A devastação da palavra
Henri Kaufmanner
Sempre me lembro da viagem que fiz com meus filhos mais velhos, já faz alguns anos. Fomos à Patagônia Argentina e ali pudemos conhecer a assim chamada Ilha dos Pinguins. Creio que nossos “hermanos” daquele país estejam mais acostumados a esse encontro. Para mim foi uma imensa e intensa surpresa. Nessa ilha, na época da nidificação, os Pinguins se dirigem aos milhares para ali botarem seus ovos. Impressionou-me a quantidade deles, milhares como disse, cada pequena família em seu ninho. Ali, a nós humanos, cabia caminhar delicadamente por entre as pequenas barreiras demarcadas, sem tentar qualquer contato ou aproximação. Pelo bem da natureza não deveríamos ultrapassar as linhas que nos separavam. Já os pinguins passeavam livremente, às vezes se aproximavam, nos olhavam e seguiam seu curso. A presença de uma vida totalmente Outra, enigmática, mesmo infamiliar (unheimlich) eu diria, produziu em mim um certo fascínio.
Não sei a quanto tempo esses ciclos anuais de nidificação dos pinguins vem se repetindo. Certamente, a novidade ali éramos nós, os turistas, e que por nossa condição humana vivíamos aquilo como se fosse um espetáculo. É quando nosso olhar e o gozo ali envolvido entra em cena, que o espetáculo se constitui como tal. A cena em si, iluminada, em muito nos antecede, porém, nossa presença não é sem efeitos. Por mais que preservada, a ilha já é afetada por nossos traços, caminhos demarcados, placas de atenção, enfim, por nossas palavras. A presença humana ja deixa ali seus significantes, suas leis e felizmente, pelo menos naquela ilha, o esforço de conter qualquer gozo excessivo, qualquer presença mais devastadora.
Tais cuidados se fazem certamente necessários, pois a natureza humana é antiecológica, por natureza. A leitura do texto produzido pelos colegas, inserido no tema “A Devastação da Palavra” conduziu-me a essa sequência de oxímoros.
Freud ja assinalava essa condição antiecológica do humano ao nos mostrar que, na medida que não temos como satisfazer a pulsão, o que nos resta como recurso, é modificarmos o nosso entorno, o ambiente, civilizarmo-nos. A dialética Pulsão de vida/Pulsão de morte explicita aí seus impasses. Lacan, por sua vez, apontava que os animais mantêm relação direta com os objetos. O animal encaixa-se muito bem em seu meio, ele reconhece seu parceiro sexual, reconhece a bela forma, seu semelhante, encontrando dessa maneira seu lugar em seu ambiente.
No caso humano não havendo conhecimento “é a má forma que é prevalente. É na medida em que uma tarefa está inacabada que o sujeito volta a ela”. (Lacan, sem 2). De maneira distinta do animal, o homem opera na via de um excesso, tendo a beleza como anteparo último ao encontro com essa má forma.
Em sua exposição sobre As Lógicas da vida amorosa Miller nos dá sua versão de Adão e Eva. Apoiando-se na tradução francesa da Bíblia, Miller aponta que Eva, da maneira como é descrita, foi apresentada ao homem por Deus. Ela contudo não seria a primeira. Adão teria tido relações sexuais com todos os animais domésticos e selvagens, mas não teria ficado satisfeito. Miller sustenta que essas cópulas de Adão com animais não eram contra natura, ao menos até o aparecimento de Eva. Seu aparecimento produz uma transfiguração da sexualidade. Essa mulher, extraída da costela do homem e ofertada pelo pai, inaugura a relação de objeto. Pois ali, Adão de alguma forma se satisfaz, escolhe Eva, e a partir de então fala. Eva era algo diverso de uma fêmea. Assim como o humano é diverso da natureza. A fala, a existência simbólica, esse gozo que se apresenta Outro, nos diferenciam de forma indelével.
Acontece que em nosso tempo, Deus não é mais aquele que organiza a “Ordem do mundo”. Fora da ordem simbólica, hoje se faz presente nos algoritmos. Sua obscuridade e o imperativo de gozo que aí se impõe agora transita nas redes, na Inteligência Artificial, na realidade ampliada do mundo digital. Suas ofertas dirigem-se ao consumo, a fazer existir a relação sexual. O Bigdata, esse Deus dos algoritmos, não apenas impõe seus objetos, ele também interpreta as fantasias que por mais incofessáveis que possam ser, acabam sendo reveladas inadvertidamente por seus devotos na intimidade da relação com as telas.
Com Freud aprendemos que “toda formação humana tem, por essência, e não por acaso, de refrear o gozo”. Contudo, a aliança do discurso de capitalismo à técnica, provoca uma nova transfiguração da sexualidade. O imperativo de gozo agora promete o paraíso, devidamente monetizado. Para tanto, o Discurso do Capitalismo produz uma torção no Discurso do Mestre, curto-circuitando o sujeito e o objeto (Sa), este último substituído pelos gadgets da técnica. Além disso, entre S1 e S2 não existe mais um intervalo, uma hiância (huelco), pela qual o sujeito ali representado se precipitaria em sua queda como objeto. Como consequência, o que temos é um circuito autônomo das letras.
Tal fenômeno paralisa o deslizamento da cadeia significante. O saber já não é, então, aquilo que se articula, não produzindo nenhum efeito de verdade. Simplesmente se impõe pela metonímia das letras, multiplica-se como informação, sem produzir qualquer elaboração. Esse novo Deus busca fazer do não todo, um espetáculo todo, sintetizado sobretudo em imagens. O sujeito e sua divisão estão fora da cena. O ser falante se vê reduzido ao gozo que o tensiona, silencia-se, e assim a palavra é devastada.
Para concluir, um detalhe. Em minha adolescência recebi um apelido: Pinguim. Meus amigos percebiam em mim algo dessa estranha alteridade que me atravessava. A psicanálise e o percurso pelo desfiladeiro dos significantes me permitiu que em minha vida, essa provocante ilha permaneça e que esse estranho em mim, possa continuar me surpreendendo, deixando-me sempre em condições de passear diante da felicidade, visto que esta , insiste em me visitar.