mal—entendido Inconsciente

“Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que li”
J.L. Borges

Se a orientação foi começar a ler,[1] soubemos, em seu exercício, que a abundância nem sempre equivale à clareza. A presente entrega não é uma mera lista de referências; é um florilégio a-crítico construído de maneira coletiva.

Éric Laurent[2] destaca que a demonstração de fazer passar se produz, em nosso discurso, quando se alcança um benefício libidinal, se consegue tocar o Outro a quem se dirige e provocar nele um efeito Ah! Nossa pretensão, não sem pudor, é escutar de vocês essa ressonância da língua, a de vocês, porque entregar flores é um gesto e, como tudo, pode ser mal-entendido: serve para o amor e também para os mortos. É por isso que lhes confessamos nossa maior preocupação: não fazer da bibliografia flores secas.

Mas voltemos a Borges e a seu poema. Ele, antes de tudo, é um leitor, e se jacta disso.[3] Ressalta que um leitor é um homem só, mas acompanhado das mentes mais brilhantes da história. Na Comissão de Bibliografia, assumimos a arriscada tarefa de nos constituirmos em uma comunidade de leitores, levados aos trancos e barrancos por nossos brilhantes autores e, longe de estarmos sozinhos e ao estilo Bourbaki, já não sabíamos quem o havia dito, quem o havia ouvido dizer, mas a todos nós parecia importante.

Este primeiro florilégio Mal-entendido Inconsciente, reúne em pequenos buquês os distintos e contraditórios modos pelos quais o inconsciente entrou no mundo e deu seus primeiros passos.[4] Aparenta ser um conceito transparente; no entanto, o leitor advertido perceberá a lucidez freudiana de encontrar o mal– na língua e a resistência lacaniana frente a toda ilusão de compreensão: quando é tomado por um lado, escapa por outro, abrindo caminho para o parasita linguageiro, que não tardará a ameaçar o ramalhete.

Mas fiquem tranquilos, queridos leitores, tropecem sem mais, pois esta entrega dá permissão à “incoerência” para que as flores encontrem, a seu tempo, seu bem-dizer.

Luciana Varela

“O inconsciente não quer dizer nada, se não quiser dizer que, diga eu o que disser e onde quer que me posicione, mesmo que me posicione bem, eu não sei o que digo”

Lacan, J., O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 42. Lição de 10/2/1971.

“Sonhei que um homem arranca as asas de uma espe. Espe?, fui obrigado a perguntar, o que o Sr. quer dizer com isso? – Ora, o inseto com as listras amarelas no corpo que pode picar. Deve ter sido uma alusão à Gruscha, à pera de listras amarelas. – Então o Sr. quer dizer Wespe [vespa], consegui corrigir. – Chama-se Wespe [vespa]? Eu realmente achava que se chamava espe. (Como muitos outros, ele se valia da sua condição de falante de língua estrangeira para encobrir os atos sintomáticos.) Mas espe sou eu, S. P. (as iniciais de seu nome).”

Freud, S., Da história de uma neurose infantil (caso Homem dos Lobos) 1918. In: Histórias clínicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 734.

“Dizer mais do que se sabe, não saber o que se diz, dizer algo diferente do que se diz, falar para não dizer nada – nada disso está mais no campo freudiano das falhas da língua, que justificam a criação das línguas formais. São propriedades inelimináveis e positivas do ato de falar”.

Miller, J.-A., Teoria de lalíngua. In: A terceira; Teoria de lalíngua. Rio de Janeiro: Zahar, 2022, p. 90.

“Mas a história é a seguinte. Quando era bem pequeno […] ele deve ter feito algo ruim, devido ao qual foi surrado pelo pai. Então o meninote se enraiveceu terrivelmente e soltou imprecações até debaixo dos golpes do pai. Mas, como ainda não sabia xingar, aplicara a este os nomes de objetos que lhe ocorriam, dizendo: ‘Seu lâmpada! Seu lenço! Seu prato!’ etc. O pai, assustado com tal explosão elementar, parou de golpeá-lo e afirmou: ‘Esse menino será ou um grande homem ou um grande criminoso!”

Freud, S., Observações sobre um caso de neurose obsessiva (“O Homem dos ratos”, 1909). In: Obras completas, volume 9. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das letras, 2013, p. 67.

“A análise se distingue, entre tudo que foi produzido até agora de discurso, por enunciar isto, que constitui o osso do meu ensino: que eu falo sem saber. Falo com o meu corpo, e isto, sem saber. Digo, portanto, sempre mais do que sei”

Lacan, J., O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972–1973). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 127. Lição de 15/5/1973.

“Na época em que a criança está aprendendo a manejar o vocabulário de sua língua materna, ela tem grande prazer em ‘experimentar brincando’ […] com esse material, e junta as palavras, sem ligá-las ao significado, para obter um efeito prazeroso do ritmo ou da rima. Esse prazer lhe é gradativamente negado, até que só lhe restem, como permitidas, as conexões de palavras dotadas de sentido.”

Freud, S., O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). Trad. de Fernando Costa Mattos e Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 179.

“Freud, é preciso dizer, sustenta um discurso estranho, o mais contrário à coerência, à consistência de um discurso. O sujeito do discurso não se sabe como sujeito que sustenta o discurso. Que ele não saiba o que diz, ainda passa, sempre se o supriu. Mas o que diz Freud é que ele não sabe quem o diz. […] O saber é coisa que se diz, que é dita. Pois bem, o saber fala por conta própria – eis o inconsciente.”

Lacan, J., O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969–1970). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Trad. de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. p. 73. Lição de 11/2/1970.

“Quase sempre encontro, além disso, a influência perturbadora de algo fora do que se pretendia falar, e o que perturba é ou um único pensamento que permaneceu inconsciente, que se dá a conhecer mediante o lapso […]”

Freud, S., Psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras completas, volume 5. São Paulo: Companhia das Letras, p. 88.

“[…] quem não se entende é o próprio sujeito; e isso é o que significa a associação livre – o auto mal-entendido; e é por esse motivo que a paixão analítica é a paixão pela ignorância”.

Miller, J.-A., (1986-1987) Diagnóstico psicoanalítico y localización subjetiva. En Introducción al método psicoanalítico, Buenos Aires, Paidós, 1997, p. 56. Tradução nossa.

“Não há norma se a única norma da comunicação é o mal-entendido, como disse Lacan. Então, a interpretação entra nessa mesma categoria. Na medida em que a comunicação também é mal-entendido.”

Miller, J.-A., (1995-1996) La fuga del sentido, Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 415. Tradução nossa.

“O inconsciente tem ouvidos e é por onde ele se complica, pelo mal-entendido.”

Miller, J.-A. “O Mal-entendido”, Lacan Elucidado. Palestras no Brasil, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997, p. 27.

“[O sujeito] é algo que nos vem das necessidades de estrutura, de algo humilde, nascido no nível dos mais baixos encontros e de toda a turba falante que nos precede, da estrutura do significante, das línguas faladas de modo balbuciante, tropeçante […]”

Lacan, J., O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 53. Lição de 5/2/1964.

“O mal-entendido já vem de antes. Na medida em que desde antes desse belo legado vocês pertencem, ou melhor, fazem parte da algaravia de seus ascendentes. Não é preciso que vocês mesmos algaraviem. Desde antes, o que os sustenta como inconsciente, ou seja, mal-entendido, se enraíza ali.”

Lacan, J., O mal-entendido. In: Nos confins do seminário. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. p. 88.

“Quem aqui sabe que, já desde o século XV, a slang descobriu a maravilha de substituir, quando oportuno, o I understand you perfectly por I understumble you perfectly? Vou escrevê-lo porque talvez a fonetização lhes tenha permitido evitar a nuance. Esse understumble, intraduzível em francês, incorpora o understand, que quer dizer compreender, o stumble, que significa justamente o tropeço. Compreender é sempre avançar capengando para o mal-entendido.”

Lacan, J., O seminário, livro 10: A angústia (1962–1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 90. Lição de 19/12/1962.

“Interpretar e imaginar que se compreende, não é de modo algum a mesma coisa. É exatamente o contrário. Eu diria mesmo que é na base de uma certa recusa de compreensão que empurramos a porta da compreensão analítica.”

Lacan, J., O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953–1954). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 102. Lição de 24/2/1954.

“Digo, pois, que já nas entrevistas preliminares há uma função essencial do analista, a função do mal-entendido. Às vezes um paciente procura um analista para, finalmente, saber se alguém pode entender o que ele diz. Contudo, não é possível convencer o paciente de nossa capacidade de entender senão através da introdução sistemática do mal-entendido”

Miller, J-A., (1986-1987) Introducción al método psicoanalítico, Buenos Aires, Eolia-Paidós, 1998, p. 55. Tradução nossa.

“A disjunção entre significante e significado é aquela sobre a qual repousa a prática da psicanálise. Não se tem a menor ideia do que para um sujeito quer dizer, no fundo, o que escutamos dele. Para recompor verdadeiramente o significado de um significante falta fazer uma análise […]. Em análise, podemos nos dar conta verdadeiramente do que uma palavra pode querer dizer para alguém”.

Miller, J.-A., (1997) “El psicoanálisis, la ciudad, las comunidades”, Revista Lacaniana de psicoanálisis, n. ° 22, Buenos Aires, Grama, 2017, p. 30. Tradução nossa.

“O que chamamos de inconsciente é algo do qual não há uma boa compreensão, não tem, tampouco o analista, maneira de se entender bem com o inconsciente, não é um amigo leal, um companheiro ao lado do qual alguém pode se sentir cômodo; […] Freud apresentou o inconsciente como algo que sempre trai o sujeito; o lapso, o ato falho são manifestações de traição. O inconsciente é traidor e cada um desconfia do seu”

Miller, J.-A., (1992) “La cura analítica”, Conferencias Porteñas, tomo 2, Buenos Aires, Paidós, 2010, p. 177. Tradução nossa.

“Mas que necessidade pode ter o analista de um ouvido a mais quando às vezes parece ter dois de sobra, ao enveredar a todo vapor pelo mal-entendido fundamental da relação de compreensão? Nós repetimos a nossos alunos: “Abstenham-se de compreender!” e deixem essa categoria nauseante para os senhores Jaspers e consortes. Que um de seus ouvidos ensurdeça, enquanto o outro deve ser aguçado. E é esse que voces devem espichar na escuta. dos sons ou fonemas, das palavras, locuções e frases, sem omitir as pausas, escansões, cortes, períodos e paralelismos, pois é aí que se prepara a literalidade da versão sem a qual a intuição analítica fica sem apoio e sem objeto.”

Lacan, J., (1956) “Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956”, Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, p. 474.

“[Freud] Passava muito tempo escutando, e do que escutava resultava algo paradoxal […], uma leitura. Enquanto escutava as histéricas que ele leu que existia um inconsciente.”

Lacan, J., (1975) “Universidad de Yale, Seminario Kanzer”, Revista Lacaniana de psicoanálisis, n. ° 19 Buenos Aires, Grama, 2015, p. 11. Tradução nossa.

“Isso não quer dizer que a alíngua não constitui, de maneira nenhuma, um patrimônio. É absolutamente certo que é pelo modo como a alíngua foi falada e, também, entendida por fulano ou beltrano, em sua particularidade, que alguma coisa, em seguida, reaparecerá nos sonhos, em todo tipo de tropeço, em todo tipo de formas de dizer. É […] nesse motérialisme que reside a tomada do inconsciente […]”

Lacan, J., (1975) “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 23, p. 10, dez.1998.

“Esse dizer provém apenas do fato de que o inconsciente, por ser ‘estruturado como uma linguagem’, isto é, como a lalíngua que ele habita, está sujeito à equivocidade pela qual cada uma delas se distingue. Uma língua entre outras não é nada além da integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela.”

Lacan, Jacques. “O aturdito”. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 492.

“Quando se perguntava a um paciente jovem se ele já tinha alguma vez praticado a masturbação, a resposta ouvida seria com certeza: ‘Oh, não, nunca!’ [O na, nie!]”

Freud, S., O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). Trad. de Fernando Costa Mattos e Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 48.

“Quando ela voltou a frisar que a Sra. K. amava o papai apenas porque ele era um homem de posses [ein vermögender Mann], notei, a partir de certas circunstâncias secundárias de sua expressão, as quais aqui omitirei, […] que por detrás daquela frase se escondia seu oposto: o pai era um homem sem posses/impotente [ein unvermögender Mann]. Isso só podia ser entendido sexualmente, a saber: o pai, enquanto homem, não tinha posses, era impotente.”

Freud, S., Análise fragmentária de uma histeria (Caso Dora). In: Histórias clínicas: cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 77.

“O caso que me pareceu mais interessante foi aquele em que um jovem elegeu um certo ‘brilho no nariz’ [Glanz auf der Nase] como condição fetichista. Isso encontrou seu surpreendente esclarecimento no fato de o paciente ter sido criado na Inglaterra, mas depois ter vindo para a Alemanha, onde esqueceu quase que completamente sua língua materna. O fetiche, originado em sua primeira infância, não era para ser lido em alemão, mas em inglês; o ‘brilho no nariz’ era, na realidade, um ‘olhar para o nariz’ [Blick auf die Nase] (glance [inglês] = Blick [alemão]); portanto, o nariz era o fetiche, ao qual, aliás, por sua predileção, ele emprestou [verlieh] aquele brilho particularmente luminoso, que os outros não podiam perceber.”

Freud, S., Fetichismo (1927). In: Neurose, psicose, perversão. Belo Horizonte: Autêntica, 2016, p. 315–316.

“Uma paciente de Tausk, uma moça levada à clínica após uma discussão com o amante, queixou-se de que “seus olhos não estavam direitos, estavam tortos”. Ela mesma explicou o fato, apresentando, em linguagem coerente, uma série de acusações contra o amante. […] um entortador de olhos, […] agora via o mundo com olhos diferentes.
Os comentários da paciente sobre sua observação ininteligível têm o valor de uma análise, pois contêm o equivalente à observação expressa numa forma geralmente compreensível. Lançam luz ao mesmo tempo sobre o significado e sobre a gênese da formação de palavras esquizofrênicas. […] a relação da paciente com o órgão corporal (o olho) arrogou-se a si a representação de todo o conteúdo [dos pensamentos dela]. Aqui a manifestação oral esquizofrênica exibe uma característica hipocondríaca: tornou-se fala do órgão.”

Freud, S. O Inconsciente. (1915) In: ___. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 226.

“Ao fazer a distinção entre o real propriamente dito e o sentido, encontramos também algo como lalíngua, que deve se distinguir da linguagem. Como Lacan a inventou? Justamente elevou a um grau a mais seu conceito de linguagem e de sua estrutura, levando-o ao nível da futilidade do sentido”.

Miller, J.-A., (2000-2001) El lugar y el lazo, Buenos Aires, Paidós, 2013, p. 134. Tradução nossa.

Responsável: Daniela Fernández (EOL)
Coordenadores: Teresinha Natal Meirelles do Prado (EBP), Luciana Varela (EOL), Patricia Tagle Barton (NEL)

Tradução: Camilla Baratto
Revisão: Jaqueline Vitor

[1] Fernández, D., Texto de apresentação da Comissão de Bibliografia do ENAPOL 2027.
[2] Laurent, E., [Intervenção]. In: J.-A., Miller, Los desencantados del psicoanálisis. Buenos Aires: Paidós, 2026. p. 69. Lição de 05/12/2001.
[3] Borges, J. L., (1952-1972) “Um leitor”, Elogio da Sombra, São Paulo: Editora Globo, 2000.
[4] Lacan, J., (1967-1968) O seminário, Livro 15, O ato psicanalítico. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025, p. 64. Lição de 06/12/1967.

mal—entendido Inconsciente

“Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que li”
J.L. Borges

Se a orientação foi começar a ler,[1] soubemos, em seu exercício, que a abundância nem sempre equivale à clareza. A presente entrega não é uma mera lista de referências; é um florilégio a-crítico construído de maneira coletiva.

Éric Laurent[2] destaca que a demonstração de fazer passar se produz, em nosso discurso, quando se alcança um benefício libidinal, se consegue tocar o Outro a quem se dirige e provocar nele um efeito Ah! Nossa pretensão, não sem pudor, é escutar de vocês essa ressonância da língua, a de vocês, porque entregar flores é um gesto e, como tudo, pode ser mal-entendido: serve para o amor e também para os mortos. É por isso que lhes confessamos nossa maior preocupação: não fazer da bibliografia flores secas.

Mas voltemos a Borges e a seu poema. Ele, antes de tudo, é um leitor, e se jacta disso.[3] Ressalta que um leitor é um homem só, mas acompanhado das mentes mais brilhantes da história. Na Comissão de Bibliografia, assumimos a arriscada tarefa de nos constituirmos em uma comunidade de leitores, levados aos trancos e barrancos por nossos brilhantes autores e, longe de estarmos sozinhos e ao estilo Bourbaki, já não sabíamos quem o havia dito, quem o havia ouvido dizer, mas a todos nós parecia importante.

Este primeiro florilégio Mal-entendido Inconsciente, reúne em pequenos buquês os distintos e contraditórios modos pelos quais o inconsciente entrou no mundo e deu seus primeiros passos.[4] Aparenta ser um conceito transparente; no entanto, o leitor advertido perceberá a lucidez freudiana de encontrar o mal– na língua e a resistência lacaniana frente a toda ilusão de compreensão: quando é tomado por um lado, escapa por outro, abrindo caminho para o parasita linguageiro, que não tardará a ameaçar o ramalhete.

Mas fiquem tranquilos, queridos leitores, tropecem sem mais, pois esta entrega dá permissão à “incoerência” para que as flores encontrem, a seu tempo, seu bem-dizer.

Luciana Varela

“O inconsciente não quer dizer nada, se não quiser dizer que, diga eu o que disser e onde quer que me posicione, mesmo que me posicione bem, eu não sei o que digo”

Lacan, J., O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 42. Lição de 10/2/1971.

“Sonhei que um homem arranca as asas de uma espe. Espe?, fui obrigado a perguntar, o que o Sr. quer dizer com isso? – Ora, o inseto com as listras amarelas no corpo que pode picar. Deve ter sido uma alusão à Gruscha, à pera de listras amarelas. – Então o Sr. quer dizer Wespe [vespa], consegui corrigir. – Chama-se Wespe [vespa]? Eu realmente achava que se chamava espe. (Como muitos outros, ele se valia da sua condição de falante de língua estrangeira para encobrir os atos sintomáticos.) Mas espe sou eu, S. P. (as iniciais de seu nome).”

Freud, S., Da história de uma neurose infantil (caso Homem dos Lobos) 1918. In: Histórias clínicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 734.

“Dizer mais do que se sabe, não saber o que se diz, dizer algo diferente do que se diz, falar para não dizer nada – nada disso está mais no campo freudiano das falhas da língua, que justificam a criação das línguas formais. São propriedades inelimináveis e positivas do ato de falar”.

Miller, J.-A., Teoria de lalíngua. In: A terceira; Teoria de lalíngua. Rio de Janeiro: Zahar, 2022, p. 90.

“Mas a história é a seguinte. Quando era bem pequeno […] ele deve ter feito algo ruim, devido ao qual foi surrado pelo pai. Então o meninote se enraiveceu terrivelmente e soltou imprecações até debaixo dos golpes do pai. Mas, como ainda não sabia xingar, aplicara a este os nomes de objetos que lhe ocorriam, dizendo: ‘Seu lâmpada! Seu lenço! Seu prato!’ etc. O pai, assustado com tal explosão elementar, parou de golpeá-lo e afirmou: ‘Esse menino será ou um grande homem ou um grande criminoso!”

Freud, S., Observações sobre um caso de neurose obsessiva (“O Homem dos ratos”, 1909). In: Obras completas, volume 9. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das letras, 2013, p. 67.

“A análise se distingue, entre tudo que foi produzido até agora de discurso, por enunciar isto, que constitui o osso do meu ensino: que eu falo sem saber. Falo com o meu corpo, e isto, sem saber. Digo, portanto, sempre mais do que sei”

Lacan, J., O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972–1973). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 127. Lição de 15/5/1973.

“Na época em que a criança está aprendendo a manejar o vocabulário de sua língua materna, ela tem grande prazer em ‘experimentar brincando’ […] com esse material, e junta as palavras, sem ligá-las ao significado, para obter um efeito prazeroso do ritmo ou da rima. Esse prazer lhe é gradativamente negado, até que só lhe restem, como permitidas, as conexões de palavras dotadas de sentido.”

Freud, S., O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). Trad. de Fernando Costa Mattos e Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 179.

“Freud, é preciso dizer, sustenta um discurso estranho, o mais contrário à coerência, à consistência de um discurso. O sujeito do discurso não se sabe como sujeito que sustenta o discurso. Que ele não saiba o que diz, ainda passa, sempre se o supriu. Mas o que diz Freud é que ele não sabe quem o diz. […] O saber é coisa que se diz, que é dita. Pois bem, o saber fala por conta própria – eis o inconsciente.”

Lacan, J., O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969–1970). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Trad. de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. p. 73. Lição de 11/2/1970.

“Quase sempre encontro, além disso, a influência perturbadora de algo fora do que se pretendia falar, e o que perturba é ou um único pensamento que permaneceu inconsciente, que se dá a conhecer mediante o lapso […]”

Freud, S., Psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras completas, volume 5. São Paulo: Companhia das Letras, p. 88.

“[…] quem não se entende é o próprio sujeito; e isso é o que significa a associação livre – o auto mal-entendido; e é por esse motivo que a paixão analítica é a paixão pela ignorância”.

Miller, J.-A., (1986-1987) Diagnóstico psicoanalítico y localización subjetiva. En Introducción al método psicoanalítico, Buenos Aires, Paidós, 1997, p. 56. Tradução nossa.

“Não há norma se a única norma da comunicação é o mal-entendido, como disse Lacan. Então, a interpretação entra nessa mesma categoria. Na medida em que a comunicação também é mal-entendido.”

Miller, J.-A., (1995-1996) La fuga del sentido, Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 415. Tradução nossa.

“O inconsciente tem ouvidos e é por onde ele se complica, pelo mal-entendido.”

Miller, J.-A. “O Mal-entendido”, Lacan Elucidado. Palestras no Brasil, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997, p. 27.

“[O sujeito] é algo que nos vem das necessidades de estrutura, de algo humilde, nascido no nível dos mais baixos encontros e de toda a turba falante que nos precede, da estrutura do significante, das línguas faladas de modo balbuciante, tropeçante […]”

Lacan, J., O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 53. Lição de 5/2/1964.

“O mal-entendido já vem de antes. Na medida em que desde antes desse belo legado vocês pertencem, ou melhor, fazem parte da algaravia de seus ascendentes. Não é preciso que vocês mesmos algaraviem. Desde antes, o que os sustenta como inconsciente, ou seja, mal-entendido, se enraíza ali.”

Lacan, J., O mal-entendido. In: Nos confins do seminário. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. p. 88.

“Quem aqui sabe que, já desde o século XV, a slang descobriu a maravilha de substituir, quando oportuno, o I understand you perfectly por I understumble you perfectly? Vou escrevê-lo porque talvez a fonetização lhes tenha permitido evitar a nuance. Esse understumble, intraduzível em francês, incorpora o understand, que quer dizer compreender, o stumble, que significa justamente o tropeço. Compreender é sempre avançar capengando para o mal-entendido.”

Lacan, J., O seminário, livro 10: A angústia (1962–1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 90. Lição de 19/12/1962.

“Interpretar e imaginar que se compreende, não é de modo algum a mesma coisa. É exatamente o contrário. Eu diria mesmo que é na base de uma certa recusa de compreensão que empurramos a porta da compreensão analítica.”

Lacan, J., O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953–1954). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 102. Lição de 24/2/1954.

“Digo, pois, que já nas entrevistas preliminares há uma função essencial do analista, a função do mal-entendido. Às vezes um paciente procura um analista para, finalmente, saber se alguém pode entender o que ele diz. Contudo, não é possível convencer o paciente de nossa capacidade de entender senão através da introdução sistemática do mal-entendido”

Miller, J-A., (1986-1987) Introducción al método psicoanalítico, Buenos Aires, Eolia-Paidós, 1998, p. 55. Tradução nossa.

“A disjunção entre significante e significado é aquela sobre a qual repousa a prática da psicanálise. Não se tem a menor ideia do que para um sujeito quer dizer, no fundo, o que escutamos dele. Para recompor verdadeiramente o significado de um significante falta fazer uma análise […]. Em análise, podemos nos dar conta verdadeiramente do que uma palavra pode querer dizer para alguém”.

Miller, J.-A., (1997) “El psicoanálisis, la ciudad, las comunidades”, Revista Lacaniana de psicoanálisis, n. ° 22, Buenos Aires, Grama, 2017, p. 30. Tradução nossa.

“O que chamamos de inconsciente é algo do qual não há uma boa compreensão, não tem, tampouco o analista, maneira de se entender bem com o inconsciente, não é um amigo leal, um companheiro ao lado do qual alguém pode se sentir cômodo; […] Freud apresentou o inconsciente como algo que sempre trai o sujeito; o lapso, o ato falho são manifestações de traição. O inconsciente é traidor e cada um desconfia do seu”

Miller, J.-A., (1992) “La cura analítica”, Conferencias Porteñas, tomo 2, Buenos Aires, Paidós, 2010, p. 177. Tradução nossa.

“Mas que necessidade pode ter o analista de um ouvido a mais quando às vezes parece ter dois de sobra, ao enveredar a todo vapor pelo mal-entendido fundamental da relação de compreensão? Nós repetimos a nossos alunos: “Abstenham-se de compreender!” e deixem essa categoria nauseante para os senhores Jaspers e consortes. Que um de seus ouvidos ensurdeça, enquanto o outro deve ser aguçado. E é esse que voces devem espichar na escuta. dos sons ou fonemas, das palavras, locuções e frases, sem omitir as pausas, escansões, cortes, períodos e paralelismos, pois é aí que se prepara a literalidade da versão sem a qual a intuição analítica fica sem apoio e sem objeto.”

Lacan, J., (1956) “Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956”, Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, p. 474.

“[Freud] Passava muito tempo escutando, e do que escutava resultava algo paradoxal […], uma leitura. Enquanto escutava as histéricas que ele leu que existia um inconsciente.”

Lacan, J., (1975) “Universidad de Yale, Seminario Kanzer”, Revista Lacaniana de psicoanálisis, n. ° 19 Buenos Aires, Grama, 2015, p. 11. Tradução nossa.

“Isso não quer dizer que a alíngua não constitui, de maneira nenhuma, um patrimônio. É absolutamente certo que é pelo modo como a alíngua foi falada e, também, entendida por fulano ou beltrano, em sua particularidade, que alguma coisa, em seguida, reaparecerá nos sonhos, em todo tipo de tropeço, em todo tipo de formas de dizer. É […] nesse motérialisme que reside a tomada do inconsciente […]”

Lacan, J., (1975) “Conferência em Genebra sobre o sintoma”. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 23, p. 10, dez.1998.

“Esse dizer provém apenas do fato de que o inconsciente, por ser ‘estruturado como uma linguagem’, isto é, como a lalíngua que ele habita, está sujeito à equivocidade pela qual cada uma delas se distingue. Uma língua entre outras não é nada além da integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela.”

Lacan, Jacques. “O aturdito”. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 492.

“Quando se perguntava a um paciente jovem se ele já tinha alguma vez praticado a masturbação, a resposta ouvida seria com certeza: ‘Oh, não, nunca!’ [O na, nie!]”

Freud, S., O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). Trad. de Fernando Costa Mattos e Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 48.

“Quando ela voltou a frisar que a Sra. K. amava o papai apenas porque ele era um homem de posses [ein vermögender Mann], notei, a partir de certas circunstâncias secundárias de sua expressão, as quais aqui omitirei, […] que por detrás daquela frase se escondia seu oposto: o pai era um homem sem posses/impotente [ein unvermögender Mann]. Isso só podia ser entendido sexualmente, a saber: o pai, enquanto homem, não tinha posses, era impotente.”

Freud, S., Análise fragmentária de uma histeria (Caso Dora). In: Histórias clínicas: cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 77.

“O caso que me pareceu mais interessante foi aquele em que um jovem elegeu um certo ‘brilho no nariz’ [Glanz auf der Nase] como condição fetichista. Isso encontrou seu surpreendente esclarecimento no fato de o paciente ter sido criado na Inglaterra, mas depois ter vindo para a Alemanha, onde esqueceu quase que completamente sua língua materna. O fetiche, originado em sua primeira infância, não era para ser lido em alemão, mas em inglês; o ‘brilho no nariz’ era, na realidade, um ‘olhar para o nariz’ [Blick auf die Nase] (glance [inglês] = Blick [alemão]); portanto, o nariz era o fetiche, ao qual, aliás, por sua predileção, ele emprestou [verlieh] aquele brilho particularmente luminoso, que os outros não podiam perceber.”

Freud, S., Fetichismo (1927). In: Neurose, psicose, perversão. Belo Horizonte: Autêntica, 2016, p. 315–316.

“Uma paciente de Tausk, uma moça levada à clínica após uma discussão com o amante, queixou-se de que “seus olhos não estavam direitos, estavam tortos”. Ela mesma explicou o fato, apresentando, em linguagem coerente, uma série de acusações contra o amante. […] um entortador de olhos, […] agora via o mundo com olhos diferentes.
Os comentários da paciente sobre sua observação ininteligível têm o valor de uma análise, pois contêm o equivalente à observação expressa numa forma geralmente compreensível. Lançam luz ao mesmo tempo sobre o significado e sobre a gênese da formação de palavras esquizofrênicas. […] a relação da paciente com o órgão corporal (o olho) arrogou-se a si a representação de todo o conteúdo [dos pensamentos dela]. Aqui a manifestação oral esquizofrênica exibe uma característica hipocondríaca: tornou-se fala do órgão.”

Freud, S. O Inconsciente. (1915) In: ___. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 14. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 226.

“Ao fazer a distinção entre o real propriamente dito e o sentido, encontramos também algo como lalíngua, que deve se distinguir da linguagem. Como Lacan a inventou? Justamente elevou a um grau a mais seu conceito de linguagem e de sua estrutura, levando-o ao nível da futilidade do sentido”.

Miller, J.-A., (2000-2001) El lugar y el lazo, Buenos Aires, Paidós, 2013, p. 134. Tradução nossa.

Responsável: Daniela Fernández (EOL)
Coordenadores: Teresinha Natal Meirelles do Prado (EBP), Luciana Varela (EOL), Patricia Tagle Barton (NEL)

Tradução: Camilla Baratto
Revisão: Jaqueline Vitor

[1] Fernández, D., Texto de apresentação da Comissão de Bibliografia do ENAPOL 2027.
[2] Laurent, E., [Intervenção]. In: J.-A., Miller, Los desencantados del psicoanálisis. Buenos Aires: Paidós, 2026. p. 69. Lição de 05/12/2001.
[3] Borges, J. L., (1952-1972) “Um leitor”, Elogio da Sombra, São Paulo: Editora Globo, 2000.
[4] Lacan, J., (1967-1968) O seminário, Livro 15, O ato psicanalítico. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025, p. 64. Lição de 06/12/1967.