- Entrevista com Agustín Toscano[1] por Miguel López
Primeira pergunta: O convite é para conversar sobre o tema dos laços no cinema que você faz, para além do cunho sociológico e político presente em seus filmes. Em “Los Dueños”, temos na protagonista interpretada por Rosario Bléfari, um papel muito interessante de uma mulher que, a partir de uma série de conflitos com seu parceiro, acaba sentindo uma atração muito forte por um dos peões da fazenda, quase ao modo erotómano, com uma mescla de poder; essa questão de mistura entre classes sociais… você pensa que é algo novo que começamos a ver? A forma como isso foi trabalhado no filme é algo novo no cinema nacional e internacional?
AT: É atrativa a categoria do novo. Eu nunca havia pensado quanta novidade poderia trazer com respeito a esse laço, contudo, na dramaturgia, nos pareceu atraente colocar uma mulher, que em geral nos filmes é o objeto de desejo de um protagonista masculino, que tem esse impulso de avançar muito, e é o jogo clássico do flertar desse cara. Então, nós dissemos: vamos na direção contrária, buscar o incômodo; ela tem mais poder econômico que ele, ela é a chefe e ele o empregado, e depois tudo irá se deturpando. Tudo isso agregava para nós a categoria de um potencial dramático, de modo que não o escolhemos pela sensação de novidade, mas porque estávamos convencidos de que era incômodo. Procuramos fazer com que os personagens conduzissem as coisas pensadas originalmente no plano do improvável, ao terreno do provável. E era o que perseguíamos, gerar essa incomodidade. Então, não o vivíamos como novo, mas sim como potente, pondo mais lenha na fogueira, buscando não intelectualizá-lo. Quer dizer, não é um documentário sobre como os patrões de fazendas abusam de seus empregados; quer dizer, não é realista, mas sim uma ironia ao modo de uma comédia dramática.
Segunda pergunta: No seu filme “El Motoarrebatador” há outra modalidade de vínculo: um casal, em que o cara está diante de condutas delituosas de forma permanente e uma mulher que, diferentemente do que se costuma apresentar em filmes ou séries, a mulher que costuma acompanhar o malfeitor em suas andanças diz: “eu vou até aqui” – e inclusive começa a pensar em outra coisa. Podemos pensar algo do novo, uma vez que aqui, a durabilidade não está garantida; se algo não funciona, outra história começa? O personagem de Antonella, parceira de Miguel.
AT: É interessante a pergunta, assim como em “Los Dueños”, não o coloquei como algo novo, mas intuí que para esse personagem, o chão está sempre quente. Mas sempre pensei para Antonella, nessas meninas que querem que seu filho tenha um pai, que saibam que o tem, mas que ela não vai querer mais nada deste cara. Ela o quer como pai, nada mais; hoje te abro a porta, mas se amanhã não, é não. Aqui não busco trazer uma novidade, mas sim ver de que modo vou tirar mais suco desse drama. Espremer a laranja e espremer mais a laranja. Não pensamos em Antonella como a típica “mulher do submundo”, que em outros filmes sempre está comendo os frutos do bandido ou do valentão. Aqui, tiramos esses privilégios do Miguel, ninguém valoriza o dinheiro que consegue desse modo e ele começa a notar, e algo já está se quebrando nele.
Interessa a mim mostrar em meus filmes, vínculos onde as cartas já estão marcadas, relações que já estão terminadas, como ressacas de festas que já aconteceram e não que estão começando. Diferente daquele cinema mais romântico que o meu, evidentemente, onde se põe muita ênfase na conquista e na forma que as pessoas se conheçem. Aqui é ao contrario: a épica é a desvinculação entre dois que não estavam se dando muito bem e as novas fontes de prazer que estão experimentando. São vínculos desfeitos. Nos próximos filmes que estou escrevendo também se trata disso.
Tradução: Mônica Hage
Revisão: Flávia Leibovitz
[1] Diretor de Cinema – Escreveu e dirigiu “Los Dueños” (Os donos) (2013) e “El Motoarrebatador” (The Snatch Thief) (2018), ambos os filmes premiados no Festival de Cannes.