Informação sobre o filme:

  • Título: Deixe a luz do sol entrar (Título original: Un beau soleil intérieur)
  • Ano: 2017
  • Diretora: Claire Denis
  • País: França
  • Baseado em “Fragmentos de um discurso amoroso” de Roland Barthes

 

“Tenho o desejo de ter um amor. Um amor verdadeiro”, são as palavras de Isabelle, a protagonista de “Deixe a luz do sol entrar”[i]. Se ficamos com a primeira parte do enunciado temos o tema que atravessa o filme em sua totalidade: o desejo de “um” amor.

Na época da decadência da exceção, do Não, de sua iminente extinção, é justamente a possibilidade deste “um”, deste ao menos um[ii] como diria Lacan, o que tem como efeito a dificuldade do “exercício” de um amor. É como diz Indart: “…não há maneira de exercer o amor, não há maneira de exercê-lo de um modo útil, possível, mais ou menos viável”[iii]. Na época da ausência do Nome do Pai, de sua monetização[1] pela via do Não; é inviável na época da “ordem de ferro”.

“Estou por um fio” diz ainda Isabelle, que parece encontrar-se na borda de um abismo, sempre triste e melancólica, com um desassossego e uma desorientação que a fazem ir de uma relação à outra; personagens masculinos magistralmente construídos que refletem essa geração que Lacan previa no seminário 4, a de homens que esperam que as mulheres lhes abaixem as calças.

Na época do poliamor, Isabelle parece ser um dos últimos personagens em busca de Um amor.

O filme mostra, do início ao fim, que não se trata de uma história de amor com sua consequente decepção, mas que o que está em jogo é a dificuldade em narrar uma história de amor; não existe hostel de amor[2] que permita ao gozo condescender ao desejo.

https://www.youtube.com/watch?v=0LLBAAmXecs

Ricardo Torrejón Morales | NEL – AMP

Tradução: Cristiana Gallo
Revisão: Marcia Zucchi


NOTAS

[1] N.T.: amonedamiento, no original.

[2] N.T.: Popularmente conhecido no Brasil, como Motel.

[i]Claire Denis, Deixe a luz do sol entrar. 2017. Espanhol: Un bello sol interior. Titulo original: Un beau soleil intérieur

[ii]Lacan, J. O seminário, livro 18, De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2009, p. 134

[iii]Indart, Juan Carlos, Sobre el Ideal y el ser nombrado para. Bs. As.: UNSAM EDITA, 2019, p. 31