Octavio Paz – poeta e ensaísta mexicano – em seu livro “O arco e a lira” precisa uma conjunção: “Amor e poesia”. Assinala que nela pulsa a nostalgia de um estado anterior como condição original de uma unidade primordial, da qual fomos separados e à qual regressamos – uma e outra vez – àquilo que fomos, não sem antecipar o que seremos. É por isso que cada poema fala desse amor que não cessa de não se escrever e, ainda que sofrido ou sublime, põe em marcha o desejo do sujeito que possibilita que não tudo[1] opere sob a pulsão de morte.

“Não existe o poético em si”, indica Octavio Paz e adverte que a angústia, a exaltação amorosa, a alegria ou o entusiasmo, não são estados poéticos em si. São situações extremas que fazem com que “a linguagem morta de todo dia” desmorone, e advenham como soluções possíveis o silêncio ou a imagem como criação. Agrega que “criamos para nomear o que não tem nome e dizer o que é indizível”, instituir com palavras o que antes apenas existia como ameaça, vazio e caos. É pela condição perpetuamente criadora da poesia, com seu duplo efeito de sentido e de furo, que Miller localiza, como insígnia do Seminário 24 de Lacan, que “só a poesia permite a interpretação”, indicação precisa para uma prática orientada pelo real.

Pablo Carbone, poeta boliviano, adianta em seu poema “Poetas del salón o meretrices del verso”, que “a poesia é tato e orifício, explosão brutal, chuva queixosa; o restante é ruído e desfile, fiapos do divã. Em uma época esgarçada, de bordas desgastadas e de fios soltos, na qual o amor se vê afetado em seu valor pelo discurso capitalista e o das neurociências, acentuando o empuxo a velar sua impossibilidade de complementariedade, Miller nos convoca a “um esforço de poesia”, a “resistir ao império massificante da utilidade direta” e evitar, como no poema citado, “morrer de susto, ou engasgado, de tanto caminhar sobre o espelho.”

Alejandra Hornos (Membro da NEL e da AMP)

Tradução: Monica Hage
Revisão: Paola Salinas


Referencias Bibliográficas

Carbone, Pablo. Pasaje al diván, La Paz, Editorial 3600, 2019.

Paz, Octavio. “O arco e a lira”. Rio de Janeiro, Nova fronteira, 1982. Pg. 204 pg. (todas as citações são da mesma página).

Miller, Jacques Alain “El ultimísimo Lacan”. Bs.As., Paidós, 2014.

Miller, Jacques Alain “Un esfuerzo de poesía”. Bs.As., Paidós, 2016.

[1] Em espanhol cabe o jogo de palavras com o não todo.