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Como a criança interroga o amor de transferência?

Miguel Antunes[1]

Agradeço à coordenação do ENAPOL, em nome de Helenice de Castro, e também aos responsáveis pela Conversação Federativa, em nome de Marcus André Vieira.

Assim que recebi o convite, me perguntei sobre a função de um leitor. Essa questão me lançou imediatamente a uma passagem de Lacan do Seminário XXIII, em uma lição dada no dia de seu aniversário. Lacan afirma:

apesar de tudo, dizer visa a ser escutado. Gostaria de verificar, em suma, se não me contento em falar para mim – tal como todo mundo o faz, com certeza, se o inconsciente tem um sentido. Preferiria, portanto, hoje, que alguém me coloque uma questão. (…) gostaria que alguém escrevesse alguma coisa que justificasse o trabalhão que venho tendo há pouco mais de vinte anos”.

Escrever um relatório não leva tanto tempo assim, mas como sabemos, nossa formação é infinita. Nessa lógica, quem escreve quer ser lido! Inspirado nisso, tentarei formular uma ou duas questões (talvez um pouco mais), para em seguida passar a palavra para que ela possa circular.

O início do relatório é instigante. Ele apresenta os significantes que marcam o insuportável da infância e que conduziram o percurso dos participantes deste trabalho. São eles: insuperável, exigência e ilimitado. Nomes do excesso libidinal que fazem tropmatismo (excesso) e troumatismo (furo).

Tais excessos, me parecem relacionar, de maneira direta, com o termo freudiano “excesso de sexualidade”, forjado na Carta 46, de 30 de maio de 1886, dirigida ao seu amigo Fliess. Não à toa, Jacques-Alain Miller comenta que ali Freud estava à frente de Lacan. Vale a pena retomar, pois Freud diz

o excesso de sexualidade, isoladamente, não é suficiente para causar recalcamento; faz-se necessária a cooperação da defesa; entretanto, sem um excesso de sexualidade a defesa não produz uma neurose” (277).

Em seguida, Freud assinala que a natureza da cena tem importância quando ela é capaz de dar origem à defesa. Desde o final do século XIX, Freud já sabia – mesmo sem saber – o que faz acontecimento de corpo. Mostrava que é preciso pensar a sexualidade como o choque do significante com o corpo, que causa marcas e determina as satisfações do falasser.

Em um dos textos de orientação ao ENAPOL, de Jacques-Alain Miller, o termo “defesa” é bastante enfatizado. Em suas palavras: “o sujeito não é outra coisa senão uma defesa do excesso de sexualidade”. O relatório tomou tal axioma como fio condutor, destacando uma importante pergunta: como o sujeito se defende desse excedente?

Dito isso, eu gostaria de ouvir como vocês avançaram nessas elaborações, e acrescentaria um ponto: se trata de defender ou de fazer algo com essa marca, com isso que Há? A função do analista seria jogar a partida com as cartas que foram distribuídas às crianças? E a partir daí, quando possível, fazer uso dos equívocos, a fim de forçar uma leitura diferente na tentativa de favorecer ao sujeito não se deixar esmagar?

Tomando a questão proposta para esta mesa, de pensar “como a criança interroga o amor de transferência”, me parece interessante retomar Miller, em seu texto “A criança e o saber”. JAM é preciso ao situar nesta clínica e alertar: cabe aos analistas resgatarem o saber da criança! Um saber autêntico, seja ele sabido ou não. Diferente dos adultos, já cretinizados por sua educação consumada e armados por defesas cristalizadas. Não é excessivo destacar que é preciso ir em direção oposta da lógica pedagógica, que principalmente no contemporâneo, tem sido cada vez mais voraz em sua ânsia de patologização.

Retornando ao relatório, dois exemplos foram destacados para ilustrar o caráter das crianças “questionadoras”. O primeiro diz respeito às crianças já nomeadas para serem de alto rendimento. E, o segundo, são crianças restos do sistema neocapitalistas que demandam amor e pedem abraços constantemente. Nestes exemplos trazidos, como os participantes pensaram o saber das crianças?

Em um tratamento, as crianças normalmente entregam algo, seja um desenho, um pensamento, uma pergunta… Podemos dizer que o inconsciente da criança sai pela boca e a posição do analista se restringe mais à função de leitor. Cabe a ele organizar, acompanhar a criança e “fazer acontecer” uma pergunta – seja sobre seu funcionamento ou mesmo sobre o funcionamento do par parental. Quase sempre, não são as crianças que resistem às análises, nem quem coloca o analista sob suspeita, frequentemente são as famílias holófrases que assim o fazem.

Esse termo – “famílias holófrases” -, foi trabalhado no Campo Freudiano para demarcar a função do analista: aprender a língua falada pela família. Aprender a “religião privada” que é a família de cada um, sua gramática, suas marcas, vocabulários. Ou seja, cabe ao analista ficar mais próximo à criança, operando separações e dar a cada uma, a parte que lhe cabe. Contudo, vale lembrar que quando os pais apostam no tratamento, há mais chances de uma análise acontecer.

Para concluir, Miller acentua que “na psicanálise é a criança quem é o suposto saber, e é mais ao Outro que se deve educar, no sentido de fazê-lo se conter”. Então, se para nós, é a criança quem é o suposto saber, como pensar “a criança interrogando o amor de transferência”? E se ela questiona este amor, ela o faz de qual maneira?

É isso. Obrigado! Parabéns pelo trabalhão de vocês!

[1] Psicanalista, membro da EBP/AMP