“Uma Beleza que me aconteceu,
esfregando a pele de ouro marrom
do seu corpo contra a meu”
.

Tigresa, CAETANO VELOSO,
COM GILBERTO E IVETE SANGALO

No Seminário 20, ao final, Lacan acentua a distinção entre o aspecto contingente e o aspecto necessário no amor. Lacan coloca que “o deslocamento da negação, do para de não se inscrever ao não para de se escrever, da contingência à necessidade, é aí que o ponto de suspensão a que se agarra todo amor”[1].

A indicação de Lacan permite localizar os momentos da contingência que se molda nos primeiros tempos do laço amoroso e que logo se substituí pelo necessário da “existência do inconsciente”[2] que faz “o destino e também o drama do amor”[3]. Podemos acrescentar que esta contingência, que se dá a partir de um encontro ao acaso, pode aparecer em alguns casos como um acontecimento de corpo. Acontecimento que força a colocar palavras naquilo que não tem nome. Este acontecimento de corpo se enquadra entre o impossível de escrever da relação sexual e a casualidade de um encontro contingente que deixa marca para determinado sujeito. Este laço entre o impossível e o contingente pode se tornar único na história de um sujeito.

Pois bem, quando alguém consegue transpor este acontecimento ao campo da palavra, o amor permite passar ao campo do Outro um gozo indecifrável e inominável. Essa função do amor é a que J-A Miller destaca em seu curso Partenaire-sintoma[4], quando nos propõe uma “revalorização do amor”[5]. Trata-se do amor que cumpre a função de permitir metabolizar um gozo (do UM) no campo do Outro.

Neste ponto me pergunto: como distinguir um acontecimento de corpo que tem como destino o amor, daquele que tem como destino o sintoma? Como distinguir um acontecimento de corpo traumático do acontecimento propriamente amoroso? Ou, seria preciso pensar em um sintoma amoroso ou em um amor sintomático? Perguntas que talvez o trabalho de elaboração coletiva no ENAPOL nos permita ir clareando.

Fabián Naparstek (Buenos Aires, EOL)

Tradução: Cinthia Busato
Revisão: Paola Salinas


[1] Lacan, J., O seminário, livro 20, Mais, ainda, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed,1985, pág. 199.

[2] Id. Ibid. pg 199.

[3] Id. Ibid. pg 199

[4]Miller, J.-A. : El partenaire-síntoma, Buenos Aires, Paidós, 2008

[5] Id. Ibid. pág. 147.