Transparent é uma série produzida pela Amazon, com uma temática impensável em outro tempo, distante dos Simpsons e mais distante ainda da família Ingals.
Mort, um professor aposentado de 68 anos, confessa a seus filhos que sempre se sentiu mulher e quer que comecem a chamá-lo de Maura. Não é uma questão sexual, mas uma questão de identidade. Não quer estar com outros homens porque continua gostando de mulheres. Quer ser aceito por sua condição transexual. É Maura e não Mort.
Trata-se definitivamente de um homem que não quer carregar mais seu nome de homem, de um pai que já não é pai. Suas filhas começam a chamá-lo de “ma-pa”, um pai-mãe, uma ambiguidade. Uma nova forma de nomear o que acontece.
Lacan coloca que o ser sexuado se autoriza de si mesmo, que um sujeito anatomicamente homem pode ocupar a posição feminina e vice-versa. Estas ideias abrem a porta à concepção dos sujeitos trans como autênticos homens e mulheres cujas posições sexuadas não coincidem com seus corpos e isso é exatamente a colocação central desta série. No universo trans se reivindica a ambiguidade, já não há mais homem ou mulher.
A problemática que se coloca em Transparent é inovadora nas séries de ficção e propõe um tema atual sobre a sociedade em que vivemos, a problemática da identidade. A séria não gira em torno das identificações, como poderíamos pensar nos programas televisivos anteriormente citados, mas lida diretamente com a busca da identidade.
Como propõe o psicanalista Jacques-Alain. Miller, estamos na época da saída de cena do pai tal como o conhecíamos: o pai da sociedade patriarcal.
Jorge Bafico (GLM – EOL)
Tradução: Cinthia Busato
Revisão: Ruth Jeunon