Uma nova epidemia

Aliana Santana

Um artigo publicado na versão digital do jornal La Voz de Galicia, intitulado “Cuidado! Chega a hiperpaternidade”, alerta sobre uma nova epidemia que ataca as crianças, impede sua autonomia e os torna frágeis. Semelhante afirmação serve como reagente para a produção de seis respostas psicanalíticas de orientação lacaniana, provenientes de colegas das três Escolas da América.

Guillermo Belaga destaca três pontos: A tormenta perfeita: Hiperpais ou mordomos “estressados”; A cena temida: os educadores contra a parede e A solução do “coaching“: a lista de recomendações. Adela Fryd se pergunta se os superpais e também os superfilhos são uma modalidade da época. Cristina Drummond se refere a pais contemporâneos utilitários e a crianças como objetos de gozo. Valéria Ferranti nos recorda que o interesse da psicanálise não é o abandono, proteção ou superproteção da criança. Luisa Aragón assinala que a hiperpaternidade e o underparenting são duas maneiras de colocar a criança como organizador da família. Jaime Castro nos convida a pensar o hiper enquanto excesso e, a partir daí, assinala o hiper-sintoma ou o hiper-gozo da época.

Seis respostas que animam continuar transitando a geografia imposta pelos assuntos de família.

Boa leitura!

Tradução: Vera Avellar Ribeiro

Alerta dos especialistas: as crianças de hoje são vítimas de uma nova epidemia de superproteção, que as impede de serem autônomas e as tornam frágeis

Imagen: ELISEO TRIGO | EFE

Se você carrega as mochilas de seus filhos quando saem do colégio, cuidado!, poderá entrar em uma nova categoria: os hiperpais, temidos por professores e pedagogos, são aqueles que organizam até o último detalhe a vida de seus filhos e não lhes dão a opção de defenderem-se por si mesmos.

Mas, além do pequeno detalhe da mochila, como poderíamos reconhecer se pertencemos a esse grupo? A jornalista Eva Millet define perfeitamente em seu mais recente livro:[2] os hiperpais falam no plural quando se referem às coisas de seus filhos (“Hoje temos a prova de matemática”), estão obcecados para que recebam a melhor educação (se possível, precocemente) no melhor colégio ou universidade, discutem constantemente as posições de professores e educadores, planejam inúmeras atividades extracurriculares e, no entanto, não permitem que seus filhos participem das tarefas domésticas nem assumam obrigações básicas como arrumar a cama ou pôr a mesa.

Pais cuidadores

Eles são os pais que agem como motoristas, treinadores, guarda-costas, professores particulares e mordomos… Em suma, estressados, acabam criando filhos sufocados que crescem incapacitados pelo excesso de proteção. As causas, segundo o especialista Carl Honore, podem ser buscadas na “tormenta perfeita resultante da globalização e do aumento da concorrência, que, unidos à insegurança cada vez maior nos locais de trabalho, tornou-nos mais ansiosos com respeito a preparar nossos filhos para a vida adulta”. Em resumo: “hoje queremos dentes perfeitos, um corpo perfeito, as férias e a casa perfeita e, obviamente, filhos perfeitos para completar o quadro”. É ainda preciso acrescentar o estresse do estilo de vida que nos impuseram, que transmitimos a nossos filhos com esse onipresente “corra!”, que nos persegue implacavelmente e faz com que, como explica a pedagoga Cristina Gutiérrez Lestón, “toda esta falta de tempo e de espaço para ‘ser’ gera uma série de deficiências emocionais em muitos meninos e meninas que não sabem como lidar com um grupo de pessoas. Se sentem frágeis e com um monte de medos”.

“A conclusão, dizem, é preocupante: talvez estejamos criando a geração mais frágil e insegura da história”, o que, para Gregorio Luri, filósofo e pedagogo, deveria nos fazer pensar que, acima de tudo, as crianças precisam de pais descontraídos. “É um direito da infância”, diz ele.

Por onde começar

Apesar do alarme, o panorama tem solução. O caminho a seguir é chamado underparenting, ou, em outras palavras, não fazer tudo pelos filhos. Como? No livro, a especialista sugere algumas chaves, iniciando com a mochila. “Você não tem de carregar sistematicamente as coisas. Parece insignificante, mas fazer com que eles carreguem sua própria mochila é uma forma eficaz de educar a responsabilidade”.

Também sugere que não se permita que os filhos interrompam as conversas, e que não lhes perguntemos sistematicamente tudo (desde se querem comer até qual medicação para febre preferem tomar). A linha a seguir é definida como “desatenção saudável”, sem antecipar todo tipo de contratempo nem passar o dia todo em torno das criança, ao contrário, intervir minimamente. Na lista de recomendações há outras muito curiosas e concretas, como não falar no plural e não passar o dia postando fotos das crianças em redes sociais. “Esta avalanche, não só está matando a espontaneidade da criança, mas também criando pequenos narcisos”.

Outro aspecto importante é a educação. Aqui a especialista é clara: “a educação não é apenas adquirir títulos. Que o seu filho ou filha seja capaz de agradecer e de encarar uma frustração também é parte fundamental de sua formação”. Além disso, é importante, não interferir demais nas decisões da escola e procurar que a criança aprenda a assumir seus próprios erros.

Relaxe, sem medo

Mas o que é o que nos impede de soltar a mão de nossos filhos? Por que os superprotegemos chegando, muitas vezes, a beirar o ridículo? Seria algo tão humano como o medo. “Medo de nos equivocar, explica a autora, de dizer ‘não’, de traumatizá-los, de não dar tudo o que acreditam que eles mereçam, de não conseguirem ser felizes, de sofrer. Inclusive de não conseguir esses filhos perfeitos que hoje parece que todos devem ter”. A receita para superá-lo é relaxar e desfrutar de serem pais, para que eles também desfrutem de serem filhos. “Meu conselho é que sejam afetuosos com seus filhos, que estejam com eles quando precisarem, mas não ficar em cima deles durante todo o dia. Que não fiquem nervosos porque o filho do vizinho está aprendendo chinês e que, de acordo com seus pais, seja uma criatura que beira a perfeição”. Há que dizer não, exigir que colaborem e também “dizer-lhes que nós os amamos, mas que isso não equivale a ter uma série de direitos adquiridos sobre você ou sobre o resto do mundo”.

Tradução: Carmen Silvia Cervelatti

NOTAS

  1. Otero, M., ¡Cuidado! Llega la hiperpaternidad, La voz de Galicia. Extraído de: http://www.lavozdegalicia.es/noticia/extravozok/2016/03/17/bien-hijos-dejelos-paz/00031458215861364177852.htm
  2. Millet, E. (2016), Hiperpaternidad, Barcelona: Plataforma actual.

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