Como o amor se manifesta no processo criativo

 

Entrevista com Sabrina Castillo Gallusser , realizada por Lorena Greñas Rosillo (NEL-AMP)

Meu nome é Sabrina Castillo Gallusser. Sou coreógrafa da Companhia Momentum de Dança Contemporânea e diretora do Centro de Dança e Investigação do Movimento da Universidade Rafael Landívar, a Universidade Jesuíta da Guatemala.

Hoje vou falar sobre como o amor se manifesta no processo criativo. A complexidade do amor pode ser um tema, por exemplo, de alguma dança, de uma pintura ou de uma obra de teatro. Todavia, temos que lembrar que a arte é sumamente específica. Ou seja, falar do amor de maneira abstrata na arte é quase estranho porque, antes, apresenta-se um tipo de relação, um tipo de amor, um tipo de laço com todas as suas faces e todas as suas especificidades.   

De modo geral, não tratei notadamente o tema do amor em minhas danças, mas me dei conta de que os laços entre as e os bailarinos sempre aparecem como que subversivamente. Quando comecei a fazer coreografias, sentia um forte impulso para criar. Isto me inclinava mais em direção a pensar na composição da dança. Mais tarde comecei a me dar conta de que os problemas, as alianças, os afetos, as rivalidades se tornavam também histórias sutis dentro das danças. Por exemplo, se duas pessoas eram muito próximas talvez as escolhia, sem me dar conta, para uma parte da dança ou alguém que naqueles dias estivesse relutante em fazer algo, aparecia menos. As danças contam a história do que acontece nessa interação que é o processo criativo. Em outras palavras, os laços entre as e os integrantes aparecem na dança além do tema da obra.  

Para fazer a coreografia, precisamos buscar o que chamamos frases coreográficas. Estas são séries de movimentos que têm um início, um final e que, também, têm um sentido. É algo como as frases com que falamos. Todas juntas vão formando uma conversa. Ou as frases escritas formam um ensaio.

Acredito que, como coreógrafa, estou sempre atenta aos movimentos das pessoas que me rodeiam, na rua, no trabalho, em minha família. Todas essas observações podem ser material para uma dança.

Como coreógrafa, me converto quase em um meio, uma passagem em que se tem a sensação de que é a própria dança que vai tomando as decisões. No processo criativo me sinto como que submergida em um mundo onde parece que certos movimentos são como ímãs que atraem uns e repelem outros. E, não só isso, além do mais, parece que insistem em mostrar o que pertence à obra e o que não.  

Me parece que ser coreógrafa se resume em ter a capacidade de escutar essa obra que vai se criando, vai nascendo.

 

Tradução: Ruskaya Maia

Revisão: Renata Martinez