The Wire | HBO: 2002-2008
Joyce Carol Oates (2020) dedica um comentário à obra de Carson McCullers. Sem apelar para a sátira ou para a comédia grotesca, McCullers distingue-se de suas contemporâneas adotando uma concepção do trans como combustível do desejo humano e do amor como “uma experiência entre duas pessoas” (pág. 32).
Em sua conferência em Baltimore, Lacan (1979) se refere ao número dois em relação ao laço amoroso. Não se trata do dois que deriva da soma de um mais um senão do dois como unidade. A atormentada relação de McCullers com James Reeves – que precipitou o final de ambos – ilustraria de maneira trágica as considerações lacanianas sobre este amor: “depois de um tempo acaba, depois destes dois não há ninguém (pág. 191)”.
O mesmo não acontece com a cidade. Por implicar um laço que não se reduz ao dois, a polis poderia servir para pensar além do amor como unidade. Em El declive del hombre público, Richard Sennet (2011) define a cidade com uma frase que poderia orientar para esse mais além: “um meio de estranhos cujas vidas se tocam” (pág. 54).
Nada que se refira ao homem é alheio à cidade (Chueca Goitia, 1977). Nessa dimensão também está o ponto de impossibilidade que a cidade coloca para a reflexão. Diante dessa dificuldade, as séries de TV oferecem uma possibilidade inédita. Hoje, são um dos objetos da cultura de massa que interrogam com mais intensidade a polis-amor. Muitas o fazem no nível de seus impasses e soluções. The Wire, “uma série que não faz série com as séries” (Willington em Duarte, 2020, pág. 13) faz desse real que implica o laço com outro o combustível de suas histórias. Seu criador o coloca nesses termos:
… nossas cidades – ou esses lugares de nossas cidades aos quais, a maioria de nós não se atreve a ir – são recipientes que contêm as contradições mais obscuras e a mais crua competição que se oculta na forma sob a qual convivemos, ou não conseguimos conviver (Simon, 2013, pág. 3)
Nesse laço e seus atritos talvez encontremos, ao mesmo tempo, novas versões do amor e da cidade fora da ilusão “love plus unity!” que Lacan descreve em sua conferência em Baltimore, a cidade que The Wire pôs em cena.
Juan Pablo Duarte (CIEC, Córdoba)
Tradução: Ruscaya Maia
Revisão: Renata Martinez
Referencias
- Chueca Goitia, F. (1977). Breve historia del urbanismo. Madrid: Alianza.
- Duarte, J. (2020). The wire. La serie-síntoma. Córdoba: Editorial Universitaria.
- Lacan, J. (1979). Of Structure as an Inmixing of an Otherness Prerequisite to Any Subject Whatever. En Macksey, R., & Donato, E., The Structuralist Controversy The Languages of Criticism and the Sciences of Man (págs. 186-200). Baltimore, Maryland: The Johns Hopkins University Press.
- Oates, J. (2020). La poeta de lo raro. Review. Revista de libros, 32-33. Tradução livre.
- Sennett, R. (2011). El declive del hombre público. Barcelona: Anagrama. Tradução livre.
- Simon. (2013). Prólogo a The Wire. Toda la verdad. En R. Álvarez, The Wire. Toda la verdad (págs. 2-36). Barcelona: Principal de los libros. Tradução livre.