Fernanda Otoni Brisset

Não se faz análise sem o amor

“Uma psicanálise demanda amar seu inconsciente”[1] por ser o único meio de estabelecer uma relação entre S1 e S2 e fazer rolar a trama simbólica. Cabe ao amor fazer existir o inconsciente como saber, ou seja, o inconsciente transferencial, o sujeito suposto saber, cujo destino, numa análise, será desaparecer junto com “os efeitos de verdade que o sujeito amou.”[2] Um amor fadado ao fracasso! Mas perdido o amor ao saber, ao sentido, ou seja, sem esse amor ao Outro, qual o destino do amor afinal?

Um novo amor é a aposta analítica, mas sem elogio ao romântico e à exaltação, como disse Éric Laurent. É um amor que, uma vez passados os amores com a verdade, “vai romper exatamente com o que se passa nessa questão do amor e do laço ao parceiro”[3]. Trata-se de um amor que prescinde do amor à verdade e do parceiro amoroso para existir. Mas um amor sem Outro não seria ainda mais louco?

Do elogio à loucura

No final de seu ensino, Lacan afirmou: Todo mundo é louco, quer dizer, é delirante. “Temos aí a última bússola lacaniana”[4], não ordenada pelo Nome-do-pai. Miller acentua que, não por acaso, Lacan buscou na obra de Erasmo de Rotterdam a inspiração para enunciar: “Eu, a verdade, falo”, pois o Elogio da loucura começa assim: “É a loucura que está falando”[5]. Chega-se aí quando se verifica a passagem de um regime autoerótico a um regime não-todo, por meio do consentimento à não relação e à contingência. Será esse o lugar a partir de onde, ao final de uma análise, vocifera ou murmura um significante novo, o instante em que Lacan sublinha como fértil à eclosão de um novo amor como signo da mutação no discurso[6]?

 

Do esp d’un laps

Esses significantes novos brotam de um mesmo lugar, sugere Laurent[7]. Brotam do inconsciente real, “no instante onde o sujeito não está lá, e não há, ali, mais ninguém. É o lugar de ninguém”. Laurent lembra que, para Lacan, “aí está a chave de tudo: é delirante!” Quando se está “o mais próximo possível do trou do trauma, pode-se aproximar desse ponto fora do sentido, dessa marca no gozo do sujeito”. Fonte de palavra parente do gozo: motérialité. Réstia de lalangue, “secreção do corpo”.

Ao final de uma análise, cada um apresentará a sua escrita mínima de um delírio íntimo, impossível de dizer, e o que d’isso se enlaça em nós.

Sem poder a isso se apegar, perdidas as volutas do amor primeiro, diria que o amor que surge ao final de uma análise é um amor que brota do esp d’un laps, ou melhor, instante d’un act; um amor que faz sinthoma e, portanto, participa da mutação do laço social; um amor guardião da secreção mais pura do inconsciente real; um amor ao furo e de mais ninguém.


[1] MILLER, J.-A. Uma fantasia. Opção Lacaniana, São Paulo, Ed. Eólia, n. 42, p. 18, fev. 2005.

[2] Apresentação da Soirée Enseignements de la passe, sur le thème «L’inconscient au-delà du sens. Un nouvel amour», que ocorreu em Paris, no dia 21 de maio de 2019. Cf. Quarto, Revue de Psychanalyse, École de la Cause Freudienne, n. 124, p. 14, mars 2020.

[3] MILLER. L’inconscient au-delà du sens. Un nouvel amour. Op. cit.

[4] MILLER, J.-A. Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015. p. 316.

[5] MILLER. Todo el mundo es loco. Op. cit., p. 343.

[6] LACAN, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 23.

[7] Cf. Conversation avec Éric Laurent vers le XIIe Congrès de l’AMP sur le Rêve. 20 de maio de 2020. Disponível em: <https://youtu.be/4kNF2v0pvhY>. As três citações seguintes foram extraídas do vídeo aqui referido.