A identidade sexual depende de uma identificação, de um semblante. Permite manejar, bem ou mal, o corpo que se habita, não necessariamente com as pulsões parciais, cujo sentido sexual depende da função fálica. A sexuação, distinta da identificação, é um processo do qual advém um homem ou uma mulher de nuances, no final das contas, variáveis – inclusive em um mesmo sujeito ao longo de sua vida, de acordo com o modo como ele se situe perante a impossibilidade e opere com a inconsistência, entre o não e o vazio. Daqui em diante, qualquer arranjo é possível, em se tratando da parceria amorosa.

O conflito de M. consiste em se sentir impulsionado a ser o suporte de todas as mulheres. Ao mesmo tempo, gosta dos homens “viris”, dos quais espera o dom do falo, mas não pode amá-los. Assim, ele se vê impossibilitado de estabelecer uma relação amorosa com quase ninguém pois, se alguém o ama, ele se localiza como aquele que deve dar suporte e desaparece no encontro. O impasse de M. se resolve quando, em um segundo tempo, consegue se arranjar com o feminino nele, lido como aquilo que, a seu próprio modo, o retira da demanda fálica na qual se enrosca. Um diálogo com as mulheres e com os homens em posição feminina (independentemente de suas identidades sexuais) o vivifica. Dar lugar ao feminino em si mesmo, no sentido de não pretender estar sempre à altura de toda demanda, deixar vazio o espaço da resposta, lhe permitirá trilhar seu caminho. Por outro lado, este não é um arranjo incomum entre certos homossexuais refinados.

Vemos, em outros casos, o surgimento das chamadas relações de “sexo afetivo”, denominação que indica que o encontro sexual não se reduz ao uso do corpo do outro, uma vez que se cultiva o afeto, mas sem um projeto comum. Às vezes acontece porque não há a certeza da paixão. É curioso como esta denominação apazigua algumas mulheres, seja porque evita o compromisso, seja porque limita a devastação da demanda de amor: dá lugar a uma relação que, de outra maneira, permaneceria na indeterminação. No entanto, não há escolha sem decisão que a acompanhe e esta pode ser variada. Como assinala M.-H. Brousse: “Lacan fazia distinção entre o amor imaginário, o simbólico e o real. O primeiro é a flechada, onde o outro é o que menos importa porque ele é algo da nossa imaginação; o simbólico era, para Freud, o amor ao pai; e, depois está o amor real, que é o amor sem piedade. É um amor que não busca reciprocidade e que não se engana; um conhece os defeitos do outro e ainda assim o quer”[1].

Finalmente, podemos recordar, também, o «ser a três» que M. Duras forja em sua vida. Em qualquer caso, amor, desejo e gozo se entrelaçam de maneira que não podem ser lidos sem fazer o luto dos ideais que saturam o furo da alteridade radical.

Marita Hamann (NEL Lima – AMP)

 

Tradução: Gabriela Malvezzi do Amaral
Revisão: Paola Salinas


[1] Brousse, M.- H.; El amor real es el amor sin piedad, 2012, http://www.lavozdegalicia.es/noticia/sociedad/2012/11/10/amor-real-amor-piedad/0003_201211G10P29991.htm (tradução livre)