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Leitora – 1º tempo

Ruskaya Maia EBP/AMP

A primeira coisa que destaco em minha leitura é a introdução do termo freudiano gérmen, que será articulado aos conceitos lacanianos de letra e lalíngua. Os autores o foram buscar numa das cartas de Freud a Fliess, cujo recorte, que vou reler, constitui a epígrafe do texto: “O que aconteceu na primeira infância? Nada, mas já havia o gérmen de um primeiro impulso sexual”[1]. Nenhuma história, nenhum sentido – e já lá algo havia. Não se trata mais da concepção freudiana que colocava o atentado sexual como elemento necessário na etiologia das neuroses, antes, essa citação faz ressoar que, para Freud, tratava-se de algo constitutivo, um fator quantitativo do qual Freud nunca abriu mão. A hipótese é, então, a de que Freud está, aí, nos guiando ao Ur, à origem e o gérmen é a estrada que nos leva até o trauma originário.

Também Lacan nos guia em direção ao originário ao propor o troumatisme para dizer de um choque primevo, quando, de maneira totalmente contingente, a libra de carne é definitivamente perfurada por um dos inúmeros estímulos sonoros em que nasce mergulhada. Duas materialidades se encontram[2]: a do corpo biológico e a materialidade sonora que o faz vibrar. Essa fusão resulta na existência desse pedaço de corpo formado de puro gozo que Lacan chama de substância gozante, marca de gozo que facilmente vibrará ante novos e futuros impactos de ressonâncias. Furo traumático que inaugura o corpo do infans, ferida que deixa uma cicatriz, um traço, uma escrita que não é desenho, tatuagem, mas sim, perturbação, gozo como saldo permanente.

Seguindo a articulação feita por Horne[3], retomamos Miller quando fala de uma primeiríssima escrita que se instaura a partir do UM[4]. A imagem que temos é a de um vulcão que explode a partir de dentro e traça sulcos.  Lacan chamará de campo do Uniano, puro real, o campo dessa escrita que não depende de fora, que vem de dentro do vulcão como gozo. O Um que jamais acessará o dois. Tal fator “constitutivo” depende do fator quantitativo e da matéria do corpo. Proponho alinharmos esse conceito lacaniano ao que Freud propõe como gérmen, no qual ferve uma energia que se distribui desordenadamente pelo corpo como ondas pulsionais, sempre presentes, impossíveis de serem reduzidas a zero.

O campo uniano é a existência como puro gozo. Mas, o instante da encarnação tem também o furo (o trou) como efeito. Ao mesmo tempo, então, esse existir estabelece a não-existência. O significante primordial, o Um uniano é, a rigor, uma ressonância sem sentido que produz dois efeitos: uma ressonância como som e vibração no corpo, uma quantidade que não resulta possível de se escoar e, por outro lado, silêncio e quietude total.

Como, a partir da substância gozante, puro real, o simbólico ganha lugar? Miller[5] diz que a aparição e o poder do simbólico sobre a substância gozante é um mistério.

Nessa mesma carta, Freud diz também haver encontrado um outro elemento psíquico, um estágio preliminar aos sintomas, anterior, mesmo, à fantasia. Isso nos é apresentado pelo texto como o prelúdio freudiano para o ‘concerto’ lacaniano de lalíngua. A origem no fora de sentido é, de fato, o ponto decisivo para outra abordagem lacaniana da linguagem, se não pelo seu avesso, pelo que nela é sedimento, detrito, resto, franja, som e impacto que perturba o corpo. Segundo momento de escrita, segundo Miller, em que uma chuva desses fragmentos de palavras, ressonâncias, cai sobre o corpo, provocando gozo, cavando sulcos. O gozo de lalíngua (chuva) amalgama-se ao gozo Um (vulcão). Assim, no gozo com o significante de lalíngua, ainda real, sempre existe algo daquele gozo autista, ou seja, o Um do gozo mantém sua presença nas modulações e ressonâncias que decantam da lalíngua.  A letra de gozo sendo o que engancha ambos os gozos.

Sobre a relação entre a linguagem e a lalíngua, Lacan[6] não faz mistério: lalíngua é o aluvião do banho da linguagem e a linguagem uma elaboração de saber sobre lalíngua. Desse modo, “Cada um vive a língua a partir da lalíngua e lalíngua só existe porque tem a língua”[7]. Mergulhado na língua do Outro, o corpo do infans – que hoje somos todos nós – foi, e é, continuamente, banhado e perturbado por esse aluvião. A linguagem, aí, é recobrimento necessário. Em termos freudianos, defesa.  Uma análise então é a experiência que faz uso das torções entre linguagem e lalíngua – ao fazer falar a criança em cada tratamento – para tocar, do troumatisme, o que é sua cicatriz. Uma análise que chega a seu fim, testemunha sobre o trauma originário, com a extração da letra, última estação antes do real.

É nesse campo, penso, que podemos localizar a frase que dá título à terceira parte do texto: ‘Falar com a criança é falar com o trauma’, afirmação que condensa duas definições para o que é uma experiência analítica: falar com a criança / falar com o trauma. Aqui vale um exercício de precisão – uma volta a mais no parafuso – para dar conta do estatuto do trauma em questão. É para esse ponto que nosso texto converge quando traz para a discussão o Caso Emma e nos provoca: Qual o trauma de Emma? do que tratamos quando propomos fazer falar a criança na traumatizada moça? Qual é o trauma que queremos eloquente? Captar o trauma como um fato de história é fazê-lo sob a perspectiva do sentido, ou seja, a partir do sintoma e da defesa fantasmática. Isso é o que temos de Emma, o que ela alcançou associar de sua verdade mentirosa. Se, como vimos, o trauma que nos interessa é aquele que atravessou as tripas de Emma, não é pelo sentido que devemos operar.


[1]Freud, S. Carta de Freud a Fliess – 3 de janeiro de 1899. A correspondência completa de Freud para Fliess 1887-1904. Rio de Janeiro: Imago, 1986, p. 339.

[2] HORNE, Bernardino; GURGEL, Iordan (orgs). O Campo Uniano: o último ensino de Lacan e suas consequências. Goiânia. Ed. Ares, 2022.

[3] Ibid.

[4] Miller, J.-A. O Real é sem lei. São Paulo: Opção Lacaniana, n. 34, 2002.

[5] Miller, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. In: Scilicet. O corpo falante: sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: EBP, 2016, p. 25

[6] Lacan, J. O Seminário. Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 1985.  

[7] Vieira, M. A. Ficção e canto da fala e da linguagem. Conversação preparatória para o XII ENAPOL. Belo Horizonte. 31 de maio de 2025.