Do amor repetição ao novo no amor

Se “a análise nos incita a esse lembrete de que não se conhece nenhum amor sem ódio”[1] quer dizer que não estamos de todo nas antípodas do ENAPOL anterior. Com efeito, o amor repetição, narcisista, pulsional, o amor ao ser, à unidade imaginária e ao complemento, com este empuxo a fazer Um de dois, produz sofrimento, gozo, indignação perante esperanças vãs e, às vezes, violência. Isto não cessa de chegar a nossos consultórios.

Com a psicanálise, o amor em sua vertente de repetição produziu no século XX uma nova enfermidade na civilização: a neurose de transferência, não sem este traço genuíno do amor ao analista, como indica Freud. Um novo amado diferente da figura do médico terapeuta. Este amor repetição traz consigo um “não querer saber” do gozo. É a paixão da ignorância entrelaçada à paixão amorosa. Freud a chamou “amor à comodidade” ligada ao desejo de continuar dormindo. Em seu seminário sobre o novo, Miller sustenta que “na psicanálise, tentamos enganar o retorno do mesmo”[2].

Neste X ENAPOL iremos nos aprofundar sobre o novo no amor. No início de uma análise está o amor de transferência com a crença no inconsciente. Ao final surge o novo sob a forma do bem dizer e da invenção onde “o passe é um neologismo, uma nova forma de dizer […] como se estabeleceu uma nova relação com a repetição”[3]. Um witz sancionado não sem o Outro do corpo e dirigido à Escola para transmitir um dizer algo do indizível e incurável no sinthome. Dizer e amor se entrelaçam no ultimíssimo ensino, sendo inclusive o amor uma condição para a existência do saber.

No território do inconsciente real e da primazia do Um-sozinho, do gozo autoerótico, o que se pode dizer do amor? Embora os Uns-sozinhos não façam amizade entre si, “o amor tem esta propriedade de isolar um Um-sozinho”[4], ao mesmo tempo, “o amor é o que poderia fazer mediação entre os uns-sozinhos”[5]. Em que consiste esta mediação em nossa prática; há algo desta mediação na experiência de Escola; no laço entre analistas?

Estar à altura do século XXI implica em se perguntar sobre o novo do amor nas novas modalidades dos laços, nas novas formas de família, de casal e na escolha sexual. Também compartilhar as novas formas linguísticas e expressões locais de dizer o amor. Além disso, implica escutar o que a arte “diz” hoje do amor: a literatura, o cinema e o teatro. O rap e o trap se somam aos cantares do tango e dos boleros que não deixam de nomear as pontes entre o impossível e o amor.

Neste X ENAPOL, compartilharemos nossa prática com os amores loucos, devastadores, erotomaníacos, amores que desencadeiam e outros que enodam, que fazem suplência. Retomaremos nas psicoses, as noções de amor ao delírio, em Freud, e amor morto, em Lacan. No âmbito da psicanálise aplicada, abordaremos os modos de laço nas instituições e os efeitos de levar até elas o discurso analítico.

No terreno sociopolítico encontramos discursos do amor ligados a novas versões do Pai, que às vezes assumem sua face mais odiosa, em nome do amor a Deus, a uma nação e a comunidades de gozo. Neste ponto “a contribuição fundamental da psicanálise ao discurso da política é precisamente a desconfiança no ideal que leva à segregação em nome do amor. Trata-se de manter sempre separados o nome e a causa”[6]. Isto pode contribuir para a renovação da confiança que o novo amor produz no discurso analítico[7] e na psicanálise aplicada no laço social. Além disso, isto será relevante para debater sobre o amor como fator político na extensão do ato analítico à ação lacaniana.

Nos tempos do empuxo à felicidade e do amor-consumo, nesta época do sinthome, “este enganche do sujeito sobre o meio de gozo através do amor é, para Lacan, o que se designa como o remédio para o mal-estar na cultura denunciado por Freud”[8]. Amor lacaniano, amor remédio.

O X ENAPOL é um convite aos analistas de nossas três Escolas para colocar no centro o novo do amor, para “viralizá-lo” e enlaçar-nos nesta virtualidade pandêmica, com seus dizeres em seu registro mais digno, viável, e de condescender ao gozo, preservando seu núcleo indizível.

Alejandro Reinoso (NEL)

Tradução: Ruth Jeunon
Revisão: Paola Salinas


[1] J. Lacan, Seminário XX. Mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p. 122.

[2] J. A. Miller, Perspectivas do Seminário 5 de Lacan, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999, p. 8.

[3] J. A. Miller, op. cit., p. 16.

[4]J. A. Miller, O Ser e o Um, lição de 23 de março de 2011. Inédito.

[5] J. A. Miller, “Uma fantasia”. In: Opção Lacaniana, n° 42. São Paulo, Eolia, janeiro de 2005.

[6] E. Laurent, Honoris causa na Universidade de Córdoba. Discurso pronunciado na Universidade de Córdoba em 2 de dezembro de 2019.

[7] E. Laurent, “¿Un nuevo amor para el siglo?” Conferência ditada nas XX Jornadas Anuais da EOL “La praxis lacaniana”, 10 e 11 de dezembro de 2011 em Buenos Aires.

[8] E. Laurent, “La época del Sinthome”. Discurso pronunciado na Universidade de Buenos Aires em 27 de novembro de 2019.