Comentário sobre o texto do GT “O gozo e a alegria”
Andréa Reis Santos (EBP/AMP)
areissantos@gmail.com
O texto do GT toma como ponto de partida uma pergunta de Lacan em “Alocução sobre as psicoses da criança”. Pergunta que eles se propõem a dissecar e a articular com a questão do gozo: “Que alegria encontramos naquilo que constitui nosso trabalho?” Uma pergunta curiosa no contexto em que foi proferida. Por isso começo pelo contexto: Maud Mannoni organiza em 1967 as Jornadas de estudos sobre as psicoses da criança, ocasião em que reuniu um grupo de psicanalistas de diferentes orientações. Lacan foi convidado a fazer o discurso de encerramento, que se converteu no texto da Alocução publicado nos Outros Escritos. Apesar de começar agradecendo a ela pelo êxito da empreitada, Lacan se contrapõe abertamente a algumas ideias centrais defendidas ali.
Para Mannon[1]i a questão da debilidade da criança é decorrência da relação entre mãe e filho, na situação em que um e outro formam um só corpo. Ela foi a primeira psicanalista a de dedicar à escuta das crianças débeis, e a problematizar a questão do corpo nessa clínica. Sua hipótese é de que essas crianças e suas mães vivem em uma espécie de fusão de corpos associada à presença de um ponto obscuro não simbolizado na subjetividade da mãe, que retorna no real do corpo da criança[2].
Lacan, tanto na Alocução quanto no seminário 11, faz menção a essa tese para se contrapor a ela. Para ele não se trata da fusão do corpo da mãe e da criança, mas da fusão no nível da cadeia significante[3]. Trata-se da holófrase entre S1 e S2, como par de significantes que solidifica a cadeia. Nesse texto Lacan diz assim: “O que convém apontar aqui… é o preconceito irredutível de que é sobrecarregada a referência ao corpo, enquanto o mito que abarca a relação da criança com a mãe não for suspenso”.[4] Ele destaca que o fato de não levarem em conta a presença do gozo e da linguagem na relação entre a mãe e a criança fornece sustentação a uma fantasia postiça – a da harmonia no habitat materno. Sabemos, no entanto, que para a psicanálise, não só não há harmonia nessa relação, como não há completude a ser alcançada no futuro, nem tampouco podemos contar com a ilusão de um passado idílico nessa relação.
A presença do gozo e da linguagem não passou desapercebida no texto do GT. Ali eles afirmam: “A alegria lacaniana se perfila assim com a castração. Trata-se de não operar apenas com a paixão da linguagem, com palavras belas sem compreender nada da estrutura em que ela se realiza. Não seria acaso porque operamos sobre o fundo do real, do impossível? O corte, o silêncio ou um ato do analista podem fazer aparecer o gozo de lalíngua”. Anna Aromi, em um excelente texto que abprd um dos aspectos de seu testemunho de passe, destaca esse ponto: A castração não é um mito, não é uma metáfora, é real. É real no fato de que o ser falante não sabe gozar.[5]
Voltando ao Lacan no contexto da Alocução: ali onde a antipsiquiatria – que na concepção de Mannoni faz par com a psicanálise – considera o louco como um sujeito aprisionado pela alienação social e mental, Lacan propõe uma abordagem a partir da estrutura. Ele adverte que essa prática libertária traz em si o seu limite e seu engodo. Ou seja, na contramão dessa concepção da psicose a partir da ideologia da liberdade, Lacan sustenta que o que está em jogo é uma ética, que leva em conta a presença do gozo e os efeitos da linguagem na constituição do sujeito. Para ele a psicose da criança é resultado de coordenadas familiares, de leis muito precisas, e não de razões acidentais, mas estruturais: “Para obter uma criança psicótica é preciso ao menos o trabalho de duas gerações, sendo ela seu fruto na terceira”[6].
É no contexto dessa denúncia que Lacan fala de sua posição paradoxal, que foi nomeada no texto do GT como uma “estranha alegria”. Lacan afirma sua alegria na mesma frase em que localiza uma tristeza. “Tenho sempre cinco anos”. “Todos sabem que sou alegre, dizem até moleque: me divirto. […] É verdade. Não sou triste. Ou, mais exatamente, só tenho uma tristeza, naquilo que me foi traçado como carreira: é haver cada vez menos pessoas a quem eu possa dizer as razões de minha alegria, quando as tenho” [7].
É possível sentir a presença, a dimensão de sua solidão no momento dessa fala dirigida ao grupo eclético reunido por Mannoni. No entanto, não é uma solidão que o arrasta para o pecado da tristeza. Lacan não se deixa melancolizar, e afirma sua alegria como um ato.
Por isso, fica evidente que essa alegria do menino não tem a ver com uma ingenuidade infantil, menos ainda com o imperativo universalizante do “todos alegres” que encharca os conteúdos das redes, nessa estranha forma de laço dos nossos dias que promove a segregação profetizada por Lacan. É a alegria do um sozinho, que remete para a orientação ética que atravessa o seu ensino. Nos três momentos em que Lacan fala da alegria, nesse texto, é sempre em referência à segregação. Segregação que é efeito dos ideais, das normas universalizantes, do que o GT nomeia como “o caráter superegóico da cultura”.
A alegria de que fala Lacan é aquela a que se chega por acréscimo, como efeito da operação solitária de uma experiência de análise, quando essa experiência consegue produzir um modo de saber fazer com o gozo, e com isso, permite um deslocamento do sujeito na relação com seu sintoma. Uma alegria que se extrai do ato analítico, da subversão do sentido e da relação viva com lalangue. Essa operação está bem ilustrada no trecho destacado pelo GT do testemunho de passe de Laurent Dupont: “O sentimento de estar só no caminho e poder rir à beira do vazio”. Como bem diz o texto do GT: “Uma alegria que não desconhece a castração, nem a ética do bem dizer”. Anna Aromi fala da alegria do passe como comemoração de um esvaziamento, da leveza que resulta quando o sentido deixa de obturar o litoral do real[8].
Qual a relação entre isso que se evidencia no final de uma análise com o infantil que nos interessa aqui? De acordo com essa ética, o infantil não corresponde a uma etapa do desenvolvimento, mas é pensado a partir da dimensão estrutural do sujeito. A criança da psicanálise nomeia um modo de ser atravessado por lalangue.
Me pareceu que aí se localiza o principal ponto de contato do trabalho do GT com o tema dessa sala. Antes que uma criança possa construir uma frase há “algo nela” que denuncia a presença de detritos deixados de passagem pela linguagem. Há algo nela que vem das marcas deixadas pelos restos dos significantes da língua materna, presentes da operação de alienação. Alienação estruturante, e não alienação da qual uma ideologia libertária poderia salvar o sujeito como propunha Mannoni. Não há como livrar o sujeito da sua relação incurável com o gozo e com seu sintoma, como diz o texto do GT: “trata-se de saber fazer contingencialmente e a cada vez, com o incurável, e a transmitir, mesmo em silêncio, a marca do desejo do analista”.
O fundamental da operação que faz de um organismo um corpo, nessa perspectiva, foi lindamente trabalhado na preparatória[9] que fez conversar os textos de Maria Josefina Fuentes e Marcus André Vieira e que proponho retomar aqui. Eles nos ajudaram a entender qual é a concepção de linguagem que está em jogo nesse “fazer falar a criança”. Foi uma preparatória que abriu caminho para entender como o giro que Lacan promove no último ensino com a ideia de lalíngua, permite ressituar o campo da fala e da linguagem e as consequências disso para a clínica.
Maria Josefina[10] puxa o fio do ensino desde Função e campo em 53 quando Lacan resgata a invenção freudiana para consolidar as bases simbólicas da operação analítica. Nesse momento do ensino, o significante tem o status do que ela chama de tesouro criacionista, que cria e organiza o mundo. “O inconsciente como discurso do Outro, fala à criança antes mesmo de sua chegada, conferindo-lhe um lugar no desejo do Outro”.
Com a virada do último ensino, esse Outro muda de lugar. O texto do GT chama atenção para isso ao destacar o realismo de Lacan nesse momento em que ele revira suas próprias teses para sublinhar a “ficção e o canto da fala” evocando então a “potência musical” da palavra no campo da lalíngua, fora do sentido. A matéria da lalíngua marca ao acaso o corpo da criança e se fixa como uma letra a partir do qual a criança fabrica seu corpo, constrói suas ficções e fabrica seu mundo, mas também seus sintomas e suas misérias, que se desenham a partir do que se fixou nessa operação.
Esse giro que vai do sujeito ao falasser implica um outro modo de operar na experiência de uma análise. Trata-se da aposta de fazer ressoar outra coisa que o sentido. Lacan, no seminário 24, diz que é com a ajuda do que se chama escrita poética que se pode ter a dimensão do que seria a interpretação analítica. Nesse momento Lacan coloca em evidência não mais a determinação do Outro, mas um ponto de real relativo à origem subjetiva da criança. Ela é fruto de um desejo obscuro que não aponta para nenhuma verdade oculta a ser revelada.
Esse ponto de real, Marcus[11] sugere que seja pensado com relação à escrita, recurso que teria o efeito de antídoto ao sentimento de “comunhão universal”, ou à fantasia de um Outro primitivo, idílico. Ele sustenta que estamos às voltas com a escrita desde o início e insiste no efeito de deslocamento na função do Outro em razão do protagonismo de lalíngua. Isso conversa com outro trecho importante do texto do GT: “A pergunta pela infância não é arqueológica: O que uma análise ensina não é tanto o que uma criança teria sido, mas o que persiste como resto do infantil no gozo”.
Marcus tira consequências da radicalidade desse deslocamento. Parte da perspectiva do fim da análise quando se deixa para trás o Outro que teria sido o agente do trauma, aquele que o analista até então encarnara. Sustenta que isso só é possível porque implica em apropriar-se de um acontecimento que marcou o corpo “antes” desse Outro. A ideia forte aí é de um trauma como evento sem agente, ou pelo menos efeito de um Outro menos encarnado, menos imaginarizado. Ele diz: “trata-se de um Outro como nuvem, lugar de uma precipitação, uma chuvarada que deixará ravinamentos e não impressões”.
A proposta que vale um bom debate é pensar de que maneira isso que fica tão evidente nos testemunhos de passe, pode ser útil não só no final, mas no início e durante uma análise. A ideia de um Outro menos encarnado, que não remete à alteridade que está em jogo na fantasia pode ser muito útil nesses nossos tempos em que o Outro se apresenta tão perturbado, tão deslocado. Esse Outro, Marcus associa à fala de Miller sobre uma “escrita selvagem”. Fala essa que aponta para aquilo que o GT propõe: que na relação com o objeto, “se leia aquilo que se inscreveu para além dos enunciados”. Trata-se então de menos escuta e mais leitura no texto que uma análise produz.
Laurent[12] faz um esclarecimento importante sobre essa questão da escrita: ele diz que no seminário 19 Lacan está empenhado em saber como se inscreve o UM não só pela imagem e por seu caráter de aparente individuação, mas a partir do gozo como tal. Diz que nesse seminário Lacan critica tudo o que opera com a suposição de que algo é colocado na superfície como se fosse um papel que recebe a impressão. Lacan insiste no puro Um da diferença como o que não existe. Laurent diz que o que ele sempre elogiou em Freud é o fato de ter sublinhado que quanto ao falo, o que importa é que não está em seu lugar, ele não existe e é pura ausência.
Contudo, diz Laurent, Lacan complica a coisa e questiona se a substância, se a matéria permanece sempre a mesma, se o Um seria pura diferença e por fim se interroga como se articula o Um com a matéria. Ele propõe que a articulação se dá através da substância gozosa, que é efêmera. A substância gozosa não é eterna, pois uma vez que está articulada às bordas do gozo, ela se apresenta como efêmera. No texto do GT isso está nomeado como “aparição de lalíngua em pedaços por meio das palavras que ressoam no corpo”. Importante destacar: mais ressoam do que imprimem.
Laurent insiste: a metáfora da escrita remete ao plano da impressão, que se dá em duas dimensões e isso vai na direção contrária à tentativa de Lacan de pensar o espaço onde nos deslocamos partindo da concepção de que ele tem pelo menos três dimensões: R, S, I. Esse é o espaço que convém à topologia de lalíngua. A metáfora da impressão, coloca em um plano de duas dimensões o que está no plano de três. Laurent usa o exemplo do autismo para pensar a construção do objeto como um modo de enodamento em três dimensões com as consistências que a criança maneja. Aí não se trata do falo simbólico, nem da imagem no registro imaginário. Trata-se do que há de Um que pode escrever-se, separar-se dele. Esse objeto que aparece sob a forma de um indivíduo (porque tem uma forma unitária) é preciso pensá-lo como um tipo de escrita que a criança autista realiza em três dimensões. Ele propõe observar como elas usam seus desenhos, pensar nas montagens da criança autista como se fossem um modo de escrita.
Não é também o que propõe Marcus quando diz que se trata mais de buscar os enlaces que sustentam, estabilizam alguma conexão com o real? O que interessa na fala tomada com escrita é a produção de realidade. É o fazer com. A questão é como fazer da rede de significantes, que é universal, “uma elucubração de saber local a partir de lalíngua; do gozo do Um ao haum, um do gozo, multiplicidade de possibilidades na contingência dos encontros”[13].
Concluo com outra frase importante do texto do GT: “O real converte o corpo em uma caixa de ressonância, uma vibração em sintonia com lalíngua”. Não é justamente o que vemos acontecer também no testemunho de Alejandro Reinoso[14] com seu “il riso alla cantonese” que é cortado pelo equívoco homofônico, il riso al Lacan-tonese, o riso ao modo de Lacan? Esse equívoco tem efeito de corte que incide no uso singular de lalíngua, faz acontecimento e provoca nele um riso que faz vibrar todo o corpo.
Anna Aromi conversa com a pergunta de Lacan destacada pelo GT: que alegria encontramos naquilo de que é feito o nosso trabalho? Também nos remetendo ao passe. Fala da alegria como a cicatriz, limpa do Outro, quando alguém já não deposita mais no Outro o que ele próprio não queria ou podia assumir. O passe como o momento em que se torna possível “Explicar para outros, as razões de nossa alegria, quanto a temos”.
Uma pergunta que gostaria de propor para o debate: Como fazer para que isso nos sirva também de ferramenta para o chão da clínica? Como fazer passar o impossível do gozo não só no fim? Como transmitir ao longo de uma análise as razões de nossa alegria?
[1] Mannoni, Maud. L’enfant arriéré et sa mère. Seuil, Paris, 1964.
[2] Amin, Rachel L’Atelier 6 Publicación del Grupo de investigación sobre psicosis y autismo (Sección Clínica de Barcelona) y del Taller de estudios sobre práctica entre varios (Associació TEAdir).
[3] Lacan J. O seminário livro 11 p 231
[4] Lacan, J. Alocução sobre as psicoses da criança. In Outros Escritos p. 366
[5] Aromi, Anna. Vamos lá! Opção Lacaniana n 88 p. 78
[6] Lacan, J. Alocução sobre as psicoses da criança. In Outros Escritos p. 360
[7] Lacan, J. Alocução sobre as psicoses da criança. In Outros Escritos p. 361
[8] Aromí, Anna. Vamos lá! In Opção Lacaniana n 89. P. 80.
[9] 3ª Preparatória do XII Enapol. Ficção e canto da fala e da linguagem. https://www.youtube.com/watch?v=ou2S7ZmeZJM
[10] Fuentes, Maria Josefina Sota. “No berço do acorde” In: https://enapol.com/xii/no-berco-do-acorde1/
[11] Vieira, Marcus André. “Nossa alfabestização” In: https://enapol.com/xii/nossa-alfabestizacao1/
[12] Laurent, E. Por que o Um? In Leituras do seminário …ou pior. Org Gorsky, G. e Sota Fuentes, M. J. Salvador, EBP p.41
[13] Vieira, Marcus André. “Nossa alfabestização” In: https://enapol.com/xii/nossa-alfabestizacao1/
[14] Reinoso, Alejandro. Um despertar poético para o riso. https://congresoamp2020.com/pt/el-tema/papers/01_papers_trad.pdf