Como se depositam as marcas de gozo?
Valéria Ferranti
Sabemos que o léxico da psicanálise se vale da língua corrente, dos termos cotidianos, das palavras comuns, então buscar o sentido que os significantes insuportável, infância e marcas têm para nós, na nossa língua compartilhada, é fundamental. Então, gostei muito da escolha que o grupo de trabalho fez e , para nossa conversa hoje escolhi sublinhar o significante marcas.
Lemos, na contra-capa do Escritos, “É preciso haver lido essa coletânea, e em todo a sua extensão, para perceber que nela prossegue um único debate, sempre o mesmo, o qual mesmo parecendo marcar época, pode ser visto como o debate das Luzes.” Portanto a psicanálise está inserida no debate das Luzes. Mais além da subversão do sujeito da razão, tal frase nos lembra que a infância, como uma idade da vida, foi “inventada” pela modernidade. Freud pode retirar as consequências da separação entre adultos e crianças, da “invenção” da intimidade do casal, do par parental, da família nuclear, enfim, o que cerca a vida na infância tomando-a como um tempo de elaboração e construção ao redor daquilo que habita o humano: a sexualidade e assim distinguindo radicalmente a infância do infantil.
Da pena freudiana sexualidade e pulsão estão entrelaçadas e presentes desde o inicio. A pulsão é inata e ganha alguma regulagem, algum ordenamento possível a partir do que lhe faz obstáculos. A partir das primeiras experiências de satisfação uma marca indelével se faz, associada à perda do objeto, iniciando a vida psíquica e a busca infernal pelo reencontro do objeto perdido e sua consequente satisfação. Reencontro impossível, mas que põe em marcha pulsão e desejo. Marcas de memórias – tal como as descritas no artigo “O Bloco Mágico” – indeléveis, mas que ganham, através da representação, a possibilidade de veiculação nas cadeias associativas – sem jamais serem ditas.
Mas Lacan dá outra volta em torna da dimensão pulsional interpretando-a à seu modo. Dirá que a pulsão não é inata, como quis Freud, mas uma decorrência da presença do Outro e do lugar que o corpo do infans ocupa da economia libidinal daquele que dele se ocupa, ou seja, necessita da dimensão da demanda para existir. A pulsão é uma decorrência da Demando do Outro. Não é inata.
No Lacan chamado clássico, há a primazia do simbólico e o Outro, como tesouro dos significantes, é prévio ao sujeito. Embora esta divisão no ensino de Lacan mereça muito cuidado, trouxe para discussão pois me interessou a dimensão das marcas a partir da mudança e dos avanços do estatuto do Outro e da linguagem. Então, em Freud as marcas estão associadas às experiências de satisfação; em Lacan – no período que se convencionou chamar de primeiro classicismo – as marcas significantes passam pela extração do campo do Outro – e aqui vale lembrar que na conferencia sobre a sexualidade feminina, de 1933, Freud afirma que “a criança presta um serviço sexual à mãe” ou seja, está no lugar do objeto do Outro. Qual lugar de objeto fui para o Outro? incide nas marcas e, consequentemente, na elucubração das respostas.
O insuportável aqui é tratado pela via do desejo. Uma análise seria então dirigida para que o excedente pulsional manifesto através do gozo fosse tratado pelo simbólico operando assim uma redução, não sem deixar restos.
Sabemos que Freud e Lacan souberam dar aos restos muita dignidade, não almejavam sua eliminação, mas inseri-lo na experiência analítica. Há no texto elaborado para esta conversação a seguinte frase (p. 2) : “Esse gozo polimorfo se trata de um gozo não unificado, disperso, descentralizado, um gozo que não se reduz à norma fálica, um gozo sem norma, sem limite, ilimitado, uma vez que não conta com o limite proporcionado pelo falo. A este gozo que Freud definiu como polimorfo, Lacan o chamou de feminino.”
Penso que esta é uma passagem chave e gostaria de marcá-la para a conversação e para isto fiz a seguinte consideração: o polimorfo perverso freudiano, ou seja, aquele que tem toda a superfície corpórea capaz de excitação, ganha “limites” através da obstaculização da satisfação – cabe lembrar que esta é uma das definições freudianas de educação. Como a pulsão não “reconhece” negativa, produz um circuito burlando os obstáculos e assim, o polimorfo perde um tanto das poli-possibilidades marcando o corpo em determinadas zonas. É um circuito libidinal que marca o corpo, insiste em se satisfazer, “convoca” as marcas de memória que, associadas a uma representação, se faz presente nas cadeias associativas. É uma perspectiva da marca no corpo, do depósito de uma marca. Como nos diz Eric Laurent: o infantil é a lembrança que o gozo nunca será unificado, é uma exigência impossível de eliminar e acrescido do paragrafo proposto pela Comissão Organizadora: “… sua insuportável exigência é sempre rechaçada, assim como a do gozo chamado feminino (…)”
A partir da leitura do texto seria possivel escandir que a modalidade de defesa freudiana frente ao excesso da sexualidade infantil está na via do trop, do excesso, enquanto o gozo feminino inclui também o trou. É apenas na vertente do gozo feminino que excesso e furo estão presentes?
Então, em Freud excesso, com Lacan excesso e furo seria um modo de escrever o um avanço a partir do ensino de Lacan.
Excesso e furo condensados em um neologismo troumatisme frente ao qual o sujeito se defende. Para Lacan “o sujeito não é outra coisa senão uma defesa.” (P. 2)
Embora possa parecer redundante, vale dizer, uma vez mais, que “o sujeito se defende do excedente porque isso lhe é insuportável.(…) “A sexualidade chega como uma perturbação, como uma exaltação, como um excedente e é isso o que chamamos trauma”. (P. 2)
Tal como proposto por Freud o trauma se dá em dois tempos, Um acontecimento contingente “aciona” o trauma “fundante”, o trauma produzido pelo mal encontro com o sexual – e aqui não se trata de valoração, mas de um fato: o encontro com a sexualidade é sempre um mal encontro por seu excesso.
O passe de Débora Rabinovich é tomado aqui como exemplo daquilo que não cessa de não se escrever – já que toca o impossível – e a repetição, que não cessa de se escrever. Impossível cernir o primeiro tempo do qual, em uma experiência analítica, recolhe-se efeitos e reverberação no corpo. Ou seja, o corpo tendo sido depositário de uma marca de gozo, sem significante, sem representação. Pura experiência – se posso assim dizer…
O corpo, em sua cartografia libidinal, é onde se depositam as marcas de gozo. Um corpo sulcado pela sexualidade onde chovem significantes recolhidos da língua. Como escreve Miller e citado no texto “uma marca de gozo é uma marca indelével, isto é, uma escritura.”
Podemos tomar este fragmento clínico por um lado naquilo que tange à insondável decisão do ser e, por outro, nas escolhas do sujeito. Não falar para a mãe que quem estava ao telefone era a namorada do pai foi uma escolha do sujeito que tem suas razões no romance familiar, na construção do sintoma – aliás, este é o tempo de trabalho na infância – enfim, entrelaçado pelos significantes. Penso que podemos chamar esta cena de traumática, mas só o é por se dar em um segundo tempo. Acontece que do primeiro tempo só temos os efeitos.
No texto há uma citação muito precisa de Lacan em seu Seminário, livro 21: “Todos inventamos um truque para encher o trou no real. Ali onde não há relação sexual, isso produz troumatisme, Se inventa. Se inventa o que se pode, é claro.’ (P. 3)
Podemos então dar mais um passo. Sabemos que o Outro sofreu avanços e seu estatuto mudou no ensino de Lacan. Em seu ultimo ensino o Outro é uma invenção, o Outro nasce, como nos ensinaram os Lefort frente aos casos de autismo. Nada de anterioridade lógica, mas de um consentimento, de uma invenção para suportar – nas duas acepções desta palavra – a perda de gozo do vivente e consentir em falar a língua comum, em compartilhar a língua. Para tal é preciso inventar.
No Seminário, livro 22, RSI, Lacan dirá que o trabalho da criança é aprender a fazer o nó, ou seja, o trabalho da criança é enlaçar Real, Simbólico e Imaginário de tal modo que permita produzir um lugar no mundo. O fragmento de passe de Helene Bonnaud nos fala disto: fazer do rumor materno matéria sonora que se deposita no corpo e produz sintoma. Mas para que tal rumor ganhasse este estatuto é preciso que o Outro tenha “nascido para o sujeito”. Uma vez mais: o percurso que vai da insondável decisão do ser ao sintoma do sujeito é uma invenção.
A pulsão é um conceito chave na obra de Freud. O dualismo pulsional ganhou sua forma última nos anos 20 com a formulação da pulsão de vida e morte. No entanto, Lacan deu primazia à pulsão de morte enfatizando aquilo que fica fora do aparelho psíquico, o que fica fora da possibilidade de ser capturado pela maquinaria psíquica. Sabemos que foi a partir da pulsão que Lacan chegou ao gozo. Vale sempre salientar que não são “conceitos” equivalentes ou da mera transposição de um pelo outro. O conceito de gozo açambarca o da pulsão.
Na p. 5, a partir do testemunho de Victoria Horne “(…) dar, ênfase a essa outra temporalidade, onde a partir da repetição e sua ressignificação em um aprés-coup, toma corpo o programa de gozo. (…) A análise procede no sentido inverso da vida. Partimos das consequências, sintomas, efeitos, para logo remontarmos, pouco a pouco, em direção ao que funcionou como núcleo traumático, tratando de elucidar quais foram as coordenadas e contingencias da percussão dos significantes no corpo.”
Então a partir da pergunta inicial: como se depositam as marcas de gozo? Proponho pensar aqui, juntos, nesta conversação, se é possivel que a perda do gozo nativo deixe sua marca ou pela perda deste gozo o corpo “ganha vida” e assim se torna uma superfície onde a marca de gozo se deposita.
Podemos resumir a pergunta para: de qual gozo falamos quando pensamos que ele deixa marcas?