Entrevista a Marina Mariasch[1]

Polis amor: _ O que você pode nos dizer a partir deste notável e condensado parágrafo de seu romance?

“Nas parcerias o essencial está oculto e deve permanecer assim para os principais interessados. A roupa suja constitui um instrumento de investigação o qual permite que se infiltre nas dobras profundas da trama conjugal. Está presente em todos os lugares, a cada instante, colada no casal como uma segunda pele. É uma memória do papel feminino modificado pela ideia de igualdade”[2].

Marina Mariasch: Acredito que há algo da ordem do mistério tanto no casamento como no amor, ou na ordem da parceria. “(…) E é bom que esse mistério pulse para que isso (o amor) aconteça”.

O tema da roupa suja tem a ver com como o casamento institucionaliza o casal e há um circuito, uma rotina que organiza, e o circuito da roupa suja e da roupa limpa, que começa e termina e volta a começar, de forma recorrente e repetitiva, pareceu-me interessante como símbolo de algo que está aí presente todo o tempo na vida matrimonial. E como ainda as tarefas de cuidado recaem sobre o papel feminino. Mesmo que se tenha avançado muito sobre a divisão de tarefas, isso continua permanecendo do lado da mulher. Ocupar-se da roupa, de que as crianças se vistam e que tenham a roupa adequada, os uniformes do colégio, os aventais. Pareceu-me interessante seguir esse circuito para investigar essas relações… e suas dobras.

O “que deve permanecer oculto” parece uma ordem ou um princípio categórico…, mas acredito que, um pouco, sim, há algo que não pode, não deve, não é necessário desvelar e que nunca acabamos de conhecer o outro e é bom que seja assim.

Tradução: Ruscaya Maia
Revisão: Glacy Gonzales Gorski


[1] Marina Mariasch nasceu em Buenos Aires em 1973. É poetisa, escritora, jornalista e tradutora, e ministra workshops que chama de «anti-workshop». Publicou os livros Coming atrações (Siesta, 1997), XXX (Siesta, 2001), Tigre y león (Siesta, 2005), O ziguezague das instituições (Vox, 2008) e O casamento (Bajo la luna, 2011).

[2]  O matrimónio (2011). Editorial Bajo Luna.