Ruth Gorenberg
Recebo, da Comissão de Arte e Cultura do X ENAPOL, o convite para localizar alguns pontos de ressonância entre a psicanálise e a música, a respeito do tema do amor.
A pergunta me remete a um dos argumentos do ENAPOL em que A. Reinoso situa, por um lado, o “amor repetição” solidário à “unidade imaginária” junto a uma pergunta: a que conduz uma análise, senão a articular o bem-dizer com o amor? Poderíamos acrescentar: o amor de hoje, já não tão amarrado ao ideal romântico … Um amor mais «quebrado», mais ameaçado?
Se, tal como propõe Jacques-Alain Miller em Uma fantasia, “o amor é isso que pode fazer mediação entre os uns sozinhos”, como não ressoar com o cantar de Sara Hebe, em seu álbum La hija del loco?
Ela está “desesperada” e ainda diz: «agora eu toco no meupaís / myspace / maispeice[1]«; um «soar» que abre um espaço próprio para inventar e acreditar (embora não acredite mais em quase nada) em seu parceiro e em sua parceira, para não desesperar.
[1] N.T.: Sara faz um jogo com a homofonia, em espanhol, entre «mi país» e a plataforma de divulgação de músicas MySpace («maispeice»), muito utilizada há onze anos, na época do lançamento da música – então hospedada no MySpace e, agora, no YouTube.
Estou desesperada
imagino um futuro e vejo que nada me espera,
olho ao meu redor, vejo a terra devastada,
gasta, amarrada, toda quebrada, tão maltratada
(Me tratam como lixo!)
Estou desesperada
seguirei igual, sempre tudo ou nada
o desespero da traição é o motor da minha máquina,
que voa e nada
Estou desesperada
olhando para ver se ele chega e me desespero porque sei que não sou esperada
não há prova superada
não há boa nova, nem fada
há gente enganada, amada e odiada
uma mente danificada
não tem retorno, esse transtorno
tornou-se eterno
estou ferrada
estou desesperada
estou desesperada
olho ao meu redor e vejo uma terra devastada
Estou desesperada
gravar aqui com o Jota, isso foi o que restou
aprendendo que aquele que recebia era aquele que dava
andava caminhando com uma mochila pesada
vendo onde ficar
(x2)
O lugar para começar meu sentimento encurralado,
procurando um caminho, algo melhor do que o que me davam
recuperando o que me roubavam
Vão e vêm como moedas
os problemas que me desesperam
estava percorrendo meu país
agora eu toco no maispeice (myspace?)
combinando o laranja com cor de milho
para os pombos
da planície à colina
De Barracas a Lomas
isso é o máximo
Mas voltarei a pensar e a me desesperar
Tenho que aguentar
e voltar a cantar
essa música para não desesperar
não vou esperar
isso não tem sentido
sei que tenho que ativar e inventar
um novo sistema para recomeçar
arrancar os problemas pela raiz
e assim, sem problemas
para não, para não desesperar
(ainda que…)
estou desesperada
gravar aqui com o Jota, isso foi o que restou
aprendendo que aquele que recebia era aquele que dava
andava caminhando com uma mochila pesada
Vendo onde ficar
(x2)
está tudo pensado, estás desesperado
por não ter ninguém, por não ser abraçado
desiludido, em estado desabitado
por esperar de alguém, algo que não chegou
desesperada, desesperançada
já não acredito em quase, quase nada
então, acredito
acredito nos meus amigos, acredito nas minhas amigas
no meu parceiro, na minha parceira
a única maneira, acreditar para não desesperar
acreditar para não estourar
é assim, acredite que você verá, você verá
Sa-sa-Sara vai te contar
estou desesperada
gravar aqui com o Jota, isso foi o que restou
aprendendo que aquele que recebia era aquele que dava
andava caminhando com uma mochila pesada
vendo onde ficar
(x4)
Tradução: Gabriela Malvezzi
Revisão: Glacy Gorsky e Renata Martinez