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Algumas pontuações

Cleide Monteiro

O relatório elaborado pelas três Antenas do Observatório A deserotização do mundo – Paixões tristes de todos os gêneros nos coloca diante do desafio de pensar “como fazer ressoar a deserotização e o infantil”. Daí decorrem vários desdobramentos, como a questão das paixões tristes, trabalhada na parte 3 do relatório, sobre a qual me deterei em minhas breves considerações.

Dentre as inúmeras questões que suscitou, uma que me saltou aos olhos: “poderíamos falar de um rechaço ao valor erótico da língua, sempre dita no singular?” De que erótica falamos em tempos de recusa da sexuação? Como ler a deserotização em cada parlêtre nos tempos atuais, marcados pelo discurso que rechaça as coisas do amor?

O relatório indica que essa deserotização do mundo assume, na clínica, a forma das paixões tristes, que atravessam de modo tão marcante a experiência dos jovens e, no contemporâneo, sustentam práticas de gozo, como a onipresença da pornografia — e, acrescentaríamos, da toxicomania —, práticas que evocam a ausência do erotismo.

O relatório, sobretudo em sua terceira parte, nos convida a extrair consequências para a prática analítica hoje, a partir do que Lacan chama de paixões da alma, paixões do objeto a. Acho instigante pensarmos o que seria uma clínica das paixões. Diferentemente das paixões do ser –  paixões da alienação ao outro, determinadas pelo sujeito do inconsciente como falta-a-ser –,   as paixões da alma – paixões da separação do Outro, nas quais o sujeito é definido como falasser (parlêtre) – dizem respeito à relação do sujeito com o corpo. Em que medida essas paixões possibilitam pensar algumas demandas que chegam à análise não reguladas pelo fantasma, mas por um gozo separado da operação fálica? Se podemos dizer que o amor e o ódio, como paixões do ser, são correlatos ao fantasma antes de sua travessia, o que está em jogo nas paixões do objeto a?

Laurent, retomando Lacan em Televisão, destaca que “se tivermos a paixão do a, a experiência dessa presença do a, temos que admitir que o que chamamos de paixão é uma articulação do inconsciente com o real do gozo”.  As paixões do a situam-se aí, nessa solda entre o saber do inconsciente e o vivente do corpo. (Laurent, Paixões do parlêtre, p. 85).

Por outro lado, há a busca frenética por objetos, produzida pela aliança da ciência com o discurso capitalista, que afasta o sujeito de sua relação com o objeto a e acentua as paixões tristes. Como destaca o relatório, o sujeito se vê despojado de uma interioridade constituída pela palavra e pela dimensão erótica que ela supõe em seu encontro contingente com o corpo. Sem recorrer a esse “habitat interior da palavra”, vinculado à pulsão — eco, no corpo, do fato de que há um dizer, como afirma Lacan no Seminário 23 —, observa-se hoje, entre os jovens, uma ruptura do laço que articula o objeto pulsional ao buraco do corpo. Como destaca Lacan, para que um dizer ressoe, é preciso que o corpo lhe seja sensível.

O relatório levanta uma hipótese que muito me interessa discutir com vocês: a de que as paixões tristes rechaçam a causa escrita no inconsciente. Lacan indica, em Televisão, que a tristeza é uma paixão central na modernidade. Há um saber na tristeza, mas trata-se de um saber cortado da vida, separado do real do gozo.

Retomando Lacan em Televisão, o texto evoca afetos — tristeza, pesar, melancolia, tédio, morosidade e mau-humor — que indicam um extravio na relação do sujeito com o inconsciente. Esse ponto me parece particularmente relevante e nos convoca a interrogar: o que pode o analista diante de tais afetos?

Nesse sentido, o último fragmento clínico, bordeja essa hipótese erótica do inconsciente.

Como vocês leram, trata-se de um sujeito que anuncia: “me sinto muito criança”. Diante do fato de que o “não poder falar” se apresenta como um traço infantil persistente, a analista — mais atenta ao que ressoa em sua palavra do que ao seu significado — acompanha com esforço o fio de sua fala. O paciente comenta não se sentir escutado em nenhum outro lugar como na análise. A partir desse ponto, passa a falar sobre como enfrenta a diminuição das relações sexuais com sua parceira, diante da alucinante exposição à pornografia e do fato de poder pagar pelo sexo.

Quais seriam, então, as possibilidades de erotizar um dizer em uma clínica de sujeitos entediados, que não conseguem passar da impotência do saber — que constitui a tristeza — ao impossível do real? Perguntaria, portanto, como a prática analítica opera a partir de uma erótica do inconsciente.

Parece-me muito interessante essa ideia de “perturbar as paixões tristes”. De que forma perturbar o saber implicado na tristeza, esse saber triste que não pode disser-se? O relatório aponta para a via da ética do bem-dizer, a aposta no gaio saber (gay sçavoir), um saber ligado ao real do vivente. Como pensar essa ética do bem-dizer relacionada à extimidade, como assinala Miller? (p. 466).

Por fim, cabe ainda interrogar: qual é a luta da psicanálise contra as paixões tristes? O que os efeitos de uma experiência analítica, apreensíveis ao final de uma análise, podem nos ensinar? O que uma experiência analítica, ao chegar ao seu término, pode orientar quanto à entrada em análise de sujeitos que não contam com a garantia sustentada por seu fantasma?

São mais questões que respostas. Mas gostaria de sinalizar um aspecto:

O relatório sugere que essas paixões tristes — que podem chegar até a mania — rechaçam o inconsciente. Miller, por sua vez, observa que o final de análise se define por um certo modo de rechaço do inconsciente, podendo vir acompanhado de um saber triste e, às vezes, da mania. No entanto, com assinala Lacan em Nota italiana, o acontecimento próprio do final de análise, que produz um analista, abre uma outra via: a do entusiasmo, de uma alegria que acompanha a ideia do objeto a como causa de desejo — não um desejo de saber, mas um horror ao saber. Supõe-se, assim, que ao final da análise o sujeito saiba isolar a causa de seu horror ao saber (Miller, Extimidade, p. 468).

É aí que podemos situar os afetos do riso e do entusiasmo, que se contrapõem às paixões tristes. Laurent propõe como a aposta do analista a via do riso comunicante. Laurent propõe, como aposta do analista, a via do “riso comunicante”.

Termino, então, com Lacan em Televisão, quando situa o psicanalista como um santo que, ao prestar-se a bancar o dejeto, faz “descaridade”.

Ele nos diz: “Quanto mais somos santos, mais rimos: esse é o meu princípio, ou até mesmo a saída do discurso capitalista — o que não constituirá um progresso se for apenas para alguns” (Televisão, p. 519).