O amor ao próximo

São Martinho e Salomão[*]

 

Jacques-Alain Miller [†]

O amor e a caridade
Depois do salmão maionese
Desejo e gozo

 

 

Vamos prosseguir com a terceira parte da exposição de Pierre-Gilles Guéguen. Ele tomou como fio condutor as referências de Lacan à obra de Bentham e, em particular, sua teoria das ficções destacada por Ogden e Richards em seus famosos The Meaning of Meaning.

A vantagem dessa escolha é justapor momentos do ensino de Lacan em que as descontinuidades são tão flagrantes quanto as constantes. A referência a Bentham é frequente em Lacan, tratando-se da conexão do conceito de gozo com a categoria do semblante.

 

 

1

Como introdução, direi o que me inspirou a passagem da última apresentação de P.-G. Guéguen sobre o apólogo de São Martinho, cuja referência encontra-se nas páginas 223 e 270 do Seminário 7, A Ética da psicanálise: “Seria conveniente se perguntar qual é o parceiro-sintoma de cada um dos protagonistas nesse apólogo. Do lado do soldado, em referência a A Parte Maldita de Bataille, assim como, através dele, a Mauss e seu ensaio sobre o dom, aquele que dá afirma o seu poder e, sobretudo, sua posição, o que é uma ficção evidente e falsa em relação ao seu ser. Deste modo ele encontra um parceiro no pobre que reflete o seu poder. Do lado do pobre, aquele que não tem exige também que se reconheça não apenas a pobreza e a miséria na qual se encontra, mas igualmente a mentira, a ficção própria ao seu ser pelo simples fato de que partilha, com aquele que dá, a própria ideia do valor de gozo da falta. A castração de São Martinho, com quem ele partilha o temor dessa ameaça, lhe serve como parceiro. Encontramos aí o casal daquele que tem e daquele que não tem, e o dom como a problemática do ter, metonímia do ser”.

Como diz Lacan, esse apólogo diz respeito a um casal, o soldado em seu cavalo e o mendigo, figura eminente da demanda. Eles se distinguem segundo uma hierarquia que pode ser reconduzida ao âmbito do ter, entre aquele que tem e aquele que não tem. O que se passa entre os dois? Para que o ato de São Martinho aconteça, é preciso ainda que o rico e o pobre possam se encontrar, o que hoje não é mais óbvio.

Tomemos o exemplo atual da proibição da mendicância em alguns municípios. Foi preciso um protesto moral para que ela cessasse, pelo menos de virar manchete nos jornais, pois não sabemos o que é isso na prática. Nos Estados Unidos, vemos se desenvolver uma indústria de construção de cidades segregadas. A partir disso, na escolha de uma moradia, dá-se preferência ao investimento em uma casa que faça parte de uma cidade artificial, cercada com arame farpado, onde é preciso mostrar a pata branca para poder entrar. Em alguns países da América Latina, esse tipo de cidade já existia aqui e ali. Pelas últimas notícias, isto teria se tornado uma indústria de massa. Trabalhadores de nível técnico e mesmo operários, ricos somente por ter um trabalho, recorrem à construção desses enclaves. Ali se encontra a vanguarda da segregação, onde a noção daquele que tem se estende muito longe e deixa de fora os desprovidos, constituídos em classe. Essa vontade de segregação também está presente, em seus contornos mais amenos, na questão da imigração. A busca de meios para fixar o pobre em casa para não ter que encontrá-lo aqui constitui o que há de mais avançado na preocupação social em relação a ele.

Nessa história, portanto, o rico e o pobre se encontram. O que se passa? Um dom se efetua. Sublinhemos que aquele que dá mantém sua posição e, além disso, torna-se um santo. O que ele dá exatamente? Uma metade. Esse dom é uma partilha, a ação de São Martinho, que estabelece uma igualdade dos bens no âmbito do ter: um tem o que o outro tem.

Esse apólogo é utilizado de bom grado para ilustrar o amor ao próximo sobre o qual Lacan se interroga, considerando a referência reticente que Freud faz a isto em Mal-estar na civilização. Será que esse apólogo ilustra o amor ao próximo no sentido do Tu amarás teu próximo como a ti mesmo? A ação de São Martinho ilustra esse princípio, como esclarece Lacan, sob a forma particular do Tu não amarás mais do que a ti mesmo. A partilha do manto traduz esse como a ti mesmo de modo quase risível, indicando, manifestamente, um até aqui, mas não mais longe.

Pode-se dizer que se trata de altruísmo? É notável que São Martinho não dá o seu manto, mas, em vez disso, ele o destrói. Não é o tudo para o outro, mas somente a metade. Isto nos lembra o julgamento de Salomão que, ao enunciar a metade do bebê, faz surgir a resposta do amor materno, Entregue-o ao outro, em vez de cortá-lo em dois.

 Os dois apólogos poderiam ser comparados. De um lado, temos dois homens, São Martinho e seu mendigo e, de outro, duas mulheres, duas mães. Em um caso, a questão é um objeto material de circulação comercial, o manto e especialmente seu pano; no outro, esse pequeno ser vivente que acaba de vir ao mundo.

No julgamento de Salomão, um terceiro faz justiça e descobre a verdade pela fala. Ele se serve de seu primeiro julgamento que, de alguma forma, é falso, para fazer surgir a verdade escondida. Nesse momento ele pronuncia o segundo julgamento, o verdadeiro, através do qual reconhece a verdadeira mãe naquela que abre mão de seu direito de propriedade sobre a criança. Esse apólogo do Antigo Testamento compara duas respostas, a do amor e a da inveja. Não encontramos ali a resposta da caridade, termo pelo qual Lacan designa o ato de São Martinho. A resposta da inveja Que o outro não tenha o que eu mesmo não tenho! poderia se aproximar do Destruir, disse ela de Marguerite Duras.

Notemos ainda a rivalidade das mulheres, a mentira, o engodo, a sabedoria do terceiro e, discretamente, uma descida ao horror que inspirou numerosos pintores. Um quadro de Poussin representa esse momento em que o bebê, suspenso por um pé, é ameaçado por aquele que o segura, de ser cortado em dois por um instrumento afiado. É necessário esse assombro para que surja o grito mais puro do amor. O sujeito feminino, sob a forma do Quem não tem, é especialmente valorizado. Ele não se resigna, não implora, mas toma, rouba e mente. Ele também é capaz de dar a resposta do amor que falta ao apólogo de São Martinho no qual, longe dos extremos, ele somente aparece sob a forma da caridade.

No apólogo de Salomão, a fala está em primeiro plano, enquanto no de São Martinho é uma história sem fala. De um lado, temos as astúcias da fala, a mentira e a contradição; de outro, a simplicidade de um fazer. A fala de Salomão é uma astúcia, pois dá uma ordem para ser jogada, e não para ser obedecida. Ela evoca a frase de Hamlet citada por Freud, Com a isca da mentira, fisguei a carpa da verdade.

A comparação permite apreender o que Lacan criticava no apólogo de São Martinho, a saber, a ausência de terceiro. Pelo contrário, a história valoriza o caráter dual, imaginário do altruísmo, de tal forma que aparece como o avesso do egoísmo. O altruísmo é apenas a projeção do egoísmo, no sentido em que, nessa dimensão, o outro é apenas um outro eu-mesmo, tendo como resultado a rivalidade, a competição. Lacan aponta essa tensão através de outro apólogo, o do Campo do Pano de Ouro no qual Francisco I encontra Henrique VIII e, não sem ironia, proclama O que meu irmão quer, eu também o quero. Nessa frase vibra o equívoco do acordo e da luta até a morte.

O acordo é possível no âmbito dos interesses materiais do útil. Ele é representado no apólogo de São Martinho pelo fato de cortar a pêra em dois. Lacan formula assim, na página 224 do Seminário A Ética da psicanálise: “Meu egoísmo se satisfaz extremamente bem com um certo altruísmo, com aquele que se situa no nível do útil”. O exemplo atual da imigração é uma boa ilustração disto. Nosso egoísmo toma esta forma: Desenvolvamos a economia local deles para que fiquem em casa, versão progressista do altruísmo moral contemporâneo.

Passando agora ao valor do útil. O utilitarismo realiza em parte, como diz Lacan, uma subversão da moral tradicional, na medida em que faz surgir os ideais como semblantes ou ficções, e situa o prazer que isto dá como único real. Lacan escande, até mesmo elogia essa matança do ideal, mas assinala, a propósito, o seu limite. Ela consiste no fato de que o utilitarismo mantém o prazer como um bem, e mesmo como um bem absoluto. Este é o sentido que dou à seguinte frase da página 222: “O moralista tradicional, quem quer que seja ele, recai invencivelmente na rotina de persuadir-nos que o prazer é um bem, que a via do bem nos é traçada pelo prazer”.

É preciso entender que Lacan visa os limites do utilitarismo em relação à subversão freudiana. Não está totalmente claro, na sequência do Seminário 7, porque Lacan insiste na oposição entre a moral tradicional, que propõe ideais, e o utilitarismo, que os subverte pelo valor absoluto do prazer. Mas, nessa frase, Bentham encontra-se incluído na tradição porque não questiona o caráter benéfico do prazer: ele não acede à noção, um passo além, do gozo. Vemos aqui a agudez da reflexão de Lacan.

Muito antes de Bentham, o engodo do ideal da moral tradicional foi denunciado. Pensemos em Diógenes e na escola dos cínicos. Por trás do ideal, encontra-se o prazer. Lacan nos convida a prestar atenção ao fundo falso porque não há nada mais enganoso do que aquilo que se descobre em segunda vista. Além disso, ele faz uma nova análise dos sonhos de Freud, não parando em seu primeiro fundo falso. Qual é aqui o fundo falso do fundo falso senão o do Além do princípio do prazer? Bentham é o teórico social do princípio do prazer, enquanto nós estamos, no sentido de Freud, no além do princípio do prazer.

Retomemos a crítica de Lacan ao ato de São Martinho: “disso se fez uma longa história, mas, enfim, é uma simples questão de domesticação, o pano é, por natureza, feito para ser espalhado”, diz ele na página 223, rebaixando assim o ato desnudado pela moral cristã como uma questão de mordomia, baseado simplesmente na escassez do tecido. Ele deixa de lado até a forma do manto, já que o gesto de São Martinho o reduz ao pano e vai além da elegância de vestir um manto completo.

 

Poderíamos também apelar para o dandismo: São Martinho seria um jovem na moda, voltando de seu ato de caridade para ir festejar com seus companheiros; alguém lançaria um Que chique essa metade de manto! e, imediatamente, todo mundo rasgaria o seu. Aliás, certo número de coisas desse gênero aconteceu com Alcebíades, uma espécie de São Martinho, de Brummell do seu tempo, árbitro das elegâncias morais.

Tomando o ato por esta via, chegamos à questão-chave da interpretação, pivô do comentário de Lacan. São Martinho interpreta a demanda silenciosa do mendigo no nível da necessidade, do frio que deve sentir em sua nudez e, de repente, o veste. Não estamos falando de sua bolsa, mas ele poderia também partilhar o conteúdo de sua tigela e isto faria o resto du cœur [1]. A questão é atual, já que nos convidam também, com a força midiática atual, a suprir aquele que não tem, no âmbito das necessidades.

 

 

2

Abre-se um espaço infinito para não tomar a demanda no campo da necessidade, mas implicar nela uma outra satisfação, tema do capítulo V do Seminário Mais, ainda, “A outra satisfação”. O ponto de interrogação colocado por Lacan no apólogo de São Martinho faz surgir a noção da outra satisfação implicada nesse ato. Lacan diz isto de maneira forte na página 224 do Seminário 7: “Mas talvez, para além de precisar vestir-se, mendigava ele outra coisa, que São Martinho o matasse, ou que trepasse com ele”. Paremos um instante nesta sugestão de Lacan. Ele se refere diretamente à definição de homem proposta por Freud em Mal-estar na civilização a partir da agressão que o leva a querer escravizar, gozar, até mesmo matar seu semelhante.

Esta outra satisfação evoca o que está em jogo nos Witz reagrupados por Freud sob a rubrica dos chistes por deslocamento. Se vocês leram livro dele O chiste e sua relação com o inconsciente, conhecem o apólogo que gira em torno do salmão com maionese. Trata-se de uma história judaica, que Freud nos entrega em seus aspectos anedóticos, mas que tem um valor humano universal:

 

 

“Um homem empobrecido toma emprestado vinte e cinco florins de um homem rico que ele conhecia, depois de ter-lhe assegurado, várias vezes, que estava passando necessidade”

 

Temos o mesmo casal: aquele que tem e aquele que não tem. Este último demanda, manifestamente, em nome da necessidade.

 

“No mesmo dia, seu benfeitor [a caridade, como em São Martinho] o encontra no restaurante, instalado diante de um prato de salmão com maionese”

 

Eu não sei se o salmão com maionese parece para vocês o máximo do que se pode obter no restaurante, mas na Viena da época, especialmente no meio judaico, parece ter o valor de uma Festa de Lúculo.

 

 

“O quê! Você pega dinheiro emprestado e, em seguida, você pede salmão com maionese. É para coisas assim que você precisa do meu dinheiro?

– ‘Eu não entendo você’, responde o homem questionado. ‘Quando não tenho dinheiro, eu não posso comer salmão com maionese e, quando tenho dinheiro, eu não devo comer salmão com maionese. Mas quando, diabos, você quer que eu coma salmão com maionese?’”

 

 

Esta história se inscreve muito bem do lado do apólogo de São Martinho. Freud sublinha a lógica da resposta que tem aspecto de um raciocínio. O credor adverte que na situação em que ele se encontra, não tem o direito de pensar em comprar refeições tão suculentas. O bon vivant empobrecido não considera isto e, fazendo como se não tivesse entendido, responde de modo evasivo. Freud valoriza o caráter de desvio da resposta em relação à significação da reprovação. Ele vê nisto um exemplo de deslocamento do acento psíquico para outro tema que não aquele de início. O efeito espirituoso desta história, segundo ele, não reside tanto no material verbal, mas no processo do pensamento. Lacan destaca que ele acontece também no âmbito da palavra e que aí se revela a metonímia de um desejo que não detém à necessidade, mas desliza para além.

Freud realiza o que ele chama de redução, isto é, a explicitação simplória do sentido da história. Ele emprega esse método com os diferentes chistes que são verdadeiramente reduzidos quando não provocam mais o riso. Qual é, então, o enunciado mínimo desta história do salmão com maionese? É: Eu não posso recusar as refeições de que gosto e pouco importa de onde venha o dinheiro para pagá-las.

Freud observa que no momento em que ele dá esta moral da história, isto deixa de ser um chiste para se tornar uma observação cínica. O cinismo indica, segundo Freud, a posição ética daquele que não tem e se delicia com o dinheiro do outro, desviado de seu emprego a serviço da necessidade. Ele reside não apenas no fato de explorar o credor, mas também no prazer de consumir salmão com maionese como um absoluto indiscutível. Fazer do salmão com maionese um direito do homem é dizer novamente que o supérfluo é mais necessário do que o necessário.

Outra história vai no mesmo sentido, mas com valor diferente. Um homem, entregue à bebida, ganha sua vida com aulas particulares em uma cidadezinha. Seu vício descoberto, ele perde a maioria de seus alunos. Um de seus amigos é encarregado de lembrá-lo de uma conduta melhor:

 

“’Sabe’, disse-lhe este, ‘você poderia ter as aulas particulares mais interessantes de toda a cidade se você quisesse parar de beber. Por favor, faça isso.

– Você é um descarado!’, responde o outro, indignado. ‘Eu dou aulas para poder beber; devo parar de beber para ter aulas!’

 

A redução dessa história indica simplesmente que a bebida é o principal de sua existência.

Ainda uma terceira, porque estamos depois das festas!

 

« Um schnorrer [um parasita] vem solicitar ao rico barão, a fim de obter dele um seguro financeiro que lhe permitirá fazer uma viagem a Ostende: os médicos, diz ele, o recomendaram tomar banho de mar para se reestabelecer

“Entendido, eu vou te dar algo para te ajudar”, diz o rico [nós estamos em uma atmosfera de apoio, aquela do meio judaico, globalmente constrangido, perseguido]. Mas você é obrigado a ir exatamente a Ostende, a mais cara de todas as estações balneárias?

– Senhor barão”, retruca o schnorrer, com a intenção de recolocá-lo em seu lugar, “quando se trata de minha saúde, nada é tão caro para mim”. »

 

Em suma, os credores, os doadores querem fazer o bem, mas com a condição de mantê-los no campo da necessidade. Encontrei isto na minha infância. Passeando com um amigo da família, de certa idade, encontramos um mendigo que pediu uma moeda. E este senhor que me acompanhava foi interrogá-lo. Ele não se detém na evidência da necessidade, como São Martinho, e pediu explicações sobre o que ele queria fazer [com a moeda]. O infeliz disse: “para comprar um pedaço de pão”. Nosso amigo respondeu então: “Vamos juntos à padaria” e lhe comprou uma grande baguete. Guardei desta história um profundo mal-estar. E só encontrei a chave ao ler Lacan, especialmente sua dialética da necessidade, da demanda e do desejo. Essa manifestação de caridade fazia surgir seu caráter de controle sobre o outro. Empobrecia-o ainda mais, dando-lhe esmolas dessa maneira, reduzindo o desejo à demanda e à necessidade. Como eu não era grande, esse amigo deve ter pensado que era preciso me dar uma explicação: “Senão, ele compraria algo para beber!”

O ato de caridade de São Martinho é uma degradação, do desejo à demanda, da demanda à necessidade e da enunciação ao enunciado. Trata-se, portanto, em termos lacanianos, de um desconhecimento da metonímia do desejo, no sentido em que satisfazer a necessidade retorna ipso facto a rebaixar o desejo. Esta posição analítica é difícil de sustentar. Pensemos, por exemplo, na famosa frase: Eles não têm pão? Que comam brioche! – exagero porque brioche, eles também não tinham. Lacan desconfia dessa inclinação a satisfazer as necessidades do outro, na página 273 de seu Seminário 7: “O que bem pode ele, apesar disso – digo apesar disso, pois a partir desse momento, sabe-se cada vez menos –, continuar a desejar?”

Enquanto o necessário faltar, vocês têm a ideia do que precisam. Em compensação, uma vez supridas as necessidades, vocês perdem a bússola e perguntam: O que posso desejar? ou O que o outro pode desejar? Não é este o princípio do consumo de luxo, ao qual assistimos em larga escala, em particular durante o período de festas de fim de ano? A abundância dos bens apresentados repercute esta interrogação.

 

 

3

Há outra coisa na crítica do apólogo de São Martinho por Lacan: “Mas, talvez, para além de precisar vestir-se, mendigava ele outra coisa, que São Martinho o matasse, ou que trepasse com ele”. O além da necessidade não tem apenas um nome. Trata-se, sobretudo, do desejo, na medida em que ele visa outra coisa – o salmão com maionese, a brioche, a estação de Ostende – sob a forma do objeto de luxo, objeto marcado por um excesso em relação à necessidade vital. A redução ao estritamente necessário é a essência do cinismo para o qual todo o resto é supérfluo, artifício social. Pensemos em Diógenes, guardando apenas uma caneca para beber e que, ao ver uma criança fazer uma xícara com suas mãos, imediatamente a quebra, dizendo que ainda é demais.

A crítica de Lacan valoriza um outro além da necessidade que não é o desejo, mas o gozo. A outra coisa somente não aparece aí como excesso de prazer, mas como mal. Eis porque eu distinguia esta história de bebida daquela de salmão com maionese. Na bebida, o sujeito se destrói não apenas no âmbito da saúde, mas também de seus meios de subsistência. O além da necessidade se divide aqui em duas partes: desejo e gozo. Percebemos que o desejo, como deslocamento em direção a outra coisa, não vai além do princípio do prazer.

O além do princípio do prazer, tal como Lacan o apresenta em seu Seminário A Ética da psicanálise, não se alcança por um movimento contínuo. É preciso uma ultrapassagem que se oponha à metonímia contínua e horizontal. Lacan sublinha o valor disto com o termo transgressão. Ultrapassando este limite, encontramos outra coisa, diferente do que nos faz rir como o salmão com maionese e a brioche, mas a merda, a sujeira, a porra. Aliás, Lacan traz aliás, outros apólogos na página 225, que dizem respeio aos místicos: “uma Ângela de Folignio bebia com deleite a água na qual acabara de lavar os pés dos leprosos”, “Maria Allacoque comia com não menos recompensas em efusões espirituais, os excrementos de um doente”. Não se trata mais de salmão com maionese!

Lacan acha esse além pueril porque os primeiros objetos encontrados são xixi-cocô. Os objetos pré-genitais colocados em jogo são escondidos pelo universal, já que são os excrementos ou os pés de meu próximo, seja quem for. Por um simples deslocamento de acento, Lacan faz surgir nesse mesmo lugar a perversão: “O alcance convincente desses fatos, seguramente edificantes, vacilaria certamente um pouquinho se os excrementos em questão fossem, por exemplo, os de uma bela moça, ou ainda, se se tratasse de engolir a porra de um atacante da equipe de rúgbi de vocês”. Não é mais o próximo que se visa, mas alguém dotado de certo número de atributos.

Há uma ultrapassagem porque há uma barreira entre prazer e gozo. O próprio prazer faz limite ao gozo; e o desejo, como desejo de outra coisa, doce metonímia, fica aquém. Onde situar esse ti-mesmo no mandamento Amarás teu próximo como a ti mesmo? Ali onde se ama, no campo do narcisismo? Ali onde se permite o luxo, o supérfluo, no campo do desejo?

Amar-se como sujeito do gozo é outra história. Se o cerne de mim mesmo é meu gozo, eu não sou amável. Não é um bem, mas um mal. Lacan se apoia nesta definição do homem dada por Freud em Mal-estar na civilização, na página 47 do texto francês “o homem, com efeito, é tentado a satisfazer no próximo sua agressividade, a explorar seu trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apropriar-se de seus bens, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo” – como diz Lacan, este poderia ser Sade.

Esta definição do homem integra a pulsão de morte e sua conclusão: Eu não posso me amar neste nível, eu não posso me amar como a Coisa. Será que posso amar o outro no que faz o seu gozo e, precisamente, no que ele comporta de mal? Tratando-se do amor do outro, o gozo é um problema.

Deixo a palavra com P.-G. Guéguen para a terceira parte de sua apresentação.

Pierre-Gilles Guéguen — Duas observações me surgiram no curso de sua fala. A primeira diz respeito ao início do Seminário A Transferência, especialmente, a parte dedicada à psicologia do homem rico. Antes de produzir o que ele chama de metáfora do amor, Lacan mostra, de um modo que lembra o comentário do apólogo de São Martinho, que no Banquete Sócrates toma a definição de amor trazida por Pausânias como uma piada de mau gosto.

Se podemos conceber as barreiras do belo e do bem que Lacan evoca no Seminário A Ética como ficções, o julgamento de Salomão, pelo contrário, desnuda as ficções, mostrando que, por detrás delas, um real insiste. A fala interpretativa faz um uso dos semblantes que permite ultrapassá-los.

 

Poderíamos ir mais longe na interpretação da história do salmão com maionese. Talvez não seja acidental comê-lo sendo visto pelo credor, para mostra-lhe que ele é um imbecil. Lacan evoca as repercussões agressivas da caridade. Evidentemente, as histórias engraçadas de Freud não se banham em uma atmosfera de caridade…

P.-G. Guéguen —  e de humanitarice de encomenda[2].

 

Não se trata de esmolas, mas de empréstimos. Não há universal, nem imperativo de caridade. É isto que torna essas histórias engraçadas. A única resposta válida do mendigo àquele que lhe faz caridade seria Patife! Na história do salmão com maionese, este elemento odioso está presente, mas mais velado. A satisfação da tendência agressiva, como diria Freud, faz parte da felicidade de comer o salmão com maionese, sendo visto pelo outro. Por trás dessas refeições, há, no extremo, a pulsão de morte. O salmão com maionese não é a palavra final da história.

 

P.-G. Guéguen — Volto ao cinismo do utilitarismo. Eu dizia que Lacan talvez tivesse utilizado o termo semblante em vez de ficção porque o utilitarismo coloca no mesmo nível o pão e a renda. Ele desenvolve a questão até seus últimos limites, apresentando, de um lado, a barreira do bem e do belo e, de outro, sua ultrapassagem, até penetrar esta zona do entre-duas-mortes. Espera-se aí uma decisão sobre o gozo que se resolve na assunção, ou não, do ser-para-a-morte.

 

Tomemos a questão que você coloca, a respeito de São Martinho e do mendigo: em que medida eles são parceiros-sintoma? Somos tentados a dizer que este apólogo se detém verdadeiramente aquém de sua constituição. A resposta da caridade pela metade do manto volta a dizer que a questão do gozo, recoberta por um véu muito espesso, não será colocada. É isto que o Salomão invisível do apólogo de São Martinho ilustra. Na moral cristã, pode-se contar histórias que, como observa Lacan, estão a um dedo da perversão sem colocar a questão do gozo.

 

7 de janeiro de 1998

 

 

Tradução: Camila Popadiuk
Revisão: Teresinha N. M. Prado

 


 

[*] Miller J.-A. «A orientação lacaniana. O parceiro-sintoma» (1997-1998), curso pronunciado no Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VIII, aula de 7 de janeiro de 1998. Texto estabelecido por Christiane Alberti e Philippe Hellebois para sua publicação em “Les bas-fonds”, Ornicar? 55, 2021. Aula publicada também como capítulo VI de El partenaire-síntoma, Ed. Paidós.

[†] Publicado com a amável autorização de Jacques-Alain Miller. Não relido pelo autor.

[1] N.T.: Restos du coeur é uma associação francesa de utilidade pública que presta assistência voluntária, sobretudo através de refeições gratuitas, às pessoas em situação de pobreza.

[2] N.T. Cf. Lacan, J. “Televisão”. In Outros escritos. RJ, Zahar, 2003, p.533.