Striking Vipers[1]: encontros que prescindem dos corpos.

Black Mirror[2] nos apresenta Striking Vipers (SV), a história de dois amigos que se dedicam a jogos de realidade virtual, em um vínculo consolidado a partir do momento em que os encontros passaram das lutas entre os personagens via artes marciais ao campo da arte erótica e da paixão. Nada disso sem consequências para cada um deles.

J.-A.Miller nos apresenta o sintagma “tecnificação generalizada da existência”[3] para dar conta dos efeitos, nos parlêtres, do avanço da tecnociência, e SV nos permite pensar até que ponto é possível um laço que prescinda dos corpos e de que forma o amor pode ou não servir de defesa à junção tecnologia e pulsão de morte, que o próprio Miller adverte atualizando a hipótese de Lacan dos gadgets descontrolados[4][5].

Como sustenta Mauricio Tarrab[6], o corpo de que falamos em psicanálise é aquele profundamente marcado pelo significante, ou seja, pelo Outro. De SV se deduz que os efeitos no nível do corpo deste experimentar na “realidade”, não correspondem ao que era gerado a partir da virtualidade. Tópico para continuar investigando.

Por Miguel López (EOL. IOM Tucumán)

Tradução: Ruth Jeunon
Revisão: Renata Martínez


[1] Episódio 1 da 5a temporada de Black Mirror.

[2] Série de TV britânica.

[3] Miller, J. A. (2008). El carnaval de los miedos. Blog de la Escuela Lacaniana de Psicoanálisis: blog.elp.org.es. https://elp.org.es/el_carnaval_de_los_miedos_por_jacques_al/

[4] Postulado de Lacan esboçado em A Terceira (1974).

[5] N.T: Na tradução ao português o termo utilizado é bugiganga. Cf. Lacan, J. A terceira, Opção lacaniana, n 62, dez de 2001. São Paulo, Ed, Eolia, dezembro de 2011.

[6] Tarrab, M. “Notas sobre el cuerpo”. Conferencia pronunciada na ACEP (Mendoza), 2002.