Um claro efeito das mutações do laço social na contemporaneidade dirá respeito, como podemos constatar no Brasil atual (mas também em diversas tendências da extrema direita hoje no mundo), a um retorno da religião. No Brasil, no campo católico, há rígidas tendências de inspiração tomista que tentam se impor no corpo da igreja católica e, no protestantismo, um neopentecostalismo que ataca sistematicamente tudo que lhes possa parecer “moderno”. Será em sua polêmica com o escritor modernista Bernard Shaw[i] que o escritor católico de inspiração tomista G. K. Chesterton responderá àquele escritor que afirmara que “a única regra de ouro é que não há regra de ouro” que, em não havendo mais regra de ouro, haverá uma “regra de ferro”. Parece-me ser referido a esse debate que Lacan tomará os termos que apresenta no Seminário 21, Les non-dupes errent (inédito), a propósito da ordem de ferro. Ali, mais dura do que uma ordem referida no Nome-do-Pai (uma regra de ouro), será uma lei de ferro, de uma ferocidade e rigidez tremendas, que se instalaria, justamente, onde tal “regra de ouro” não operasse mais. Gostaria de encerrar essas breves considerações tomando uma passagem de Milller[ii] onde ele nos dirá que: “É muito legítimo estimar que, se se pudesse voltar, os ideólogos de São Tomás de Aquino nos defenderiam disso” (no caso, a legalização do casamento para todos, claramente, desse ponto de vista, ferindo uma “regra de ouro” da igreja). “Mas” prossegue ali Miller “o retorno à Idade Média não me parece possível”.
O retorno da religião ao qual me referi, portanto, no início dessas breves notas não parece estar então sustentado no Nome-do-Pai. Ele parecerá se situar, paradoxalmente, muito mais ao lado de uma “ordem de ferro”, uma vez que tenta implantar o que “não é mais possível”. Aos analistas, como visa o X ENAPOL, interessa-nos manter uma abertura atenta às modalidades contemporâneas do ser e do amor.
Sérgio Castro (EBP – AMP)
[i] Chesterton, G.K. Hereges, Ecclesiae, São Paulo, 2014. p.75
[ii] Miller, J.A. Feminismos: Variaciones , controvérsias. EOL/ grama. Buenos Aires 2018, p. 38.