Ana María Valle (NEL)

“I´m not looking for The One; I am The One”. Essa é a afirmação de uma mulher que decidiu se casar com ela mesma. Esse fato não é uma exceção ou um caso isolado. Em diferentes partes do mundo como Japão, Taiwan, Canadá, Estados Unidos, Itália e outros lugares do mundo, sujeitos, principalmente mulheres, decidiram contrair matrimônio consigo mesmas, prática que se denominou “sologamia” ou, em inglês, “solo weeding”. Ao adentrarmos um pouco em cada uma das histórias, leem-se discursos que dão conta do que Miller afirma em seu texto A teoria do parceiro em relação ao gozo: “sendo sua forma contemporânea funcionalmente atraída por seu status autístico”.[1]

Laura Mesi, uma mulher italiana instrutora de fitness expressa: “Você pode ter um conto de fadas sem príncipe. Eu disse aos meus amigos e familiares que se não encontrasse minha alma gêmea aos 40 anos, me casaria comigo mesma”. O que levou a cabo depois de fracassar em uma relação de doze anos. Outra mulher, americana, envia seus convites de casamento com um “dito inspirador”:A viagem de nos apaixonarmos por nós mesmos é a viagem mais fundamental que empreendemos em nossas vidas”. Num terceiro caso, uma mulher realiza, na cerimônia de seu casamento, os votos matrimoniais frente a um espelho. Em cada uma das histórias, os sujeitos tomam como o dia mais importante de suas vidas essa união consigo mesmos.

O mercado participa disso colocando em marcha essa modalidade de gozo onde o sujeito fica como que devoto de si mesmo, não querendo saber da não relação sexual e dos labirintos do amor. Existem diferentes sites na web que oferecem seus serviços para realizar o dito casamento, uma delas é Married Yourself Vancouver que tem por lema: “Ser solteiro é o novo normal. Celebre seu status!”. A página I Married Me e a agência de viagens japonesa Cerca Travel oferecem pacotes que incluem Wedding Planner, Self Wedding Kit, aliança de compromisso, lua de mel, sessões fotográficas, viagem em limusine e uma grande variedade de produtos para consumir e reafirmar que o melhor complemento é Si mesmo.

Neste amor narcisista onde o sujeito se basta e completa a si mesmo, onde aparece o registro da castração? Com que parceiro um sujeito que se casa consigo mesmo joga a partida?

“I’m not looking for The One; I am The One”, o objeto perdido, já não é necessário ir buscá-lo no campo do Outro…

Tradução: Ruskaya Maia

Revisão: Paola Salinas


[1]Miller, Jacques-Alain, A teoria do parceiro. In: Os circuitos do desejo na vida e na análise. Escola Brasileira de Psicanálise. Rio de Janeiro, 2000. P. 173.