O Eterno do Infantil
Rômulo Ferreira da Silva – EBP
Para dar a início à nossa conversa, parti da questão que tivemos como referência para essa sala de trabalho: “Como articular as fases da vida, inscritas no campo do sentido, com o eterno do infantil gozo da vida?”
No relatório Modalidades do morrer no século XXI do Observatório que se dedica ao tema das mortes violentas de adolescentes e jovens na América Latina, que mostra números alarmantes, independentemente da classe social; a pergunta que se apresentou entre o “ilimitado empuxo pulsional a gozar” e a “busca da morte para terminar com uma existência dolorosa”, ou seja, a esperança diante da luta em direção a ilusões grandiosas e a morte alcançada por essa via, se desenvolve no relatório, levando em conta que não há apenas um sentido para tentar avançar sobre o tema.
Como distinguir essas duas motivações em um mesmo movimento e, por outro lado, como esperar outra coisa baseada nos atos falhos, na elucidação do inconsciente, que é a via aberta pela psicanálise. Em relação a essa esperança é preciso lembrar que Lacan em Televisão disse:
Saiba apenas que vi várias vezes a esperança, o que chamam de: os amanhãs que cantam/levar as pessoas que eu estimava tanto quanto o estimo, muito simplesmente, ao suicídio.[1]
A questão que se apresenta fundamentalmente é sobre aqueles que não estão decididos pela via da transferência, a abordar o sofrimento. É, portanto, interessante e oportuno explorar os caminhos que as experiências que compõem o material utilizado pelo Observatório, pudessem elucidar, ou abrir um pouco mais, como foi que em alguns casos que passaram por esses dispositivos, puderam decidir pela transferência via psicanálise.
Nesse sentido, foram tomados caminhos inversos ao que Lacan propôs em seu primeiro ensino, ou seja, que no início está a transferência e depois a interpretação. Aqui se propõe uma ação do analista para que se inaugure a transferência.
Portanto, o que se espera dessas iniciativas foi manejado com a devida prudência.
Se o relatório conclui que na maioria desses casos os sujeitos parecem não ter sido desejados, carregando a marca do abandono e atualizando no Outro social a posição de objeto dejeto e resto, qual a posição da psicanálise diante deles, já que pela iteração do gozo, o movimento é o de fazer-se rechaçado e abandonado para permanecer na mesma posição de gozo, se fazendo matar ou matando? Fenômeno observado até mesmo no caso relatado das tentativas de suicídio que não se concretizam na prisão para travestis, mulheres trans e homens homossexuais.
Me interessou a constatação de que em muitos casos, foi observada a carência “de uma estrutura capaz de nomear o mal-estar” que habitava o sujeito em relação aos objetos pulsionais, ao corpo e à linguagem. Estaríamos aí diante de quadros nos quais a concepção milleriana da psicose ordinária poderia nos orientar?
A pergunta que se apresenta “quem sou eu?” nos recorda o momento mítico da constituição do sujeito, e certamente o que advém após a regressão tópica ao estádio do espelho no momento de desencadeamento de uma psicose, como observado em Schreber. Ou ainda, no caso M que, sob o ideal de “sair da vila” se deparou com o “vazio de significação”, que o lançou para a morte em um ato de desaparecimento do sujeito. O tema do suicídio nos aproxima da psicose e podemos constatar com os sintomas que chamamos contemporâneos, se apresentam de maneira tão próxima da psicose, tornando nossa clínica mais complexa por ser mais contínua. Gostaria de saber se vocês chegaram a essa aproximação ou, o que pensam sobre isso.
Não esquecendo que “Todo mundo é louco”, a referência ao conceito de necrossuicídio proposto por Marcelo Veras[2], como efeito de um “delírio de que a salvação é o ultraliberalismo”, também nos avizinha do tema.
A certeza de um corpo que se goza, insuportável por ser fora do sentido, resvala para a prevalência do imaginário na decisão sobre a morte. O que convoca o analista ao eterno do infantil, assim: “Com quem o analista joga sua partida?”
Antes de abordar o “Com quem?”, foi necessário dedicar uma reflexão sobre a posição do analista frente às modalidades do morrer no século XXI que evidenciam o rechaço do inconsciente a partir do sofrimento encarnado no corpo que se presentifica nos casos que foram abordados. O desafio se dá diante do que não fala, do que se apresenta no silêncio das pulsões.
De que interpretação se trata quando não é mais na ordem do sentido que o discurso analítico toca o real, inaugurando a transferência? Trago essa pergunta, pautado no Resumo que Lacan faz do Seminário 19:
De resto, a questão não é a descoberta do inconsciente, que no simbólico tem sua matéria pré-formada, mas a criação do dispositivo cujo real toca no real, ou seja, o que articulei como o discurso analítico”.[3]
Mais um ponto que gostaria que fosse aberto na discussão se refere à expressão “modéstia ativa” que surge como uma orientação a fim de bordear o empuxo ao gozo mortífero a partir de “uma oferta, um convite” desde uma posição dócil do analista visando ao consentimento do sujeito ao inconsciente. Assim, o que é jogar com os divinos detalhes que enlaçam o sujeito à vida, ao invés de jogar a partida com o sentido?
Como operar com “as marcas de gozo no corpo deixadas pelo encontro traumático com a lalíngua”? – arriscando aqui uma ponte com o próximo texto que será abordado nessa sala.
[1] LACAN,J. Televisão. Outros Escritos. Zahar. Rio de Janeiro. 2003. p. 540.
[2] VERAS,M. A morte de si. Cult. São Paulo. 2023.
[3] LACAN,J. O Seminário …ou pior – Livro 19. Zahar. Rio de Janeiro. 2012. p. 232.