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Leitora 2º Tempo

Louise Lhullier – EBP/AMP

O que aconteceu na primeira infância? Nada, mas já havia o germe de um primeiro impulso sexual.[1]

Meu ponto de partida é o nada dessa citação de Freud, que se lê em epígrafe no texto O germe do pulsional e a lalíngua[2], do qual fui leitora nas Conferências Federativas do XII ENAPOL.

Como ler esse nada? A pergunta que o antecede – O que aconteceu na primeira infância? dá uma indicação: nada aconteceu. Nada de acontecimento.  Por outro lado, este mas já havia que vem após a vírgula aponta que nesse nada de acontecimento havia o germe do pulsional.

É possível elencar uma série de nadas anteriores a esse acontecimento. Nada de representações, de significado, de significações. Portanto, nada de sujeito, seja o da fenomenologia, esse sujeito que tem consciência de si, que fala como Eu, operador de sentido, seja o sujeito do inconsciente.  Nada de palavra, nada de mundo, nada de ser. Nada de imaginário, mas também nada de simbólico pois, para que haja simbólico, é preciso que se conte pelo menos 1[3]. Podemos questionar também se caberia falar de real, desse real que não está enlaçado a nada e que condensa o puro fato do traumatismo[4], como o definiu Lacan. Como poderia um real que condensa o puro fato do traumatismo ser anterior ao trauma, isto é, ao acontecimento de corpo que inaugura a experiência de cada falasser?

Do nada ao acontecimento ao Um do gozo. Choque pulsional, nos termos de Freud, acontecimento de corpo, com Lacan. Sigo o que o texto indica: um antes que é o tempo desse nada Fora da história, fora do tempo do inconscientee um acontecimento que inaugura o “depois”, tempo do falasser e daquilo de que se ocupa a psicanálise.

Lacan distingue o acontecimento do fenômeno de corpo, pois o primeiro implica na incidência do significante. Em outras palavras, esse tempo do nada não era o de um corpo sem fenômenos, ou seja, sem manifestações observáveis da vida que o habitava. Mas o tempo do corpo falante somente advirá se e quando o significante incidir sobre ele.

O conceito de clinamen evocado no texto e o belo vídeo recomendado dizem de como pela psicanálise e pela arte é possível uma aproximação à ideia dessa origem fora do sentido, mero acidente em meio à desordem, do qual o falasser é a consequência.

​Uma desordem própria do que Miller definiu como gozo “natural” de um corpo vivo, colocando esse “natural” entre aspas[5].  Mas também desordem dos significantes que vêm do Outro como enxame, zumbido de lalingua, materialidade sonora, anterior ao sentido.

Até que, por acidente, algo daí se recorta, ressoa, faz vibrar a matéria bruta do corpo vivo, de sua natureza de corpo, fazendo existir Um gozo, origem do corpo enquanto substância gozante, nos termos de Lacan.  Esse algo que se recorta constitui-se, então, como significante Um, que não faz cadeia, que não se articula e conta-se como zero de sentido. Para designar esse encontro fundador do falasser, a que Lacan se referiu como o mistério do corpo falante, Bernardino Horne sugeriu o termo encarnação. Nas suas palavras,

O mistério da encarnação é, então, a realização da união da palavra – não em sua significação, não em seu sentido, mas na materialidade de suas ressonâncias – com o corpo, também como matéria bruta. (…) Se trata de um acontecimento que é do registro do real. (…) o que nasce desse encontro é o falasser[6].

Como pensar a letra enquanto materialidade na sua relação com o som? No texto encontramos as metáforas da cicatriz e da ferida e a referência a uma escrita indizível, a um saldo de gozo que se precipita de lalíngua como ilegível. Lacan atribuiu a função de letra a esse significante Um, fora do sentido e que não se confunde com o número 1 da série dos números naturais. Ele o escreve como algarismo romano I, para que não se confunda com o 1.

O apagamento desse I, produzirá o furo, a falta, o zero da inexistência e, também, o zero que dá início à sequência dos números naturais e à possibilidade de contar, requisito essencial à instauração da ordem simbólica, como ensinou Lacan.

Na perspectiva de Plotino, referência de Lacan em relação ao Um, que Sergio Givone aborda em Historia de la nada, o nada é o único predicado que cabe a esse Um, que não é algo (…) mas que é propriamente “o nada” das coisas de que é o princípio[7]. Como princípio, nada precede ao Um, que de nada tem necessidade e a nada está vinculado[8]. O ato pelo qual o Um se faz princípio, fonte, potência[9], é profundamente infundado[10].

A isso que Plotino chama ato nos referimos, a partir de Lacan, como acontecimento. Um acontecimento que está na origem e que acessamos guiados por Freud, que nos apresenta a via de acesso que nos leva a encontrar com o trauma. Trauma enquanto fórmula geral do acontecimento de corpo que deixa marcas de afeto[11]. Essa é a hipótese apresentada no texto do qual sou leitora.

Marcas de afeto que podemos ler no sintoma. Segundo Miller,

o gozo em questão no sintoma não é primário. Ele é produzido pelo significante. E é precisamente essa incidência significante que faz do gozo do sintoma um acontecimento, não apenas um fenômeno. O gozo do sintoma demonstra que houve um acontecimento, um acontecimento de corpo após o qual o gozo natural entre aspas, que se pode imaginar como o gozo natural do corpo vivo, encontrou-se perturbado e desviado. Esse gozo não é primário, mas é primeiro em relação ao sentido que o sujeito lhe dá, e o faz por meio do seu sintoma como interpretável.[12]

Portanto, ​é pela via do sintoma ​ que se pode ​t​ocar, em uma análise, ​a​lgo desse real, ​dessa marca deixada pelo acontecimento de corpo inaugural, encarnação do significante. Esse nada encarnado, ​pura letra, que está na origem e resta irredutível, ​leio no texto, é algo da ordem do gozo que não se pode dizer, mas se pode usar. Assim, a pergunta pelo saber-fazer nas análises que os autores nos apresentam encontra uma orientação que repercute no título do XII ENAPOL: Falar com a criança implica uma operação que siga as pistas desse incurável, desarmando as armadilhas do sentido e resistindo ao desejo de dormir, para que cada um possa encontrar o seu impossível e inventar ​com isso algo mais digno ​que a miséria do sofrimento sintomático.

Os Analistas da Escola testemunham sobre esse possível face ao impossível.


[1] Freud, S. Carta de Freud a Fliess – 3 de janeiro de 1899. A correspondência completa de Freud para Fliess 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago, 1986, p. 339

[2] Disponível pelo link: O-germen-pulsional-e-a-lalingua.pdf

[3] Lacan, J. O seminário, livro XVI: de um outro ao Outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 290.

[4] Miller, J.-A. Piezas Sueltas. Buenos Aires, Paidós, 2013, p. 50

[5] Miller, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 70, junho 2015, p. 19

[6] Horne, B. El mistério. In: Bernardino Horne; Iordan Gurgel (compiladores). El campo uniano: la última enseñanza de Lacan y sus consecuencias. Olivos: Grama Ediciones, 2023, p. 47. (tradução livre)

[7] Givone, S. Historia de la nada. Córdoba: Adriana Hidalgo Editora, 2001, p. 76

[8] Id., p. 86

[9] Id., p. 76

[10] Id., p. 86

[11] Disponível pelo link: O-germen-pulsional-e-a-lalingua.pdf

[12] Miller, J.-A. Ler um sintoma, op.cit.