de livros, mas sim, acabo de ler \u201cLa hija \u00fanica\u201d de Guadalupe Nettel e a\u00ed parece-me que h\u00e1 uma forma de abordar o amor materno. O livro est\u00e1 dedicado a todas aquelas m\u00e3es que desejaram alguma vez que seus filhos morressem. Ent\u00e3o, j\u00e1 te sacode desde a dedicat\u00f3ria! Mas me parece que h\u00e1 um mont\u00e3o de livros que questionam justamente as rela\u00e7\u00f5es porque, volto a dizer, s\u00e3o centrais na vida humana. E, ent\u00e3o, \u00e9 um t\u00f3pico central ao qual a literatura retorna uma e outra vez e me parece que sempre estar\u00e1 a\u00ed, rondando\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L.M: Muito obrigada, Dolores Reyes!<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Cristiana Gallo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Revis\u00e3o: Paola Salinas<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":860,"menu_order":49,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"portfolio_category":[18,11],"portfolio_skills":[],"portfolio_tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/859"}],"collection":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio"}],"about":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/avada_portfolio"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=859"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/859\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":866,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/avada_portfolio\/859\/revisions\/866"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/860"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"portfolio_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_category?post=859"},{"taxonomy":"portfolio_skills","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_skills?post=859"},{"taxonomy":"portfolio_tags","embeddable":true,"href":"https:\/\/enapol.com\/xpt\/wp-json\/wp\/v2\/portfolio_tags?post=859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}